Planificações E Flexibilidades

Uma das inutilidades inevitáveis do trabalho docente é o de planificar as atividades ao detalhe da ponta da asa da mosca. O Duílio dá um exemplo da planificação diária à página exigida, em regra, por quem não lecciona ou por quem tem aquele delírio obsessivo que considera que a flexibilidade, criatividade e inovação são cronometráveis. Este ano, pela primeira vez, por causa de estados diversos e não coincidentes de constipações, gripes, indisposições e inconseguimentos, a ficha de avaliação sobre a leitura d’A Fada Oriana, com estrutura quase igual à de outros anos e prevista para realização em 75-80 minutos e eventual complemento em Apoio ao Estudo, prolongou-se por 90+90 e ainda uns pózinhos dos 45 de hoje. Uns terminaram no tempo previsto, outros não estavam lá e começaram no dia seguinte, outros completaram e ainda se verificaram mais umas divergências e variações. Claro que é necessário trazer no bolso outras actividades, desde que não perturbemos quem ainda está a labutar na arcaica ficha, pelo que se distribuem materiais de verificação de leitura, cartolinas para representar a fada com ou sem asas, a espelhar-se no rio, a encantar a noite do poeta ou a levar barra dos animais que não lhe entregam o filho do moleiro, não esquecendo a velha a precipitar-se pelo abismo para salvação das asas da Oriana.  É isto que constitui a flexibilidade da planificação, a diferenciação de metodologias e a necessidade de ter grupos espalhados pela sala em tarefas diferentes. Nada que não se faça há muito, mas desta vez, confesso, não esperava tanta demora, tanta interrogação, tanta hesitação. Mas há sempre cartolas com coelhos a saltar, independentemente de planificações ao dia ou de eventuais críticas à desnecessidade de se fazer uma avaliação mais alongada seja do que for, porque o que interessa é a diversão.

Mas tudo isto é algo que sabemos há muito, mesmo se pode existir quem não pratique ou se enerve com o número de aulas para fazer isto e só exactamente isto e não aquilo, ai-jesus que me perdi tod@. Mas parece que há quem ache que não, que agora é que uma mão-cheia de luminárias descobriu o nirvana pedagógico e nos vai dar “formação” em flexibilidade. Com planificação, claro. Ao minuto. E muito palavreado.

scratchingani

A Revolução Permamente na Educação – Os Três PPP

2016-17 – PNPSE

2017-18 – PAFC

2018-19 – PPIP

Há que manter sempre uma nova camada de “inovação” para que o pessoal nem consiga respirar. Ainda um “plano/projecto” está em desenvolvimento e já se bombardeia com outro. Pode ser em experiência, piloto, proposta, mas ainda se vai a meio de um e já se percebe que vem aí outro e que o que esteve a ser feito terá de ser reformulado. A terraplanagem pelo desgaste permanente.

O PREC – Processo Revolucionário Educacional em Curso continua.

PREEC

(já faltam aqui uns rostos no mural, tipo cosme e rodrigues, mas lá chegaremos…)

Moinhos de Vento

No JL/Educação deste mês, existem diversos textos interessantes sobre o Estado da Educação (não é apenas o meu) e alguns que são completos tiros de arco e flecha ao lado de um alvo inexistente. Por exemplo, o “casal primordial” do PAFC (Ariana Cosme e Rui Trindade) argumentam contra o que acham ser a acusação de “facilitismo” dirigida à legislação produzida recentemente com o patrocínio do SE João Costa.

Ainda bem que me parece que nunca usei esse termo nos principais textos que escrevi contra algo que considero ser uma fórmula gasta, já usada sem especiais ganhos, e que nunca deveria apresentar-se como solução única por quem defende “autonomia e flexibilidade”. Acredito que exista quem utilize essa caracterização para o actual retorno ao poder de um nicho académico-pedagógico que floresceu nos anos 90 do século XX, mas a principal falha do “pafismo” educacional é outro, no meu escasso e limitado entendimento. É o de achar que está a preparar alunos para “o século XXI” com ideias que são estimáveis, mas não passam do regresso a conceitos conhecidos desde finais do século XVIII. E que caracterizam como “inovação” o facto da roda ser redonda.

A sério, merece leitura, porque revela bem os fantasmas com que se debatem certos teorizadores, pensando que quem critica a sua “obra” estacionou no mesmo ponto que eles. E não deixa de ser engraçado que se use, em outros textos nas mesmas páginas, exactamente a mesma qualificação (facilitismo) para quem defende posições diferentes.

IMG_0053

(já agora… o Antero sabe que andam a usar as suas imagens?)

Talvez Seja Do Cansaço…

… mas só me ocorre o termo palhaçada para muito do que se está a passar em matéria de Educação e faz lembrar o pior da falta de decoro em tudo isto. Se vai ser a equipa da doutora Ariana (falta o doutor Trindade, será que aparece numa segunda fase da avaliação?) a auto-avaliar o projecto de flexibilidade e autonomia curricular que ajudou a definir, com um enquadramento teórico razoavelmente ultrapassado (basta começar a ler a introdução para nos “localizarmos” na segunda metade dos anos 80 do século XX), só falta mesmo que o David Rodrigues coordene a equipa que venha a fazer a avaliar a implementação do regime jurídico da educação inclusiva. Já estou por tudo. Como nos tempos daquelas avaliações da equipa do Roberto Carneiro às Novas Oportunidades. Estou cansado de moderar apreciações… apesar das “aparências” de rigor, com quadros e estatísticas e tal, o relatório que divulguei uns posts abaixo é mais uma peça de “missionação” do que um olhar “científico” sobre o que é estudado.

A passagem que se segue faz-me recuar ao tempo em que estas teses ainda sobreviviam quando fiz a profissionalização, a terminar o século XX.

Assim, mais do que medir, descrever ou julgar (Guba e Lincoln, 1989), pretendia-se contribuir para estimular os atores educativos no terreno, levando-os a participar nesse processo de modo a que, como defendia Kemmis (1988), a avaliação possa ser entendida como um processo através do qual se projetam, obtêm, conferem e organizam informações e argumentos que resultam da reflexão sobre o problema em debate. (p. 5)

Repito… alguém que defende este tipo de abordagem à “avaliação” de políticas educativas tem moralidade para impor qualquer espécie de avaliação aos outros?

Ouroboros

 

Diz Que É Uma Espécie de Auto-Avaliação

Nada como ter a coordenar o “estudo avaliativo” (DGE_estudo_pafc) de uma política uma das pessoas que o concebeu e elaborou manuais para a sua implementação. Ainda esta semana entrarei em maiores detalhes sobre um relatório que aprova as visões positivas e parece não compreender algumas das críticas, mesmo que elas atinjam 45% das afirmações dos participantes. E depois ainda dizem que não sei quê sobre os professores não quererem ser avaliados.

Take_a_bow_don_t_look_at_tags_b4cc83_3819968

Flexibilidade Comercial

Depois de uma mentora do pafismo educacional publicar um manual para as flexibilizações e autonomias num grande grupo editorial, é a vez de me chegar a publicidade a um outro manual (mais virado para as “práticas”) do seu colega mentor da coisa no grupo editorial concorrente. Fizeram bem, dividiram-se e assim conseguem o melhor de dois mundos a duplicar. Chamem-me puritano, qualquer coisa assim, mas há anos e anos que critico esta forma de estar por dentro de tudo e ainda fazer a festa cá fora. Quando se criticam tanto os professores por questões menores, fica todo o campo aberto para os especialistas serem consultores do poder político, neste caso do ME, e delinearem os traços de políticas que depois aparecem a explicar em publicações de tipo comercial e não emanadas do próprio ministério com quem colaboraram. Sim, eu sei que os tempos estão para organizar a vidinha como se pode e para serem arquivadas todas as questões de tipo “ético” (ouvi uma advogada de um recente arguido que beneficiou de arquivamento da queixa contra si a dizer claramente que as questões éticas não são da competência dos tribunais e a verdade é que tem razão), mas isto começa a causar um certo incómodo, porque se repete uma e outra vez e tem quase sempre o mesmo “círculo” a desenvolver estas belas práticas. A sério, quase consigo ver já os nomes no frontispício dos manuais sobre Educação “Inclusiva” que devem estar por aí a aparecer, a ver se apanham a boleia das vendas natalícias de fim de ano.

smart-ass

 

Só 125%?

Chamaram-me a atenção para um grupo fechado do fbook onde se partilham experiências sobre o pafismo educacional (já agora, o ministro Tiago sempre vai a Alcanena amanhã?). NAda a obstar, até ver a imagem do mural que é uma espécie de declaração do tipo “nós esforçamo-nos mais do que vocês”.

125PAF

Quero desde já esclarecer que acho o seguinte, paradoxalmente, ao mesmo tempo:

  • Por um lado (o direito) 125% Escola é pouco numa perspectiva de leilão comunicacional. Lá por isso, eu anuncio já que deveria ser criado um grupo a garantir 143% de dedicação à Escola em nome da inclusão ou qualquer coisa assim na moda.
  • Por outro lado (o esquerdo), 125% Escola parece-me uma violência para as crianças na imagem e julgo mesmo que quando há quem se queixe que os pais passam pouco tempo com os filhos, este conceito de “Escola a Tempo Inteiro e Mais Além” é claramente uma violência.

Em seguida, gostaria que quem defende a clareza da escrita e das ideias nas “regras dos administradores para o grupo”, deveria escrever melhor. Sim, sei que parece embirração, mas é mesmo assim. Nada como servir de exemplo:

125PAFb(será que um dos administradores é o albino I?)