Barranco de Surdos?

Parece que há preocupação com o facto de um elevado número de alunos dos cursos profissionais do Ensino Secundário desistirem sem os completar. Fala-se mesmo em “antecâmara” do abandono escolar. E um tipo não sabe se deve rir-se ou chorar. Rir-se do ridículo que é o aparente desconhecimento que esta malta tem do funcionamento dos cursos profissionais e do perfil dos alunos que lá vão metendo, mais ou menos à força dos 12 anos de escolaridade? Ou chorar perante a permanência de tamanha ignorância, apesar de repetidamente se tentar explicar a muita pessoas que a maior parte dos “cursos profissionais” são apenas uma forma de mascarar o abandono escolar e, mesmo quando isso se consegue, de fingir um sucesso completamente fabricado? A meta de aumentar até aos 50% o número de alunos nestes cursos, partilhada pelos últimos governos TODOS, é daqueles disparates que só fazem sentido nas cabecinhas pensadoras que sabem muito mais do que todos aqueles que só conseguem ver o seu quintal e os quintais ao redor. Pior… no Ensino Básico, os cursos pseudo-“vocacionais” foram uma total mistificação e só não foram uma “antecâmara” para o abandono porque todos os envolvidos nas escolas, das direcções aos professores e formadores, passando pelos DT, se viram condicionados para fingir que as faltas não eram bem faltas ou que eram justificáveis e que tudo poderia parecer o que não foi. O mesmo com o aproveitamento, em particular quando se percebeu que os vocacionais se iam finar e só os alunos com 100% dos módulos poderiam transitar para os “profissionais”. E foi um fartote de recuperações de módulos em atraso, quantas vezes com muitos meses ou anos de prazo. Pactuámos quase todos com este enorme fingimento que é a pretensão de ser possível termos um ensino vagamente pré-profissional no Ensino Básico e ele estender-se a 50% dos alunos no Secundário? Sim, porque estes eram alunos que se limpavam das pautas das provas finais e exames e isso favorecia a avaliação das escolas. E internamente produzia-se sucesso e maquilhava-se o insucesso e mesmo formas mais constantes intermitentes de insucesso para evitar inspecções muito rigorosas com a preservação do artifício. Sim, temos sido quase todos cúmplices, mas ainda há quem tenha dito desde o início que o modelo era errado e só funcionaria na base da ficção.

Antecâmara? A sério? Descobriram isso agora porque um terço dos alunos não completou os cursos? Se fossem ver com mais atenção descobririam que completá-los mesmo a sério nem um terço. Mas há uma autêntica câmara escura onde escondem os retratos incómodos, a menos que seja depois da asneira feita e para apontar o dedo a outrém.

Mas, provavelmente, sou eu que sou demasiado crítico e só vejo o copo meio vazio quando ele está quase todo vazio, em vez de dizer que há muito potencial para o seu preenchimento. Os nossos decisores políticos e muitos especialistas em Educação são excelentes no estudo da evidência e na conclusão do óbvio quando não é possível demonstrar que a água é vinho e que o coelho que nem a luz do dia viu em vida é lebre selvagem e fugidia.

Mas podemos continuar todos a fingir, agora com um colaboracionismo mais alargado do alargado arco da governação e a acusar quem vê e fiz o que vê de não conseguir ver o grande cenário da macro-coisa e da eficácia financeira do sistema que pode produzir estatísticas a baixo preço.

Porque o insucesso é caro e verdascam-nos às esquerda com os milhões por ano ajustados à direita, dizem que 600 ou ainda mais, bastando para isso adulterar uns factores da multiplicação dos 150.000 por 4.000.

PG Verde

Ano Sim, Ano Não

É a média que resulta da análise da evolução das alterações legislativas em relação à avaliação das escolas e alunos do Ensino Básico nos últimos 25 anos. Se existe continuidade em algumas mudanças, outras são de molde a tornar impossível estudar-se de forma séria a evolução do desempenho do sistema a partir dos indicadores internos. São raros os ministros que sacrificam o seu ego ao interesse em manter uma orientação que permita aproveitar o que vem de trás, melhorando-o, preferindo introduzir mudanças que, em muitos casos, só servem para marcar a agenda política do seu mandato.

Estabilidade?

E o mais giro é que aparecem antigos governantes a dizer coisas tão certas que nunca fizeram. A minha teoria é que não é totalmente inconsciente ou involuntário o esforço por destruir qualquer hipótese de estabelecer tendências de médio-longo prazo que nos permitam alcançar conclusões que ultrapassem os bitaites de falso senso comum ou a repetição de chavões que, por não ser possível comprová-los ou infirmá-los de forma empírica sólida, permanecem como pseudo-verdadades para a Escola do século XXI baseadas em case studies feitos à medida das conveniências.

Labirinto

Panamagate

Já repararam como o que prometia ser um escândalo enorme – apesar do Panamá ser apenas um entre muitos paraísos fiscais – acabou em praticamente nada através de uma hábil estratégia de descobrir o já descoberto. Indo em busca dos Espírito Santo e Salgado e de periferias do caso Sócrates captava-se a atenção do pessoal e nada se revelava de essencial ou problemático. Entretanto, enquanto se expurgava a base de dados do que é incómodo, anunciava-se a sua abertura ao público no que é (mais) uma enorme mistificação jornalística entre nós. Deplorável, sendo de lamentar que se deixou amarrar desta forma na sua liberdade de informar. Mesmo que fosse incómodo, até porque consta que lá estariam dados muito interessantes para se perceber quem informa(va) o quê a mando de quem. Porque o caso-banif na tvi (que tanto parece incomodar alguns como as escutas do caso Marquês divulgadas pelo CM que tanto encrespam gente que ficaria melhor calada) é apenas uma migalha em relação aos anos e anos de contaminação da opinião pública com falsidades à la carte.

claustrofobia

 

Low Cost

Devem os serviços públicos ser geridos de acordo com a lógica da marca branca, do mais baixo preço médio por “utente” (na Saúde, Educação, Segurança Pública, Justiça), quando quase ninguém (entre as elites decisoras) se preocupa com o preço médio per capita pago pelos desmandos dos salgados, banifes, bêpêpês, para não falar em tudo aquilo que ainda está debaixo d’água? Porque devem os alunos comer refeições contratualizadas ao tostão mais baixo quando há milhões para pagar a consultores internacionais para que estudem de que forma devemos perder dinheiro com suópes e coisas assim

CAixaReg