O Que O PCP Não Percebeu

O problema da erosão do eleitorado do PCP não se explica com a tese simplória da “ortodoxia” que não cativa os “jovens”. Para um partido com 10% basta atrair 1 em 10 eleitores “jovens”. Ora, em 2019, ficaram-se pouco acima dos 6% e se a maioria dos seus eleitores está acima dos 50 ou 60 anos, bastaria 1 em 20 “jovens” para manter a coisa nos dois dígitos. Não é coisa difícil, Basta ver que o grupo parlamentar do PCP até é bastante jovem em termos cronológicos.

O problema do PCP é que, tendo-se rendido por completo à real politik do arco periférico da governabilidade, parece feliz por ter mais elogios do actual PM do que o Bloco e ter mais votos para oferecer para defender a “responsabilidade orçamental” e manter a estabilidade “burguesa” do que o PAN. Porque mesmo entre os adversários, o PCP sempre manteve – mesmo quando não esteve propriamente à altura de tais pergaminhos – a imagem de uma postura “ética” ou “moral” de alguma superioridade. Claro que a nível local conhecemos a forma como as coisas funcionam, sem grandes fidelidades à tal “ortodoxia”, mas a verdade é que quase todos olha(va), o PCP como o vigilante que poderia manter o PS afastado das piores tentações chuchalistas.

Mas isso não aconteceu e o camarada Jerónimo, por mais outdoors que mande colocar à beira das estradas a reclamar “conquistas” para o seu potencial eleitorado mais desfavorecido, nunca conseguirá apresentar como suas medidas de que o PS será de longe o principal beneficiário nas urnas. Para um partido “revolucionário”, esta postura de garante preferencial da boa governação é fatal, porque se perde o principal elemento identitário, goste-se dele ou não. O PCP atrairá um eleitorado específico se for “diferente”, mesmo que criticado. Se tiver coragem de ser contra o sistema que sempre criticou.

Ora… agora parece que o que há mais é pizzas fora de horas. Paz à vossa alma. Se é que os vossos escritos sagrados autorizam que a tenham.

Pizza

O Verdadeiro Polvo Que Tolhe O País

Mas há muito idiota que ainda acredita naquilo que os avençados (no futebol chamam-se “cartilheiros” uns aos outros) do sistema espalharam anos a fio sobre as causas do défice orçamental e da dívida externa. E muitos continuam por aí, ainda a apanhar uns restos da festa. Já não é como outrora, mas ainda sobraram umas migalhas…

Zeinal Bava queria pagar 77 mil euros para travar investigação a bónus de 8,8 milhões

MP diz que Conceição “aderiu a pacto” de Pinho e Mexia para beneficiar a EDP em 1,2 mil milhões de euros

Estado injetou 25,5 milhões de euros na banca nos últimos dez anos

polvo

Está Em Decurso A (Segunda) Maior Operação Financeira Das Últimas Décadas…

… de deslocação de verbas da Educação Pública para grupos privados, logo depois da “festa” da Parque Escolar (que a “reitora” não viu e que – aposto – em tribunal acabará nos arquivos da má memória). Um conjunto muito substancial de verbas, que nem sempre é fácil controlar por estarem espalhadas por diversas autarquias e comunidades intermunicipais, está a ser usado, com o pretexto do combate ao abandono e insucesso escolar (apesar destes indicadores terem uma evolução muito favorável ao longo das últimas décadas sem qualquer necessidade disto), para estender rendes clientelares locais em vez de servirem para dotar as escolas e agrupamentos de pessoal humano permanente e meios técnicos adequados para cumprirem a sua função. Se tudo o que está a ser feito está mal? De modo algum, há projectos interessantes e boas intenções que até correspondem a boas acções. Mas há mais do que isso, muito mais. A começar pelas tais “consultorias” com gente próxima do poder político na Educação desde os anos 80 e 90 do século XX que, finalmente, conseguiram redireccionar as “escápulas” das verbas do Orçamento para fora das escolas. Dizem que não se resolvem problemas apenas lançando dinheiro sobre eles, mas já aceitam se o dinheiro for lançado na sua direcção. E nesses interesses estão grupos de “especialistas”, por vezes com chancela académica, mas outros casos apenas com o carimbo do chico-espertismo empreendedor dos tugas, daqueles que têm ideias “brilhantes”, estratégias “mágicas” e centros de “excelência”. Há de tudo um pouco… de ex-governantes a ex-muitas coisas convertidos à causa da Educação agora que escorrem subsídios, quantas vezes apenas com coisas coladas a cuspo, depois de copiadas algures.

Mas parece que agora o “sucesso” é assim. E a “descentralização”. E há quem colabore. Porque há sempre migalhas que escorregam da mesa para os regaços de quem lá fica a dizer que sim.

Seria interessante que houvesse a coragem de ir divulgando certos “negócios”, com fundamento, dados concretos, nomes repetidos aqui e ali, dossiers replicados. Mas os tempos andam agrestes para a “investigação”.

paraq

Por Matosinhos (E Mais Além)

São 90.000 euros para:

AQUISIÇÃO DE SERVIÇOS ESPECIALIZADOS PARA CONCEÇÃO, IMPLEMENTAÇÃO, MONITORIZAÇÃO E AVALIAÇÃO DE UM PROJETO DE INOVAÇÃO PEDAGÓGICA PARA EB1 DO PADRÃO, DE COMBATE AO INSUCESSO ESCOLAR

Por 46 meses até que pode não parecer muito, mas é, pois trata-se apenas de uma escola. Pelos vistos, as autarquias não têm meios humanos para tratar destes assuntos, mas dinheirinho não lhes falta.

O insucesso escolar dá de comer um pouco por todo o país. A Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central tem 60.000 euros só para propaganda do que vai fazer.

Aquisição de serviços de Promoção e divulgação do Programa Intermunicipal de Combate ao Insucesso Escolar

Mas há tanta mais coisa… como contratos de prestação de serviço por dois anos e mais por valores mensais do 1º escalão da carreira docente (ver o caso de Mora). Mas ainda bem… só é pena que as escolas não tenham esses meios humanos nos seus quadros.

Só mais uma… a Comunidade Intermunicipal do Ave por 69 dias de prestação de serviços, paga 55.000 euros com a seguinte descrição

No âmbito das políticas governamentais definidas para a intervenção ao nível das temáticas da educação, com as quais a CIM do Ave e seus Municípios constituintes estão alinhadas, tendo em vista a concretização das prioridades regionais e locais definidas no Pacto para o Desenvolvimento e Coesão Territorial, nomeadamente no que respeita à Prioridade de Investimento “10.1. – Redução e prevenção do abandono escolar precoce e estabelecimento de condições de igualdade no acesso à educação infantil, primária e secundária, incluindo percursos de aprendizagem, formais, não formais e informais, para a reintegração no ensino e formação”

Money3

Um Dia Como Outro Qualquer

Uma vergonha completa, que aqui se pode escrever, porque a pasmacenta segunda figura do Estado ainda não consegue chegar a todo o lado. A menos que, perante a sua evidente lentidão, lhe tenham crescido tentáculos autónomos.

Partidos livram-se de pagar centenas de milhares de euros em coimas prescritas

Nova Lei de Financiamento dos Partidos fez prescrever processos de contra-ordenação de partidos e seus responsáveis financeiros. Alguns destes eram deputados que estiveram na linha da frente da revisão da lei em 2018.

A classe política desacredita-se a si mesma, sem necessidade de qualquer ajuda. E acenar com o papão dos “populismos” é apenas uma reacção histriónica para consumo mediático, porque o pântano continua de excelente saúde, embora não se recomende a uma democracia que se queira respeitável.

Lama

O Império Da Treta Oportunista

Não, não será oportunidade para mais nada do que poupanças e desprofissionalização da docência, com a entrada nas escolas dos interesses locais e regionais. Por uma razão simples… já nos últimos dez anos existiu uma evolução similar dos indicadores relativos ao pessoal docente e discente.

Nos próximos quatro anos cerca de 18 mil professores vão sair das escolas para a reforma, mas no mesmo tempo haverá perto de 101 mil alunos a menos. Será esta uma oportunidade para o sistema educativo? Por agora, a falta de professores em certas zonas do país exige do Governo e das autarquias medidas imediatas.

Vejamos o que se passou nesta década. Eis os dados oficiais da dgeec para 2009-10 e 2017-18 (os últimos online):

Profes09a10Profes17a18

Já neste período tivemos (apesar daquelas mistificadoras vinculações “extraordinárias”) uma redução de quase 13.400 professores dos quadros e de quase 27.000 em exercício. Isto significa que se verificou uma diminuição de 12,4% dos professores nos quadros e de 18,8% em todos os que estão em exercício.

Observemos a evolução do número de alunos no mesmo período, reparando que eu escolhi para ano inicial da série aquele em que se registaram mais alunos:

AlunosEvol

A redução foi de 164.414 alunos, ou seja de pouco mais de 10%. A redução de docentes foi quase o dobro e quanto a “oportunidades” nada se fez e até passámos pela troika e tudo. Foi o “mais com menos” de crato que continuou com costa&centeno mais o tiago, joão & joana,

O “argumento demográfico” foi usado de forma demagógica e truncada, quase sem contraditório. Era mentira que a redução do número de professores resultasse da redução do número de alunos. Estava em decurso um processo diferente, mas que o afirmava era denunciado como “corporativo”, por vezes por idiotas instalados de forma cómoda na carreira, por saberem que nada arriscavam.

Menos 100.000 alunos nos próximos anos será uma redução próxima dos 7%, enquanto desaparecerão 20% dos docentes que não há condições para serem substituídos sem uma regressão sensível no nível de experiência ou mesmo de qualificação profissional dos docentes, bastando ver como estão a chegar às escolas pessoas sem qualquer tempo de serviço ou experiência, fenómeno numa escala que não se via há uns 25 anos. Claro que serão mais dóceis, em especial se quiserem beneficiar de “incentivos” e alguma estabilidade.

O mais aterrorizador deste “tempo de oportunidades” será que muitas das medidas de “incentivo” ficarão a cargo das autarquias; não por tais medidas não serem eventualmente “eficazes” mas por o serem à custa da opacidade de procedimentos, pois já agora há “técnicos especializados” que ficam sempre nos lugares desejados em pseudo-concursos viciados à partida. E algumas outras “normalidades” que se começam a instalar com argumentos de “adequação” aos “projectos”, nomeadamente sob sugestão/aprovação de certos grupos de “consultores” na elaboração de “planos (inter)municipais”.

Competências E Concursos

Continuo a achar “peculiar” (mesmo que alegadamente seja crença fundamentada em práticas terceiras) que se considere que a classificação de um candidato à docência, obtida após a sua formação científica e uma profissionalização especializada, seja considerada um método inadequada para a colocação de professores, em contraponto a uma alegada mais competência por parte de elementos directivos que – em tantos casos – estão há c’anos e décadas sem dar um simples dia de aulas por ano ou de elementos autárquicos que – em tantos casos – até são professores em fuga da docência para a vida política ou técnica local.