Imparidades

A maior parte de quem aqui passa terá a noção de que muito do que é falado em off entre colegas, de vários pontos do país, por mail ou outras mensagens, não chega a letra de post por razões mais ou menos naturais. Mas há sempre formas de codificar certas situações em abstracto, coisas que nos revoltam, embora tenhamos de as aguentar no nosso quotidiano. Nem vou falar da relação inversamente proporcional entre competência e disponibilidade para aconselhamento não solicitado. Isso é velho. Como é de antanho aquela coisa de dar a uns barras de ferro e a outros pranchas de pinho da flandres e depois fazerem o bem intencionado reparo de que os barcos que aqueles fazem flutuam um pouco pior do que os destes. Novo, ou talvez não, é garantirem que as barras de ferro flutuam na perfeição e a falha é da forma como as usamos.

pluto-scratching

6ª Feira

Prestes a terminar o primeiro mês. Já existem baixas e alguns regressos perfeitamente impensáveis. Não são poucas as pessoas que começam a considerar quanto tempo aguentarão. Dará para chegar ao Natal? Entretanto, recrudescem as exigências porque a cada nova investida de normativos corresponde nova camada burrocrática. O exercício da docência já contempla há uns bons anos uma componente de representação do acto pedagógico para justificar qualquer opção que não seja de sucesso garantido. Mas essa componente continua num crescendo imparável. A anunciada greve a “reuniões para as quais os professores forem convocados, caso não se encontrem previstas na componente não letiva de estabelecimento do seu horário” e mais umas outras chatices tem sido algo pedido por algumas pessoas (ou pelo menos ameaça-se vagamente com o incumprimento das tais burrocracias redundantes) mas fico sem perceber como isto funcionará: sendo “greve” como se serão contabilizadas as faltas, em especial se as reuniões forem sucessivamente convocadas por inexistência de quórum. Na base das 35 semanais? E o pessoal que der todas as suas aulas durante este período verá o valor dessas faltas desaparecer do salário? A sério que esperam mesmo uma grande adesão a este tipo de greve que, apesar de estimável e compreensível, é mais do domínio da conversa de café? Não conseguiriam antes fazer convocatórias de plenários de professores para as datas de eventuais reuniões intercalares? Em especial quando acontecem em horário pós-laboral?

Sim, já sei que sou um “guinote do restelo” que para o ex-pai albino e cortesãs do SE Costa, assim como para muitos indefectíveis do sindicalismo ortodoxo, mas isto parece-me uma coisa um bocado inconsequente atendendo a todo o contexto vivido. Até porque com as regras existentes sobre reuniões ao abrigo do CPA quase tudo vai acabar por ser feito e só se irão lixar materialmente os mesmos do costume, porque os mandantes vivem em pleno as suas “dispensas”, enquanto anunciam que já podiam ser professores “superiores” ou mesmo coisas mais importantes para a Nação.

Este é um discurso divisionista, será uma das críticas evidentes. Só que para se “dividir” há que existir uma “união” qualquer que eu não vislumbro depois da greve da outra semana (e que uma colega sindiclaista qualificou no meu mural do fbook como “óptima” [sic]) e da manifestação que se lhe seguiu e que teve um impacto de menos que zero no Governo, a menos que se considere que o “Temos Pena!” do actual PM não é pura e simplesmente um gozo total, a pedir mais que eles até agradecem os contributos para o Orçamento.

Estamos num beco sem saída? Há quem ache que só com o próximo governo se conseguirá algo, mas sem dizerem que tipo de governo estão a prever. Há quem diga também que as lutas não atingem os seus objectivos sem grandes esforços e muito tempo. Sim, pois, mas há coisas que se conseguem de um momento para o outro, basta ver a rapidez com certas pessoas arrumaram a sua vidinha às cavalitas dos contratados e como outros conseguem estar décadas a lutar das 9 à meia-noite (excluindo a época dos banhos). E sem qualquer avaliação do desempenho.

É altura de baixar os braços?

Não, pelo contrário. E nem vou falar muito sobre as vantagens da ILC em relação a petições da treta.

Falo da denúncia clara dos abusos – com exemplos e sem receio de ferir susceptibilidades pseudo-amigas – que estiveram na base da concepção e implementação dos decretos 54 e 55/2018 que parecem ser considerados maravilhas legislativas por mais gente do que seria razoável esperar, atirando-se para as escolas e professores eventuais falhas na sua “operacionalização”. Há muita coisa que poderia e deveria ser denunciada, mas, infelizmente, há quem tenha preferido vender-se por muito pouco ao “sistema”. Basta ver como se replicam “formações” da treta com powerpoints da maria-cachucha sobre a Educação Inclusiva.

O polvo dos interesses, favores e tenças mais ou menos disfarçadas em troca de apoios públicos está em amplo crescimento e bem alimentado. Sou obrigado a reconhecer: o costismo está de parabéns e bem ancorado nas “redes sociais” e outros espaços digitais que, mesmo quando criticam o ME, protegem devidamente quem deve ser mantido longe das críticas, enquanto não ruma em definitivo para paragens mais elevadas. Há demasiadas cumplicidades em forma de muralha d’aço.

O pântano tresanda e, voltando ao princípio, cada vez existe mais gente no terreno incapaz de respirar em condições. Mas a falta de ar puro também diminui o ânimo para reagir. E el@s sabem isso.

Stink

Que Me Desculpem os Puristas, A Minha Greve Está a Ser Hoje

São oito tempos lectivos mais uma hora de dt. Comuniquei a encarregados de educação e alunos que raramente (no máximo 2 atestados desde que comecei a dar aulas e muito poucas faltas por consultas ou coisas parecidas) falto por motivos de saúde, na acepção mais restrita do termo, mas quando estou muito cansado. É o caso. E decidi estender o fim de semana, usando o segundo artigo 102 do ano lectivo. Amanhã, dia marcado para greve no meu distrito, tenho “apenas” 5 tempos lectivos e 3 não lectivos (dt, delegado, conselho geral), pelo que decidi, de um modo que sei ser individualista e egoísta, antecipar a minha ausência da escola. É uma questão de flexibilidade.

Sim, estou consciente de que assim não estarei a contribuir para a força imensa do colectivo sindical. E que me podem chamar – de novo – uns quantos nomes. Mas isso afecta-me muito pouco, como quem me conhece sabe muito bem. Tresmalho com imensa frequência. Não sou disciplinado perante poderes fáticos a que reconheço legitimidade formal, mas tão só isso. Se quiserem excluir-me das futuras “conquistas” podem estar à vontade. Para os professores de carreira, excepto o que foi comum à restante função pública, não dei por nada de novo e melhor na minha condição desde finais de 2015. Sim, sei que a “luta” é um processo permanente, contínuo, de imensa paciência, de avanços e recuos, em que nada é definitivo e tudo é relativo. Sim, já li e ouvi a cartilha mais vezes do que seria aceitável numa tortura cruel.

O dia está a saber-me muito bem e até o domingo à tarde foi diferente, apesar das ameaças do félix. Amanhã, estarei de volta, espero que com um adicional de energia a rondar 1%.

Respeito todos os que fizerem greve de acordo com o calendário oficial e desejo-lhes que fiquem com a consciência tão leve quanto a minha está. Há muito tempo. É uma questão de autonomia.

Ovelha