A “Mudança” E A “Educação Para O Século XXI”

Há alturas em que a formação em História vem mesmo ao de cima, em particular quando se fala com pessoas que, mesmo de gerações diferentes, a partilham. E isso aconteceu ontem. E depois é impossível não traçarmos paralelismos no tempo e pensar que em 1920, quando o mundo ocidental atravessava um momento de forte “aceleração” para os padrões de então e tenha experimentado uma catástrofe terrível, ninguém concebia a mudança nos termos das teses em voga em 1870, 1880 ou 1890. E quando às “lideranças”, todas elas tinham sido renovadas a um ponto extremo. Era um “novo mundo”, com novos conceitos, novos protagonistas, conscientes de uma nova realidade não imaginada uma duas gerações antes.

Mas em 2020, quando a a “aceleração” ainda é maior e após uma fortíssima crise económica e financeira global, forçando mudanças muito mais rápidas, há quem insista em enquadrá-la nos conceitos de 1970, 1980 ou 1990. E quem, criticando a dificuldade de uma “escola para o século XXI” com “professores do século XX”, não perceba o ridículo paradoxo de não reservar para si a mesma análise crítica, quando são “lideranças” herdadas do século XX e “pensadores” que ainda não conseguiram ultrapassar as suas próprias concepções do século passado.

Ainda não temos, neste século XXI já bem entrado, nenhum equivalente ao Democracy and Education (1916) de John Dewey pelo que continuamos a regressar a ele (ou a variantes suas, porque haverá quem nunca o leu, embora produza réplicas). Nem ao Schools of To-Morrow de 1915 pois, apesar de se editarem actualmente muitos livros com títulos similares, poucos são os que vão além do que está escrito há mais de um século, mais ou menos apelo a gadgets de validade efémera.

Different schools have worked the matter out in different ways. In the Montessori schools there is still a good deal of effort to control the growth of mind by the material presented. In others, as in the Fairhope experiment, the material is incidental and informal, and the curriculum follows the direct needs of the pupils.

Most schools fall, of course, between these two currents. The child must develop, and naturally, but society has become so complicated, its demands upon the child are so important and continuous, that a great deal must be presented to him. Nature is a very extensive as well as compact thing in modern life, including not only the intricate material environment of the child, but social relations as well. If the child is to master these he must cover a great deal of ground. How is this to be done in the best way? Methods and materials must be used which are in themselves vital enough to represent to the child the whole of this compact nature which constitutes his world. The child and the curriculum are two operative forces, both of them developing and reacting on each other. In visiting schools the things that are interesting and helpful to the average school teacher are the methods, and the curriculum, the way the pupils spend their time; that is, the way the adjustment between the child and his environment is brought about.

“Learning by doing” is a slogan that might almost be offered as a general description of the way in which many teachers are trying to effect this adjustment. The hardest lesson a child has to learn is a practical one, and if he fails to learn it no amount of book knowledge will make up for it: it is this very problem of adjustment with his neighbors and his job. A practical method naturally suggests itself as the easiest and best way of solving this problem. On the face of it, the various studies—arithmetic, geography, language, botany, etc.—are in themselves experiences. They are the accumulation of the past of humanity, the result of its efforts and successes, for generation after generation. The ordinary school studies present this not as a mere accumulation, not as a miscellaneous heap of separate bits of experience, but in some organized way. Hence, the daily experiences of the child, his life from day to day, and the subject matter of the schoolroom, are parts of the same thing; they are the first and last steps in the life of a people. To oppose one to the other is to oppose the infancy and maturity of the same growing life; it is to set the moving tendency and the final result of the same power over against each other; it is to hold that the nature and the destiny of the child war with each other. (pp. 69-71)

Isto significa uma de duas coisas:

  • Ou as questões que enfrentamos actualmente pouco “mudaram” em cem anos e, portanto, há qualquer coisa que falhou desde então em algumas análises e na forma de resolver os problemas diagnosticados.
  • Ou as coisas “mudaram” e o século XXI necessita de todo um novo modo de pensar que vá para além do que já é conhecido.

A tentação de alguns vai ser a de dizer que ao fim deste tempo todo a Educação e a Escola não mudaram, pelo que as questões permanecem as mesmas. Não é verdade. Todos sabemos que a escola actual é muito diferente da que vivemos como alunos. Pelo menos, é muito diferente da minha e só muita miopia ou má vontade negará tal evidência.

Portanto, há que encarar o século XXI, a terminar o seu primeiro quartel, de um modo novo, em que exista a coragem de certas figuras entenderem que, se nada mudou, ao fim de décadas em posições de liderança (política, académica, escolar) é porque falharam e seria boa ideia tirarem consequências disso.

Só assim será possível mudar de “paradigma”, a palavra que tanto usam sem entenderem exactamente o que significa. A menos que tragam alguma ciência extraordinária para fundamentar as vossas pretensões de novidade.

Dewey

O Cúmulo Da Demagogia

Em prosa no JL/Educação de hoje, o SE Costa dá liberdade à sua faceta de demagogo, mesmo que com teses que parecem sedutoras e lógicas, Só que apelando ao senso comum mais simplório e sem qualquer fundamento sociológico ou histórico. Ou seja, que quem chumba são os pobrezinhos e que os pobrezinhos se chumbarem ficam ignorantes e se ficarem ignorantes vão alimentar os “radicalismos” e os “populismos”.

IMG_2415

Isto é tão errado a tantos níveis. Vou isolar apenas um punhado de argumentos acerca da falsidade deste raciocínio maniqueísta.

  1. Os pobrezinhos não são necessariamente ignorantes ou vítimas do insucesso. E se o são, nada como combaterem a pobreza a sério, em vez de o fingirem, especialidade maior deste governo que, nos momentos da verdade acha que mais 10-20 euros no rendimento mínimo podem comparar-se a mais 100-200 milhões para início de conversa num desfalque bancário.
  2. As manipulações de informação nem sempre têm “fontes obscuras”. Por vezes têm fonte oficial ou derivada. Veja-se a questão dos professores pretenderem “retroactivos” e a recuperação do seu tempo de serviço implicar uma “despesa” que se revelou falsa (até com demonstração pela UTAO), “notícias” colocadas em circulação por fontes “próximas” do ministério das Finanças, com a colaboração de articulistas doutorados e o silêncio sepulcral do SE Costa.
  3. Os “radicalismos” e “populismos” não são necessariamente alimentados pela ignorância mas pelo preconceito e esse encontra-se em todos os estratos sociais. Os neonazis que, ao que parece, andam pelo comícios ou encontros do Chega não têm apenas a 4ª classe ou chumbaram 3 vezes no Básico. Para além disso, há “populismos” altamente elitistas, como se pode comprovar por alguns dos seus líderes actuais. O Trump pode ser ignorante mas não chumbou na escola. O Boris Johnson tem uma educação acima de qualquer suspeita. E os que votam neles são todos os “descamisados” e enjeitados do sistema? Pelo contrário, nos EUA, o Trump desenvolve políticas baseadas no preconceito contra esses mesmos enjeitados, nomeadamente minorias étnicas.
  4. Historicamente, as derivas totalitárias não assentaram em movimentos de base popular e “ignorante”, mas exactamente no seu contrário, em elites e “vanguardas” que apresentaram o caminho “certo”. O “Mein Kampf” não foi lido por analfabetos. O Salazar chegou ao poder ao colo de militares, grandes burgueses e académicos cheios de leituras. Eu sei que a História é chata e “enciclopédica” para alguns, mas a sua ignorância ou desprezo, em especial por pessoas doutas, é triste.
  5. Há “radicalismos” e “populismos” de Direita e Esquerda. E todos eles manipulam a informação, da palavra à imagem. E há outros que até podemos considerar benignos, mas que continuam a vir dos dois extremos do “espectro político”. Será que o SE Costa está a falar de todos ou só dos que acha pessoalmente daninhos?

 

Ainda Sobre Os Arautos Dos Horizontes Da Utopia

Estou a escrever um texto (mais para o longo, tipo capítulo cheio de mau feitio)  sobre o assunto e continuo fascinado com a forma como essas pessoas, para além de adorarem ser presidentes, directores e/ou representantes disto ou aquilo, reagirem a qualquer crítica que lhes seja feita da forma mais incoerente possível com os altíssimos princípios éticos que se auto-atribuem. Adoro quando a crítica à autoridade e às hierarquias se faz na perspectiva de quem sente que tem uma autoridade acrescida sobre o tema e que aproveita todas as oportunidades para se integrar numa hierarquia que lhe atribua uma posição próxima do topo. Ou quando a tolerância é pregada com intolerância. E a diversidade é imposta com base em modelo únicos de pensamento.

E depois o raio da História está sempre a dar-me exemplos de como tantas utopias, cheias de boas intenções nas teses originais, descambaram em catástrofes distópicas. Porque, apesar de não estar só a pensar na Educação, não consigo deixar de encontrar paralelismo com certos proselitismos que por aí caminham.

Majestic sunset in the mountains landscape. HDR image
Majestic sunset in the mountains landscape. HDR image

Como Professor E Pai Não Sei Se Estou Em Sintonia

O estudo da Católica tem a vantagem de, pelo menos, desmontar o lugar-comum de apontar aos professores a obsessão quase exclusiva com a transmissão de conhecimentos, pois são os pais que mais espera isso da escola. Isso e mais uns detalhes (como o caso dos tpc que vai contra as teses do próprio Eduardo Sá) que têm maior interesse do que “convergência” acerca dos exames.

E seria interessante ir mais longe na análise do recurso às “explicações”.

Os resultados dos questionários revelam que cerca de 60% dos alunos do Ensino Secundário têm explicações de várias disciplinas – a percentagem começa nos 20% no 1.º Ciclo do Ensino Básico e aumenta até ao 12.º ano de escolaridade. Ou seja, à medida que se avança nos anos, mais estudantes em explicações.

São os alunos com notas acima da média da turma que frequentam esse apoio suplementar fora do horário escolar. O recurso a explicações é um dado que deve merecer atenção, segundo os autores do estudo. Um indicador preocupante porque, como sublinham, “leva para fora da escola a sua missão mais importante: a da aprendizagem dos alunos”. Por um lado, a verdadeira missão da escola é questionada, por outro, aponta-se para um agravamento das desigualdades sociais. As explicações não são um recurso ao dispor de todas as famílias.

Mais de metade dos docentes e encarregados de educação questionados olham para os trabalhos de casa como uma forma de apoio ao estudo. São perto de 60% da amostra. Quase 90% dos alunos têm TPC, 96% dos professores mandam “muitas vezes ou sempre” trabalhos para casa.

Austin