Domingo

Voz

Aprendi a usar a voz como um dos elementos que me identificam e, ao fim de algum tempo, qualquer turma sabe que se subir o volume das conversas acima do razoável, eu cubro a aposta. Sem dramas, sem receio de ir contra as “boas práticas” de algumas pedagogias suaves e das falinhas mansas. 

Sábado

Não é nada de excepcional e acho mesmo que é uma espécie de metodologia padrão para grande parte dos docentes. Avaliar a progressão das aprendizagens dos alunos, comunicar o que não correu bem, desenvolver estratégias de remediação, recuperação ou remediação (como lhes queiram chamar) e verificar de novo como estão as coisas. Só que em tempos de recauchutagem do velho, como verniz para parecer novo, fazer isto passa por ser enorme inovação, desde que se lhe coloque a palavra “Projecto” e se acrescente mais qualquer termo identificativo que sirva para servir de pretexto para “formação”. Há casos em que até vejo antigos colegas meus, que sabem fazer isto há décadas, ser nomeados como “embaixadores” de tamanha novidade.

Interessante

Agradeço a referência à AC.

A ideia foi refutada na década de 1970, mas ainda há uma crença generalizada de que as crianças são pequenos humanos que aprendem e se desenvolvem intelectualmente da mesma forma que um adulto. Este é um mito com consequências potencialmente graves para os sistemas educativos, pois leva a que não se considerem abordagens pedagógicas ajustadas à realidade. Afinal, o que nos diz a psicologia cognitiva sobre este tema? Será o conhecimento prévio determinante para a forma como aprendemos?

(As)Sincronias

Fiquei a saber pela Anabela que a DGE divulgou uma espécie de “manual” para a 2ª vaga do E@D, em que recicla propostas antigas e ocupa o resto das páginas com uma espécie de prós e contras do “trabalho síncrono e assíncrono, em contexto educativo, integrando sugestões metodológicas”. Fica mais abaixo para quem estiver com insónias.

Uma Conclusão Interessante

Parece que 2 a 4 semanas sem aulas presenciais com os professores, que têm sido obrigadas a seguir um modelo bem tradicional (as interacções em sala de aula, actividades colaborativas entre alunos e outras “diferenciações” estão fortemente desaconselhadas), destruiriam as aprendizagens de forma “irremediável” e conduziriam a uma “geração deslassada” (a tentativa de Manuel Carvalho fazer de Vicente Jorge Silva e cunhar uma expressão para a posteridade).

Ou seja, aquilo não terá sido conseguido por anos e anos de políticas disparatadas, em zigues e zagues, com uma acumulação de burocracias para atrapalhar o trabalho dos professores e políticas cada vez mais ridículas de avaliação dessas aprendizagens.

Realmente, a presença física dos professores é mesmo “impactante” para os alunos, ao contrário de uns 30 anos a dizerem que os alunos podem construir o seu conhecimento, em auto-descoberta, com os docentes ali apenas a “faclitar” (o que poderia ser feito à distância, certo?). Ou que as tecnologias tornariam quase irrelevante o papel do humano na Educação. Os professores foram sendo crismados de “inúteis”, “egoístas”, “corporativos”, “velhos”, “arcaicos” e tudo o que ocorreu a uma clique de burgessos, nem sempre exteriores ao sector da Educação, só que alguns de forma mais envernizada, mas não menos insidiosa. Afinal são “essenciais”.

(será altura de lembrar que há 6 anos, 4 meses e 2 dias de tempo de serviço apagado da carreira, que causou danos “irremediáveis” e marcou várias “gerações” de professores, que agora deveriam cobrir os deputados porfírios e os comentadores situacionisttavares e baldaias as com toda a vergonha que lhes falta?)

Será que essas criaturas que há tanto tempo nos bombardeiam com essas teorias, terão a decência de se desviar da frente e deixarem de atrapalhar? Porque as vossas teses parecem estar claramente erradas. Afinal, umas semanas sem professores em osso e carne (muita, no meu caso), as perdas são “irreparáveis” e podemos “perder uma geração”. Porque eu vou guardando todos estes malabarismos para, em devido tempo, sugerir que os freiristas e/ou futuristas de aviário se encham de alcatrão e penas quando voltarem a meter a cabecinha de fora, em nova vaga de parlapatice, sancionada pelo secretário costa e os seus apóstolos.

Uma Verdadeira Pedagogia Da Autonomia…

… dificilmente se satisfaria com a validação de práticas de servidão burocrático-administrativa ou com uma lógica em que o professor é considerado um irresponsável se não registar tudo o que fez e não fez, com a devida fundamentação em duplicado ou triplicado, em grelha, tabela, plataforma ou questionário, para posterior análise e eventual puxão de orelhas porque falhou aqui um ponto final ou ali ficou um verbo que parece mal à cartilha da “autonomia”. Parece-me de uma imensa hipocrisia, sabendo que me repito, mas apetece-me repetir, porque é coisa que dura e perdura, que quem ande com certas retóricas emancipatórias e inclusivas sempre a cair-lhe do beiço, deveria ter o decoro de não estar sempre a fazer descarado negócio em modo de “formações” reaquecidas em banho-maria das sebentas de outrora, ou que esteja na primeira linha dos que querem amarrar toda a gente a uma concepção do professor como funcionário subordinado e temeroso em relação a qualquer desvio ao padrão dominante.

Já agora, também tenho direito a citação freirista, mas sincera, porque eu até o li, mesmo quando discordava da parte demasiado devedora ao contexto das sociedades pós-coloniais de desenvolvimento muito desigual.

Que podem pensar alunos sérios de um professor que, há dois semestres, falava com quase ardor sobre a necessidade da luta pela autonomia das classes populares e hoje, dizendo que não mudou,
faz o discurso pragmático contra os sonhos e pratica a transferência de saber do professor para o aluno?! Que dizer da professora que, de esquerda ontem, defendia a formação da classe trabalhadora e que, pragmática hoje, se satisfaz, curvada ao fatalismo neoliberal, com o puro treinamento do operário, insistindo, porém, que é progressista?

Pelo Público

(…) E percebe-se que, para além de a pandemia nos ter revelado que o modelo de ensino presencial tradicional ainda é o melhor, também nos está a dizer que o modelo pedagógico do professor no alto do palanque, o mais longe possível de alunos que mal se relacionam entre si, é a realidade das escolas do século XXI. O que não é verdade. Mesmo se parece ser o mais adequado para que exista o tal ilusório “baixo risco de exposição”.

Este Mês, No JL/Educação

Quem previu este século XXI?

Um terreno muito fértil para a produção ensaística ou meramente especulativa na área da “Ciências da Educação” desde as últimas décadas do século XX foi o da previsão e prospectiva sobre o que seria a Educação neste século XXI. Apesar das diferenças de detalhe entre as visões em competição, há que destacar dois aspectos nucleares: o primeiro, que a Educação “do futuro” seria marcada pela ascensão dos meios tecnológicos (algo que foi crescendo com a aceleração e aumento das capacidades de armazenamento e tratamento da informação pelos equipamentos digitais); o segundo, que ninguém foi capaz de antecipar uma situação como a que estamos concretamente a viver. Cada vez que leio, em volume dos últimos 30 anos, a palavra “desafio” tenho quase a certeza de poder passar adiante as páginas seguintes, pois o mais certo é ser de razoável inutilidade para os desafios que efectivamente enfrento no meu quotidiano docente.

É mais seguro recuperar leituras juvenis de ficção científica (para questões de ambientes digitais de aprendizagem o Ender’s Game/O Jogo Final de Orson Scott Card é uma boa opção), ou thrillers mais recentes de autores injustamente afastados do cânone ocidental (ocorre-me Stephen King e o seu The Stand ou mesmo o menos óbvio Under the Dome/Sob a Cúpula) para compreender melhor o comportamento humano sob pressão, em especial em situações de confinamento forçado.

Ao virar do milénio, um dos principais autores que teorizou sobre a evolução da Educação no século XXI, enquanto “idade da insegurança” foi Andy Hargreaves mas, como outros como Michael Apple, Michael Fullan, Larry Cuban ou Diane Ravitch (em Portugal, Licínio Lima e João Barroso, entre outros), as suas preocupações prendiam-se principalmente com o crescendo das ideologias economicistas, de desregulação e privatização, do sistema de ensino, das escolas e das condições de trabalho. Encarava-se com receio essa dimensão das reformas, pois a desejada “mudança” poderia trazer uma desarticulação da própria escola (cf  P. Perrenoud, Aprender a negociar a mudança em educação. Porto: Asa, 2004, p. 137). Hargreaves desconfiava especialmente de uma deriva pós-moderna que abraçava os princípios de um neoliberalismo que passava a encarar a Educação apenas como mais uma mercadoria de onde extrair lucro.

«Uma das consequências destes desenvolvimentos pós-modernos tem sido um conjunto de assaltos ao profissionalismo nas Universidade, na Medicina, no Ensino e não só. Os princípios do mercado foram abraçados de forma tão forte por muitos governos que as escolas (como muitas outras instituições públicas) foram racionalizadas, objeto de cortes, tornadas economicamente mais eficientes, menos pesadas fiscalmente e colocadas em competição umas contra as outras» (Andy Hargreaves, “Four Ages of Professionalism and Professional Learning”, Teachers and Teaching: History and Practice, Vol. 6, No. 2, 2000, p. 168).

Essa fase já passámos, entre nós marcou boa parte das últimas duas décadas e foi transversal a governos de orientação política diversa, não trazendo mais do que uma lógica de alegada “racionalidade económica” a uma realidade que deveria obedecer a outro tipo de lógica, Curiosamente, foi implementada por governantes que em muitos momentos se afirmaram seguidores das teses críticas que, na sua prática política, contrariaram de modo bem evidente. Agravando desigualdades e provocando uma fortíssima erosão dos mecanismos de coesão do sistema educativo, apesar da apresentação de indicadores de sucesso com uma evolução muito favorável (seja da queda do abandono escolar, seja de resultados nos testes PISA). O sistema evoluiu, aparentemente “melhorou”, mas a sua tessitura sofreu muito com isso à medida que o século XXI avançou e a “narrativa” se deslocou para temas como a “flexibilidade”, a “autonomia” e a “inclusão” quando muito ainda há por fazer a um nível mais básico.

Os alunos que deixaram de surgir nas estatísticas do abandono ou mesmo do insucesso foram capacitados para novos ambientes de aprendizagem? As suas famílias passaram a viver em condições materialmente menos vulneráveis ou precárias? As respostas, duras, incómodas, não se compadecem com proclamações muito “positivas” ou as retóricas demagógicas que a pandemia desmentiu à saciedade. Enquanto tínhamos grupos de “especialistas” a discutir as melhores plataformas a usar no tele-ensino, tínhamos 20-25% dos alunos sem qualquer possibilidade de o acompanhar. Talvez uma proporção semelhante à do abandono há uns anos. Passaram a estar “dentro” da casa, mas numa divisão sem chão de soalho firme.

Os “desafios” que enfrentamos ao finalizar 2020, passam por questões que em pouco diferem das que enfrentaram as sociedades humanas em outras épocas, mesmo no caso da Educação. O problema do “acesso” é porventura o principal. Porque as desigualdades continuam entre aqueles que podem aceder à Educação ou não; se é verdade que agora a larga maioria pode aceder às “escolarização”, isso não significa exactamente o mesmo para todos. No século XIX e início do século XX (em Portugal até bem mais tarde), o problema era resolver o simples acesso à frequência escolar; em seguida, conseguir que todos os que acediam ao sistema fossem tratados com justiça e equidade na avaliação das suas capacidades, não deixando ninguém para trás; mais tarde, o acesso à possibilidade de prolongar os estudos e obter qualificações que permitissem um capital essencial para uma melhor inserção no mercado de trabalho.- Sempre existiram problemas de “acesso”, ou seja, de generalização, de democratização da Educação. Quase sempre medidos por indicadores quantitativos e nem sempre seduzidos por uma aferição da qualidade.

Como agora, em que o grande “desafio” é garantir que todos têm acesso a meios para desenvolver um modelo de ensino que seja obrigado a recorrer a ambientes mistos ou não-presenciais. Porque podemos ter teses muito interessantes, ferramentas fascinantes, mas se apenas as conseguimos colocar ao serviço de alguns, apenas reproduzimos um modelo de crescentes desigualdades, neste caso agravadas com o crescente digital gap ou digital divide que é possível verificar não apenas entre países ricos e pobres, mas mesmo nas sociedades mais avançadas entre os que têm tudo ou muito e os que pouco ou nada conseguem ter. Ou mesmo entre os que até têm alguma coisa, mas a quem falta a literacia essencial para explorar os recursos disponíveis. Será que uma das principais forças que Hargreaves atribuía em 2020 à deriva pós-moderna na Educação não veio apenas reforçar mecanismos de falsa inclusão? A «revolução digital e electrónica nas comunicações, levando à disponibilidade instantânea, globalizada, da informação e entretenimento» que «conquistou a geografia, comprimindo espaço e tempo» (Hargreaves, 2000, p. 167) vai além da mera “óptica do utilizador” passivo, que não tem meios de se apropriar da tecnologia como algo transformador e emancipador da sua condição? 

A realidade do período E@D (ensino a distância) nas escolas portuguesas revelou como as projecções de uma Educação no século XXI dominada pela tecnologia, pela Inteligência Artificial, por uma pseudo-flexibilidade permitida pelos meios digitais está bem longe de ser uma realidade viável. Após alguns meses de excitação imensa, seguiu-se a depressão pós-E@D. Afinal, ainda é cedo, ainda é prematuro, o “novo paradigma” está longe de o ser e o anúncio sucessivo da sua inevitabilidade tem sido claramente excessivo.

Este século XXI não tem seguido o guião que muitos traçaram. Em Portugal, sociedade que permanece muito desigual e crescentemente precarizada, os arautos de uma nova modernidade revelaram-se demasiado optimistas, para não qualificar certas proclamações de modo mais duro. Progredimos muito em termos de “indicadores”, mas continuamos a padecer daquele estado de representação da realidade que Eduardo Lourenço e José Gil tão magistralmente caracterizaram. Confundimos desejo e realidade, praticando uma variante de pensamento mágico acerca da “mudança” potencial. Há uma “construção política da Educação”, para retomar uma tese desenvolvida por Bruce Fuller e Richard Robinson (The Political Construction of Education: The State, School Expansion, and Economic Change. New Ork: Praeger, 1992)

Se há algo que a Educação em situação de emergência pandémica nos ensinou é que este século XXI ninguém previu e que vai sendo tempo de se reverem dogmas e se enfrentar a realidade tal como ela é e não como a propaganda a anuncia.

É Um Bom Dia Na Aula De HGP…

… quando se começa a explicar o que é a Cronologia e numa turma de 5º ano há quem saiba a história de Cronos, quem perceba e coloque questões sensatas sobre a diferença enorme entre a escala do tempo geológico e do tempo humano, quem tenha ouvido já falar do hipotético planeta Theia e do seu impacto na Terra e quem queira perceber porque e como surgiram métodos diferentes de contagem do tempo ao longo do dito e através das sociedades humanas. Há quem coloque o ónus do “princípio activo” do ensino e aprendizagem quase sempre nos professores, mas a verdade é que quando parte dos alunos e do seu interesse é que funciona na plenitude. Um@ professor@ pode fazer as maiores piruetas que sem essa motivação para compreender e conhecer por parte dos alunos, será sempre um esforço pouco glorioso. Assim, dá um enorme gozo passar aulas, lixando-me para qualquer planificação à moda das grelhas do século XX, a visitar e discutir em diálogo (no verdadeiro sentido do termo, na sua forma mais primordial) porque houve quem preferisse contar o tempo de forma mais imediata pelos movimentos Lua e quem optasse pelos do Sol e das estações, como foi evoluindo o registo das unidades de tempo e porque usamos estas, aqui, e não outras.

Ainda há dias assim. Ou, pelo menos, aulas assim.

(estive quase para dizer ao aluno que me fez revisitar a descendência de Úrano e Gaia, as origens dos Titãs e como Cronos foi uma espécie de Édipo original e o primeiro de uma longa série de seres atormentados na mitologia clássica, que não o denunciaria ao SE Costa por revelar um nível “enciclopédico” de conhecimentos…)