2ª Feira

Resta saber se esta semana, porque tudo está bem e vai ficar bem, pois tudo está preparado, a maioria vai continuar como se nada tivesse de ser repensado a sério. Ou se os do costume (não falo apenas dos decisores de topo, mas muita gente com que nos cruzamos no quotidiano) continuam a passear a sua irresponsabilidade.

Magia

Porque @s professor@s não se mexem do seu lugar, bem longe de todo e qualquer aluno. Nem recolhem fichas e outros materiais (mesmo que os deixe em quarentena no cacifo). Nem nada. A começar por quem passa 12 horas por semana (como é o meu caso) com uma turma.

Os professores são considerados contactos de baixo risco de exposição.

Pelo Educare

Umas das “novidades” no arranque deste ano lectivo foi a “teoria das bolhas”, importada de outras paragens de forma muito pouco crítica e que tem sido apresentada como se fosse uma estratégia eficaz para a segurança dos alunos nas escolas e, por extensão, da reabertura das escolas e das aulas presenciais.

(…)

Há escolas que, em virtude de terem menos alunos ou terem sido intervencionadas pela Parque Escolar e disporem de equipamentos mais adequados, conseguiram criar ambientes seguros para os alunos, com condições próximas das ideais. Mas essa não é a realidade da maioria, que me desculpem os optimistas do “tudo vai acabar bem” com tapetes de arco-íris à porta de casa.

Que a “teoria das bolhas” sirva a “narrativa” política não me admira. Que um “ministro cientista” a apresente como válida é que me impressiona um pouco. Apenas um pouco. Porque já me habituei a quase tudo.

Os Limites Do Pensamento Mágico Acerca Das “Bolhas”

No passado, num par de situações mais complicadas em que a minha intervenção no decorrer/resolver de uma situação não era possível, terei entrado pelo que uns chamam crença na sorte, esperança no acaso, Fé. Aquilo que podemos considerar “pensamento mágico”, ou seja, tudo vai acabar bem ou porque achamos que somos bons e não merecemos tão má sorte ou porque não temos maneira de controlar o que se passa e acreditamos que com a força de vontade a realidade poderá aceder aos nossos desejos. Tirando um caso (a confirmar junto do Vaticano ou da Autoridade Internacional para as Leis do Acaso) , a coisa nunca funcionou e duvido sempre que funcione.

E estamos a viver em cima de uma crença irracional em que tudo vai correr bem, porque se acha que até estamos a fazer as coisas da forma correcta e o melhor possível e que… “risco existe sempre”.

Não é bem assim.

Há muita coisa a ser mal feita, a começar pela inépcia de um discurso político que muda conforme os dias da semana, as horas do dia e o público-alvo, enquanto se vende “segurança” e se pretende “confiança”.

No concreto, conheço melhor o que se passa nas escolas, os tais espaços de alegado mínimo risco, no qual trajectos diferenciados irão assegurar que as “bolhas” se mantenham quase estanques e (quase) imunes a contágios. O problema maior, para além da impossibilidade do pensamento mágico funcionar a uma escala tão global, é que a teorias das “bolhas” é uma enorme mistificação e a sua fundamentação profundamente falacciosa. Todos os dias, cada “bolha” (de docentes, de pessoal não docente, de alunos) se reconstitui a partir de dezenas ou centenas de outras “bolhas” exteriores às escolas, sobre as quais pouco ou nada se sabe. E as “bolhas” também aumentam dia a dia, com a entrada de novos elementos (sim, as turmas começam a aproximar-se ou a ultrapassar os limites máximos “legais”, mesmo em contexto de pandemia). E cruzam-se em espaços que são comuns, por muito que digam que o não são, em particular em escolas onde continuam a existir muitos equipamentos partilhados por quase toda a gente.

Não pode ser de outra forma?

Em parte, talvez seja verdade, mas nem tudo tem sido devidamente prevenido ou, pelo menos, tem sido pensado olhando de cima e raramente do piso térreo do corredor ou do pátio das escolas. Há muita asneira mal disfarçada, muito equívoco “conceptual” (a começar pela “teoria das bolhas”) e muita crença em arco-íris resplandecentes. Tem sido feito “o melhor possível” e “sempre que possível”? Não chega. Já não está a chegar. Não vai chegar. Não ´é alarmismo. É apenas o conhecimento directo das coisas, tal como elas são. Tomara eu que não fosse assim. Mas está a ser.

Há quem esteja muito pior? Acredito, mas o argumento da mediocridade como benchmarking é muito débil.

E começo a ficar farto daqueles tapetes do ikea…

(e é tão interessante ver colégios “de topo” a ignorar por completo nos seus sites o que se passa, preferindo os “contactos pessoais”  – não presenciais, claro – para comunicar as ordens de marcha para casa…)

Bolhas De Sabão

De que adianta andarmos a explicar tudo o mais alguma coisa, se basta olhar para fora e ver o que se passa além portões? Se o civismo já teve dias e foram poucos? Hoje, até passar comida pela vedação, máscara descaída, vi uma mamã entregar. Nas escolas dos maiores, é como se fosse manhã/tarde de rave. Se tudo pode acabar bem? Depende. Só espero que a má sorte não seja cega.

Ter Ou Não Ter Medo, É Essa A Questão?

Não me parece que o “medo” do vírus seja o medo que mais tolhe a sociedade neste momento, a sério que não. Por estranho que pareça, acho que o maior medo é o dos governantes (e alguns outros políticos) de ficarem expostos às consequências dos seus erros de avaliação, entre o cálculo político e aquilo que deve ser feito, independentemente de ganhos/perdas nas eleições. Há quem chute para o lado (Rui Rio a querer “deslocalizar” o Tribunal Constitucional é daquelas questões típicas de quem está para além de Plutão) e há quem venda o “medo” da paragem da economia.

E se querem que vos diga . em especial aos teorizadores do “medo do vírus” – que o discurso do “medo da economia parar” tem sido uma narrativa bem mais poderosa e espalhada de forma deliberada. Aliás, o grande problema é o efeito dessa narrativa nas pessoas (e até o notei nos alunos, no fim do ano lectivo passado) que passam a ter mais medo (bem real) de perderem o emprego, rendimentos, a sua estabilidade profissional e financeira do que medo de serem contagiados, em especial quando se sentem num grupo de baixo risco. E passam a esquecer que não é só o “eu” que está em causa.

Não me sinto particularmente receoso de contrair o vírus. Mas receio ser agente da sua transmissão, mesmo se não frequento lares de idosos, onde os seus efeitos da covid-19 são mais devastadores. Mas percebo que há quem não pense assim.

“É pá, em seis meses morreram menos de 2000 pessoas, quase tudo velhos, é assim tão grave?” é o subtexto inicial que desagua no discurso do “medo da economia parar”. O “risco” de morrerem mais umas centenas de velhotes é considerado aceitável perante as imposições da economia que não pode parar.

Claro, os “especialistas” dirão que sem a economia funcionar todos ficaremos sem emprego e tudo irá à falência e esse é um fortíssimo “discurso de medo”, mas o curioso é que há tanto nas ciências ocultas da economia que não passa de uma representação estatística da realidade. Mas é com esse discurso que se diz que 1) todos temos de ir trabalhar; 2) as escolas não podem fechar para todos irem trabalhar; 3) o risco de transmissão entre crianças e jovens é muito baixo; 4) o “risco” de morbilidade é baixo para a maioria da população, mesmo contagiada.

E eu acho que é verdade… que há efectivamente um “discurso do medo” em torno do SARS-CoV-2, mas é o “medo da economia parar” apoiado em algumas falácias e muita “ciência” económica. O meu carro quando pára, pára, não pára 10% ou mesmo 15%. Nesse caso, desacelera e nem sempre é por más razões. Pode ser para evitar um acidente.

A analogia pode não ser a melhor, mas penso que dá para perceber que o discurso do medo mais actuante há longas semanas é o do medo económico, o do medo do desemprego, da perda de direitos laborais. Um medo que se afirma só ser possível combater indo trabalhar, deixando os filhos na escola e cruzando os dedos com os avós nos lares. Indo trabalhar, nem sempre com as condições adequadas de segurança e a informação completa sobre o que pode acontecer depois, especialmente em ambientes onde passou a dominar a crença do “tudo vai acabar bem”, eu vou escapar.

Sim, existe um fortíssimo “discurso do medo”. Que não tolhe os movimentos, mas qualquer contestação, que é apresentada como “irrealista”. E não é em primeiro lugar contra os críticos do uso da máscara, porque esses também apostam no medo desse mesmo uso, das suas consequências sanitárias, sociais e políticas.  

A estes discursos do medo juntam outros “medos” mais ou menos artificiais em torno do “estado mental” das crianças ou adultos que usem a máscara durante muito tempo. Esquecendo-se que em muitas partes do mundo o seu uso já é obrigatório por causa da poluição atmosférica.

Do outro lado, apontam-se os “traumas” de quem não possam sair de dia todos os dias e socializar. E eu lembro-me do que era crescer em tempos durante os quais havia um ou dois canais de televisão, net nem imaginá-la e sair de casa para passear era evento semanal ou mensal para a maioria das famílias. Será por isso, que agora temos por aí tanta gente traumatizada por ficar uns meses com “socialização limitada”? Que raio de “resiliência” tem quem não aguenta uns meses de mobilidade e sociabilidade presencial reduzida?

Repito-me… o “discurso do medo” está aí e em força, Mas não é o “medo do vírus” e, curiosamente, acho que muitos “negacionistas” estão a ler a situação toda pelo lado errado. A máscara e o distanciamento não são estratégias de “medo”, mas, ao contrário, de transmissão de uma sensação de segurança. Para que todos possam manter a economia a funcionar.

A questão sanitária tornou-se subsidiária da económica e política. O medo dos políticos serem descobertos na sua pequenez calculista, motiva o discurso do medo económico que se sobrepõe ao medo de qualquer contágio pelo vírus. E esse discurso vai-se entranhando e cada vez se nota mais nas reacções quotidianas das pessoas.

O número de óbitos por covid-19 passou a ser relativizado tanto pelos que acham que não é verdadeiro, como pelos que acham que é um sacrifício aceitável perante as “consequências devastadoras da paragem da economia”. Para mais, até parece que quase só morrem os velhos, não é?

 

E Agora, Para Algo Completamente, Absolutamente…

… verdadeiramente de rir até cair, há a regra de não permitir grupos superiores a 4 pessoas em estabelecimentos a menos de 300 metros das escolas. Não percebi se é só no interior dos estabelecimentos e eventuais esplanadas, se inclui esquinas próximas ou mesmo ali defronte dos portões das escolas. E que distância se considera para definir as fronteiras entre “grupos” e considerar se o “ajuntamento” à saída da escola é grande ou se é um conjunto de pequenos “ajuntamentos”.

Isto faz-me lembrar os meus tempos de aluno em que era proibida a existência deste tipo de estabelecimentos a menos de 500 metros das escolas, a menos que já lá estivessem antes. Ou abrissem depois. Tanto dava. Depois era proibido que menores lá entrassem, a menos que quisessem e dissessem que tinham mais de 18 anos. Ali na “minha” Secundária da Moita, abriu um café mesmo colado com o muro da escola e entrava lá quem queria.

Agora… gostava de saber como esta regra será colocada em prática, quem a vai fiscalizar e quais os “castigos” para quem prevaricar. Porque isto é tudo um enorme fingimento. E quer-me parecer que, na melhor das melhores hipóteses, iremos ter ajuntamentos de 4 em 4, com ou sem mesas, nos passeios ou mesmo em redor de carros estacionados porque, vamos ser claros, não vão existir meios para fazer cumprir esta regra, logo ali junto ao portão da maioria das escolas.

Com A Champions E O Jesus A Arrasarem, Fica Tudo Bêêêêêm

Não estraguem o cenário ao costismo-marcelismo. Coloquem lençóis com arco-íris nas varandas e façam muita meditação que verão que tudo isto não passa de um sonho mau que, numa perspectiva cósmico-holística é um mero blip no radar da Criação.

Covid-19: perspectivas para o Outono

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(e quem morrer já nem se queixa…)