Pensamentos Do Desconfinamento – 2

Eu nem sei como o povo do bronze vai poder viver se não puder ir à praia como é seu direito constitucionalíssimo. E o desgosto que por aí deve andar com a necessidade de se ficar a uma distância socialmente incompatível com a exibição da esbeltura fit mantida a muito custo mesmo em confinamento. Se repararem há mais debate e polémica sobre a abertura das praias do que sobre a das escolas. Porque há que atender à sensibilidade de quem sente a injustiça de não poder partilhar as selfies do areal em liberdade.

Calimero

As Coisas Que Descubro Sobre Mim Nas Redes Sociais

Em discussão/polémica absolutamente desnecessária e ridícula a propósito de uma publicação numa “rede social”, de alguém que é meu amigo mas que coloca o que escreve sempre “público”, pelo que é comentável por qualquer um@, descobri que há pessoas importantes no mundinho político-académico deste país que acham que eu tenho “responsabilidades acrescidas” pois tenho presença relevante no “espaço público” ou, em outro termos “relevância pública”, que influencio a opinião de milhares de pessoas e até me tratam por “historiador”. Tudo isto (e mais) que poderia ser encarado como um interessante (mesmo se despropositado) conjunto de elogios (?) vem de quem em momento algum acho que essa minha “relevância” ou “responsabilidade acrescida” devesse ser tida em conta para uma série de questões sobre as quais escrevo. Ou seja, tenho “medalhas” de duvidoso mérito só quando é para me mandarem calar, não insinuar o que não possa provar imediatamente e, no fundo, ficar amestradinho senão ainda é capaz de me cair uma queixa qualquer por “difamação” ou “calúnia” porque isso é uma opinião sem factos.

Quando interessava mesmo, o que escrevi foi irrelevante. Quando lhes tocou a beira dos fundilhos, já é tudo muito “relevante”. Eu sei que sou volumoso como alvo, mas esta malta tem tendência para atirar para sítios onde não estou.

Não vou aqui reproduzir a longa resposta, que espero ser a última a esse respeito, que dei ao grupinho de pessoas que se armou em detentor da ética e da seriedade, mas que eu não me lembro de ter visto em tantos momentos em que ela foi necessária, tendo quantas vezes ficado solteira a razão dos que, como eu, protestaram contra situações de gritante abuso. Quando estas figuras optaram por estar do outro lado ou apenas fingir que não existiam. Nem a isso eram obrigadas, claro, que não era no seu lombo que as coisas caíam.

Apenas vou repetir algo muito simples: em termos pessoais, os meus encontros com a Justiça não foram traumáticos e correram de acordo com a verdade, mas isso não significa que eu considere que o Estado de Direito seja respeitado entre nós de uma forma transparente e completa ou que em muitos processos que por aí correm ou correram tenhamos ficado a conhecer a verdade dos factos ou, tendo-a conhecido, ela tenha sido considerada para efeitos de prova.

Se há quem se amofine com tão pouco é porque a hipersensibilidade aos fenos chegou antes da época certa.

Se valeria a pena estar aqui a nomear pessoas? Talvez, mas não me apetece porque, afinal, são residuais nas minhas preocupações e apenas serviram para perceber que as conversas públicas em “redes sociais” são apenas para as pessoas certas, sérias, éticas e tudo isso. Eu tenho demasiadas “responsabilidades acrescidas”.

bullshit-detector

(defendo a liberdade de opinião, mesmo aquela que se baseia no essencial na emoção e na amizade… não me digam é que se trata de outra coisa)

 

Rui, O Problema Maior Foi Aquele Da “Não-Indignação”

No resto, podes ter carradas de razão e experiência, mas optaste por uma variante do discurso oficial e relativista sobre o fenómeno. O “belo pensamento” é interessante em tertúlias, mas parece de uma enorme insensibilidade quanto tens pessoas agredidas. E acredita que deste importância ao que foi dito sobre as tuas intervenções. Todos damos. Caso contrário, não terias escrito o texto abaixo. E não gostaste do que foi escrito, por vezes com escassa elegância, concordo. Mas… sabes bem que quiseste ficar bem com Deus e o Diabo. Foi a pior opção… isso e a forma como negaste aos professores o direito a indignarem-se com o que os alunos lhes digam ou façam. Deste a sensação de, independentemente do teu passado, teres passado a viver mentalmente na tal bolha. A bolha de “professor do ano”.

“O facto de nunca ter mandado um aluno para a rua não significa que viva numa bolha de inocência fofa”

Algodao

A Ler

Posso discordar do António Duarte em muita coisa, mas acho que a forma como foi tratado (e por arrasto, todos aqueles que discordam da actual vulgata do Poder Inclusivo) pelo David Rodrigues no fbook não se justifica. O António nomeou com clareza aquilo e aqueles de que(m) discorda e merecia o mesmo. Foi corajoso, mas não lhe responderam na mesma moeda aqueles que confundem a glória do momento com a eternidade. E não deixa de ser curioso que tanto o António, como o Luís Braga e eu sejamos de História e não tenhamos pachorra para este tipo de arrogância.

Um professor “rasteiro” se confessa

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(e depois há por lá umas criaturas comentadoras com traumas profundos contra os blogues, como se o fbook fosse o supra-sumo da erudição em batata doce… realmente, é só darem-lhe um pouco de corda e querem logo linchar quem desalinhe…)

A Ler… Contra A Intolerância “Inclusiva”

Começa a cansar uma certa arrogância que é quase inevitável quando a proximidade do poder inebria e não se sabe exactamente onde fica a linha que separa o debate de outra coisa. Pessoalmente, acho que parte da “elite inclusiva” que por aí anda faz passar por investigação em forma de tese o que, em bons tempos, seriam case-studies que dariam um pequeno artigo de revista. E acho estranho que a defesa contra o que se considerou ser um ataque do António Duarte se tenha transformado num chorrilho de ofensas directas aos professores portugueses que não adiram ao Modelo Único de Inclusão.

Já agora, parte do pessoal que apareceu a ofender, nem sabia ainda o que era dar uma aula quando foi aprovado o “velho” 319, que os coevos tiveram de aplicar das formas mais criativas que conseguiram, sem ter de ser formatados e doutrinados pela acima referida “elite” iluminada.

Sem A Catequese Devida, Andais Todos A Entreter Meninos!

exclama

O Horror À Falácia

Já cheguei à página 51 do livro de João Costa e João Couvaneiro, mais uma em que se não se cumprem as pretensas boas intenções enunciadas antes (pp 18-19) sobre a moderação do discurso adoptado.

Esta página corresponde ao início do capítulo em que se pretende ridicularizar – nunca nomeando de forma clara, para evitar o confronto transparente – quem alegadamente considera ser da ordem do “horror ao conhecimento” a postura de alguns pedagogos que insistem na prioridade das competências, algo que é mais do que evidente nos documentos orientadores (Perfil do Aluno, Aprendizagens Essenciais, etc) produzidos durante este mandato na área da Educação.

Citemos, com a devida imagem:

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Em matéria de argumentações intelectualmente pouco sérias, procurando iludir o debate com o ruído de proclamações arreigadas em slogans, o que dizer da seguinte, produzida por alguém que diz ter uma postura “equilibrada”, na tal entrevista em que considerou que também falou da menoridade dos “conhecimentos enciclopédicos” (algo que seria profusamente glosado nos dias e semanas seguintes pelos discípulos do novo tempo educacional):

Nas escolas, os alunos estão a viver rotinas de “memorizo informação, despejo no dia do teste e, a seguir, esqueço”. E isto significa que há aprendizagens que não se estão a consolidar.

Mas pronto, vamos tentar perceber ao que se referirão aos autores ou a quem. Coloco-me fora da contenda, pois sou soldado raso. Sei que há dois ou três autores que, ao longo dos anos, têm um discurso muito crítico da abordagem das “competências” e da forma como o conhecimento é menorizado nesta tendência pedagógica. Uma pesquisa breve devolve-me um artigo conjunto de dois deles (Carlos Fiolhais e Guilherme Valente) com o título de “O horror aos melhores ou a inutilidade da escola”. Mas… é de 26 de Abril de 2001, como reacção à primeira investida deste tipo de pedagogia das competências e transversalidades, que ficou conhecida como ” Gestão Flexível do Currículo”. Porque é importante que se perceba que este pseudo-debate tem vinte anos e João Costa e João Couvaneiro chegam muito atrasados a algo que tem História. Não sei se a desconhecem ou se apenas fazem por ignorar.

Curiosamente, nos tempos recentes, essa é uma expressão de que o google não nos devolve referências, muito muito em relação aos debates ligados à promoção das competências como uma espécie de fase superior do desempenho dos alunos. Nem sequer nos devolve nada relativo ao anterior ministro Nuno Crato. Ou seja, não sabemos bem sobre o que ou quem estão a falar os autores, em especial quando recorrem a tal expressão, pelo que seria mais claro que evitassem, como prometerem nas primeiras páginas, a caricatura e o simplismo das posições que identificam como adversas. Sim, a mim não horroriza tal expressão, mas, como disse, não estou ao nível dos autores na elevação intelectual e argumentativa com que tratam estas questões.

Mas… posso sempre recorrer ao único autor que julgo “incontroverso”, avesso ao “óbvio” e que escreveu sobre o “horror de conhecer”.

Por que pois buscar
Sistemas vãos de vãs filosofias,
Religiões, seitas, [voz de pensadores],
Se o erro é condição da nossa vida,
A única certeza da existência?
Assim cheguei a isto: tudo é erro,
Da verdade há apenas uma idéia
A qual não corresponde realidade.
Crer é morrer; pensar é duvidar;
A crença é o sono e o sonho do intelecto
Cansado, exausto, que a sonhar obtém
Efeitos lúcidos do engano fácil
Que antepôs a si mesmo, mais sentido,
Mais [visto] que o usual do seu pensar.  
A fé é isto: o pensamento
A querer enganar-se eternamente
Fraco no engano, [e assim] no desengano; 
Quer na ilusão, quer na desilusão.

Retiremos e guardemos para pensar e repensar que “A fé é isto; o pensamento a querer enganar-se eternamente”.

Pela Escócia

Recomendações, mais do que despachos.

SUPPORTING TRANSGENDER YOUNG PEOPLE: GUIDANCE FOR SCHOOLS IN SCOTLAND

(…)

Good practice

  • If a transgender young person is concerned about the changing facilities, listen to what they are saying. It may be possible to let them change separately/privately. Schools could put up modesty curtains in changing areas. Many young people at school would appreciate that.
  • If a transgender young person asks to go to the toilet during class time, it is likely to be because the toilets are quiet then, and they feel safer. Although not ideal, it is better to allow this, otherwise the young person might not go at all.
  • If other young people, or their parent(s)/carer(s), express concerns about sharing toilets or changing rooms with a transgender young person, it can be because they think that the trans young person will behave inappropriately. In this instance, schools should dispel any misconceptions: a trans young person’s presence does not constitute inappropriate behaviour.
  • If a learner feels uncomfortable sharing facilities with a transgender young person, they can be allowed to use a private facility such as an accessible toilet, or to get changed after the trans young person is done. A transgender young person should not be forced to use alternative facilities simply to make other young people feel more comfortable.
  • Toilet signs for gender neutral facilities should just say ‘Toilet’ and/or have a picture of a toilet.

Gender neutral

Pelos EUA

O debate acerca de casas de banho “neutrais” em termos de género já tem anos e suscitou polémica acesa com repercussões jurídicas em alguns estados mais conservadores. Há posições, carregadas de certezas de um lado e outro, que só inviabilizam uma discussão séria do tema, assim como legislar sem preparação ou discussão prévia (não contam certos debates em circuito fechado) é meio caminho andado para produzir “ruído” e não sei até que ponto não será em tempos pré-eleitorais, esse o objectivo de um despacho que pretende, mais do que ajudar os alunos transgénero, promover uma divisão em termos de “questões fracturantes”. Prescindiu-se da “pedagogia” e investiu-se no “choque legislativo”.

Mas voltemos aos EUA a alguns (entre muitos) textos interessantes:

School Bathroom Access for Transgender Students

Who’s Afraid of Gender-Neutral Bathrooms?

high school’s transgender bathroom policies violate the privacy of the rest of us

Transgender teens in schools with bathroom restrictions are at higher risk of sexual assault, study says

We Need Gender Neutral Bathrooms Everywhere

A High School Boy Just Sued Because He Has To Share Bathrooms With A Transgender Student

The lawsuit takes arguments used in the past by transgender students and flips them.

Supreme Court Leaves School’s Transgender Bathroom Policy In Place

Uma muito curiosa perspectiva da parte da arquitectura:

An Unexpected Ally of Gender-Neutral Restrooms: Building Codes

The 2018 International Plumbing Code will update signage requirements for single-user restrooms while some local jurisdictions are taking their own initiative to promote inclusiveness.

WC Neutral

Importa, Importa, Arlindo!

Mas se é verdade que não importa, porque se agarram tanto a ela?

O diretor que seria eleito por apresentação de plano de ação para a escola/agrupamento com votação dos coordenadores de departamento eleitos, a que se poderia acrescentar nessa eleição um parecer vinculativo do Conselho Geral que passaria a ter apenas funções de supervisão e aconselhamento. A votação dos coordenadores de departamento poderia ser representativa em função do número de docentes desse departamento.

A presidência do Conselho Pedagógico poderia ser feita de entre os coordenadores de departamento ou do diretor.

A dimensão pedagógica de uma escola passaria assim a distribuir pesos de poder entre todos os elementos e o diretor seria o interlocutor de todos os departamentos, ficando na sua dependência.

Todos, incluíndo o diretor, deveriam ter funções letivas com pelo menos uma turma, ou contacto com grupo de crianças ou alunos nos caso da Educação Pré-escolar e 1.º Ciclo, a determinar por um crédito de horas para estas funções. 

Com um modelo assim, pouco importa se a gestão é unipessoal ou não.

O Arlindo começa a esboçar, no fim, os alicerces do que deveriam ser propostas para melhorar a vida das escolas. Mas faz isso mesmo em modo de esboço (há ali passagens claramente a traço grosso, claramente com falta de sustentação perante críticas cirúrgicas ao que significam ao certo) e penso que sob pressão do desagrado perante a recuperação de uma lógica de divisão da carreira docente entre uma elite com escalões exclusivos e remunerações próprias e o resto dos zecos. Não lhe fica mal incluir algo que eu defendo desde sempre e que ontem recuperei num texto de 2008 (que todos numa escola devem ter funções lectivas), mas neste momento já sinto que o exercício se transformou num conjunto de piruetas sobre o “pecado original”. 

Esse pecado é o de querer ter uma carreira “funcional”, estanque e sobreposta ao resto, que não se percebe se poderá ser intermitente, com as pessoas a voltarem aos escalões de origem quando deixarem de exercer aqueles cargos, mas que, no essencial, considera que os dois escalões mais elevados devem ser para um grupo muito pequeno de generais e coronéis. Com o modelo de carreira proposto, para pouco mais de 800 agrupamentos, as Finanças ficariam descansadas porque nem 10% dos docentes acederiam, ao mesmo tempo, aos tais dois escalões do topo. Isso seria ainda menos do que o terço de titulares de MLR ou os poucos mais que, no regime actual, lá conseguirão chegar antes de se aposentarem.

As propostas do Arlindo têm o mérito de existir e poderem ser discutidas, mas padecem do mal de serem feitas a partir de uma perspectiva que não é a da generalidade dos professores, antes parecendo uma proposta inicial de um próximo governo de maioria PS, preocupado apenas com o SNS e largando os porfírios à classe docente. Parece uma proposta pensada a partir de “cima”, de quem quer dirigir as escolas em “grupo fechado”, mesmo que se apresente a possibilidade de eleição dos coordenadores de departamento.

É uma proposta que não explica se o Pedagógico passaria a ter elementos de 1ª (os coordenadores) e de 2ª (o resto), em termos de carreira. Por exemplo, um coordenador de directores de turma tem menos responsabilidades do que um coordenador de departamento? Como seria escolhido e por quanto tempo, já que as direcções de turma mudam quantas vezes de ano para ano? Teria direito a salto quântico na remuneração? E os coordenadores de estabelecimento dos mega-agrupamentos, alguns com escolas a seu cargo que são exactamente as que há 10 anos tinham directores ou conselhos directivos? A proposta é demasiado vaga e lacunar e o esperar por “sugestões” e “contributos” parece revelar ou que tarde se perceberam as falhas evidentes ou se querem encontrar formas de remendar um pano ruim.

Eu não gostaria de passar esta última semana de Junho apenas a contraditar o que penso ser uma proposta com demasiadas armadilhas e lacunas (o Arlindo diz que este terá sido o último texto, por agora, sobre o assunto), talvez feita de forma apressada e dificilmente susceptível de ser vista como “ensaio”, mesmo se o Arlindo foi explicando aos poucos a “tese” central… ou seja, de que as escolas devem ter não uma liderança formalmente colegial, mas um modelo como o actual, com reforço do papel dos coordenadores de departamento, elevados a um estatuto de excepção que me levanta tantas reservas quanto o que actualmente têm, por exemplo, os adjuntos na distribuição dos créditos horários.

É uma proposta que menoriza a possibilidade de compensar com menos horas lectivas esses coordenadores se, afinal, têm assim tanto trabalho (porque “visão estratégica” temos todos de ter, em diferentes escalas, com as nossas turmas). É uma proposta que se preocupa muito em demonstrar que não acarretaria mais encargos financeiros, como se essa devesse ser a grande preocupação. Parece querer dar algo aos “novos”, mas apenas numa perspectiva de curto prazo, amputando o horizonte de progressão, excepto para os que se tornem coordenadores. Por fim, parece-me uma proposta feita para quem está cansado do actual modelo de carreira que os entalou num escalão chato, mas que sabe que não pode propor, ou não quer por questões estratégicas, uma estrutura que desbloqueie os constrangimentos actuais.

Em suma, é uma proposta que, tirando um ou outro detalhe, dá logo à partida tudo o que um futuro governo com a matriz do actual quereria conseguir. Começando a “negociar” assim ainda se acabaria muito pior do que estamos agora. Excepto para alguns. Não me admiraria nada ver alguns directores ou as suas organizações a considerarem que a proposta é “interessante” e que representaria um “desafio”.

Napoleão Minion