Sábado

O problema não é se as “famílias” no governo ou gabinetes têm a mesma opinião. Se o marido ministro e a mulher chefe de outro gabinete concordam nas políticas. Se o primo da prima e o tio do sobrinho votam da mesma forma. Num governo isso é mais do que normal e basta ver a disciplina parlamentar para que se perceba que a castração das alternativas é uma realidade e pessoas que junca se viram até entrarem nas listas votam direitinhas que nem fusos quando lhes mandam. Há quem – como o actual PM – queira deslocar a conversa para aí. Mas esse não é o problema, nem se as “famílias” nos negócios, na banca ou na comunicação social são habituais.

A questão está na forma como uma curta elite política se fecha sobre si mesma, guarda para si tudo a que pode lançar mão e desertifica tudo em seu redor, agravando um enorme divórcio já existente com a “sociedade civil” sem cartão ou um conhecido, cunhado ou amigo mais ou menos distante numa posição que tenha direito a nomeações. Não é por acaso que um dos poucos refúgios de concurso para a administração pública com critérios objectivos – o velho concurso de professores – tem sido um dos alvos preferenciais de desregulação nos últimos 15 anos com pretextos do mais canhestro possível. Há coisas “extraordinárias” que mais não são do que portas de entrada para depois, lá “dentro”, se aceder a outros cargos e a posições permanentes. Endogamia e promiscuidade podem andar de mãos dadas. É um swing em ambiente fechado. Só que em circuito fechado quase sempre dá em degenerescência genética com o avançar das gerações.

Claro que existe a fase dois… aquela em que depois de se ter estado no sector público, com algum poder decisório se passa para o privado antes tutelado. Há rostos bem conhecidos desse tipo de “trajecto” de sucesso. Gente que aparece como sendo gurus de uma sociedade que andaram a falir com bastante dedicação. Os varas ou limas apanhados na rede são apenas os mais descaradamente gulosos ou os cordeiros sacrificiais para que o rebanho acredite que os lobos estão sob controle.

Como há ainda aquele género de nódoas ambulantes que, para pararem de causar danos, se promovem para posições muito melhor remuneradas, mas em que a falta de qualidade se nota menos ou fica abafada pela distância da terra. E que quando são inquiridos sobre toda a merda que fizeram ou deixaram fazer, de tão invertebrados ou incapazes que foram, atingiram a idade do útil esquecimento dos detalhes.

Mas voltando ao início… não se podendo embolsar agora favores de forma concentrada à escala de há 10-20-30 anos, há que disseminar os canais. É para isso que servem as famílias com um espírito cívico mais desenvolvido do que as outras.

Nada disto é novo?

Claro que não. Mas como as vacas emagreceram nos últimos tempos em matéria de “grandes negócios” (o do aeroporto é uma semi-excepção muito localizada onde já antes “caiu” a ponte) e verbas europeias, para alimentar as clientelas começou a exagerar-se acima da média no saque directo à arraia-miúda.

Escrever isto é “populismo”?

Não será antes maior e mais desavergonhado “populismo” andar a dizer que as famílias recebem mais isto e aquilo e que se repuseram rendimentos, quando se usam números truncados e relativos aos valores nominais pré-esbulho fiscal directo e indirecto, mais o das alcavalas em tudo o que é factura de serviços prestado em regime de oligopólio?

Goodfellas

(o pior mesmo é ter-se a sensação de a essência da democracia estar a ser destruída de alto a baixo na vida pública e no interior da generalidade das instituições sociais, com o reforço dos mecanismos da submissão e a ascensão do oportunismo)

A Conversa De Chacha Sobre O Populismo

Agora está por todo o lado. Qualquer bicho careta com assento, microfone e eventualmente câmara, perora sobre os malefícios do que chama “populismo”. E pelo mesmo caminho, toda uma catrefada de políticos de ocasião, embora alguns com idade e formação que os deveria obrigar a saber do que falam. E misturam tudo com “demagogia” e fake news numa salada que só serve para baralhar tudo.

Há duas escolas: os que dizem que todo o populismo é mau e depois há os que dizem que há populismo “mau” e populismo “bom” (criado para albergar especificamente o nosso PR). Qualquer das tendências fundamenta-se de forma muito deficiente e amiúde falacciosa os seus “conceitos” e pior ainda qualquer sustentação histórica.

Mas sobre isso hei-de escrever com mais tempo, talvez para reclamar o regresso da Introdução à Política ao currículo do Ensino Básico, que tanta falta parece fazer, em vez de Cidadanias transversais.

Por agora, apenas afirmar que se por “populismo” entendermos uma posição que visa obter um apoio popular entusiasmado em torno de uma causa, contra um dado “inimigo” ou desenvolver uma política que se deseja popular junto da opinião pública, podemos usar como exemplo maior aquela conhecida frase “perdi os professores mas ganhei a opinião pública” que vai continuando actual.

Mas concretizemos de outra forma… não será populista a retórica que repete até à náusea o seu pretenso “anti-corporativismo” e “a defesa do interesse nacional” sempre que se pretende negar os direitos de um dado grupo social ou profissional? Não será “populismo” ir fazer cataplanas para programas de manhã de grande audiência? Ou dançar de forma ridícula em cima de uma camioneta num qualquer Carnaval?

Porque o “populismo”, em si mesmo, não é mau. Depende do contexto, pois o que é “populista” entre os defensores do porte de armas no Texas pode não ser entre as comunidades atingidas por massacres escolares, em que “populista” será defender a limitação do uso de armas. O que é “populista” entre os fundamentalistas islâmicos pode ser muito diferente do que é populista entre as populações urbanas do México. E depende dos objectivos de quem lança mão do discurso populista. Se o faz para atacar minorias, grupos específicos, promover a exclusão e a xenofobia ou iludir a opinião pública com falsas afirmações ou se o faz, de forma transparente e honesta, apresentando obra efectivamente feita em prol da maioria da população.

Combater a pobreza não é “populista”?

Para mim é “populismo”, e nem sequer do bom, o “encavalitanço” de uma série de gente na “greve” de alunos de hoje, quando até ontem ninguém tinha praticamente falado dela entre nós ou dos seus objectivos.

E depois há os paradoxos irremediáveis em que pessoas que se entusiasmam muito com as manifestações de hoje, com jovens a protestar contra as alterações climáticas, mas depois criticam de forma ácida manifestações ou iniciativas de outros grupos de cidadãos.

Porque, na sua versão simplista e simplória actual, o “populismo” está para a política como o bicho-papão para as criancinhas ou o Ronaldo para o Atlético de Madrid.

Populismo

 

Mas Não Acusavam A ILC De Algo (Que Nem Era Tão Mau) Como Isto?

Professores em risco de não terem progressão nas carreiras em 2019

Se o Presidente vetar o decreto-lei ou o Parlamento o chumbar, o Governo apenas está obrigado a prosseguir negociações com os sindicatos. Sem limites, regras ou prazos.

(…)

“Ao contrário do que disseram, não alteraram coisa nenhuma. Os partidos parlamentares fizeram uma verdadeira rábula sobre a carreira dos professores”, afirmou o membro do Governo ouvido pelo PÚBLICO, garantindo: “O que foi aprovado não acrescenta nada, é igual ao que estava no Orçamento de 2018.”

(…)

Este membro do Governo vai mais longe na crítica que faz aos deputados, lembrando que depois do Orçamento do Estado aprovado, o Parlamento não pode aumentar a despesa pública. Logo, não pode agora aprovar legislação ou alterar o decreto-lei que o Governo, se essas medidas implicarem o aumento da despesa que está prevista para este fim no Orçamento de 2019.

“Quem diz querer que o Governo aceite os nove anos, quatro meses e dois dias, reforçou o Orçamento com as verbas necessárias? Ou só aprovou uma norma vazia para eleitor ver? Se não há mais dinheiro, como pode haver mais tempo recuperado?”, questiona o governante, concluindo: “Sem ter aumentado a verba dos vencimentos proposta pelo Governo, a Assembleia da República está impedida pela lei travão de ir além dos dois anos, nove meses e dezoito dias. Chumbar o decreto-lei do Governo significa retirar aos professores o que o Governo concedeu.”

(claro que o membro do governo que surge como “fonte anónima” não passa de alguém sem um pingo de vergonha ou coragem, ou então assumia a coisa, em vez de se refugiar no que acusam outros de fazer…)

Neutralização

De forma directa nesta última agitada década e de modo mais indirecto em tempos menos frenéticos, tive a possibilidade de verificar os processos de “sedução” do poder em relação aos que considera serem permeáveis à sua influência nas fileiras “adversárias” ou em zonas de fronteira. A metodologia é multicolorida e não exclusiva destes ou daqueles, apenas variando os meios ao dispor em dado momento para neutralizar oposições chatas, mas tipo esparguete.

O primeiro esforço é o do contacto e o da chamada para “conversas” ou “iniciativas” que envolvam os alvos em grupos mais alargados, assim quase que como quando as vaquinhas entram na arena para levar o touro para os curros.

Conversando… há diversas hipóteses e/ou fases do “diálogo”:

A garantia da importância da nossa opinião sobre os problemas em apreço e a elevada estima em que têm a nossa estimadíssima pessoa e o nosso saber específico.

A promessa de ouvirem todos os “contributos” e estarem “abertos” a todas as ideias, numa perspectiva de inclusão de diferentes perspectivas.

A promessa adicional de irem fazer algo na área que sabem ser do nosso interesse, pelo que nada melhor do que colaborarmos nesse “esforço conjunto” para “melhorar” a situação existente e que “como sabemos” precisa de “urgente mudança”.

A garantia de termos excelentes ideias, que é necessário “operacionalizar” e nada melhor do que formar-se um grupo para discutir o que pode ser feito, em forma de “estudo” ou coisa afim.

A aceitação daquilo que já pensavam fazer, mas dando a sensação que fomos nós a convencê-los da justeza imensa dessa posição particular.

A diluição progressiva, de forma mais ou menos subtil, de todas as propostas que nunca consideraram verdadeiramente úteis para a sua agenda, mas garantindo – mal se levante a questão – que “oportunamente” entrara na “nossa” agenda.

Em casos mais duros de ouvido – ou como forma de encurtar estas fases – adianta-se logo um convite para participar numa “formação”, dependendo depois as condições da retribuição pela colaboração. Mas isso será tema para outra prosa suave acerca da forma como as convicções se transformam em conveniências por um processo que eu diria quase inconsciente 🙂 .

O segredo, sempre, é não nos deixarmos agarrar pela gosma.

sereias

Os Dez Mil Milhões

Mas qual é o espanto? Não foi para isso que as cardonas&varas foram nomeados ao longo das décadas? E o tipo das declarações não deveria tapar tudo a contento em nome da opacidade geral? E o que está não vai resolver tudo aumentando as taxas sobre os que nada fizeram para este estado de coisas. Tivessem sido mais prudentes e nem saberíamos de nada, pois não teria sido necessário calar a polémica com uma bigorna. O engraçado é que até poderia ter o efeito contrário. Só que este tipo de leaks, quando é coisa séria, tende a ver o seu exclusivo comprado por um semanário de referência e, depois do “tratamento jornalístico”, o sumo desaparece quase todo ou vai dar ao sócrates&salgado.

money-bag

Mais com Menos

Um tipo podia fingir que não percebe que a lógica é a mesma. Fazer mais ou parecer que se faz mais com menos recursos. Uma especialidade inaugurada com os congelamentos e aulas de substituição na componente não lectiva, a minutagem do horário semanal, os controlos hierárquicos dos actos pedagógicos em nome da autonomia das chefias e da servidão dos zecos.

O mais cínico? Dizer que é tudo no interesse dos alunos e que quem se opõe só pensa nos seus privilégios pessoais e/ou corporativos.

Agora volta a alegada defesa do interesse dos alunos e das famílias, o que e perversamente verdade. As famílias que consideram a escola um cómodo recurso para entreter crianças e jovens querem que ela (a escola) esteja disponível mais tempo. Mas os pedagogos e especialistas da moda dizem que os alunos têm demasiadas aulas e estão sobrecarregados de tudo o que a escola tem de chato: aulas, trabalhos de casa, mochilas (neste caso, com razão).

Então a solução é simples: produz-se uma narrativa aconchegante sobre novas pedagogias, escolas e competências para o século XXI. Qual o truque? Remeter boa parte da aprendizagem das tais novas competências para “fora da sala de aula”, tornando isso algo inovador (embora eu duvide seriamente da sua operacionalização e perceber-se-á porquê).

O resultado final: alunos, pelo menos, 50 horas nas escolas, mas apenas 25 em aulas.

Como? Reduzindo a componente lectiva dos alunos (mas não dos professores) e alargando as actividades extra-lectivas (mas lectivas para os professores), em muitos casos a definir pela autoridade autárquica local que, até porque já pode “renovar quadros” ao abrigo da nova transferência de competências, terá “autonomia” para recrutar e colocar “formadores”, que não se confundirão com “pessoal docente” (que continuará formalmente sob gestão do ME), o que satisfará as entidades sindicais transformadas em aparatos de controlo ao serviço da geringonça educativa.

O plano é quase brilhante.

Eu depois explico melhor outras metodologias em desenvolvimento com a chancela da OCDE e o carimbo da modernidade.

maquiavel2010

Políticas Eficazes

Ler as declarações dos nossos governantes acerca dos resultados dos TIMMS 2015 é assistir a um espectáculo a roçar o indecoroso de auto-elogio. As políticas que definiram foram as melhores, os professores tiveram de ser reeducados para os resultados, tudo resultou por causa d@s mandantes que tiveram o génio de delinear políticas eficazes. Uma palavra de elogio a professores e alunos pelo seu trabalho? Só em segundo, último ou nenhum lugar. Sem os nossos iluminados governantes, nada teria sido conseguido. Com jeitinho, remontará ao inefável Couto dos Santos tudo isto. Deprimente.

peru-real