A Felicidade Dos Medíocres

Detesto quem acha que nos devemos sentir bem só porque há quem esteja pior do que nós. Enviaram-me a ligação para um “directo” no fbook na passada 6ª feira desta senhora doutora, cheia de cargos e honrarias, que acha que o “cansaço” ou “desgaste” que sentimos é muito relativo porque, afinal, temos electricidade em casa e há professores com computadores e carros e tudo, enquanto nos países africanos a maioria não tem nada disso. Parece uma lógica imbatível numa perspectiva-jonê da sociedade, em que os miseráveis justificam que os outros não se possam sentir mal, pois ainda não estão assim tão mal. É uma esquerda não apenas caviar, mas muito chique e caridosa. A mim, que sou de qualquer coisa carapau frito (sardinha assada agora é gourmet), isto aflige-me porque me parece que se quer definir a felicidade alheia pelo padrão da mediocridade. É o discurso do fiquem felizes, porque no sudão do sul nem há escolas com telhado. Mas com muita laca ou fixador ou gel ou lá o que é.

coice-da-jumenta

António Sérgio Em 1918

Há pois necessidade inadiavel de duplicar a produção do País, assegurando ao mesmo tempo um melhor equilíbrio das suas classes, uma mais justa distribuição dos encargos e beneficies, e actividades mais  concordes para o bem da comunidade.
Isto exige, imperativamente, transformações profundas e imediatas na estrutura social e na do Estado (onde tantíssimos elementos, e de vária espécie, concorrem para tolher e comprimir as saudaveis fôrças de produção, e agravar a voracidade do parasita a cada novo esfôrço do seu hóspede) e entre elas, em primeiro togar, a difusão do crédito, pondo-o ao alcance de todas as classes produtoras e operárias. De aí se desfiaria, ponto por ponto, uma série de medidas financeiras (reforma do Banco de Portugal e da Caixa Geral dos Deposites; desvio para as actividades produtoras dos capitais confiados aos estabelecimentos bancários do país, etc., etc.), a que se ligariam sistematicamente certas medidas de fomento (fornecimento de maquinismos, materias e garantias ás actividades agrícola, industrial e mineira; incitamento á exploração dos jazigos carboníferos e cursos de agua; desenvolvimento dos transportes e reforma dos contractos de serviços públicos, etc.), correspondentes reformas sociais (generalização da riqueza com maior justiça distributiva dentro dos princípios da propriedade; desenvolvimento do mutualismo, e outras) correlativas medidas pedagogicas (transformações nas escolas normais, no ensino primário, secundário e técnico; colaboração íntima da indústria e das escolas superiores, no sentido de estimular as iniciativas e as suas capacidades de criação ; adopção de novos metodos de ensino, e, finalmente, preparação social do professor, do padre, do medico de aldeia) porisso que cada uma dessas medidas não poderá atingir o seu pleno efeito sem o concurso convergente de todas as outras.  (Pela Grei, nº 1, p. 5)

Ouroboros

Começou A Silly Season

A terminar o ano lectivo, quando quem trabalha tem mais que fazer, surgem anúncios em forma de notícia e outras coisas dignas de uma espécie de feira dos horrores da parvoíce.

Apareceu um Plano Nacional das Artes que, para arranque de hostilidades, começou com um daqueles lugares comuns requentados dos soixante-huitard como “indisciplinar a escola”. Anuncia-se que as escolas terão “artistas residentes” (como se eles faltassem…) e “três visitas de estudo por ano” e não sei se ria, se chore. Três visitas? Para quem? Todos ao molho? Três para todos em faseamento? Mas quantas visitas acham estas santas criaturas que as escolas fazem por ano? O novo coordenador é um alegre desconhecido fora dos círculo dos seus conhecidos; no seu currículo tem a obra Tudo é outra coisa. O desejo na Fenomenologia do Espírito de Hegel (2006) e é assistente convidado da Católica onde colabora na lecionação de “Cristianismo e Cultura” na Faculdade de Direito e na Faculdade de Ciências Humanas. Cá para mim deveria ser o novo coordenador do Plano Nacional de Educação Sexual para a Abstinência.

Ao mesmo tempo, sabe-se que as luminárias que comandam a nossa Educação, para combaterem a falta de candidatos aos cursos que dão acesso à docência, em vez de tornarem atractiva a carreira, consideram mais adequado baixar os critérios de ingresso. Querem acabar com o exame de Matemática e eu acho que deveriam também acrescentar o de Português e qualquer outro que não fosse o de Educação Física.

Entretanto, porque se ficou aqui com umas semanas sem saber o que fazer, para dar uma aparência de movimento e qualquer coisa em forma de “luta”, a Fenprof ziguezagueia e “exige” (e nós sabemos como este Governo tem sido sensível à voz grossa das exigências do camarada Mário e mais os seus outros camaradas) “medidas para combater o envelhecimento dos professores”. Eu recomendaria os implantes em silicone (peito, rabo, maçãs de rosto), as injecções de colagénio ou botox ou então um lifting em partes íntimas para quem foi sodomizado publicamente e talvez ainda tenha alguma dificuldade para se sentar sem uma daquelas almofadas ergonómicas.

bullshit-detector

Há Mistérios Insondáveis…

… mas não será propriamente o Daniel Oliveira fazer que sabe de Educação para entrevistar Alexandra Leitão, a desaparecida secretária de Estado ao longo da maioria deste ano lectivo. Mas o DO é agora uma espécie de eminência parda mediática para todos os meios de comunicação.

Nem o facto de alguém que usa o ensino privado, por dar “mais oportunidades”, aparecer a dar lições sobre o civismo a ter no público.

E, pensando bem, nem aquela coisa estranha que foi há um par de meses, ligar-me uma alegada jornalista (não reconheci o nome) a dizer que era de uma conhecida revista nacional, dizendo que iria fazer uma  peça sobre esta mesma governante, pedindo-me a opinião sobre o seu desempenho na altura da disputa sobre o tempo de serviço, e nada ter aparecido a esse respeito, nem o nome da alegada jornalista na ficha técnica da revista em causa.

Se era uma espécie de sondagem para saberem o que eu (e outros) penso da senhora basta lerem o que escrevo, pois não é meu hábito fazer comentários em off. Ou dizer coisas que não assuma. E o que acho é que o actual ME é um menino de coro em termos políticos comparados com os seus secretários (ou secretária, neste caso). Que sabem aparecer e desaparecer conforme as circunstância e fazer um habilidoso trabalho de bastidores, enquanto o testa de ferro faz figuras tristes de leitor de guiões.

Se a senhora almeja ser ministra? Seria apenas mais um acidente na pasta. E poderia, já agora, levar para lá o deputado Silva, Porfírio de sua graça, que já merece motorista e carro às ordens. E passeios lá por fora.

TimeTiago