Aguentei Pouco Mais de Um Minuto…

… a ver e ouvir o António Costa a retomar o seu lugar na agora Circulatura do Quadrado. Apanhei-o com ar sonso a dizer que não lhe competia analisar os resultados das presidenciais, mas que o resultado da Marisa Matias talvez fosse decorrente da atitude menos colaborativa do Bloco em relação ao governo e que o João Ferreira tinha consolidado (ou qualquer coisa assim) os resultados do partido que mais tem ajudado a solução “de esquerda” da governação. Esta última parte foi mais explícita do que a anterior, porque o homem para além de se baralhar muito nas concordâncias, tem o hábito de achar que consegue ser subtil e que aquele sorriso azeitoso é charme natural. Não vi o resto, porque até eu tenho limites para o que consigo aturar de auto-complacência e atentados ao pudor em público (até porque o Jerónimo me parece camarada recatado em tais matérias).

(entretanto, leio que “Costa defendeu o ministro da Educação dizendo que “ninguém proibiu” o ensino online” e não há realmente pachorra para tanta aldrabice)

Mas Não Se Andou A Tratar Disso No Início De Setembro (E Mesmo Antes)?

Há duas coisas que faltam, em níveis e escalas diferentes: equipamento em quantidade suficiente, em especial no Básico e uma adaptação dos critérios de avaliação dos alunos, pois a maior parte dos Planos de Contingência que li definem os 3 modelos de ensino, até adiantam parte da sua operacionalização no plano local, mas depois parecem assumir que a forma de avaliar é a mesma em qualquer dos modelos. E não é.

Claro que agora o ME quer dar a entender que foram as “escolas” a não se preparar. E não é bem assim. Tenho pena é que os representantes dos directores não sejam bem claros acerca disso e optem por um discurso em forma de nim.

Já agora… hoje de manhã havia telescola na RTP Memória. Eu pensava que tinha sido dito que era para parar todas as actividades lectivas e não lectivas.

Diretores e dirigentes escolares estão preocupados com a falta de meios informáticos e de condições familiares para estudar em casa, se os alunos forem obrigados a voltar ao ensino não-presencial.

A Grande Mentira

Uma das maiores operações de encobrimento em decurso é o sub-registo de casos nas escolas, de alunos a docente, passando por assistentes operacionais. O encobrimento começa a partir da base, restando saber se isso é, nuns casos, da iniciativa dos poderes locais ou se, em outros, resulta de indicações (certamente informais e sem deixar rasto documental) da “hierarquia”. O problema é que, mesmo no terreno, o que se conhece é filtrado. As pessoas deixam de aparecer a dar aulas – ou alunos de frequentá-las – sem se saber a razão, porque a circulação da informação sobre as causas é controlada e limitada ao considerado “essencial”.

Tudo em nome de prevenir “alarmismos”, claro. Ou de defender a “privacidade”. A bem da “confiança” e da legitimação da tese do “contágio zero”. Muitas escolas tornaram-se “fábricas da verdade”. Em nome do “interesse geral”. Ou “bem comum”. Ou lá o que chamam a mentiras de Estado nos dias que correm.

Haveria uma forma indirecta, mas parcelar, de se ter uma ideia da incidência de casos entre os alunos, caso na justificação das faltas, por exemplo no E360, os directores de turma assinalassem sempre quando a causa é o “isolamento profilático”. Resta saber se muitos estão para isso. Para além de que o E360 ainda não está generalizado a todas as escolas e analisar dados com os outros programas (GIAE, Inovar) não deverá ser uma prioridade nas “investigações” a realizar ou apoiadas pelo ME.

Se não recorrer, e após ter sido intimado pelo tribunal a dar à Fenprof a lista das escolas com infecções, ministério deverá responder até ao fim do mês. Últimos dados apontam para 63 surtos activos em estabelecimentos de ensino, num total de 467 infecções. Mas casos isolados continuam a não ser divulgados.

A Sério ? – 2

Projeção apresentada no Infarmed apontava para mais de dois meses até o país regredir para 3.500 casos diários, mas a realidade arrisca-se a demorar ainda mais tempo.

(afinal havia consenso entre os “especialistas”, ao contrário do que afirmou o PM, a deslizar decisivamente para uma relação com a verdade próxima da do “engenheiro”)

4ª Feira

Ao contrário do que disse António Costa, os “especialistas” (designando-os assim parece que é mais fácil aglomerar as posições) não se “dividiram” quanto ao encerramento das escolas. Pelos relatos que existem, todos concordam que esse é um factor que ajuda bastante a reduzir o ritmo dos contágios. A diferença é entre os mais “técnicos” que referem isso como objectivo e os que são mais “políticos” e inserem os “mas” de outros tipos, seja que a redução dos contágios pode fazer-se na mesma, só que mais devagar, e os que decidem teorizar sobre as questões mais sociais. Mas que o encerramento das escolas é uma das duas medidas mais eficazes para reduzir o R (a seguir a proibir ajuntamentos acima de 5 pessoas) começa a ser uma conclusão clara dos estudos transversais feitos em vários países.

A decisão vai ser “política”, não por lhe faltar base “científica”, mas porque a “política” nos últimos dez meses falhou na preparação de uma segunda vaga com esta gravidade. Foram empurrando as coisas, a ver se “mitigavam” e agora estão a tentar disfarçar isso.

E depois, por estranho acaso, nas televisões, quando se fala nisto, só aparecem salas de aula amplas, com mesas individuais e distanciamento apropriado, como se essa fosse a situação generalizada nas escolas do país. O que está longe, muito longe, de ser a realidade no terreno. Mas o que interessa é dar a entender que o nosso parque escolar é um Parque Escolar. Não é, mesmo se a descendência (filhos ou netos) de algumas figurinhas deprimentes do nosso mercado mediático tem a sorte de andar nas escolas “certas”.

Estou Cansado De Delírios

Estou cansado destes discursos “positivos”, desta tentativa de transmitir “confiança”, de revelar “esperança”, de suspirar por excelentes para quem mais amochar perante os interesses políticos governamentais.

Escolas garantem que estão a postos se for preciso continuar o ensino à distância

É mentira que as escolas estejam “preparadas” se isso quer dizer que estão em melhores condições do que em Março, porque não estão. Há a experiência do que se passou (e já se percebeu que foi um fiasco em termos globais, com estas ou aquelas excepções) e a chegada de um número insuficiente de kits tecnológicos para os alunos. Mais nada se fez,para além dos bastidores do Plano de Capacitação Digital dos Docentes.

Se passarmos de novo ao ensino não-presencial (o que seria da mais elementar prudência) quase tudo será igual ao que foi e só poderá funcionar se os professores usarem de novo os seus recursos, porque nada – NADA – chegou à generalidade das escolas para que a partir delas se faça algo de diferente. Aqui em casa conhecem-se três realidades distintas, mas que confluem no essencial: foram 10 meses em que a incompetência do ME foi por demais evidente, pois só sabem falar, falar, falar e debitar chavões ou parvoeiras (o caso dos “cornudos” do ministro Tiago é apenas o exemplo mais deplorável) sem que as medidas necessárias tenham surgido.

Há escolas onde @sdirector@s conseguiram alguns avanços? Há. Mas a generalidade dos Planos de Contingência vai muito além de explicar a diferença entre ensino presencial, misto ou não-presencial no caso de ser necessário alternar entre modelos? Muito poucos, esmo se são muito explicadinhos sobre condutas a adoptar e circuitos a seguir, no caso do ensino presencial.

Foram redefinidos critérios de avaliação pelos Conselhos Pedagógicos para a eventualidade de ter de alterar a forma de avaliação? Os Conselhos Gerais foram consultados em nome das comunidades educativas? Talvez, mas duvido que isso tenha acontecido na maioria dos casos. Basta consultar a documentação que está publicada nos sites das escolas e agrupamentos. Basta passar uns minutos pelo Google.

Claro que a norma tem excepções; não nego que há onde tudo esteja previsto. Mas garantir que as escolas estão preparadas para um novo E@D é risível. A menos que seja em forma de encenação como há 10 meses, apesar de toda a boa vontade que possamos ter. E que a mim cada vez mais escasseia, porque me pedem uma dedicação e competência de que quem tem responsabilidades de decisão superior não dá qualquer exemplo.

Sem Comentários

Ministério da Justiça mandou retirar do site comunicado em que diretor-geral demissionário desmentia Van Dunem

Miguel Romão publicou um comunicado a desmentir a ministra da Justiça já depois de se ter demitido. Ministério tirou o documento do site oficial porque infringia “regras elementares”

(a verdade deixou de ser uma “regra elementar”?)

Dispenso Certos Elogios

Ainda pensei se valeria a pena (não) reagir ao rasgado elogio que João Miguel Tavares dirigiu aos professores portugueses, no Público de ontem. Há quem sinta bem o reconhecimento, qualquer reconhecimento e há quem goste de quem faz uma espécie de mea culpa em relação a prosas anteriores. Eu incluo-me nos que gostam de alguns reconhecimentos e nos que apreciam quando alguém admite que esteve mal e emenda a mão sem ambiguidades. Ora… o texto de João Miguel Tavares não cumpre nenhum dos quesitos, acrescendo o facto de não lhe reconhecer propriamente competência para avaliar o desempenho da classe docente e declarar “que [os professores] se comportaram de forma exemplar“. Lamento, mas o meu “comportamento” não é passível de avaliação por qualquer um, só porque fui dar aulas. Essa é a lógica da espécie de avaliação do desempenho que temos e acha que bastam duas aulas para se avaliar um professor ou que o preenchimento de muita papelada com conversa fiada é sinónimo de qualidade.

No fundo, JMT considera que os professores foram “exemplares” porque foram dar aulas. A mim, que também sou encarregado de educação, isso não me chega. É escasso. Não me chega que me metam a filha numa sala de aula, durante umas horas por dia.

O resto do texto também não ajuda a achar que é sincero – ou se sequer está lá – o reconhecimento de que a prosa escrita no início de Julho esteve mal e que não era mais do que a passagem de um atestado de menoridade cívica aos professores, mesmo se quem o escreveu já comandou o 10 de Junho a pedido do presidente. Eu não fui dar aulas – como tantos outros foram – por causa de “picadelas” da treta, mas apesar delas. Aliás, aquele texto esteve na primeira linha das justificações para não dar aulas, porque a minha dignidade profissional e o meu “sentido cívico” pré-existe em muito às prosas de JMT, pois é uma consequência da diferença geracional… o meu último atestado médico terá sido metido quando ele ainda estava a começar a sua carreira nas “ciências da comunicação” e eu andava pela idade de Cristo e apanhei uma enorme gripe (coincidências!). O texto de ontem é, no fundo, uma espécie de palmada nas costas dos professores, mas também nas do próprio escriba (que parece sentir um pouco como sua a “exemplaridade” docente), com uns remoques anti-sindicais lá pelo meio.

E, claro, há ainda aquela tirada sobre os efeitos “psicológicos e académicos” do período de regime não-presencial para o Ensino Básico, como se uns meses em casa com a família fossem uma “catástrofe”. O que nos explica muito sobre mais coisas do que aqui me apetece escrever quanto à relação entre a petizada, certos ambientes familiares e o papel dos professores.

Mas não queria acabar sem referir a crítica ao encerramento das escolas em Abril para o Ensino Básico que JMT considera ter acontecido “sem que houvesse qualquer sustentação científica para tal decisão”. Por acaso, existe sustentação científica para afirmar que a abertura das escolas é um dos factores que mais multiplica o risco de contágio. O que não tem sustentação, ou diz a verdade por menos de metade é que “não são as crianças as principais propagadoras do vírus, nem as escolas o centro dos surtos”. As crianças são efectivamente propagadoras do vírus e as escolas não são o “centro dos surtos”, mas tudo o que envolve o seu funcionamento é das variáveis mais activas na contaminação e no tal valor R. O JMT é que só lê o que lhe dá jeito e se possível prosas de opinião do Observador ou do Henrique Raposo.

Covid-19. Crianças têm papel mais importante na propagação do vírus do que se pensava, indica novo estudo

Expresso, 20 de Agosto

Covid-19. As crianças podem ser um veículo de transmissão do vírus por mais tempo do que se pensa

Expresso, 31 de Agosto

(…) An increasing trend over time in the R ratio was found following the relaxation of school closure, bans on public events, bans on public gatherings of more than ten people, requirements to stay at home, and internal movement limits, especially after the first week after relaxation; the increase in R ranged from 11% to 25% on day 28 following the relaxation (figure 3). The relaxation of school closure was associated with the greatest increase in R on day 7 (R ratio 1·05, 95% CI 0·96–1·14) and day 14 (1·18, 1·02–1·36). The relaxation of a ban on gatherings of more than ten people was associated with the greatest increase in R on day 28, with an R ratio of 1·25 (95% CI 1·03–1·51) on day 28.

The Lancet, 22 de Outubro

Promessa Solene

Eu seja abundantemente fustigado se voltar a ousar ir a mural de colega (de qualquer género) colocar informação que contrarie qualquer teoria sobre a ligação da pandemia a estratégias de dissimulação global, seja a nossa transformação em antenas 5G móveis, seja a de a vacina não passar de um placebo para nos catalogarem todos numa base de dados para depois nos transformarem em autómatos. Depois de ler hoje uma ex-colega de escola, dizer que a verificação de factos não lhe interessa nada (e eu nem sequer recorri ao Polígrafo), acho que é inútil o meu contributo para qualquer tipo de discussão em que uma das partes assume que os “factos” não existem e que um dado laboratório pode ser ao mesmo tempo do governo chinês e ter sido usado para enviar o vírus para a América e ser da Glaxo (e da Pfizer) para depois fazer vacinas para o combater. Isto já não é bem andar a discutir no reino da pós-verdade, mas ter optado por uma realidade alternativa distante. É que eu nem estou a contestar que há empresas e grupos que vão ganhar muito dinheiro ou que isto não tem dado jeito para implementar políticas restritivas da liberdade e acesso à informação, apenas a pedir que o demonstrem de um modo verificável. Nada mais do que isso. Mesmo sendo a História uma disciplina dada a “narrativas”, aflige-me quem pareça acreditar que a terra é oca (sim, eu li o Edgar Rice Burroughs em devido tempo) e ao mesmo tempo plana (e as fotos de satélite são todas montagens e quando o Fernão de Magalhães ia dar a volta ao mundo foi morto e foi substituído por um espanhol que voltou pelo mesmo caminho).

Phosga-se.