Mais Uma Cavadela…

… mais uma minhoca apanhada na argumentação da economista Peralta que parece uma daquelas especialistas instantâneas em economia da pandemia, só que truncando ou adulterando a informação que depois outros papagueiam de forma acrítica. E não há nada mais divertido do que ver alguém a “armar-se”, a colocar-se em bicos de pés em cima de barro por cozer.

No seu texto de 26 de fevereiro (“Costa, Marcelo e a penitência da Quaresma”), Susana Peralta argumenta em favor da abertura das escolas, apoiando-se num editorial publicado na revista médica The BMJ. A economista não deve ter feito uma análise cuidadosa da publicação que escolheu, ou teria detetado que o trabalho não apresenta informação científica que negue às escolas impacto na propagação do vírus – explico porquê nos últimos parágrafos deste texto, para quem interessar.

São As “Escolas” Ou O ME Quem Exige Os Papelinhos Todos Certos Para Dar Os Apoios?

Ainda esta semana foi feito novo pedido de comprovativos da Segurança Social dos alunos com direito a apoios. Se não os tiverem não são excluídos” pelas escolas, mas por quem define as regras a nível superior. Há gente que fala e escreve do que não entende, esquecendo-se que as tais “escolas” malandras acabam a ajudar estes alunos de modo informal e nas entrelinhas das leis. A começar por quem, em nome do Governo, se desresponsabiliza do que faz, atirando o odioso de tudo para os outros. Neste caso, o objectivo ´+e dar a entender que os alunos não são apoiados, não por incompetência da tutela, mas por má-vontade das escolas. Pena que os directores tenham levado uma injecção atrás da orelha parecida à que levou o super-lutador que agora anda sempre a reboque.

A mentira tornou-se a regra na relação do Estado com a opinião pública.

Escolas não podem recusar imigrantes em situação irregular mas há quem esteja a excluir estes alunos dos apoios sociais e dos que precisam de receber computadores. “É como fechar-lhes a porta da escola”, denuncia Centro Padre Alves Correia. Governo esclarece “que estes alunos têm direito aos apoios no âmbito da acção social escolar” e que escolas têm que os incluir.

Atentado Ao Pudor Na Via Pública

Tiago Brandão Rodrigues, 21 de Janeiro, conferência de imprensa televisionada:

Após o primeiro-ministro ter anunciado, no final do Conselho de Ministros, que as aulas estavam suspensas a partir desta sexta-feira e até 5 de fevereiro, Tiago Brandão Rodrigues veio esclarecer que esta suspensão abrange todo o ensino, incluindo os estabelecimentos particulares. “Não há exceções”, frisou.

E deixou críticas ao ensino particular, após a associação dos estabelecimentos de ensino particular e cooperativo, ter admitido recorrer ao ensino à distância nas próximas duas semanas.

António Costa, 27 de Janeiro, Circulatura do Quadrado:

No programa, após críticas feitas pelo antigo dirigente do CDS António Lobo Xavier às posições assumidas pelo ministro da Educação a propósito da suspensão das aulas presenciais, o líder do executivo saiu em defesa de Tiago Brandão Rodrigues.

Ninguém proibiu ninguém de ter o ensino online”, advogou António Costa, recusando que o seu executivo entre “numa discussão fantasma” e que haja “preconceitos” em relação ao ensino do setor privado.

João Costa, 27 de Janeiro, Jornal de Letras:

Há uns cheios de certezas, outros cheios de realismo. As certezas chegam no dia seguinte, no “devia ter sido”. O realismo convive com as (in)certezas dos especialistas, a (im)previsibilidade das estirpes, o estar preparado para o pior e ser surpreendido pelo ainda pior que ninguém adivinhava. Há quem hoje tenha a certeza disto, para no dia seguinte afirmar, confiante, o seu contrário.

Aguentei Pouco Mais de Um Minuto…

… a ver e ouvir o António Costa a retomar o seu lugar na agora Circulatura do Quadrado. Apanhei-o com ar sonso a dizer que não lhe competia analisar os resultados das presidenciais, mas que o resultado da Marisa Matias talvez fosse decorrente da atitude menos colaborativa do Bloco em relação ao governo e que o João Ferreira tinha consolidado (ou qualquer coisa assim) os resultados do partido que mais tem ajudado a solução “de esquerda” da governação. Esta última parte foi mais explícita do que a anterior, porque o homem para além de se baralhar muito nas concordâncias, tem o hábito de achar que consegue ser subtil e que aquele sorriso azeitoso é charme natural. Não vi o resto, porque até eu tenho limites para o que consigo aturar de auto-complacência e atentados ao pudor em público (até porque o Jerónimo me parece camarada recatado em tais matérias).

(entretanto, leio que “Costa defendeu o ministro da Educação dizendo que “ninguém proibiu” o ensino online” e não há realmente pachorra para tanta aldrabice)

Mas Não Se Andou A Tratar Disso No Início De Setembro (E Mesmo Antes)?

Há duas coisas que faltam, em níveis e escalas diferentes: equipamento em quantidade suficiente, em especial no Básico e uma adaptação dos critérios de avaliação dos alunos, pois a maior parte dos Planos de Contingência que li definem os 3 modelos de ensino, até adiantam parte da sua operacionalização no plano local, mas depois parecem assumir que a forma de avaliar é a mesma em qualquer dos modelos. E não é.

Claro que agora o ME quer dar a entender que foram as “escolas” a não se preparar. E não é bem assim. Tenho pena é que os representantes dos directores não sejam bem claros acerca disso e optem por um discurso em forma de nim.

Já agora… hoje de manhã havia telescola na RTP Memória. Eu pensava que tinha sido dito que era para parar todas as actividades lectivas e não lectivas.

Diretores e dirigentes escolares estão preocupados com a falta de meios informáticos e de condições familiares para estudar em casa, se os alunos forem obrigados a voltar ao ensino não-presencial.

A Grande Mentira

Uma das maiores operações de encobrimento em decurso é o sub-registo de casos nas escolas, de alunos a docente, passando por assistentes operacionais. O encobrimento começa a partir da base, restando saber se isso é, nuns casos, da iniciativa dos poderes locais ou se, em outros, resulta de indicações (certamente informais e sem deixar rasto documental) da “hierarquia”. O problema é que, mesmo no terreno, o que se conhece é filtrado. As pessoas deixam de aparecer a dar aulas – ou alunos de frequentá-las – sem se saber a razão, porque a circulação da informação sobre as causas é controlada e limitada ao considerado “essencial”.

Tudo em nome de prevenir “alarmismos”, claro. Ou de defender a “privacidade”. A bem da “confiança” e da legitimação da tese do “contágio zero”. Muitas escolas tornaram-se “fábricas da verdade”. Em nome do “interesse geral”. Ou “bem comum”. Ou lá o que chamam a mentiras de Estado nos dias que correm.

Haveria uma forma indirecta, mas parcelar, de se ter uma ideia da incidência de casos entre os alunos, caso na justificação das faltas, por exemplo no E360, os directores de turma assinalassem sempre quando a causa é o “isolamento profilático”. Resta saber se muitos estão para isso. Para além de que o E360 ainda não está generalizado a todas as escolas e analisar dados com os outros programas (GIAE, Inovar) não deverá ser uma prioridade nas “investigações” a realizar ou apoiadas pelo ME.

Se não recorrer, e após ter sido intimado pelo tribunal a dar à Fenprof a lista das escolas com infecções, ministério deverá responder até ao fim do mês. Últimos dados apontam para 63 surtos activos em estabelecimentos de ensino, num total de 467 infecções. Mas casos isolados continuam a não ser divulgados.

A Sério ? – 2

Projeção apresentada no Infarmed apontava para mais de dois meses até o país regredir para 3.500 casos diários, mas a realidade arrisca-se a demorar ainda mais tempo.

(afinal havia consenso entre os “especialistas”, ao contrário do que afirmou o PM, a deslizar decisivamente para uma relação com a verdade próxima da do “engenheiro”)