Domingo

Dia de balanço das leituras terminadas ou em desenvolvimento, porque só leio “notas informativas” da DGAE e despachos ou decretos por necessidade, própria ou alheia 🙂 .

Chantal Mouffle, Por um Populismo de Esquerda apresenta umas teses interessantes sobre uma reconfiguração de parte da Esquerda, através da aceitação do sistema político liberal democrático, mas mantendo a crítica ao sistema capitalista neoliberal, de que se percebem apenas umas penugens no Bloco de Esquerda. Não sendo grande fã da autora, confesso que algumas partes são mais lúcidas do que a média e infinitamente superiores a qualquer “reflexão” nacional sobre o tema, entregue a vultos que se limitam a papaguear chavões.

Nigel Warburton, Liberdade de Expressão – Uma breve introdução é um livrinho curto mas interessante para leitores menos habituados a discutir opiniões de forma “aberta”. O capítulo sobre a pornografia é, curiosamente, o mais longo e o menos interessante.

Com alguma relação, A Morte da Verdade – A Falsidade na Era de Trump de Michiko Kakutani, bvale a pena, até porque a autora não esconde o seu “lado” na questão.

Emmanuel Carrère, Je suis vivant et vos êtes morts é uma espécie de biografia de Philip K. Dick que podia ser mais interessante se não se preocupasse tanto em descrever as histórias dos livros do biografado. Ficou em banho-maria entre a página 150 e a 200.

A Cidade das Palavras de Alberto Manguel é uma demonstração de virtuosismo erudito, que se lê muito bem e com o prazer de se saber que a leitura pode ser mesmo só isso, admirar o que os outros sabem e gostam de nos comunicar.

O Desassossego da Noite de Marieke Lucas Rijneveld é um livro de leitura difícil, não pelo estilo, mas pelo quotidiano e sentimentos que aborda. Um negrume desconfortável. Mas uma extraordinária experiência, muito longe das xaropadas que fazem a maior parte dos tops e mesmo de muitos prémios literários.

De Afonso Cruz vou lendo as coisas algo fora de ordem. Para Onde Vão os Guarda-Chuvas é muito bom na sua falsa leveza. Daquelas páginas que apetece sempre ler um pouco mais.

A Minha Irmã é uma Serial Killer de Oyinkan Braithwaite é uma história original, que se lê muito bem, mas parra a qual a autora não conseguiu achar um final à altura, o que é pena.

The Man in the Red Coat de Julian Barnes é uma delícia, escrito com uma elegância que quase só ele consegue manter e um livro de História que muitos historiadores não saberiam escrever no modo como recria um ambiente específico (a Belle Époque na França e Inglaterra), a partir de um conjunto de personagens sobejamente conhecidas e outras nem tanto (o homem do casaco vermelho, desde logo) e de temas que mostram como pouco do que agora se apresenta como “fracturante” vem de muito longe.

Dulce Maria Cardoso, Autobiografia Não Autorizada. Livro de crónicas, ideal para leituras rápidas que se agarram quando apetece. Já tinha lido O Retorno, agora comecei a comprar o resto.

My Dark Vanessa de Kate Elizabeth Russell, ainda no início. Alguma curiosidade por revisitar um tema complicado em termos literários desde o Lolita, com a esperança que fuja aos lugares-comuns muito habituais nestas coisas.

Também no início, adiado demasiadas vezes, o Índice Médio de Felicidade do David Machado. às primeiras páginas, não nos faz desanimar, o que já é uma boa qualidade.

Comprei, apesar das quase 800 páginas do formato de bolso, o Night, Sleep, Death, Stars da Joyce Carol Oates, porque até agora ela raramente me falhou.

Em matéria de BD, os volumes 3 e 4 da série Stumptown de Greg Rucka são agradáveis, até porque o grafismo mudou. Nada de excepcional, mas pelo menos deixa-se ler bem, sem grandes pretensiosismos.

O azul é uma cor quente de Julie Maroh foi uma muito agradável surpresa, no estilo, já não tão novo como isso, da novela gráfica mais ou menos autobiográfica.

Mais fora da caixa, Garra Cinzenta, 1937-1939, é uma reedição da que é considerada a primeira HQ (História em Quadrinhos) de terror brasileira de Franscisco Armond e Renato Silva. Para nostálgicos de outro tipo de traços e do estilo pulp original

Na Immanquable, este mês continua a nova reencarnação do Bob Morane (Les 100 Demons de L’Aube Jaune), série que nunca apreciei excessivamente, mas que renasceu com algum interesse, e o episódio mais recente d’As Torres de Bois-Maury do Hermann. O resto não é mau, mas estas são as duas razões principais para o investimento.

Continua A Retoma

Gosto muito do Afonso Cruz e este livro, ao fim da primeira centena de páginas, é muito bom de forma consistente. O policial nórdico do conjunto é o terceiro de uma série bastante boa. Já o policial sul-coreano no feminino vem na sequência da descoberta de outros autores orientais do género, como Natuso Kirino (japonesa), Kim Young-ha ou Hideo Yokoyama. O resto é na base da descoberta, porque em regra os prémios Booker e Goncourt são valores seguros.

Leituras Para O Início De Agosto

Não, não vou reler o livro do SE Costa, porque agora está no PNL. Chegou-me a primeira demão.

Não fazendo parte dos que anualmente fazem romaria (mais) a sul no primeiro fim de semana de Agosto e estando muito reticente a fazer férias cá dentro com os indígenas que nos supermercados oscilam entre nos olhar com um ódio imenso só por existirmos (um dia conto-vos a história da senhora “de risco” que me baptizou no regresso a um IKEA) e nos voltam a quase deitar o bafo no pescoço na fila do pagamento, tamanha a pressa que parecem ter, tenho desculpa para acrescentar umas aquisições às estantes e umas leituras ao currículo.

Encomendado logo que possível, já comecei o A Propósito de Nada do Woody Allen, que teve bastantes problemas em publicar a sua autobiografia por causa dos salpicos grossos das suas disputas com a Mia Farrow. As primeiras dezenas de páginas valem desde já o investimento, em especial quando ele explica a impossibilidade de ter complexo de Édipo. Ainda menos de meio, uma boa surpresa, adquirido  por um impulso de curiosidade com os efeitos da k-pop: Diary of a Murderer, de Kim Young-Ha é uma deliciosa digressão sobre a velhice de um assassino retirado do activo há 25 anos que começa a ter Alzheimer.

A terminar, com algum desapontamento e algum custo, O Desaparecimento de Stephanie Mailer parece-me carente da novidade e interesse dos livros anteriores de Joel Dicker, em particular do que o fez mundialmente famoso (A Verdade sobre o caso Harry Québert). Tanto esperei pela edição de bolso francesa, que comprei a tradução portuguesa e acho que podia ter ocupado o tempo de melhor forma. O editor deveria tê-lo encorajado a escrever menos uma centena de páginas. No mínimo.

Para uma semana mais desocupada de Agosto, o policial O Discípulo de Hjorth e Rosenfeldt, a ver se é tão satisfatório quanto o primeiro volume da série (lido com proveito no Verão passado, já agora) com o profiler Sebastian Bergman.

De banda desenhada, está em espera o Roughneck do Jeff Lemire.

Em dúvida, comprado há uma semana a dois euritos para assinalar o regresso a um alfarrabista, Pas de larmes por Mao de Niu-Niu. Quer-me parecer que é capaz de ir para a estante por enquanto e não sei até quando.

IMG_2991

 

Pensamentos Da Pandemia – 23

Não é que tenha assim tanto tempo, mas estou a ter de rearrumar pertences, decidir o que vale a pena manter e o que que não merece isso ou, no máximo, ir parar à garagem. Percebo que não tenho jóias, ouros, acções valiosas ou coisas assim. Tenho uns milhares de livros e outros milhares de revistas e  (ainda, garanto que sim) jornais. E se é verdade que encontro outras razões para esta mania, também é evidente que este gosto por livros resulta de uma ânsia (e prazer) por saber ou aprender (ficção ou não ficção) o que outras pessoas têm para ensinar ou comunicar. E espanta-me sempre quem prescinde disso e acha que a conversa fiada pode servir como substituto.

livros