Sociologia Superficial Dos Parceiros Da Ex-Geringonça

Há quem não tenha percebido que nos últimos anos foi feita uma clara opção por parte de algumas forças políticas (e suas ramificações sindicais) no sentido de apostar no apoio do que agora designamos como “precariado”. Por ser numeroso, por ser mais ou menos jovem. E por estar em situação de fornecer alguns milhares adicionais de efectivos quotizados do que os “velhos” trabalhadores dos “quadros” que, para além de serem vistos como “privilegiados”, ainda têm o condão de ser chatos e menos maleáveis a certas demagogias.

Não estou a colocar em causa a legitimidade de tal opção, ou sequer a sua maior ou menor bondade. Apenas a assinalar uma evidência e a tentar que algumas pessoas entendam que a boa vontade de alguns grupos político-sindicais se deslocou na última década e aderiu a uma lógica dominante diferente daquela que se poderá considerar “tradicional”: a defesa dos trabalhadores de uma dada profissão, que agora se apresenta como sendo algo “corporativo” e não dos aspirantes a essa profissão. Até há quem considere que é assim que deve ser, porque é mais justo e, numa perspectiva de “esquerda”, se está a privilegiar a defesa dos “mais vulneráveis”. E eu até tenderia a concordar – não tendo qualquer cartão ou não pagando quotas, não vou esperar que seja os meus interesses que alguém venha defender – se tudo isto depois não se traduzisse num nivelamento pelo salário mais baixo e na aposta nos que ficarão gratos com o mínimo dos mínimos, perdendo uma perspectiva de médio-longo prazo.

E repito… não estou a fazer um juízo de valor sobre a estratégia (uma discordância não é bem isso), apenas a querer que o pessoal menos novo perceba aquilo com que tem de lidar e com os apoios que, em regra, só terá da boca para fora. Porque se há algo que tenho de reconhecer ao actual PM é que meteu mesmo os marxistas na gaveta, desculpem, no bolso.

homens-da-luta

Leituras

Agradecendo as referências ao Livresco:.

CORONAVIRUS: HOW ASYMPTOMATIC CARRIERS SPREAD A VIRUS LIKE COVID-19

Can you have COVID-19 without showing any symptoms? That may be main driver behind the pandemic, according to scientists.

Coronavirus is spreading panic. Here’s the science behind why.

From prehistoric predator encounters to frantic toilet paper runs, our anxious brains can short-circuit when faced with the scary unknown.

Porque o discurso anti-Conhecimento e anti-Ciência, quando no poder, é profundamente perigoso:

The deep ideological roots of Trump’s botched coronavirus response

How the GOP’s decades-long war on expertise sabotaged America’s fight against the pandemic.

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Impotências

“Liberation is a possibility, and in our time at the beginning of the twenty-first century, it seems to be an unlikely one.

(…) Liberation is not an absolute necessity, but a possibility that needs potency in order to be actualized. And sometimes we don’t have the potency.”

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Franco ‘Bifo’ Berardi, The Age of Impotence and the Horizon of Possibility, (Londres, edição em paperback de 2019, p. 9)

A Ler Ou… Como Certas Rebeldias Não Passam De Preconceitos Neo-Conformistas

Why age is the new dividing line in politics

(…)

Old people are stereotyped as backward and ignorant. They have been cast in the role of narrow-minded bigots who possess archaic prejudices. Their attitude and behaviour are unfavourably contrasted with the enlightened, cosmopolitan and caring outlook of the young. This positive representation of young people is promoted by the authors of Cultural Backlash, who insist that enlightened and socially liberal values are gaining greater and greater traction among the young. These young people are supposedly digging the graves of the nasty, authoritarian, xenophobic politics of their elders.

Numerous commentators appear to believe that the political behaviour of young people constitutes an important act of rebellion against the values of the older generations. Such commentaries often suggest that the young have become more and more politically engaged, politicised, and even radicalised. But what defines the voting behaviour of young people is not so much radicalism as the politics of conformism.

Young people’s politics are strongly influenced by the values and attitudes that they have internalised through the dominant institutions of culture – such as the media, schools and universities. The current pattern of socialisation has relegated the role of the family to a secondary, supporting role. A shift away from the family socialising young people to schools and universities socialising young people has encouraged generational estrangement.

(…)

It is not that university-educated people think they are smarter than the rest of the electorate, and that in voting for Labour they are demonstrating their superiority. Rather, they have internalised the anti-traditionalist and anti-conservative values to which they were exposed on campus. Unlike student radicals of the past, who often rebelled against university authorities, the recent cohorts of undergraduates have internalised and conformed to the prevailing ethos. It is also difficult for students seriously to question this ethos, and most of them feel they have no choice but to adopt it.

The so-called post-materialist and anti-traditional values upheld by many young voters is sometimes portrayed as a form of radical defiance. It is nothing of the sort. The conformist script that many young people have internalised was written by a small section of their elders, those within the cultural elite. Like the children led by their teachers to join a school strike for the planet, many young people vote against their elders because that is what they have been taught to do.

Velho

De Um Texto Que Estive A Escrever Para Outro Destino

A empatia é essencial no processo educativo, mas é um “recurso” relativamente escasso e que tem uma resistência variável à erosão. E não a devemos confundir com outras aparências em forma de fingimento, mais ou menos sorridente. Muito menos com retóricas postiças (em que as emite) e assumindo a credulidade imbecil (daqueles a que se dirigem). Mesmo se a maioria da petizada, ainda pouco filtrada e com receptores pouco corrompidos pela hipocrisia, é um óptimo detector de encenações.

pluto-scratching

A “Mudança” E A “Educação Para O Século XXI”

Há alturas em que a formação em História vem mesmo ao de cima, em particular quando se fala com pessoas que, mesmo de gerações diferentes, a partilham. E isso aconteceu ontem. E depois é impossível não traçarmos paralelismos no tempo e pensar que em 1920, quando o mundo ocidental atravessava um momento de forte “aceleração” para os padrões de então e tenha experimentado uma catástrofe terrível, ninguém concebia a mudança nos termos das teses em voga em 1870, 1880 ou 1890. E quando às “lideranças”, todas elas tinham sido renovadas a um ponto extremo. Era um “novo mundo”, com novos conceitos, novos protagonistas, conscientes de uma nova realidade não imaginada uma duas gerações antes.

Mas em 2020, quando a a “aceleração” ainda é maior e após uma fortíssima crise económica e financeira global, forçando mudanças muito mais rápidas, há quem insista em enquadrá-la nos conceitos de 1970, 1980 ou 1990. E quem, criticando a dificuldade de uma “escola para o século XXI” com “professores do século XX”, não perceba o ridículo paradoxo de não reservar para si a mesma análise crítica, quando são “lideranças” herdadas do século XX e “pensadores” que ainda não conseguiram ultrapassar as suas próprias concepções do século passado.

Ainda não temos, neste século XXI já bem entrado, nenhum equivalente ao Democracy and Education (1916) de John Dewey pelo que continuamos a regressar a ele (ou a variantes suas, porque haverá quem nunca o leu, embora produza réplicas). Nem ao Schools of To-Morrow de 1915 pois, apesar de se editarem actualmente muitos livros com títulos similares, poucos são os que vão além do que está escrito há mais de um século, mais ou menos apelo a gadgets de validade efémera.

Different schools have worked the matter out in different ways. In the Montessori schools there is still a good deal of effort to control the growth of mind by the material presented. In others, as in the Fairhope experiment, the material is incidental and informal, and the curriculum follows the direct needs of the pupils.

Most schools fall, of course, between these two currents. The child must develop, and naturally, but society has become so complicated, its demands upon the child are so important and continuous, that a great deal must be presented to him. Nature is a very extensive as well as compact thing in modern life, including not only the intricate material environment of the child, but social relations as well. If the child is to master these he must cover a great deal of ground. How is this to be done in the best way? Methods and materials must be used which are in themselves vital enough to represent to the child the whole of this compact nature which constitutes his world. The child and the curriculum are two operative forces, both of them developing and reacting on each other. In visiting schools the things that are interesting and helpful to the average school teacher are the methods, and the curriculum, the way the pupils spend their time; that is, the way the adjustment between the child and his environment is brought about.

“Learning by doing” is a slogan that might almost be offered as a general description of the way in which many teachers are trying to effect this adjustment. The hardest lesson a child has to learn is a practical one, and if he fails to learn it no amount of book knowledge will make up for it: it is this very problem of adjustment with his neighbors and his job. A practical method naturally suggests itself as the easiest and best way of solving this problem. On the face of it, the various studies—arithmetic, geography, language, botany, etc.—are in themselves experiences. They are the accumulation of the past of humanity, the result of its efforts and successes, for generation after generation. The ordinary school studies present this not as a mere accumulation, not as a miscellaneous heap of separate bits of experience, but in some organized way. Hence, the daily experiences of the child, his life from day to day, and the subject matter of the schoolroom, are parts of the same thing; they are the first and last steps in the life of a people. To oppose one to the other is to oppose the infancy and maturity of the same growing life; it is to set the moving tendency and the final result of the same power over against each other; it is to hold that the nature and the destiny of the child war with each other. (pp. 69-71)

Isto significa uma de duas coisas:

  • Ou as questões que enfrentamos actualmente pouco “mudaram” em cem anos e, portanto, há qualquer coisa que falhou desde então em algumas análises e na forma de resolver os problemas diagnosticados.
  • Ou as coisas “mudaram” e o século XXI necessita de todo um novo modo de pensar que vá para além do que já é conhecido.

A tentação de alguns vai ser a de dizer que ao fim deste tempo todo a Educação e a Escola não mudaram, pelo que as questões permanecem as mesmas. Não é verdade. Todos sabemos que a escola actual é muito diferente da que vivemos como alunos. Pelo menos, é muito diferente da minha e só muita miopia ou má vontade negará tal evidência.

Portanto, há que encarar o século XXI, a terminar o seu primeiro quartel, de um modo novo, em que exista a coragem de certas figuras entenderem que, se nada mudou, ao fim de décadas em posições de liderança (política, académica, escolar) é porque falharam e seria boa ideia tirarem consequências disso.

Só assim será possível mudar de “paradigma”, a palavra que tanto usam sem entenderem exactamente o que significa. A menos que tragam alguma ciência extraordinária para fundamentar as vossas pretensões de novidade.

Dewey

4ª Feira

Reler boa parte daqueles livros (Michael Apple, Andy Hargreaves, Jenny Ozga,  Philippe Perrenoud, Carlos Alberto Torres) que fizeram a bibliografia básica da Sociologia da Educação da década de 90 do século XX, com alguns salpicos já para os anos 2000 (muito deles comprados depois em saldos que anunciavam a decadência do interesse pelas teses), é reencontrar os problemas que enfrentamos agora. A governança educativa do século XXI é claramente feita à moda das teses neocoiso das últimas décadas do século XX que recauchutavam o pensamento do capitalismo do século XIX. Parece que há quem ache que o currículo só é “oculto” e que a sua apropriação pela ideologia só acontece se o for pelos pelos outros. Os “maus”.

livros

Ainda Sobre Os Arautos Dos Horizontes Da Utopia

Estou a escrever um texto (mais para o longo, tipo capítulo cheio de mau feitio)  sobre o assunto e continuo fascinado com a forma como essas pessoas, para além de adorarem ser presidentes, directores e/ou representantes disto ou aquilo, reagirem a qualquer crítica que lhes seja feita da forma mais incoerente possível com os altíssimos princípios éticos que se auto-atribuem. Adoro quando a crítica à autoridade e às hierarquias se faz na perspectiva de quem sente que tem uma autoridade acrescida sobre o tema e que aproveita todas as oportunidades para se integrar numa hierarquia que lhe atribua uma posição próxima do topo. Ou quando a tolerância é pregada com intolerância. E a diversidade é imposta com base em modelo únicos de pensamento.

E depois o raio da História está sempre a dar-me exemplos de como tantas utopias, cheias de boas intenções nas teses originais, descambaram em catástrofes distópicas. Porque, apesar de não estar só a pensar na Educação, não consigo deixar de encontrar paralelismo com certos proselitismos que por aí caminham.

Majestic sunset in the mountains landscape. HDR image
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