Ainda Sobre Os Arautos Dos Horizontes Da Utopia

Estou a escrever um texto (mais para o longo, tipo capítulo cheio de mau feitio)  sobre o assunto e continuo fascinado com a forma como essas pessoas, para além de adorarem ser presidentes, directores e/ou representantes disto ou aquilo, reagirem a qualquer crítica que lhes seja feita da forma mais incoerente possível com os altíssimos princípios éticos que se auto-atribuem. Adoro quando a crítica à autoridade e às hierarquias se faz na perspectiva de quem sente que tem uma autoridade acrescida sobre o tema e que aproveita todas as oportunidades para se integrar numa hierarquia que lhe atribua uma posição próxima do topo. Ou quando a tolerância é pregada com intolerância. E a diversidade é imposta com base em modelo únicos de pensamento.

E depois o raio da História está sempre a dar-me exemplos de como tantas utopias, cheias de boas intenções nas teses originais, descambaram em catástrofes distópicas. Porque, apesar de não estar só a pensar na Educação, não consigo deixar de encontrar paralelismo com certos proselitismos que por aí caminham.

Majestic sunset in the mountains landscape. HDR image
Majestic sunset in the mountains landscape. HDR image

Pois Não… E Houve Tanta Gente “Bem Intencionada” Que, Em Devido Tempo, Não Terá Querido “Criar Problemas”

O problema é que o “fascismo” é tantas vezes evocado que podemos passar ao lado do verdadeiro – embora possa surgir em diversos “sabores” – sem notar e lhe dar a justa marretada, tamanho o cansaço com a banalização do termo.

‘Nazis didn’t fall out of the sky in January ’33’: The Holocaust Museum’s director on warning signs of fascism

Finger

(mas a menorização da História e da Filosofia e a apresentação de uma coisa sem forma ou rigor como “pensamento crítico” ajudam muito a que a ignorância e a confusão se instalem)

Competências E Concursos

Continuo a achar “peculiar” (mesmo que alegadamente seja crença fundamentada em práticas terceiras) que se considere que a classificação de um candidato à docência, obtida após a sua formação científica e uma profissionalização especializada, seja considerada um método inadequada para a colocação de professores, em contraponto a uma alegada mais competência por parte de elementos directivos que – em tantos casos – estão há c’anos e décadas sem dar um simples dia de aulas por ano ou de elementos autárquicos que – em tantos casos – até são professores em fuga da docência para a vida política ou técnica local.

A Minha “Imaginação Sociológica” – 2

Dou continuidade, com atraso, aos meus seminais (pré?) conceitos que alguém considerou serem de “imaginação sociológica”, embora pareçam ter gostado da ideia e já reclamem, de forma equivalente, práticas imaginativas em outras áreas. Talvez o mais provocatório e inovador seja o de “Corte Inclusiva“, pois corresponde a um fenómeno que é mais recente e entrou na nossa realidade quotidiana já depois da elaboração dos grandes manuais de sociologia do século XX e ainda nos faltam referenciais dignos desse nome no século XXI.

Como é do conhecimento geral, o documento fundador de diversas tendências relacionadas com a defesa dos direitos das crianças e jovens com problemas de aprendizagem ou (como foi possível designar até 2018) “necessidades educativas especiais” foi a Declaração de Salamanca de 1994 que, como todos os textos sagrados da Humanidade, fundou una Fé mas, em simultâneo, conduziu a diferentes teologias exegéticas que nem sempre conseguiram conviver muito bem entre si, para além de despertarem o natural ímpeto para lutarem com denodo e muito arreganho pelo acesso ao Poder para melhor conseguirem impor as suas concepções interpretativas do Verbo Inclusivo.

O que significa à luz do conceito já analisado de Círculo Interno do Poder que a “Corte Inclusiva” é uma espécie de subconjunto seu, logo que os representantes da facção inclusiva dominante num dado contexto histórico-político conseguem aceder a tal posição. Não se deve confundir em nenhum momento “Corte Inclusiva” com “Educação Inclusiva” porque enquanto esta é plural e integradora, aquela é restritiva e exclusora na sua práxis. Podemos ser crentes e praticantes da “Educação Inclusiva” mas ser proscritos pela “Corte Inclusiva”, porque o estatuto de “cortesão” depende da adesão, sem reservas, aos seus dogmas particulares sobre o que é (ou não) a “Inclusão”. Não é raro o recurso nos textos de alguns dos mais destacados cortesão inclusivos o uso de binómios como “nós/eles”, “cá/lá”, “dentro/fora” ou a associação de qualidades positivas negativas aos indivíduos conforme o seu alinhamento com a Corte e as suas interpretações dos textos, em especial normativos, que, ao longo dos tempos, traduziram as verdadeiras intenções do documento fundador.

Tomemos com base este excerto:

” – as crianças e jovens com necessidades educativas especiais devem ter acesso às escolas regulares, que a elas se devem adequar através duma pedagogia centrada na criança, capaz de ir ao encontro destas necessidades,
 – as escolas regulares, seguindo esta orientação inclusiva, constituem os meios capazes para combater as atitudes discriminatórias, criando comunidades abertas e solidárias, construindo uma sociedade inclusiva e atingindo a educação para todos; além disso, proporcionam uma educação adequada à maioria das crianças e promovem a eficiência, numa óptima relação custo-qualidade, de todo o sistema educativo.”

A parte final desta passagem – sim, a declaração de Salamanca já era “centeno” e preocupava-se certamente com a finitude dos recursos dos contribuintes mesmo quando ainda se podia fazer moeda sem as restrições do euro – tem servido para práticas menos sensíveis às preocupações pedagógicas inclusivas, propriamente ditas, do que à referida “optimização” da “relação custo-qualidade” do que se faz passar como “Educação Inclusiva”. Tem sido grande a preocupação em detectar necessidades de “formação” que em regra é aplicada quase exclusivamente por membros da tal “Corte Inclusiva” associada à produção dos normativos legais de que pretendem fornecer a única interpretação legítima, em vez de serem produzidos diplomas claros e materiais pelo ministério da Educação com indicações sobre o que deve/pode ser feito e quais as margens de “autonomia” de escolas e professores.

Se algo corre menos bem, não há que enganar… não foi falha legislativa e muito menos da formação, mas sim de quem não percebeu a infalibilidade da coisa e necessita de mais formação por parte dos cortesãos inclusivos.

O esquema de funcionamento é como se segue (e também se aplica à “flexibilidade curricular” pois, afinal, os 54’s e 55’s são gémeos):

Esquema Inclusivo

 

Resta esclarecer que ao poder político os cortesãos inclusivos são muito úteis e tanto mais quanto se sentirem “pais” do Modelo Único de Inclusão (conceito a definir em outro verbete) e ao mesmo tempo os seus apóstolos, funcionando como reforçada muralha d’aço contra a barbárie dos professores ou outras criaturas não imbuídas do verdadeiro espírito inclusivo.

Para Além Dos Simplismos

What Does the Research Say About Testing?

There’s too much testing in schools, most teachers agree, but well-designed classroom tests and quizzes can improve student recall and retention.

brainstorm

(não sou fã de testes de resposta múltipla, excepto no caso de quizzes rápidos, preferindo testes “compósitos” e não muito extensos, exactamente para os poder entregar no mínimo de tempo possível… mas sem que para isso tenha de optar só por cruzinhas à exame de condução)

É Este Tipo De Títulos Que Reproduz Preconceitos Que Eu Não Hesito Em Qualificar Como Estúpidos E Imbecilizantes

E não porque me revejo na situação, 35 anos depois, é porque estou farto de considerarem as Humanidades como um nicho de gente assim a modos que poucochinha. Eu poderia dizer o mesmo de tanta outra coisa, mas na inversa… olhem como este tipo (seja ele qual for) conseguiu atingir esta posição e não passa de um imbecil/lambe-botas/carreirista.

Tiveram médias de 16 a 18 e foram estudar Português, História e Filosofia

Carolina, Lara, César, Eva e João entraram neste ano na faculdade. Uns em Lisboa, outros no Minho. Podiam ter entrado em qualquer curso de Ciências com elevada empregabilidade.

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