Estereótipos De Género

A economista Peralta é uma personagem recente, mas intensa, no panorama mediático-opinativo em matérias como a Educação e as desigualdades em geral. Quase escrevia que uma Raquel Varela com menos decibéis e eyeliner, mas temi ser mal entendido e eventualmente acabar por ser acusado de ter um discurso menos inclusivo. Mas depois atentei no título do seu último artigo para o Público e fiquei mais relaxado.

Sem conseguirmos contratar médicos e professoras, não há PRR que nos safe

Já deram pela coisa?

Ainda não?

Já repararam que se formam “médicOs” e “professorAs”?

Nos meus tempos de leituras para efeitos académicos, dei com abundante literatura sobre este tipo de pensamento enviesado, quase inconsciente, em que se perpetuam esquemas mentais com base em estereótipos de género. Neste caso, a Medicina (nobre e distinta) é para os homens e a docência (uma quase semi-profissão para algumas teses sociológicas) para as mulheres. Mesmo se as mulheres são maioritárias na Medicina há cerca de uma década (e a tendência é para aumentarem atendendo às matrículas nos cursos de Medicina).

Curiosamente, no Ensino Superior, os homens continuam a ser a maioria entre os docentes. Mas claro que a economista Peralta estava a pensar nos níveis inferiores, aqueles sobre os quais os preconceitos se derramam de forma mais natural.

Felicidade

Uma provocação curta para o Jorge Humberto Dias: se aprender a “felicidade” e a ser-se feliz é uma técnica e uma “ferramenta” que pode aprender-se em formações, no que se distingue – sem ser em demorar mais tempo a fazer efeito – de um químico euforizante? Ou de um produto natural e orgânico com propriedades equiparadas? A sério que o efeito dura mais?

Domingo

Os professores não devem declarar-se cansados sob risco de serem logo lembrados que se estão assim tão mal é porque estão velhos e devem dar lugar aos mais novos (quais? os que se afastaram da docência na última década?), que se calhar são uns preguiçosos sem vocação que só dão aulas porque não sabem fazer outra coisa (acusação sempre ali debaixo da pele para diversos cronistas com poiso certo na comunicação social) e que deveriam era pensar em tanta gente que tem muito menos e não se queixa (argumento nuclear da tese do nivelamento pela mediocridade das aspirações da maioria).

Sábado

Na área da Educação, é conhecida e por vezes discutida a questão da erosão da “autoridade” do professor. Começou pela esfera disciplinar, com o pretexto de abusos cometidos, mas estendeu-se cada vez mais ao plano do próprio conhecimento, considerando-se que o saber do professor é um entre outros, como referi em crónica anterior. E também se sabe que muitas críticas à “autoridade” do professor se aproveitaram de forma bem consciente da sua confusão com “autoritarismo”.

5ª Feira

Este tipo de teorização teve um sucesso imenso na área da Educação e ainda hoje domina muitos feudos académicos e políticos ligados ao sector, sendo uma espécie de imagem de marca fraternal de um número muito vasto de pensadores e especialistas em Educação, que se irmanam na relativização da importância do Conhecimento e do papel dito “tradicional” do professor.

Pelo Público Online

(…) Vou finalizar com uma crítica do mesmo tipo que fiz aos promotores da carta aberta pela reabertura rápida das escolas, de que a economista Peralta faz parte: sejam bem-vindos à luta por uma sociedade mais justa e menos desigual. Em outras ocasiões não demos pela vossa presença, como quando sectores inteiros foram objecto de uma redução substancial de rendimentos logo a partir de 2005. Mas mais vale chegarem tarde à luta pela justiça social e económica do que nunca. Agora só falta algum rigor na descrição e análise da realidade sobre a qual lançam as vossas propostas.

A Nova Sociedade Tetrapartida Do Neo-Liberalismo Pós-Marxista

É apenas uma nova sugestão de nomenklatura.

  • Aristocracia da Pandemia.
  • Clero da Opinião.
  • Burguesia do Teletrabalho
  • Proletariado da Penúria.

Numa visão mais medieval, mas também mais realista, temos um esquema tripartido, em que os burgueses remediados estão ainda formalmente incluídos no povoléu do 3º Estado.

Os “Antagonismos” São Superficiais

Porque em muito do essencial (culto do sucesso a qualquer custo, desresponsabilização perante qualquer “fracasso”, modelo de carreira docente, modelo de gestão escolar) os dois “lados” estão de acordo. A verdade é que na maior parte dos casos, acaba tudo a almoçar junto. E mesmo o “radical de serviço” (o Mário que agora é das Barbas) parece ter tomado um daqueles tranquilizantes XXL.

Como a escola portuguesa está consensualmente enredada por duas décadas de excessos contraditórios, exige-se um recomeço assente na simplificação organizacional. Urge, como a pandemia revelou, uma escola que se reencontre com as suas raízes: não substitua a sociedade e volte a ser liderada pelo professor.