Os Estranhos Números Da Escola Digital

Na RTP3 passava esta noite uma peça sobre os atrasos da Escola Digital. Tudo bem, até surgir reportagem num agrupamento de escolas de Olhão a que chegaram 500 kits tecnológicos, esperando-se ainda mais 200. O que também acho bem, até porque existem mais de 50% de alunos com apoio social escolar, a maioria deles de escalão A (os últimos dados disponíveis online apontam para 650) e o agrupamento tem muitos alunos com as antigas necessidades educativas especiais. Terão recebido equipamento, a avaliar por estes números, cerca de 25% dos alunos do agrupamento.

E eu acho que até faltam chegar mais.

Só que… estes números são profundamente assimétricos em relação a muitas outras escolas e agrupamentos do país, mesmo tendo em conta aqueles factores. Porque há agrupamentos que conheço (e dos quais é possível recolher informação online) com caraterísticas bastante similares (em termos de alunos carenciados) que não receberam metade daquela quantidade de kits (0,5% dos 100.000 que terão sido distribuídos até agora).

O que me faz interrogar acerca da forma como isto decorreu. Se foi como com as prioridades das vacinas…

6ª Feira

Era inevitável que se estabelecessem prioridades e se definissem critérios. Parecem que circulam várias versões de um documento que parece do tipo “vamos lá a ver se pega” e se pegar “como pega”. Esta é uma delas. No fundo é “quanto vale uma vida e como se calcula isso”. É a questão entre todas as questões, para quem ainda não sabe se existe alguma divindade (ou um monte delas, os hindus não podem estar todos errados). Se há questão “civilizacional” é esta. E algumas posições a seu respeito têm-me deixado quase espantado, ou não conhecesse eu a hipocrisia que por aí anda sempre que se fala no “valor da vida”.

Para um leigo, que quer acreditar que existe alguma ciência (ou Ciência) nisto e alguma lógica (espera-se que Lógica) eu definiria duas prioridades:

  • Os que podem morrer da doença (ou seja, os “grupos de risco”), de forma muito evidente, sem a vacina (quem tem patologias que a covid exacerba e conduz a uma morte quase certa, mais ou menos velhos).
  • Os que podem espalhar os contágios de forma “silenciosa” por serem globalmente assintomáticos (os mais novos).
  • Só depois passaria aos que, tendo a doença, revelam sintomas, mas com capacidade de os ultrapassar (o lote em que acho que estou, portanto, não me venham dizer que é uma opinião feita à minha medida).

Aceito outras opiniões, desde que as fundamentem de um modo diferente de “se já vão morrer quase na certa, que se lixem que as vacinas são caras”.

Quem Se Oferece Para “Ponto Focal”?

Todos estes documentos são feitos na perspectiva do que deve ser feito e baseiam-se no princípio de que as regras mais básicas (ou outras) serão cumpridas. Mas… e todas aquelas milhentas situações que eu sou capaz de imaginar e sobre as quais não vejo uma palavrinha ou frase nos Planos de Contingência?

#sócrioprobelmas

Está Tudo Normal, Bebi Um Cházinho E Nem Ouvi Qualquer Míssil Esta Noite Sobre Bagdad

Não há matrículas terminadas, não há turmas constituídas, os horários estão por fazer, dizem que são necessários mais professores em todas as escolas, mas a DGAE está preocupada com os horários-zero,

Exmo.(a) Sr.(a) Diretor(a)/Presidente da CAP,

Informa-se que se encontra disponível a aplicação eletrónica “Recolha ICL – Fase 1″, destinada a identificar os docentes de carreira a quem não é possível atribuir, pelo menos, 6 horas de componente letiva para o ano letivo de 2020/2021.

Esta aplicação está disponível até às 18:00 horas de dia 15 de julho de 2020 (hora de Portugal continental) pelo que apelamos e agradecemos a colaboração de todos no cumprimento dos prazos.

Com os melhores cumprimentos,

A Diretora-Geral da Administração Escolar

Susana Castanheira Lopes

Sahaf

Dia 35 – É A Vida, Estúpidos!

Só que, em sondagem divulgada ontem (da Intercampus, no Jornal de Negócios), a maioria dos portugueses receia mais o contágio pelo SARS-CoV-2 do que a referida crise económica. Claro que, nestes casos, a opinião do “povo” é vista com condescendência pelos “especialistas” e “empresários”, ou seja, aqueles que há uma dúzia de anos nos conduziram alegremente até ao colapso, com raríssimas excepções. Porque a opinião do “povo” interessa quando está alinhada com o que é “certo”.

diario

Entretanto, Parece Escassear Interesse Em Outras Coisas

O comunicado já tem umas semanas. Agora imaginem que o shôr ministro não era “cientista”.

COMUNICADO SOBRE A ENTREGA DOS PRÉMIOS DA 16ª EDIÇÃO DO PRÉMIO FUNDAÇÃO ILÍDIO PINHO “CIÊNCIA NA ESCOLA”

Como até ao momento não foi possível obter disponibilidade do Ministério da Educação para a renovação do Acordo de Colaboração na continuidade do Projeto “Ciência na Escola”, com o objetivo de prosseguir o empreendedorismo científico escolar integrado com os ecossistemas das universidades e, destas, com as comunidades que as envolvem, tendo em vista o upgrade da cultura científica e tecnológica nacional, entende a Fundação Ilídio Pinho:

1. Não haver ainda condições para anunciar a 17ª edição do Prémio (2019/20).

2. Não haver condições para encerrar a 16ª edição com a habitual Mostra Nacional.

(…)

Ciencia

A Educação Só Atrapalha?

A Educação parece ter desaparecido das prioridades dos programas/manifestos/promessas eleitorais dos partidos com assento parlamentar. Pelo menos a avaliar pelos documentos conhecidos.

Mais do que fica escrito para uma posteridade efémera, preferi procurar o que não está lá. E há muita coisa que não está nos programas eleitorais, como a ausência da Educação, enquanto tema autónomo das “Cinco questões nucleares para o futuro do País” do PCP(ou das suas seis “políticas-chave”) aos “5 Objectivos para esta legislatura” do CDS, passando pelas 6 propostas do PSD, pelos 4 desafios estratégicos do PS ou pelos 5 pontos principais do programa do Bloco de Esquerda. Talvez por ter mais áreas individualizadas com propostas (acima da dúzia), o PAN é o único partido que apresenta a Educação de forma individualizada.

Sobram formulações vagas ou então sem qualquer explicação sobre a forma como se pretendem implementar as medidas propostas, como e com que cronograma. Pelo que é tão ou mais importante ler-se o que lá não está, nem sequer nas entrelinhas. E por maioria de razão no partido que se anuncia como o vencedor antecipado das eleições. Não está lá a reversão ou sequer flexibilização do modelo de gestão escolar, até por imposição da agenda municipalizadora. Não está uma clarificação do modelo de avaliação dos alunos, não se sabendo se, em caso de maioria relativa e estabelecimento de alianças (permanentes ou transitórias), serão viabilizadas propostas de extinção de exames e provas finais defendidas à esquerda.

(continua em texto enviado para o Público)

black hole