O Texto Para O Educare Deste Mês

Na edição que ficou hoje online está novamente o de Setembro, pelo que publico aqui o “novo” (já enviado há uma semana, mas que não parece ter perdido “actualidade”).

Isto está tudo ligado

A agenda mediática tem andado, em matérias de Educação ou afins, muito ocupada com fenómenos como a escassez de professores em vários grupos disciplinares e a violência e indisciplina nas escolas. Mas têm tratado ambos de forma estanque e sem parecer existir qualquer percepção da forma como estão ligados.

A falta de professores é algo que resulta de múltiplos factores para além da questão da deslocação e preço de quartos ou casas para alugar. Desde que me lembro, sempre existiram milhares de professores, contratados mas não só, obrigados a deslocar-se e a pagar para se instalarem para o novo ano lectivo. Na primeira metade dos anos 90 do século XX, quando havia ainda contos de réis, um quarto alugado na periferia de Lisboa, com mais ou menos serventias, levava 25 a 30 contos de um ordenado que, em termos líquidos, ficava pouco acima dos 100, em caso de horário completo. Fora as deslocações semanais para casa. O que era diferente é que mesmo com horário completo inicialmente, era comum que ele pudesse ser completado e até final do 1º período isso significava um ano de tempo de serviço. Havia instabilidade de ano para ano mas, em regra, existia alguma estabilidade durante o ano. Durante esse período, em que nunca concorri como contratado para muito longe e sempre para horários superiores a 145 horas, nunca passei pela necessidade de uma dupla colocação ou a ter de completar horário em várias escolas. É certo que estive um ano inteiro com 21 horas e outro com 18, mas nada que se compare com o que se passa agora.

Por estes dias, a situação de dupla instabilidade alia-se à degradação material das remunerações (se um quarto consumir 300 ou 400 euros de um salário inferior ou a rondar os 1000 líquidos, será racional a opção por aceitar uma colocação longe de casa?), à desvalorização simbólica da docência e à incerteza quanto à possibilidade de alguma vez se ingressar na carreira. O burnout precoce de muitos professores contratados é uma realidade e não apenas um problema dos “velhos” e o sentimento de desânimo e desmotivação é natural quando se anda em regime de turbo-professor e 7-8-10 turmas em 2 ou 3 escolas.

Não é de estranhar que, assim, sejam muitos os horários que ficam por preencher e, como consequência, existam turmas que durante meses inteiros estão várias horas por semana sem aulas, acabando por deambular pelo espaço escolar nem sempre com um propósito claro ou útil e perdendo rotinas de trabalho em sala de aula. O que também prejudica todo o processo de adaptação quando, por fim, chega @ docente substitut@ e é necessário estabelecer uma relação estável de trabalho. Acresce a isto que a desregulação dos procedimentos de colocação/contratação têm permitido um modelo em que não é raro que quem aceitou um horário, dias ou semanas depois o recusem, indo em busca de outra colocação. O que é a outra face da precarização da docência.

Esta desorientação ao nível de uma gestão míope dos recursos humanos que se pretende de “boa governança”, fascinada pelas poupanças feitas e pelos objectivos alcançados de “redução da despesa” transmite-se com uma grande rapidez ao quotidiano da vida das escolas e potencia situações de instabilidade nos alunos, quer porque ficam com muito tempo desocupado, quer porque muitas vezes não chega a existir tempo para estabelecer uma relação produtiva de trabalho entre os grupos-turma e @s professor@s que chegam e partem, sendo encarad@s como ocasionais. E quando essa base se esboroa, muito mais entra em colapso. Mesmo que se esconda isso com uma política de sucesso por decreto.

Acham que a indisciplina e o desrespeito em relação aos docentes é um fenómeno desligado da sua escassez e da precarização da sua situação laboral? Pensem melhor…

pg contradit

 

Já Algum Governante Ameaçou Demitir-se? Ou Mandou Vir Pizzas?

Greve de professores em Chicago põe em causa o sistema político

(…)

A greve denuncia a atuação dos dois partidos políticos nos Estados Unidos e mostra como nos últimos anos tornaram a educação num negócio e como o tratamento negligente do setor escolar em Chicago obedeceu a um projeto para “refazer” o sistema educativo, para criar cidadãos dóceis que aceitem as condições de trabalho das grandes corporações financeiras.

Os professores pedem mais e melhores condições, especialmente para alunos com grandes dificuldades sociais, tal como acontece com as comunidades afro-americana e hispânica. Querem menos alunos por turma, que o número de testes seja reduzido, que os professores mais experientes tenham um salário maior. Pedem também trabalhadores da Segurança Social nas escolas e mais profissionais que ajudem os alunos com necessidades especiais, um enfermeiro e um bibliotecário por cada escola.

A ler:

As the Strike Approached in Chicago, Teachers Taught Labor

“I asked the kids, ‘Do you want to know what we’re fighting about?’” said one teacher. They did.

Teacher strikes are changing. The Chicago walkout proves it.

They’re about much more than pay raises.

LIVE UPDATES: Protesters seek to take over Lake Shore Drive, but police push back

sindicatooo

A ANVPC Que Se Que Se Chegue À Frente…

… no protesto ou proposta de soluções para a escassez de professores contratados e para a precariedade das suas condições de trabalho.

Porque tipos como eu, não passamos de “velhos” que se tornaram efectivos aos 40 anos e a meio dos 50’s somos uns privilegiados encravados a meio da carreira, mesmo com acréscimo pré-bolonhês de habilitações. Acho abusivo aparecer a falar nas condições dos colegas contratados e no que eles sofrem. Passei por isso durante quase toda a década de 90, seguindo-se a fase qzp. MAs acho que devem ser outros a terem “protagonismo” em causas que lhes são específicas.

Portanto, quando me ligaram de órgãos de comunicação social com microfones e câmaras e tudo, reenviei-os para quem, em tese e no nome, defende os direitos dos professores contratados, pensando eu que não apenas ao nível das vinculações cirúrgicas. O site oficial da organização, como já disse há uns tempos, parece o de uma divisão do ME e deixou de dar espaço a este tipo de notícias, mas seria bonito que não esquecessem por completo aqueles que dizem representar.

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(claro que dirão, num clima de harmonia institucional, que já estabeleceram “diálogo” com o governo e que existe “abertura” para a resolução do problema durante a nascente legislatura…)

6ª Feira

A DGAE publicitou as listas definitivas de mobilidade interna e contratação inicial, acrescentando que isso acontece “cerca de um mês antes do início do ano lectivo”. A esse respeito duas notas:

  • O ano escolar começa a 1 de Setembro e é nessa altura que todos os professores devem estar colocados, para interesse de todos, a começar pela gestão das escolas ao nível dos horários e da programação do ano de trabalho com os alunos. Faltam, pois, pouco mais de duas semanas e não um mês. Colocar a professores a 10 ou 20 de Setembro (quando não mais tarde é que deveria ser tido por anormal).
  • De qualquer modo, penso que não fazem mais do que a sua obrigação, sendo estranho que isso acabe por ser de saudar. Mas nada como eleições em Outubro para aguçar o engenho… agora com os manuais é que as coisas andam meio emperradas.

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Sobre O Estatuto Social Da Docência

As minhas respostas para esta peça do Jornal de Leiria.

–  Há umas décadas, ser professor era prestigiante e dava ‘status’. A desvalorização a que a classe sido sujeita e a dificuldade que os novos docentes têm em encontrar colocação são razões para o afastamento dos jovens nesta profissão? Que outras razões existem? 
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O estatuto social dos professores era mais sensível no caso do Ensino Secundário, porque implicava um curso universitário na maioria dos casos, o que era uma situação minoritária da população. No caso do Ensino Primário, a feminização é quase total desde o início do século XX e esse estatuto era mais relativo. Podemos falar no “respeito” pela figura da professora primária, em especial nos meios rurais ou urbanos mais pequenos, em que a população adulta tinha escassa alfabetização, mas em termos de “estatuto” estava muito longe do chamado “professor de Liceu”.
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A desvalorização do estatuto social ocorre, inicialmente, com a massificação do ensino e com o aumento das habilitações médias. A massificação levou à entrada, por exemplo na segunda metade dos anos 70, na docência de quem ainda nem sequer tinha chegado à Universidade. apenas frequentado o então Ensino Propedêutico. O ajustamento no sentido de os professores serem quase em exclusivo licenciados acontece nos anos 90 do século XX, em simultâneo com a revalorização dos seus rendimentos e a instituição de um Estatuto de Carreira.
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Tudo isso veio a ser colocado em causa com as políticas desenvolvidas nos últimos 15 anos por um poder político que escolheu a classe docente como alvo preferencial dos seus ataques aos funcionários públicos, dirigindo-lhe publicamente críticas em muitos casos sem justificação e desenvolvendo medidas sucessivas que diminuíram os seus rendimentos e tornaram a carreira pouco apetecível para os novos alunos do Ensino Superior.
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–  Há um envelhecimento claro do corpo docente das escolas e vários estudos têm evidenciado o cansaço, depressão, ansiedade e até burnout a que os professores estão sujeitos. Que implicações têm isso nos alunos?
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A principal implicação é a menor disponibilidade mental e de tempo dos professores para corresponderem às necessidades dos alunos, por muito que se faça para minorar tal efeito. Mas há que perceber que grande parte da pressão sobre os professores resulta da combinação das suas funções tradicionais com outras de tipo burocrático (organizar processos dos alunos, fazer matrículas, elaborar relatórios de turma de período, de grupo, grelhas de registo de todo o tipo de ocorrências) e outras que em tempos seriam impensáveis (distribuir chaves de cacifos, recolher manuais escolares, distribuir folhetos da oferta educativa de outras escolas, etc). Este tipo de “trabalho” é incompatível com o trabalho qualificado dos docentes, mas passou a estar a seu cargo, obrigando-os a um dispêndio de tempo assinalável que, naturalmente, tem efeitos negativos na sua disponibilidade total para os alunos.
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– Toda esta instabilidade que têm vivido os docentes pode levar a que haja “falta de paciência” para os alunos e que alguns professores se “sintam cansados” e com pouca vontade de ir dar aulas
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A resposta muito clara é “sim”, porque a docência se tornou uma espécie de labirinto, do qual não se entrevê saída. O desânimo impera, a sensação de desamparo e abandono pela tutela, que apenas elogia e valoriza os professores se eles aplicarem acriticamente os seus normativos. Normativos esses produzidos em catadupa e muitos deles com evidentes falhas técnicas e evidente inadequação ao quotidiano escolar. Há uma generalizada sensação de “perda de sentido” no trabalho desenvolvido.
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– A renovação não tem sido feita. Não seria importante os recém-licenciados professores conviverem com os mais velhos para a troca de experiência?
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A colaboração intergeracional e a partilha de experiências de professores com idades e trajectos diversos seria muito importante para enriquecer a docência e minorar os efeitos do envelhecimento. A mera presença de professores mais novos é estimulante, quando o processo é feito de forma coerente e não como está a acontecer, lançando os professores contratados mais novos para uma situação de precariedade extrema, precisando de estar em 2 ou 3 escolas para completarem o seu horário. Isso torna-os também a eles vítimas de um cansaço precoce e de uma menor abertura para trocar experiências com aqueles que acham ser “privilegiados” por terem lugar no quadro. Nesse aspecto, foi insidiosa e perniciosa a acção de alguns políticos e comentadores mediáticos ao fomentarem uma espécie de conflito de gerações na profissão docente.
A preocupação parece ser apenas a de manter os professores mais novos muito tempo à espera até entrarem numa carreira à qual foi cortada grande parte do horizonte de progressão, numa lógica de Educação Low Cost.
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Parabéns, Atrasados, Ao Rui Correia

A actualidade também é feita destas coisas boas para alguns de nós. Vou ser provocador, como ele bem sabe, e agradecer ao Rui que, mais do que as metodologias que apresentou, tenha permitido mostrar um canto da sala de aulas muito parecido ao meu, ali com o hp a resistir estoicamente, o mobiliário escolar de última geração há 30 anos, o placard de corticicite com rasgões, o quadro verde tradicional com a tela lá em cima e as janelas altamente climatizadas para os 35º que se aproximam.

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