Esperem… E Verão Como Tudo Melhorará

Leio almas penadas a clamar contra a derrota da SE Leitão e a exigência parlamentar de um concurso nacional que modere os atropelos cometidos em Agosto passado. Li mesmo um colega (?) a vociferar contra os do “quadro” e – garanto que cito com razoável fidelidade, só não estou para identificar idiotices tão grandes pelo nome – a escrever que não era justo ter de concorrer de novo porque alguém que estava à frente dele na lista de graduação tinha sido colocado onde não queria. Penso que o “professor” em causa nem conseguiu perceber a barbaridade do que escreveu. Ou seja, que um atropelo à legalidade deveria manter-se só porque ele ficou bem.

A essas pessoas que assim pensam, eu recomendo que esperem pela municipalização da Educação e – apesar das negações absolutas nesse sentido – num futuro em que o provimento de lugares para “projectos” com apoio de verbas canalizadas pelas autarquias seja assegurado em concursos locais ou que as próprias necessidades temporárias deixem de ser feitas a partir de uma lista nacional. Então é que vão aprender o que morde a sério a quem não tiver o cartão ou as conexões certas. E será muito “divertido” ver quem andou a clamar contra a municipalização a tomar posições em certos centros de decisão local… alegando que antes eles do que outros.

Burros

(já agora… esta luta por um novo concurso foi feita em grande parte à margem das organizações representativas oficiais e, por vezes, mesmo com a sua adesão contrariada a algumas iniciativas, pois até pareceram concordar com a tese da SE Leitão de que seriam 100-200 os “insatisfeitos”…)

Subscrevo

Sei que (de diversos quadrantes) há a quem António Nóvoa desgoste, mas isso não me interessa grande coisa.

Desde o início do século XXI, têm surgido novas tendências de “administração” dos professores, cruzando três lógicas distintas.

A primeira é o reforço de dispositivos de avaliação, acentuando não os processos de desenvolvimento profissional, mas o estabelecimento de hierarquias dentro do professorado. Num contexto marcado pela omnipresença de indicadores internacionais, estes dispositivos tendem a evoluir para uma remuneração ou premiação dos professores em função dos resultados escolares dos alunos.

A segunda é a intensificação do trabalho dos professores, que vem atingindo níveis impensáveis, seja por via de uma escola transbordante, que quer fazer tudo, seja por via de uma burocratização crescente da vida escolar e docente.

A terceira é a inflação de materiais didácticos e pedagógicos, impressos ou digitais, que se destinam a “facilitar” a acção docente, mas que representam uma diminuição da autonomia dos professores e do seu trabalho profissional.

Ainda que por vias diferentes, todas estas políticas têm consequências nefastas na vida dos professores. Mais do que nunca, é necessário reforçar a profissionalidade docente, através de dinâmicas colaborativas e de uma maior participação dos professores na vida das escolas e nas políticas públicas de educação. (O Tempo dos Professores, pp. 1134)

fio-de-prumo

A Docência em Tempos Digitais

Interessante, mesmo se não concordo com a quase redução do papel do professor a “coordenador” em certas fases do processo.

Technology and the New Professionalization of Teaching

(…)

The new professionalization of teaching, in sum, may require renewed investment in teaching, in teachers, and in teacher preparation. Digital technologies are not likely to replace adults as important guides and role models in students’ development. What digital tools could do, if well designed, well chosen, and well deployed, is make teachers more effective in both traditional and new roles, especially in their new role as coordinator.

To accomplish this, we can no longer afford to evaluate teachers on a single metric: the performance of their students on standardized tests. Teachers contribute to the education and development of children in numerous ways, and our educational institutions must devise systems that acknowledge and reward the full range of professional services that teachers perform. In particular, systems for evaluating teacher performance should take into account teachers’ shift from the center of the pedagogical exercise to the coordinator of a range of learning and mentoring resources. This will require that teachers receive consistent support as they learn how to shift from the focus of a student’s academic life to someone who helps students coordinate the digital experiences they need to grow intellectually, socially, and culturally.

tecno

Credibilidade

Durante vários anos, a minha preocupação foi tentar que os professores transmitissem para a opinião pública uma imagem de credibilidade que a tutela e os seus cortesão políticos e mediáticos procuravam destruir. Agora, ando mais preocupado com os efeitos do cansaço, do desânimo e, em alguns casos, da falta de bom senso podem ter na credibilidade perante os alunos. Porque essa é a relação essencial que não pode ser destruída. Por tantas razões.

fio-de-prumo

Interessante

La Educación in Room 320: Toward a Theory of Care-based Resistance in the Context of Neoliberal School Reform

Background/Context: Research has illustrated that current neoliberal educational policy trends, such as data-driven accountability, the use of Common Core-aligned scripted curricula, and punitive classroom management approaches, have undermined teacher autonomy and compromised teachers’ ability to build meaningful relationships with their students. Nowhere is the impact of these policy trends felt more than in low-performing urban schools in the midst of intense reform. Research on the resistance practices of teachers in the context of reform frequently presents a negative conception of teacher resistance as a psychological reaction to change. Other more positive conceptions of resistance provide insight into the political and professional motivations for resistance. Little research to date, however, illuminates the subtle forms of resistance some teachers practice as they “push back” against the deleterious impact of neoliberal education policy on student–teacher relations.

(…)

In the field of education, teacher resistance is often viewed in pejorative and psychological terms. That is, resistance is understood as a manifestation of teachers’ fear or nostalgia, and the result is an obstruction of progress. Much of this type of resistance may actually be based on reasonable objections to unsound or unfair policies, but it does not always manifest itself in ways that support students. This is because it may not reject the implicit assumptions around cultural deficit and pejorative dominant representations of students from nondominant groups embedded in the ideology of neoliberal school reform. Mr. Vega’s colleagues who resented the accelerated English policy provide us with an example of this kind of resistance. Specifically, some of these teachers were resistant to the particular mandates aimed at facilitating the success of English language learners in their mainstream classrooms, such as using language scaffolding strategies to support students’ content-area development.

profpardal

O Regresso

Agora que estamos quase de volta para novo período lectivo, nada como relembrar três das regras (porque há outras igualmente essenciais) que acho essenciais para qualquer docente que leve minimamente a sério a sua profissão, mesmo na ausência de um qualquer código deontológico.

  • Nunca solicitar e avaliar tarefas ou exercícios aos alunos que não se saibam resolver, muito menos avaliá-las com ar de rigor. Porque uma coisa é sabermos identificar algo bem feito (por exemplo, eu sei que a Capela Sistina está muito bem pintada, mesmo se eu sou péssimo de trincha na mão), outra coisa pretender que a sabemos ensinar ou avaliar com propriedade.
  • Nunca usar a avaliação dos alunos para fazer seja que acertos de contas for, seja com quem for, muito menos usar os avaliados como interposta vítima para chegar mais além. Porque, em primeira e última instância, para além de mau carácter revela cobardia.
  • Desempenhar a profissão com a dignidade que gostaríamos de encontrar no exercício de qualquer outra profissão a que tenhamos de recorrer e cujo desempenho nos sintamos no direito de pretender exemplar. Ou seja, não fazei aos outros o que não gostais que nos façam. Ou aos vossos.

Não há necessidade de tornar as coisas piores do que são, não dando o exemplo necessário para ter alguma autoridade moral no meio de toda esta insanidade. E não vale a pena alegar que, para nós, o exemplo não vem de cima. Há muito que é assim. Não desçamos ao patamar dos medíocres que vemos passar em procissão pelos cadeirões do costume.

jesus