3ª Feira

Ler partes da biografia da Malala em turmas do 6º ano pode representar desafios muito diferentes, apesar de ser na mesma escola, com o mesmo professor e no mesmo contexto socio-económico. Numa das turmas, mal se dá por isso e estamos a fazer uma digressão até ao 11 de Setembro, à origem dos talibãs e a discutir as questões do fundamentalismo. Em outra, mal se dá por isso, encara-se uma quase generalizada apatia e indiferença, apesar do aumento do recurso a animações e estratégias diversas para despertar o interesse ou curiosidade sobre a vida da Malala e da sua luta pela educação das raparigas. É muito provável que, por exemplo, nos e-portefolios (sim, já começaram a familiarizar-se com os padlétes) se venham a encontrar diferenças substanciais de qualidade, assim como será em média bastante diferente a avaliação do (des)empenho dos alunos. Na mesma escola, com o mesmo professor, o mesmo contexto socio-económico. Não sei se será isto que um certo governante considerará um fenómeno ou problema “hiper-complexo”.

4ª Feira

Aula de introdução ao portefólio digital no Padlet. Perante a falta de computadores, numa sala com sete (em onze) funcionais, lá se tenta enfiar um turno de 13 alunos (aproveitei o bloco em que Português e Matemática conseguiram desdobrar a turma) sem qualquer esperança que seja possível, em 45 minutos, que cada um crie o seu individual, mas que pelo menos percebam como se acede ou cria a conta. Primeiro obstáculo, quase ninguém se lembra já da senha de acesso da conta de mail institucional da escola, mesmo avisados de véspera. Tudo bem, é possível criar conta usando o mail e inserindo uma nova palavra-passe, desde que se receba um código no telemóvel para confirmar a coisa. Segundo obstáculo… poucos se lembram do próprio número de telemóvel e é preciso andarem a perguntar uns aos outros qual é o seu. Ao fim de meia hora ainda há os que andam a patinar na coisa e ou se avança com alguns ou fica-se à espera para que ninguém fique para trás. Se não for com memorizações automáticas de tudo o que seja senha em aplicações, são poucos os que avançam num ritmo vagamente adequado. Após 45 minutos vieram os outros 13 (são 14 no turno B, mas alguém foi à vacina) e eis que o processo se reiniciou. A transição digital é uma coisa muito divertida quando praticada no concreto. É um trabalho sempre em progresso e recomeço. E ainda me dizem que é preciso aprender o que é desenvolver competências, recorrendo à verificação dos avanços e dando feedback à petizada. Como se isso fosse uma novidade.

2ª Feira

Se fossemos pelos clássicos, o anúncio de chuvas tempestuosas e trovoadas diversas para o início da semana em que se cruza o fim do uso das máscaras obrigatórias* (embora fortemente recomendadas 🙂 pela dgs) e o regresso às aulas, poderia significar que as Erínias (as Fúrias romanas) nos estariam a castigar por qualquer coisa. Como os clássicos já só se estudam se algum filho d’algo quiser ter Latim no currículo), ficamo-nos pelas queixas comuns como “o Verão já acabou” ou “que raio, já temos aí a chuva outra vez”. Quando dito por pessoas que em outros momentos lamentam a desertificação e clamam contra por medidas contra as alterações climáticas os lamentos têm uma dose muito curiosa de ridículo.

(*pretor… eu sei que não percebo nada de máscaras, mas não me importo de levar outra vez na cabeça)

Este Mês, No JL/Educação

Vem a seguir, destoando no tom, a prosas gémeas do SE Costa e de um dos seus directores do coração sobre as maravilhas do programa 21|23 e dos seus “eixos”. Há textos deste pessoal que, no seu tom gongórico, me fazem lembrar os panegíricos de outros tempos e outros regimes a toda e qualquer política promovida pelos Grandes Líderes do momento.

Auto e heteroavaliação

Vai terminando a custo um dos mais complicados e longos anos lectivos de sempre. Quem pensou em 2020 que tinha passado pelo pior, descobriu este ano que tinha sido apenas uma preparação para o que estava para vir. Esta semana ainda decorrem reuniões de avaliação dos alunos do 1º e 2º ciclo e continuam as tarefas típicas de qualquer ano escolar, acrescidas a cada rotação da Terra de novas obrigações que outrora se considerariam impensáveis de ser realizadas por pessoal docente que agora os poderes consideram qualificado para praticamente todo o tipo de função.

Já tivemos a parte do acompanhamento e vigilância dos alunos nos intervalos e refeições, agora temos a parte da recolha, triagem e arrumação de manuais escolares. Porque a “racionalização” dos recursos humanos nas “unidades orgânicas” outrora conhecidas como escolas fez com que o pessoal não docente (administrativo ou outro) seja deficitário, precário e não chegue para as encomendas, pelo que se considera que devem ser os professores a assegurar muito do que antes eram funções administrativas das “secretarias” (continuamos a chamar-lhes assim apesar das novas designações mais criativas e extensas), mais as novas tarefas que é preciso desempenhar e, como vida de professor é coisa descansada, vão lá receber computadores, manuais e chaves de cacifo e não se esqueçam de fazer matrículas e actualizar os dados dos alunos naquele belo sistema informático, mesmo muito intuitivo que é o E360.

Lá está ele sempre a queixar-se, parece que nunca está satisfeito, que nunca vê a parte meio cheia do copo de água fresquinha, que pensa que só deve ter direitos e privilégios e férias de três meses, como há alguma gente que gosta de escrever (e algumas até o chegam a pensar como se fosse mesmo verdade). Não o vou negar. Não consigo ignorar que as funções dos professores, não apenas em Portugal, sofreram uma enorme desqualificação ao serem-lhes sucessivamente acrescentadas obrigações claramente desadequadas às suas qualificações.

Mas se sou rápido nas críticas ao que outros decidem e fazem (ou melhor, decidem que outros devem fazer), também gosto de olhar um pouco para dentro e analisar aquilo que fiz ao longo do ano e avaliar até que ponto poderei ter contribuído de algum modo para a melhoria dos meus alunos, não apenas em termos de desempenho académico, mas também ao nível das atitudes. Não falo do que se coloca naquelas três páginas a que chamam relatório de auto-avaliação do desempenho docente, que esse é aquele espartilho no qual tudo e nada deve caber, para que sirva de base a uma classificação atribuída por quem nada observou de concreto ou sabe se mesmo aconteceu assim, como lá está ou não há forma de estar, por muito que se disfarce que se diminui a letra de trebuchet 11 para 10.

Falo de alguma forma de introspeção, quando ainda há energia ou motivação para isso. De fazer alguma auto-análise, de modo a perceber se terei algum crédito para apontar o dedo a inconseguimentos alheios, a incompetências organizacionais, a puros disparates da hierarquia decisora, em especial a central, que sobre todos derrama crenças particulares altamente discutíveis como se fossem verdades universais e intemporais. Só que, como nos tais relatórios de auto-avaliação, mesmo que em menor escala, tendemos sempre, em causa própria, a fazer alguma encenação do que realmente aconteceu, porque não há quem queiramos mais enganar do que a nós mesmos, mesmo quando se tem ainda aquela pontinha de consciência que nos sussurra ao ouvido interior que temos alguns deveres éticos e deontológicos a respeitar, mesmo que não estejam escritos.

Por isso, é importante que essa auto-avaliação tenha um contributo externo, beneficie do olhar exterior de quem efectivamente observou o nosso trabalho e esteve presente no nosso quotidiano, na parte que deveria ser a mais importante em qualquer tipo de avaliação do desempenho docente, a que se passa na sala de aula e no que de mais perto rodeia a prática lectiva. Porque eu sou dos antiquados professores que, mesmo achando que se deve cumprir com brio tarefas como escrever uma acta sem erros ortográficos ou de sintaxe básicos ou fazer um qualquer relatório final (quase sempre de utilidade duvidosa, mas já começa a fazer parte da paisagem), os professores deveriam ocupar a larga maioria do seu tempo em trabalho directo com os alunos e não no seu registo administrativo ou representação burocrática para a respectiva monitorização.

Tudo isto para referir que todos os anos, naquelas aulas em que já na recta final, quando estamos a tropeçar nas próprias palavras, sumariamos “auto e heteroavaliação”, gosto de pedir aos alunos que façam não apenas a sua avaliação, mas também a minha, a do professor, em termos quantitativos e curtamente descritivos, identificando uma ou duas qualidades que se consideram importantes e os defeitos que acham que devem ser corrigidos. De forma anónima, claro. Uma avaliação que, como se diz há umas décadas, tenha uma componente “formativa”, para que eu possa melhorar o meu desempenho ou, pelo menos, tomar consciência do que pensa quem me observa com maior proximidade e para quem, em primeira e última instância, o meu desempenho tem mais importância.

(momento adequado para um breve interlúdio explicativo: que não se confunda esta minha prática com uma adesão às teorias que postulam que os alunos devem ter um papel sistemático na avaliação formal dos professores, em especial quando isso é surge ao serviço de modelos essencialmente punitivos do desempenho docente)

De regresso à avaliação feita pelos alunos: em regra é generosa, muito generosa e tão mais generosa quanto a miudagem é mais nova e ainda não deixou que se lhe entranhassem alguns dos vícios que o sistema lhes transmite e o cinismo que acaba por lhe ser inerente. E mais do que na mera quantificação, é muito interessante a leitura das curtas considerações descritivas que fazem com um olhar que, como referi, é ainda muito limpo e puro, ingénuo, mas perspicaz.

Este ano, com metade dos meus alunos em isolamento na última semana de aulas, só pude recorrer à minha direcção de turma para recolher estas opiniões, embora a verdade é que é com eles que passo mais tempo todos os dias na escola (Português, H.G-P., Cidadania e Formação pessoal e Social, permite que estejamos juntos quase tantas horas juntos com o Sol no Céu como com os nossos familiares mais directos).

Mais do que estar a fazer aqui uma indulgente listagem de qualidades ou defeitos que possam afagar o ego e ajudar a minorar algumas dores profissionais, gostava de destacar que boa parte dos alunos, em vez de atribuir um valor, decidiu completar a pergunta “E o professor merece ter?” como se de uma frase declarativa se tratasse, apesar do curto espaço reservado para escrever.

E foram vários a expressar o mesmo tipo de pensamento: “descanso” ou “descanço”, conforme a proficiência ortográfica, ou “descanso de nós” ou mesmo “descansar e ganhar o euromilhões”. Sendo respostas anónimas, é enorme a tentação para descobrir quem escreveu esta última possibilidade para lhe subir as notas todas para o máximo.

2ª Feira

Há matérias que fazem parte do quotidiano de um professor que dificilmente se podem enquadrar no contexto funcional da profissão, mesmo se são incontornáveis, por manifesta falta de meios, nas escolas e em seu redor, para funcionar como primeira linha na defesa dos alunos contra ameaças muito sérias quanto à sua integridade física e emocional.

3ª Feira

A “boa vontade” é aquilo a que os poderes que temos recorrem como forma de sensibilizar quem ache que aquilo de ser um “profissional crítico e reflexivo” é para levar a sério. E funciona quase sempre de cima para baixo e vem com ameaça na ponta. Ou fazes assim, ou… és mau profissional, porque tens “má vontade”. Em regra, pede-se “boa vontade” quando se quer que alguém faça o que não está nas suas atribuições legais ou que implica o dispêndio do seu tempo para além daquele que é pago. 

Sábado

– Só os enxotaste com um pau, é isso? E é muito diferente de lhes atirar com um pau?

– Não é bem o mesmo. É diferente.

– Ai, é? Como?

– Quando se atira um pau, acerta-se. Quando é a enxotar, não se acerta. Eu não consegui acertar.

(suspiro bem audível do professor a pensar que o fim de semana tarda em chegar)

3ª Feira

Esta estória é minha e nem é muito antiga. Nem é especialmente original. Porque com petizada pequena, não é raro ser tratado como “pai”, “tio” ou – ai, ai, o envelhecimento docente – “avô”. Confesso que nestes últimos casos, pondero logo a descida de um nível na classificação final d@ alun@, mas depois passa-me.