Domingo

Na passada semana fiz a tradicional recepção aos alunos e encarregados de educação da minha direcção de turma de 5º ano. A ansiedade habitual da ida para a escola grande, em especial da parte de mães e pais. Acrescida pela curiosidade sobre saber como vai ser, se afinal faltam mesmo professores e se será como diz o governante na televisão… que só faltam colocar uns 600 e poucos horários (daria menos de um por agrupamento) e que são quase só de Informática. Tive de lhes dizer para não acreditarem em tudo o que vêem ou ouvem, pois – deve ser sina minha, todos os anos acontecerem-me “acidentes” ou incidentes peculiares – à data a turma ainda se encontrava sem três horários preenchidos (equivalendo a quatro disciplinas), porque tinha acabado de chegar uma colega para Ciências. Curiosamente, não falta professor de T.I.C., faltando Português, Inglês, Cidadania e Educação Física.

E claro que se seguiram muitas perguntas, muitas dúvidas, que respondi como pude, só lamentando que em vez de irem abrir o ano em escolas seleccionadas a dedo, os governantes (primeiro Costa e ministro Costa) não apareçam naquelas onde deveriam explicar como aquilo que dizem publicamente não corresponde à realidade de muitas escolas, alunos e famílias. Porque revelam uma assinalável falta de coragem. claro que não podem ir a todas, pois seriam muitas e a ubiquidade que lhes é reconhecida é apenas a mediática, mas ficaria bem irem a algumas onde não chovem rosas desde as 8 da manhã e é preciso planificar um início de semana cheio de incertezas e promessas de que, logo que existam novidades, as mesmas serão comunicadas para se saber a que horas a miudagem deve sair de casa, se vão almoçar a casa ou não, etc, etc. A futurologia deve ser um dos imensos “super-poderes” que os professores têm, para relembrar aquela prosa algo “idiotizada “desvinculada” que citei ontem. Mas faz-se o quase impossível para tranquilizar quem é regularmente desinformado pelas aparições públicas de um governante mais interessado em fabricar uma realidade alternativa do que responder com rigor ao que se passa no terreno.

Sim, já sei, só vejo o meu “quintal” e no resto do país é tudo maravilhas. Culpa minha, por certo, que atraio estas “singularidades”. Deve ser porque sou “excelente” a evitar as bolas curvas que me são atiradas com uma regularidade assinalável.

4ª Feira

Último dia de aulas para os últimos. Nada como ver como a maioria d@s colegas se derrete literalmente – e quase esquece tudo o resto – quando recebe elogios dos alunos, abraços pós-pandémicos e outras pequenas (ou serão grandes?) manifestações de mimo e apreço por parte daquel@s que mais interessam. Algo de que a generalidade d@s cortesã(o)s do regime abdicaram, em troca de rabo sentado e do poder para ensinar como se faz, sem ter de fazer. De anunciar que defendem o “interesse dos alunos”, só tendo de o proclamar.

Sábado

Não sou um fundamentalista do dress code na escola e na sala de aula. Compreendo certas reservas, mas a minha atitude é mais com o que se faz com o que se (não) veste do que com as vestimentas em si. Nesse aspecto sou um pouco laxista, confesso. O que tenho dificuldade em admitir é o uso de paramentos ou acessórios para tentar provocar ou desafiar, sem qualquer justificação razoável.

Por exemplo… abandonámos as máscaras que eram um incómodo imenso para as crianças e jovens, porque impediam a comunicação, ver-se as expressões, a cara, etc. Logo… acho profundamente [pi-pi-pi] que certos simpáticos alunos insistam em querer usar os chamados hoodies com capuzes a tapar-lhes quase toda a cara. Até porque começou a estar calor e abafado nas aulas climatizadas ao estilo-ME sem festa da Parque Escolar.

Há um par de semanas, um aluno de 11 anos que vai comigo em mais de 350 aulas em 2 anos (Português+CD), estrela em ascensão nas camadas jovens do Sporting, foi avisado aí pela 231ª vez para tirar o raio do capuz para que eu lhe visse os olhos e a maior parte da cara. Sim, como nas 230 vezes anteriores, tirou-o mas, como numas 165 dessas vezes, mal eu me virei para outro lado da sala, voltou a colocá-lo, ainda mais enterrado pela cabeça abaixo.

Desta vez, ao contrário das outras, fruto de um certo cansaço com o ritual, não lhe repeti o pedido, cheguei perto dele e, contrariando as regras do chonismo disciplinar “inclusivo” (calma, o aluno mão é de qualquer minoria étnica ou cultural, não era um statement identitário desse tipo), tirei-lho da cabeça com a minha mão e íamo-nos ficando por ali. Só que uma colega relativamente nova na turma, um pouco mais velha e proveniente de uma escola a norte do Tejo, com atitude de diva dos direitos das crianças, acusou-me de estar a desrespeitar o colega com o meu acto. O que, até por estar com a matéria quase toda dada, funcionou como oportunidade para, numa aula de Português, revisitarmos a “Cidadania” dada no primeiro semestre (ela não esteve presente) e aquilo que deve ser considerado “respeito”, não apenas numa sala de aula.

E, entre outras considerações mais “assertivas” da minha parte sobre o tema, inquiri o aluno em causa acerca do que aconteceria se ele, nos treinos do Sporting, desrespeitasse de forma sistemática as indicações do treinador (parece que ainda há quem lhes chame mister). Se, por exemplo, seria incluído nos seleccionados para os torneios de final de época fora do país (um em Inglaterra, outro em Espanha). Ao que ele respondeu que não, que seria excluído e que, provavelmente, ainda levaria uns “amassos” dos mais velhos e capitães de equipa, por se estar a armar em parvo. Mas que – e isso seguiu-se a outra pergunta minha – ele nem sequer considerava – lá está” – “desrespeitar” o treinador e que isso tinha feito parte das regras comunicadas logo no início da temporada aos recém-chegados.

E aqui concordámos que, se calhar, eu tinha o mesmo direito a exigir o “respeito” que um petiz de 11 anos sabe dever ao seu treinador de futebol, até porque, bem vistas as coisas, ainda não está provado que ele vai ser o novo cristiano, palhinha, rafael leão, quaresma ou bruno fernandes. E foi então que voltei a trazer a colega “indignada” à conversa, perguntando-lhe se agora já percebia melhor as coisas e a razão da minha atitude. Baixou a cabeça, com um sumido “sim, stor” a sair-lhe a custo. Estive quase a dizer-lhe que não gosto do “stor”, mas como escrevi, ela só está há relativamente pouco tempo na turma.

2ª Feira

Não sei se é bem “vergonha alheia”, porque isso talvez implique alguma empatia com quem deveria sentir “vergonha própria” e essa já se gastou há uns tempos. É mais embaraço, ao observar certos descalabros que me rodeiam e que, nem que seja de forma indirecta, acabam também por me atingir e manchar, por incúria, desleixo ou incompetência de terceiros. Nada que aconteça por falta de avisos a tempo, mas quando se opta pela via da “representação” e do “tudo está bééém”, estamos com mais de meio caminho para asneira da grossa. Espero que não tenham a lata de pedir que trate de raspar os ossos a quem nunca acharam que merecesse carninha do lombo, que essa é para @s amig@s. Ou para os vassalos mais invertebrados. Ou para os guardiões da honra perdida. E que se lixe quem afiar o barrete até aos pés, que só vai tarde.

E quem não percebeu, é porque era para não perceber.

As “Esperas”

Por mero acaso, tenho escapado a algumas, nenhuma do calibre daquela que me foi contada por um colega há dias. O EE que ficou à espera dele junto ao carro, por causa de umas faltas por justificar (quando há prazos para isso e não é o DT que tem má vontade, e ameaçou que lhe queimaria o carro se não fizesse o que ele entendia ser o certo. O meu colega teve a presença de espírito, desarmante, de lhe perguntar se o queria fazer com ele dentro ou fora do carro. E o tipo embasbacou e foi à vida dele, mas a lançar os seus impropérios. Já tod@s passámos por intimidações deste género ou tentativas de coisas parecidas, mas a cartilha dos sonsice educacional costuma dizer que a culpa só pode ser nossa, porque a razão nunca está connosco. Poderia acrescentar uns detalhes, mais recentes, quase frescos, mas depois ainda me chamavam “incendiário” como um director aqui da zona, daqueles a que só falta erguer um altar ao Santo Costa na sala dos professoresl

Desagregação

Por vezes, bastam poucos dias de inacção para que se esboroe um trabalho de muito tempo. Claro que quem não vive o quotidiano dos corredores e aulas de porta aberta tem muita dificuldade em compreender que a celeridade da decisão é essencial para que a moral de uns não desapareça, enquanto aumenta a sensação de impunidade de outros.

3ª Feira

Assumindo a impossibilidade física, mental e operacional de cortar todas as comunicações com o exterior – qual China ou Rússia com a internet – da sala de aula, seria aconchegante saber que os adultos do lado de fora colaboram, não promovendo esse mesmo fluxo, sabendo que os educandos estão em aula. Em especial, sé é apenas para ajudarem à confusão. e não, não faço grupos de whatsapp com os alunos e não quero saber das tretas que por lá comunicam, em especial quando algumas regras de contenção deveriam começar em casa. Porque, tantas vezes, quando me chegam, colocar as coisas é ordem é tarefa para um hércules aditivado.

E em matéria de redes sociais, os meus ex-alunos que tiveram a simpatia de me pedir amizade, podem confirmar que sigo mesmo estas regras.

3ª Feira

Assistir à degenerescência de uma organização, com a perda de capacidades inerente ao processo, a incapacidade de aprendizagem, o esquecimento de aptidões passadas, a repetição dos erros, é quase tão doloroso quanto acompanhar a degenerescência de uma pessoa. Até o aparecimento de excrescências anómalas, com funções estranhas ou inúteis, onde menos se espera, acontece, para nosso desespero e desgosto. E tal como com as pessoas, sofremos mais quanto maior é proximidade emocional.

E quem não perceber do que se escreve, o mais certo é estar a experimentar o referido processo.