Sábado

Terminámos a primeira semana em regime de “pisca-pisca”. Ainda bem que o termo pegou, porque não há nada como desenvolver novos conceitos para este pretenso “novo normal”, em que cada vez mais se deixou de planear sequer a médio prazo e lidamos com cada dia (e cada aula) conforme nos aparece. Mais flexibilidade do que isto?

Será Que Andamos Mesmo A Fazer Mal As Coisas?

Canso-me de ler que os alunos estão fartos da escola “velha” e dos “professores do século XX” que pensam e agem de acordo com um “paradigma ultrapassado”. E que se desinteressam das aprendizagens e acabam por ficar “turbulentos” ou mesmo indisciplinados por causa disso. e depois, apesar de todas as coisas menos positivas destes meses e anos deparamos com alun@s a chorar porque vão ficar sem vir à escola e às aulas (sim, às aulas) durante 3 semanas e a pedir para lhes deixarmos mensagens de Natal no Classroom. Para não falar daquel@s que querem a garantia que vamos ter saudades das aulas (antiquadas, “dirigistas”, tradicionais, encaixotadas).

Não falo especialmente por mim, que já se sabe ser criatura particularmente desagradável ao trato, mas por todos aqueles professores que por este final de semana têm de lidar com múltiplas dimensões na sua relação com os alunos e, principalmente, conseguir gerir as emoções da petizada que, em tempos de incerteza, procuram algumas “âncoras” que lhes transmitam estabilidade e segurança. Não estou a dizer que não existem esses referenciais nas famílias, mas há quem ande muito enganado quando menoriza objectivamente o papel d@s professor@s ao torná-los meros “orientadores de aprendizagens” ou uma espécie de monitores de atl. Porque entre a petizada a atitude é muito diferente e ainda há muitos que encontram n@s professores um ponto de referência. Ou então eu (como muit@s outr@s colegas) tenho muita sorte, apesar da postura de arcaico ogre pedagógico, habituado a fazer-me ouvir alto e bom som quando acho que as coisas estão a descarrilar. O curioso é que parece que entre os pequenos, raramente isso é incompreendido. Os adultos é que são mais difíceis de compreensão. Em especial no caso dos adeptos dos arianismos flexíveis e rodriguismos inclusivos de uma delicodoce inconsequência retórica.

3ª Feira

Em que parte do processo é que eu falhei para uma aluna que nasceu e viveu no Brasil até aos 11 anos, só sendo minha aluna desde Outubro, não saber localizar o dito Brasil num mapa, nem sequer ao nível do continente ou sub-continente? Lá está… falha na espacialização. Mas como também não me consegue dizer em que terra ou região nasceu, talvez o meu inconseguimento pedagógico seja mais grave ainda.

(terá tido o azar de ter andado naquelas escolas que fazem parte do périplo pachequiano pelos trópicos?)

“Ó Professor, Mas É Mau Se Nos Mandar Sair Da Sala?”

Para vocês, o mais certo é não ser nada, porque agora quem manda sair alunos por comportamento tudo por inadequado (falar sem parar, sobre qualquer assunto, fazer desenhos de tudo e nada em vez de tentar passar o sumário ou apontamentos, ofender ou dar palmadas violentas em colegas) é que está a falhar, porque “revela não saber controlar a turma/sala de aula” ou “estar emocionalmente instável” ou “não ter a devida formação para gerir conflitos”, etc, etc. Este tipo de observações são particularmente aberrantes quando partem de quem passa pouquíssimo ou nenhum em salas de aula, muito menos com audiências à cunha para o espaço. Nada como rabos sentados para saberem dar lições a quem faz o possível de que muita gente fugiu logo que foi possível e não voltou. Ou que tem muito “crédito” por conta. Isto sem falar naquelas pessoas que dão formações em vez de gozarem a merecida jubilação ou aposentação ou o raio que as carregue.

A talhe de foice afiada, ontem, no canal Q, revia uma entrevista ao Carlos Maria Trindade em que ele descrevia saudosas aulas de Português com o saudoso Vergílio Ferreira no Liceu Camões. Se fosse hoje, ainda acabava com um processo em cima e @s maiat@s tod@s em polvorosa porque chegava à aula e dizia… “Escada, façam uma composição sobre a escada”. E sentava-se.

Saudosismo de um passado arcaico e que não deve ser recuperado em tantos defeitos que tinha? Nem por isso, que eu nunca tive o Mário Dionísio a dar-me aulas de Francês (como o CMT). Aliás, na minha escola nem sequer me deixaram ter Francês.

O que sinto é algum desgosto pela erosão da figura do professor como alguém que é dotado de um saber específico e não como um mero monitor de atividades recreativas.

3ª Feira

Ontem, um dos colegas mais novos das minhas bandas, desterrado de terras mais frias para o deserto, mostrou-me os 215 testes que tem para ver, que é a maravilha de se ter 9 turmas a 2 tempos semanais e mesmo assim ter horário incompleto, a menos que tenha DTurma. Claro que eu devia ter inquirido se estava tudo pronto para avaliação por rubricas, que é a forma que o shôr doutor do Maia, mail’as suas embaixadoras e embaixadores consideram a mais adequada para passarmos da “classificação à avaliação” mais o fiodobéque que os carregue, sem desprimor para algumas boas pessoas que andam por lá ao abrigo de praticar o que verbejam. Porque muito verbeja quem não trabeja (isto foi só para bersejar…).

(o rapaz até tem a sua sorte, porque se levasse com turmas como as minhas a 27 e 28 alunos, até os ossos lhe vergavam com 250 testes)

3ª Feira

Ler partes da biografia da Malala em turmas do 6º ano pode representar desafios muito diferentes, apesar de ser na mesma escola, com o mesmo professor e no mesmo contexto socio-económico. Numa das turmas, mal se dá por isso e estamos a fazer uma digressão até ao 11 de Setembro, à origem dos talibãs e a discutir as questões do fundamentalismo. Em outra, mal se dá por isso, encara-se uma quase generalizada apatia e indiferença, apesar do aumento do recurso a animações e estratégias diversas para despertar o interesse ou curiosidade sobre a vida da Malala e da sua luta pela educação das raparigas. É muito provável que, por exemplo, nos e-portefolios (sim, já começaram a familiarizar-se com os padlétes) se venham a encontrar diferenças substanciais de qualidade, assim como será em média bastante diferente a avaliação do (des)empenho dos alunos. Na mesma escola, com o mesmo professor, o mesmo contexto socio-económico. Não sei se será isto que um certo governante considerará um fenómeno ou problema “hiper-complexo”.

4ª Feira

Aula de introdução ao portefólio digital no Padlet. Perante a falta de computadores, numa sala com sete (em onze) funcionais, lá se tenta enfiar um turno de 13 alunos (aproveitei o bloco em que Português e Matemática conseguiram desdobrar a turma) sem qualquer esperança que seja possível, em 45 minutos, que cada um crie o seu individual, mas que pelo menos percebam como se acede ou cria a conta. Primeiro obstáculo, quase ninguém se lembra já da senha de acesso da conta de mail institucional da escola, mesmo avisados de véspera. Tudo bem, é possível criar conta usando o mail e inserindo uma nova palavra-passe, desde que se receba um código no telemóvel para confirmar a coisa. Segundo obstáculo… poucos se lembram do próprio número de telemóvel e é preciso andarem a perguntar uns aos outros qual é o seu. Ao fim de meia hora ainda há os que andam a patinar na coisa e ou se avança com alguns ou fica-se à espera para que ninguém fique para trás. Se não for com memorizações automáticas de tudo o que seja senha em aplicações, são poucos os que avançam num ritmo vagamente adequado. Após 45 minutos vieram os outros 13 (são 14 no turno B, mas alguém foi à vacina) e eis que o processo se reiniciou. A transição digital é uma coisa muito divertida quando praticada no concreto. É um trabalho sempre em progresso e recomeço. E ainda me dizem que é preciso aprender o que é desenvolver competências, recorrendo à verificação dos avanços e dando feedback à petizada. Como se isso fosse uma novidade.