Domingo – Dia 70

Com a manutenção do regresso, amanhã, 2.ª feira, do Secundário ao regime de aulas presenciais, todos os humanos da casa irão para as suas escolas pela primeira vez em cerca de dois meses. O que voltará a deixar o domínio doméstico como território exclusivo da gata que até já se estava a acostumar às novas rotinas e ao som de vozes a sair de ecrãs a toda a hora, pela casa. Já no ano passado, a adaptação tinha sido feita com alguma irritação e curiosidade.

4ª Feira – Dia 17

Já pedi para desgralhar o original, que é o que dá escrever logo às 8 da manhã.

Uma pretensa “nova” normalidade tem de assentar em novas rotinas, estabelecidas com paciência e atenção ao que funciona minimamente e o que acaba por estar apenas a criar uma desnecessária ansiedade. E quando tanto se começa a falar em “saúde mental” (de alunos, mas de igual modo de professores e encarregados de educação), é fulcral que se busque o tal equilíbrio entre o conhecido e o novo, que as “novas” rotinas tenham as tais “luzes” que iluminem o caminho, mas que o façam no entendimento de que este é um caminho diferente do que estávamos habituados a percorrer.

4ª Feira – Dia 10

Hoje repetiram-se os problemas, não apenas para mim, ao tentar que os alunos fizessem um mini-questionário no Quizizz. Lentidão, quedas de ligação, tudo a servir apanas para aumentar níveis de ansiedade, em especial nos mais pequenos. A solução é memso recorrer a tarefas quase por completo assíncronas.

Ontem, as coisas fraquejaram e não houve largura de banda que aguentasse, pelo que duas das ligações, mesmo aquela que ganhou poiso ali defronte do router, andaram aos tropeções, às entradas e saídas de sessão, quase fazendo lembrar os tempos do modem de 56k dos idos remotos dos anos 90, quando consultar o mail do clix era uma aventura.

Quem tem essas memórias ganha uma resiliência (palavra que então nem se usava, era mesmo apenas paciência) enorme para enfrentar as agruras do mundo digital de fantasia que nos é vendido pelos gurus da Transição Digital, que parecem não entender que de nada adianta ter 5G se não existir meios para a maioria desfrutar de tamanha hiper-modernidade. Que me interessa o Ferrari, se não tenho como pagar o consumo? Ou melhor, de que me interessa dizerem-me que há Ferraris por aí, se são só para futebolistas de topo e “empreendedores” andropáusicos?

Domingo – Dia 7

A realidade tem muitas cores e gamas de cinzento. Pelo menos a minha. Acredito que outras sejam apenas a preto e branco com cores básica.

O regime não-presencial tem destas particularidades, que não se limitam a falta de equipamentos ou à adaptação de horários e metodologias de trabalho. Tem todo um outro nível de situações com que lidar e que exigem uma grande disponibilidade e capacidade de adaptação por parte das escolas e professores, no sentido de “ajustar” as práticas a esta nova diversidade.

5ª Feira – Dia 4

Nem tudo foi penoso neste regresso, porque quase todos procuraram reconhecer-se e reconhecer os outros, revelando o quanto, contra tanta “opinião especializada” ou apenas preconceituosa, acabam por gostar de estar na escola e nas próprias aulas, ao ponto de nela entrarem logo que a ligação (neste caso do Meet) surge disponível. Que pena que isto, assim que a pandemia passe, possa vir a ser novamente ignorado.

4ª Feira – Dia 3

Este desequilíbrio na representação da realidade, com a sua evidente “boa intenção” de transmitir uma mensagem de “esperança” e “positividade”, acaba por produzir incompreensão e frustração em quem não se sente retratado e pensa que está a ser discriminado. E interroga quem está mais próximo, nem sempre compreendendo que a culpa não é de quem também partilha dessa mesma frustração e mesmo uma inegável fúria contra quem, mesmo agora, acha que se pode escapar com uma nova vaga de remendos. 

Lamento Ser Insistente Nisto, Mas As Coisas São O Que São

Ao segundo dia, chegam-me relatos da necessidade, desde já, de substituir equipamentos ou ir comprar por parte daqueles que tiveram de usar os seus meios para que a segunda vaga do serviço público de E@D tenha uma aparência de funcionamento. Alunos e professores que viram, ao fim de apenas dois dias de sincronias, computadores entregarem a alma à manutenção (caso tenham salvação ou seja economicamente racional) ou que, com tanto delírio sincrónico, perceberam que precisam de adquirir mais meios, pois nos telemóveis, por muito inteligentes que sejam, a realização de algumas tarefas não é exequível.

O problema é que perante certa propaganda televisiva, quem fica com a maioria das culpas acabam por ser escolas e professores, por parecer que não estão a querer dar/emprestar os computadores que o anti-génio e a máquina mediática do ME dão a entender que existem. Fora aquelas pessoas – por muito especialistas que sejam – que não têm mesmo noção nenhuma do que é o país real, fora de alguns nichos ainda funcionais da Parque Escolar ou de um ínfimo número de pseudo “salas do futuro”.

Na casa da maioria, é o presente tem muito peso. E em casa onde não chegam kits para as necessidades, todos protestam achando ter a razão que, em boa verdade, até terão.

Só que eu e tantos outros não temos culpa, por muito que tenhamos avisado desde Setembro que as coisas não estavam a ser feita devidamente.

Mas há quem viva no mundo da fantasia (caso da presidente do CNE em algumas das suas crenças aqui expostas sobre a “melhor preparação” das escolas) e dê muito jeito ao governo que assim continue, porque funciona como cortina de fumo e primeira linha de choque com a opinião pública.

4ª Feira – Dia 6

Os períodos de confinamento têm sempre os seus pequenos dramas, como aquelas pessoas que aproveitam para fazer obras ou bricolages diversas quando por perto há quem esteja em teletrabalho ou, por exemplo, quem precise de níveis de som adequados a, digamos assim, uma “sessão” (não confundir com aula) de uma disciplina “estruturante” do Secundário.

Mas depois do que se viu ontem nos ecrãs da televisão sobre o estado em que estão os novos hospitais e o pessoal que lá trabalha, como os enfermeiros do Amadora-Sintra que tiveram de voltar ao serviço para transferir os doentes para quem não havia oxigénio, tudo se relativiza.

6ª Feira – Dia 1 Do Re-Re-Confinamento

Há pessoas para todos os formatos e feitios. Umas gostam de tirar o adesivo devagarinho, para doer menos, mas durante mais tempo e as que gostam de tirar de repente, por muito que doa naquele instante. Nas aulas, há sempre aquel@ alun@ que decide desembrulhar um rebuçado com prata farfalhante, debaixo da mesa, como se o míope professor ouvisse com os olhos. Qualquer alun@ que me conheça sabe que, mais tarde ou cedo eu acabo a pedir encarecidamente para “descascar” a coisa à vista de todos e depressa, em vez de prolongar o martírio do resmalhar.

O mesmo com isto da pandemia. É para fazer faz-se ou não se faz. Se estão em cima, não é que tenha de ser “para Angola, rapidamente e em força”, mas por amor de todas santinhas, não fiquem a pensar demasiado se afinal, sim, não, talvez, quiçá. Em especial quando isso não se deve a dúvidas sobre o que existe, mas a cálculos acerca do bem ou mal que poderá parecer.

Isto vem a propósito do “cansaço da pandemia” que vem muito à conversa de pessoas que tentam explicar o que não passa de estupidez ou imbecilidade pessoal. E eu sei que ando a usar muito estes termos e nem é que os aprecie especialmente. Só que mesmo depois dos números dramáticos destas semanas, há quem prefira optar pelo chico-espertismo tuga, seja de trela com cão imaginário, seja desenterrando o fato de treino da última caminhada para justificar passeio sem máscara. Ontem, no trajecto de uns 50 metros entre o carro e o portão da escola cruzei-me com 3 criaturas, um casal a parecer um pouco mais velhos do que eu e um solitário, que tinham em comum uma farpela “desportiva”. O casal falava alegremente entre si de máscaras no queixo; o solitário passou pelo portão da escola e subia a rampa sem sinal sequer de máscara por perto, mas com telemóvel na mão, lutando com os fones que iam não estavam nos orelhames. O que eu aproveitei para o olhar e dirigir-lhe uma frase curta, sem palavrões (que só recentemente me passaram a surgie à ponta dos dedos, mas que lhe transmitiu tudo o que pensava daquela atitude, naquele lugar. Teve o decoro de baixar a cabeça e não me responder.

Só que a coisa não é localizada. Hoje, enquanto ia à papelaria para comprar o Público e o volume desta quinzena da bd Rio, lá me cruzei com um punhado de pessoas, só uma delas com máscara. Justificação? Não faço ideia, desta vez nem sequer lhes disse nada, pois ia no carro (calma, o trajecto foi curto e fui motorizado exactamente para não ter a oportunidade de me irritar). Apenas percebo que esta malta anda muito “cansada da pandemia”. Às vezes penso se preferirão o repouso eterno. Dos outros, claro, que eles são santos.