De Bolso

Gosto do formato (ajuda à gestão do espaço) e do preço (ajuda à gestão financeira) e ainda me permitiu hoje, numa fnac, ouvir em tom público a manifestação da inteligência superior de uma funcionário ali pelos vinte e pouco que ao meio dia já deve estar chateada com a vida e os clientes. Quando lhe fiz notar que os livre de poche estão a oferecer, em parceria com a fnac, um saco de linho a partir da compra de dois livrinhos e que era melhor do que o de plástico que me estava a dar, depois de ir enfastiada buscá-lo, virou-se para a colega e sem problemas em ser ouvida saiu-se com esta “não percebo estes ecologistas, agora por causa do plástico, andam só a deitar árvores abaixo”. Eu sei que no cérebro dela certamente o que disse teria alguma relação com o facto de eu ter recusado o saco tradicional – pois não se coibiu de o dar a entender com a sua pouco subtil linguagem gestual e olhar reprovador –  e ainda estive mesmo para lhe perguntar se tem visto visto muitas árvores de linho a ser cortadas, mas depois pensei que já não estou em período de aulas e que quem se mete com gente parva é porque tem tempo para gastar, ainda é mais parvo ou está com necessidade de descarregar a bílis. Não era o meu caso, pelo que a deixei feliz com a sua auto-satisfação cívica.

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Há Pessoas Que Gostam Tanto Dos Alunos E Do Seu Sucesso…

… que são altruístas ao ponto de se manterem fora de uma sala de aula décadas ou passarem por lá o mínimo dos mínimos, assim que lhe podem escapar, de modo a permitir esse prazer a outrem. E não estou a falar, por uma vez, de sindicalistas vitalícios, mas de quem adora alunos em regime de dieta gourmet porque mais de um ou dois por dia faz(em) mal à saúde.Gororoba

 

 

(garanto que já mordi a língua várias vezes, nem que seja para confirmar, e sobrevivi…)

Cidadania E Subdesenvolvimento

Hoje ao sair de uma aula, a meio da tarde, e ao ir pelo corredor deparei com um aluno (coisa de 6º ano, no máximo) que exibia perante as colegas os seus dotes de arroto bem sonoro, de que me fui apercebendo mesmo à distância. Quando lhe recomendei que o fizesse em ambiente familiar e perguntasse o que achavam da competência demonstrada com elevada mestria, lá se calou, mas mal me viu pelas costas, recomeçou enquanto saía do bloco pelo lado oposto ao meu. Má sorte a dele eu ser tinhoso e ter dado a volta por baixo e ido dar de caras de novo com o petiz enquanto descia as escadas todo risonho, a arrotar com toda a alegria do mundo. O que a seguir lhe disse tirou-lhe o sorriso parvo da cara e fez-lhe extinguir os gases em excesso no estômago e esófago. Terei sido pouco flexível e quiçá rígido, mas há coisas que não sendo aprendidas de pepino, é tarde quando não se é pequenino, a menos que a explicação seja assim um pouco em força ao nível dos “afectos”.

Burp

A Velha Desigualdade Está De Boa Saúde (Embora Não Se Recomende)

Um mito piedoso dos tempos pós-modernos é que as desigualdades se atenuaram, na Educação ou mesmo no acesso à Cultura. Não é bem assim. Talvez todos nos tenhamos elevado um pouco, mas as diferenças permanecem. Claro que se estivermos uns minutos numa média ou grande superfície (numa boa e velha mercearia ainda se fazem contas no papel e pesos em balanças com escala) a observar as rotinas automatizadas de grande parte do pessoal e clientes percebemos que se a tecnologia falhar, fazer contas e trocos será para iluminados com a sapiência da aritmética básica e da tabuada. A escolaridade obrigatória foi feita ao pé coxinho ou de muletas e na altura ninguém se dava ao trabalho de pensar que o século XXI reservava uma nova proletarização da maior parte da mão-de-obra que agora não possui os “meios de produção”, nem sequer os rudimentos de saberes já de si rudimentares. A “transversalidade” fica-se pelo espírito crítico em relação ao futebol, aos casacos e amores do goucha e saias da cristina ou pela gritaria quando o petiz está perto (para ficar calado) ou longe (porque o obrigam a estar calado de vez em quando na escola).

Mas continuamos a ter as elites que se desvanecem em concertos da gulbenkian (os pagos, que aqueles à borla têm sempre alguns indesejáveis), em teatros por Paris ou em museus na Grande Maçã. Gente que se orgulha de saber o que acha desnecessário os outros saberem, que exibem isso como marca distintiva e diferenciadora, em tertúlias destras ou canhotas, nas quais se lamenta este triste destino de um Portugal sempre atrasado por causa de uma populaça que não aprende, nem mesmo quando tuquetuca estrangeiros de sandalinha pela capital e arredores mais vistosos. Alguns armam-se em eças e gostariam de ser ortigões ou fialhos, mas são apenas albuquerquezinhos, salcedes e palmascavalões ou, nos melhores dias, carvalhosas. Querem ser actores, autores mesmo, mas não passam de tipos, caricaturas do que já foi e ainda é, para azar nosso.

Não sei porquê, ocorreu-me isto quando esperava que me passassem meia dúzia de víveres enquanto uma dupla de jovens (um de cada género tradicional) em caixas contíguas tentava comunicar com gente lá de fora, inquirindo se queriam factura como number fiscal, assim mesmo que o Inglês desde a Primária do engenheiro fez escola e nos tornou quase todos poliglotas.

E prontesss… a criatividade fica-se pelo “bom dia” a qualquer hora porque, dizia o jovem caucasiano rastafari, “o dia não se parte e é sempre bom dia”. Com tamanha lição de vida, agarrei na minha corvina e numas batatitas daquelas rosadas, boas mesmo para quase tudo, e fui-me à minha vida, porque essa tem as suas partes e aquela já me estava a esgotar o pouco que sobrou de paciência da manhã, digo, do dia.

caravela