2ª Feira – Dia 4

Tem estado quase toda a gente entretida a discutir a ascensão da “extrema-direita” naqueles moldes muito provincianos que é habitual entre os politólogos (oficiais ou de redes sociais) cá do burgo. Salvo raras excepções, parecem muito preocupados com a “reconfiguração da Direita” e o que poderá fazer o PSD, se der a mão ao Chega para chegar ao poder. A esse respeito, apenas duas notas, que não me apetece entrar muito neste tipo de debate de faróis nos mínimos. Em primeiro lugar, um raro elogio a Rui Rio que ontem foi quase o único a apontar para a geografia do voto em André Ventura e a sua implantação nos bastiões que em tempos foram do PCP e que tradicionalmente votam mais à esquerda; ele tem razão, o voto em Ventura é mais um voto de protesto do que um voto ideológico. E isto conduz-nos à segunda nota que é o de o Bloco e o PCP se terem deixado “normalizar” tanto na geringonça que correm o risco de canalizar o tradicional voto de protesto “contra o sistema”, pois eles próprios aceitaram participar nesse sistema que tanto criticavam, não lhe trazendo especiais modificações; daqui decorre que uma das possibilidades de combater o Chega é exactamente “normalizá-lo”, porque a atracção pelo poder é imensa em Ventura e, chegando à mesa dos “grandes”, deixará cair muito do que agora ergue como bandeiras, para ter uma parcela das benesses e honrarias. E depois de se ver de que massa é mesmo feito (de um oportunismo sem verdadeira substância), o eleitorado de protesto irá abandoná-lo, em busca de outro partido anti-sistema. Desde o PRD que as coisas são assim, mais ao centro, à esquerda ou à direita.

Quanto Custa Um Orçamento?

Pouco. Apenas uma leitura extremamente literal da lei, ao contrário de interpretações criativas em outras situações. Fazendo as contas, ficou na folga das cativações.

(não sei se notam o desvio à direita da imagem… se calhar fui demasiado subtil e precisei desta legenda que a malta anda mesmo mal em termos de literacia sarcástica)

Entretanto, O PCP…

… tornou-se um pilar do “arco da governabilidade” e abstém-se de forma “responsável” na votação do OE na generalidade (garantindo, como se esperaria, que na especialidade vai fazer conquistas mil), à espera do que cai da mesa. Parece não ter percebido (e a lição dos Açores fica lá distante) que por cada aljube que cativa para os seus quadros “jovens” perde umas centenas ou milhares de votos. E cada ano de colaboracionismo sem contrapartidas compreensíveis, custa-lhe um par de câmaras. Um destes dias, até @s pet shop boys and girls lhes passam a perna e outro morde-lhes os calcanhares (ok, esgotei os trocadilhos parvos por hoje). Não admira que até os alemães tenham passado a adorar o nosso governo sustentado na nossa velha esquerda “radical”.

A Grande Qualidade De António Costa…

… é conseguir enfiar barretes em todos os quadrantes, convencendo o Bloco que sem eles não há OE, enquanto acerta com o PR e Rui Rio (embora chegue a ser penoso este a explicar a sua posição sobre o Tribunal de Contas, dizendo que concordou com aquilo de que discorda) os negócios maiores do regime e as nomeações para as “controlar”, embolsando as oposições à esquerda e direita (e com mais uns tostões embolsa o PAN). Ao menos, parece que o velho Jerónimo está a acordar do torpor em que caiu há uns anos, embora saiba que se bater muito o pé, as suas autarquias sofrerão.

Duplo Padrão

Em colégios privados de prestígio, um caso positivo faz com que a “autoridade local de saúde” mande a turma inteira para casa. Em escolas públicas, com um caso positivo  a “autoridade local de saúde” manda o menino ou menina para casa e aconselha que não se espalhe qualquer “alarmismo”.

Já o actual PM “avisou” que na próxima semana deveremos chegar  aos 1000 novos casos diários, algo que só aconteceu em 21 de Março e 10 de Abril. Conseguem encontrar as semelhanças/diferenças entre o que então se fez e o que agora (não) se prevê?