Quanto Custa Um Orçamento?

Pouco. Apenas uma leitura extremamente literal da lei, ao contrário de interpretações criativas em outras situações. Fazendo as contas, ficou na folga das cativações.

(não sei se notam o desvio à direita da imagem… se calhar fui demasiado subtil e precisei desta legenda que a malta anda mesmo mal em termos de literacia sarcástica)

Entretanto, O PCP…

… tornou-se um pilar do “arco da governabilidade” e abstém-se de forma “responsável” na votação do OE na generalidade (garantindo, como se esperaria, que na especialidade vai fazer conquistas mil), à espera do que cai da mesa. Parece não ter percebido (e a lição dos Açores fica lá distante) que por cada aljube que cativa para os seus quadros “jovens” perde umas centenas ou milhares de votos. E cada ano de colaboracionismo sem contrapartidas compreensíveis, custa-lhe um par de câmaras. Um destes dias, até @s pet shop boys and girls lhes passam a perna e outro morde-lhes os calcanhares (ok, esgotei os trocadilhos parvos por hoje). Não admira que até os alemães tenham passado a adorar o nosso governo sustentado na nossa velha esquerda “radical”.

A Grande Qualidade De António Costa…

… é conseguir enfiar barretes em todos os quadrantes, convencendo o Bloco que sem eles não há OE, enquanto acerta com o PR e Rui Rio (embora chegue a ser penoso este a explicar a sua posição sobre o Tribunal de Contas, dizendo que concordou com aquilo de que discorda) os negócios maiores do regime e as nomeações para as “controlar”, embolsando as oposições à esquerda e direita (e com mais uns tostões embolsa o PAN). Ao menos, parece que o velho Jerónimo está a acordar do torpor em que caiu há uns anos, embora saiba que se bater muito o pé, as suas autarquias sofrerão.

Duplo Padrão

Em colégios privados de prestígio, um caso positivo faz com que a “autoridade local de saúde” mande a turma inteira para casa. Em escolas públicas, com um caso positivo  a “autoridade local de saúde” manda o menino ou menina para casa e aconselha que não se espalhe qualquer “alarmismo”.

Já o actual PM “avisou” que na próxima semana deveremos chegar  aos 1000 novos casos diários, algo que só aconteceu em 21 de Março e 10 de Abril. Conseguem encontrar as semelhanças/diferenças entre o que então se fez e o que agora (não) se prevê?

O Que O PCP Não Percebeu

O problema da erosão do eleitorado do PCP não se explica com a tese simplória da “ortodoxia” que não cativa os “jovens”. Para um partido com 10% basta atrair 1 em 10 eleitores “jovens”. Ora, em 2019, ficaram-se pouco acima dos 6% e se a maioria dos seus eleitores está acima dos 50 ou 60 anos, bastaria 1 em 20 “jovens” para manter a coisa nos dois dígitos. Não é coisa difícil, Basta ver que o grupo parlamentar do PCP até é bastante jovem em termos cronológicos.

O problema do PCP é que, tendo-se rendido por completo à real politik do arco periférico da governabilidade, parece feliz por ter mais elogios do actual PM do que o Bloco e ter mais votos para oferecer para defender a “responsabilidade orçamental” e manter a estabilidade “burguesa” do que o PAN. Porque mesmo entre os adversários, o PCP sempre manteve – mesmo quando não esteve propriamente à altura de tais pergaminhos – a imagem de uma postura “ética” ou “moral” de alguma superioridade. Claro que a nível local conhecemos a forma como as coisas funcionam, sem grandes fidelidades à tal “ortodoxia”, mas a verdade é que quase todos olha(va), o PCP como o vigilante que poderia manter o PS afastado das piores tentações chuchalistas.

Mas isso não aconteceu e o camarada Jerónimo, por mais outdoors que mande colocar à beira das estradas a reclamar “conquistas” para o seu potencial eleitorado mais desfavorecido, nunca conseguirá apresentar como suas medidas de que o PS será de longe o principal beneficiário nas urnas. Para um partido “revolucionário”, esta postura de garante preferencial da boa governação é fatal, porque se perde o principal elemento identitário, goste-se dele ou não. O PCP atrairá um eleitorado específico se for “diferente”, mesmo que criticado. Se tiver coragem de ser contra o sistema que sempre criticou.

Ora… agora parece que o que há mais é pizzas fora de horas. Paz à vossa alma. Se é que os vossos escritos sagrados autorizam que a tenham.

Pizza

PCP Mainstream

O voto de abstenção que o PCP adoptará na votação na generalidade do OE é assumido como uma forma de não fechar as possibilidades de avançar nesse sentido, de defesa, reposição e conquista de direitos e de resposta aos problemas estruturais com que o País está confrontado, ainda que partindo de um orçamento cuja proposta na sua formulação actual está distante das necessidades do País.

Recomendo a leitura dos “aspectos” pelos quais o PCP considera importante bater-se, pois é evidente a ausência de qualquer referência à valorização das carreiras da função pública, muito menos a qualquer recuperação de tempo de serviço, restando as formulações vagas sobre “valorização dos serviços públicos”. E sobre a Educação, nenhuma menção específica, parecendo que tudo se vai limitar a “creches gratuitas” para que a “escola a tempo inteiro” ao serviço de horários de trabalho desregulados seja uma realidade desde a mais tenra idade.

O PCP, tantas vezes acusado de ortodoxia e rigidez, depois de uma experiência de proximidade em relação ao poder executivo, parece ter adoptado uma flexibilidade assinalável, não percebendo de forma clara que foi assim que se enterrou nas últimas eleições autárquicas e legislativas. As suas “conquistas negociais” serão sempre vistas pela opinião pública como opções do governo do PS e não como cedências, por muitos outdoors que coloquem a anunciar as suas “causas”.

Quarenta anos depois, parece que o eurocomunismo chegou à Soeiro Pereira Gomes.

Pizza