Reorganização Dos Ciclos De Ensino

Continua a discutir-se, com os “actores” a dizerem uma coisa e a praticarem outra. Os “especialistas” próximos do PS e não só, sempre gostaram de criticar o choque da transição da monodocência para a pluridocência entre o 4º e o 5º ano. Mas mal chegaram ao poder atomizaram ainda mais o currículo. No 2º ciclo, Um Conselho de Turma podia ser formado por 6-7 professores de 9 disciplinas. Agora podemos chegar às 11-12 disciplinas ou áreas, quantas vezes com 10 docentes. Já o 1º ciclo, embora formalmente em monodocência, chega a ter 3-4 professores ou mais, devido à fragmentação de áreas e expressões. O 3º ciclo entrou num total delírio que pode chegar às 14 disciplinas.

A incoerência é total, entre discurso e prática, em especial quando se trata de modas ou de alimentar clientelas. Se é necessário mudar uma escolaridade obrigatória de 12 anos que tem 4 ciclos distintos? Sim, mas receio muito que a tendência seja para o agravamento da infantilização dos conteúdos de um primeiro ciclo de estudos mais alargado (e incluindo um ano de pré-escolar), em nome de “competências” que se definem a gosto. Em que saltar à corda vale tanto ou mais do que saber a tabuada ou ler com fluência, porque agora tudo se equivale e quem ousar ir contra este estado de coisas é porque é um elitista que ficou parado num século qualquer e não percebe que aprender é brincar, se possível só com esforço se for para atingir os parâmetros dos testes do FITescola (sim, continuo a embirrar com a tomada de assalto do currículo pelos pseudo-salvadores do futuro da saúde nacional).

E quando me exemplificam com os casos de alguns países estrangeiros, fica sempre aquela questão: e o resto?

Violino

A “Solução Final”?

Mesmo com aspas, o título foi forte demais e foi transformado para consumo dos leitores do JL/Educação. Não me incomoda muito a alteração, desde que o conteúdo (acerca do projecto do insucesso a 0%) continue lá (embora a solução encontrada seja pouco imaginativa, tendo sido possível perguntar-me se eu não tinha um título alternativo). Do  texto longo, transcrevo três passagens:

O que significa que quanto maior é o nível de desigualdade económica na sociedade, maior é a possibilidade de existir uma forte desigualdade no desempenho académico e níveis de insucesso mais elevados. Não é estranho que países com um índice de Gini mais favorável estejam entre os melhor colocados em testes comparativos internacionais, sejam os PISA, PIRLS ou TIMMS. Entre os dez países com menor desigualdade económica, em termos de rendimento disponível, encontramos o norte escandinavo e o centro da Europa na esfera de influência da Alemanha. Portugal entra a custo nos melhores 30 classificados. Se recorrermos ao mais recente rácio Palma (usado pelo Banco Mundial), que compara o nível de desigualdade entre os 10% mais ricos da população e os 40% mais pobres, a distribuição é semelhante, com Portugal em pior posição, nos 10 mais desiguais da amostra[i].

Perante este panorama, seria expectável que uma estratégia para combater o insucesso escolar passasse por proporcionar melhores condições socio-económicas às famílias e alunos para que estes, ao chegarem à escola, estivessem nas melhores condições para desenvolver as suas capacidades. E por melhores condições entenda-se nível salarial, mas de igual modo uma menor precariedade dos laços contratuais e uma maior regulação dos horários de trabalho. Quando se identificam países a emular, seria interessante começar por essas variáveis, antes de transformar as escolas nos grandes (únicos?) instrumentos do Estado para promover a “justiça e equidade”.

(…)

Quando um governante afirma que já temos “sete Finlândias em Portugal” ficamos sem perceber se existe a percepção do ridículo de tal afirmação, mesmo que não seja literal. Basta estudar a evolução da escolarização na Finlândia, a sua homogeneidade cultural e étnica, o baixo nível de desigualdade económica, as características do seu comportamento cívico e ético ou mesmo a distribuição e dimensão das suas escolas, para se perceber o nível de desfasamento da nossa realidade.

(…)

Há uma nova geração de estratégias comunicacionais destinadas a convencer a opinião pública da bondade de reformas na Educação que passa por adoptar uma linguagem que evita dramatismos, não especifica os detalhes das mudanças e as apresenta como positivas, inovadoras e superiores do ponto de vista moral, transformando qualquer crítico em alguém negativo, arcaico e moralmente repugnante, por estar do lado do “insucesso” e não acreditar na “utopia”.

Mas é um dever cívico questionar o porquê e o como das mudanças. Será defeito de formação achar que a História nos ensina a perguntar “porquê” em busca de explicações de modo “a evitar a ilusão e o faz-de-conta, a pôr de lado os sonhos, o luar, as banhas da cobra, as magias, o maná dos céus – a sermos realistas.” (Graham Swift, O País das Águas, p. 88). Mas assim continuarei.

[i] Development Goals in an Era of Demographic Change. Global Monitoribg Report 2015/2016 (Washington, World Bank, 2016).

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O Óbvio

Arnett: To Truly Improve a School, Teachers Must Be On Board. 3 Common Misconceptions About Managing Change — and Strategies to Avoid Them

(…)

When leading change, it’s easy to get wrapped up in the merits of a particular solution and lose sight of the people expected to adopt it. No new instructional program can impact student learning unless teachers decide to pull it into their classrooms. Thus, if school leaders hope to see teachers adopt new practices, they need to understand the circumstances their educators wrestle with on a day-to-day basis.

lampadinha21

As Reformas Deles

Anuncia-se que o Conselho de Ministros aprovou a nova lei relativa à Educação Inclusiva (o título do Público ainda remete para o velho “paradigma”) e também, de uma penada, a Flexibilidade Curricular.

Ainda não é a publicação de qualquer lei… que ainda deverá demorar uns tempos, sendo que num dos casos, nem sequer se sabe como será exactamente, pois “ainda não é conhecida a versão final da lei que foi aprovada pelo Conselho de Ministros”, como se refere na peça.

No Jornal de Letras de 4ª feira o David Rodrigues escrevia a empurrar com todo o peso de um dos grandes patronos da nova lei (a outra será a SE da Inclusão) para que se legislasse o “novo paradigma” da Educação Inclusiva (a somar ao Perfil do Aluno são dois afilhados à luz do dia), mesmo que as condições para a implementação da lei estejam longe de ser ideais, argumentando que a perfeição não é possível. Ele tem razão, mas tanta pressa em querer ter a “sua” reforma no papel também me faz confusão. Como a reforma do SE Costa e de algumas das associações de professores que fazem a sua muralha d’aço (notoriamente um quadrado formado pela APG, APM, APEVT e SPEF/CNAPEF) também é uma reforma “deles”, apesar dos pareceres desfavoráveis.

Falta agora aprovar a reforma das “aprendizagens essenciais” e a concretização legislativa (no terreno já está está a vapor em muitos concelhos, do eixo Oeiras/Cascais a Gaia) da municipalização, a grande reforma da dupla Costa/Rio.

Há uma obsessão evidente em querer as “suas” reformas no terreno e poder apresentá-las enquanto tal na campanha eleitoral ou nos respectivos feudos na cartografia dos interesses da Educação, aos quais serão concedidos privilégios na área da “formação” dos incréus. Acreditem, “o melhor para os alunos” é apenas um pretexto, porque para quem está na larga maioria das escolas tudo isto é apenas mais uma torrente legislativa com que se terá de lidar em tempo recorde.

Sinceramente, espero que, pelo menos, seja verdade o que se lê no espaço das “Inquietações Pedagógicas” no JL e que seria o verdadeiro respeito pela “autonomia” das escolas e professores.

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E perguntam-me: então e a SE Leitão e o ministro Tiago no meio disto tudo? A SE Leitão tem a seu cargo a manutenção da trela e e açaime nos professores, dando migalhas a uns quantos que entram e impedindo a progressão dos outros, feito pelo qual deverá ser recompensada, ao que parece, já no Congresso do PS. Quanto ao ministro Tiago continua na sua ronda por eventos de segunda ordem mediática e amesendações negociais com a Fenprof para parecer que algo se passa.

Hoje, No Jornal de Letras/Educação

Ainda não confirmei na edição em papel, mas a crónica “Visões Holísticas e Pré-Avaliações” termina assim:

É verdade que há mais de 9 anos, em Janeiro de 2009, um primeiro-ministro apresentou como sendo um “relatório da OCDE”, afirmando nunca ter visto “uma avaliação sobre um período da nossa democracia com tantos elogios e tanto apoio a reformas e mudanças ao serviço da Educação pública em Portugal”, aquilo que não passava de uma encomenda paga pelo Estado português a técnicos da OCDE. Acabando esse mesmo primeiro-ministro por afirmar que, afinal, era um estudo feito com “metodologia da OCDE”. É igualmente verdade que há 5 anos, em Janeiro de 2013, um outro Governo apresentou publicamente um relatório do FMI com uma série de recomendações para a “reforma do Estado” que estava polvilhado de erros e estatísticas truncadas, algo que tive hipótese de, olhos nos olhos, denunciar.

Que me ocorram esses episódios tristes de instrumentalização política de “estudos” todos estes anos depois não é um bom sinal, pois parece que estamos de regresso – alguma vez teremos deixado de estar? – a estratégias de instrumentalização da Educação ao serviço de interesses políticos, vaidades pessoais ou caprichos ideológicos de algumas cliques académicas. Mas é aqui que a Memória se impõe para que se tentem evitar velhos erros, mesmo que apareçam com roupagens novas.

PG Verde

O Tempo da Educação

Excerto do texto para JLetras/Educação deste mês:

O ano lectivo de 2018/19 vai ser marcado pelo cruzamento de diversas políticas com um impacto directo na vida das escolas e daqueles que nelas desenvolvem o seu trabalho quotidiano, sejam alunos, pessoal não docente ou docente. Não esquecendo as famílias dos alunos, que os confiam a maior parte das horas de cada dia a essas escolas. Teremos, entre outras alterações certamente menores, três grandes áreas de mudança: o avanço da chamada “descentralização de competências” do Estado Central para as Autarquias em matéria de Educação (leia-se “municipalização da Educação”); a generalização do que se tem apresentado como projecto de “Autonomia e Flexibilidade Curricular” (leia-se, segunda vaga da “Gestão Flexível do Currículo” e ainda o novo regime jurídico da Educação Inclusiva).

Todas estas medidas têm vindo a ser anunciadas, debatidas, objecto de pareceres diversos, alteradas na sua versão mais recente, mas ao finalizar o mês de Abril e com o terceiro período do presente ano lectivo já a caminho da fase dominada pela realização de provas de afeição e provas finais de ciclo no Ensino Básico e exames do Ensino Secundário, ainda não se conhecem os diplomas na sua versão final, criando imensas zonas de incerteza quanto a muitas condições concretas da sua implementação que impossibilitam a sua preparação atempada. Em alguns casos, há versões em discussão datas de finais do mês de Março e pareceres (do Conselho de Escolas e do Conselho Nacional da Educação) que não se percebe se foram feitos contemplando as últimas modificações introduzidas.

Só quem conhece os ritmos dos tempos escolares por dentro é que consegue entender verdadeiramente que um ano lectivo não pode, nem deve, começar a ser pensado a meio ou no final do terceiro período do ano anterior a um “ímpeto reformista” com esta dimensão. Porque estas mudanças implicam alterações profundas em áreas como o desenho do currículo a nível local, a definição do perfil das turmas a constituir, a caracterização dos alunos a incluir, em muitos casos pela primeira vez, em turmas ditas “regulares” ou mesmo qual o órgão com autonomia para definir e aprovar, em última instância, as orientações estratégicas das escolas e agrupamentos. Não pode ser a partir de Maio, quando todos, com destaque para os professores, estão envolvidos em diversas funções que exigem um elevado grau de concentração e responsabilidade, que este tipo de medidas deve ser “despejado” sobre as escolas, esperando-se que – com prazos reduzidos – tudo seja preparado de uma forma conveniente.

(continua…)

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