No Alvo – Maurício Brito

A propósito desta peça da Renascença, sobre a fuga de professores do ensino privado para o público, o Maurício dá mesmo em cheio, num texto que divulgou no fbook naquela “boca” do JMTavares acerca do “profundo sentido do dever cívico dos professores”.

Em julho, o João Miguel Tavares receou que os professores da escola pública corressem aos atestados médicos para não dar aulas em setembro, apelando ao seu “profundo dever cívico”. Disse também na altura que os pais estariam a levar os seus filhos das públicas para as escolas privadas, tamanho o receio que tinham de que as coisas não corressem bem. Ora bem, ao João Miguel Tavares faltou apenas “acertar” nesta previsão, de que os professores do privado começariam a sair em debandada para o sector público, para conseguir fazer o “pleno”: errar em todos os seus receios. O número de atestados médicos foi residual (é natural que aumentem, tamanha a onda que se avizinha), não há qualquer indicador de que as escolas públicas perderam alunos para as escolas privadas e, obviamente, quando se é explorado em qualquer profissão, opta-se por melhores condições laborais se as oportunidades surgirem.

Mas o mais triste disto tudo é que alguns ainda teimam em não perceber o fundamental: que as falhas de um sistema económico falido deixaram a descoberto os erros das opções de sucessivos governos e de quem neles confia. Que as prioridades continuam invertidas, alimentando um monstro que, pela lógica do consumismo, nos consome e devora princípios e valores fundamentais.

O João Miguel Tavares e muitos outros ainda não entenderam que não deveríamos estar com pressa de voltar aos erros do passado; que este é um excelente momento para aprendermos, repensarmos e evoluirmos enquanto membros de uma sociedade. Porque não são as democracias as responsáveis pelos nossos defeitos, falhas ou omissões. Somos nós, que aceitamos fazer parte de um jogo viciado, cujas regras alimentam o “eu” e não o “nós” e nada fazemos para as mudar.

Maurício Brito

O Ministro Tiago Ao Seu Nível Habitual (E Uma Boa Reprimenda)

Não li a entrevista toda do ministro Tiago à Visão de 5ª feira porque já estou cansado de redundâncias e chegam-me uma ou duas frases para confirmar que não aprendeu nada sobre o nosso sistema de ensino, mas aperfeiçoou aquela forma de estar bem no sistema de fidelidades neo-feudais em que vivemos. Muitos elogios para cima, muita desresponsabilização própria e lançamento de culpas para baixo na hierarquia. Apercebi-me hoje que se deu ao desplante de desancar a directora da Escola Dona Amélia por não ter pedido os professores a que “teria direito” ou expressão equivalente. Hoje tem a resposta da presidente do Conselho Geral da dita Escola que só peca por partir do princípio que Tiago Brandão Rodrigues (mas não é só ele) percebe de lealdade institucional ou que ele sequer percebe verdadeiramente do mecanismo de colocação de professores, pelo que terá sido apenas “negligente” nas palavras. Não, o senhor ministro não é negligente com as palavras, apenas é desajeitado com as ditas. E pouco preparado em matérias técnicas. Agora terá de andar o secretário Costa, com o seu falar doce, a tentar apagar este fogacho ocasional.

Há regras estúpidas que o ME impõe às escolas para preencher vagas que se sabem estar em aberto, como atestados de longa duração, por doença e tratamentos prolongados, que apenas podem ir a concurso depois de 1 de Setembro. E depois há, como já escrevi antes, aquela de andar a contar os tostões das horas lectivas e dos dias de serviço, desencorajando muita gente a concorrer a horários incompletos, devido aos encargos envolvidos.

O ministro Tiago será o ministro da Educação mais tempo no cargo desde o 25 de Abril e isto diz muito acerca da governação nesta área, feita cada vez mais nas sombras e com base naquelas redes de amizades desenvolvidas em torno de dois ou três grupos de gente amiga, colaborante ou, no limite, que se cala e faz o que lhe mandam.

Talvez por isso, mas não só, o texto da Isabel Le Gué seja de saudar, porque a maioria preferiria calar-se e deixar passar, esperando pelo contacto reconfortante do secretário e de alguma desculpa oficiosa pelo dislate do ministro. E porque há pelo menos uma presidente de Conselho Geral que assume o cargo e toma posições. O que a maioria não faz desde a pandemia, se já antes não primava pela inacção. Conhecendo eu boa gente que leva o cargo a sério e as dificuldades que isso acarreta, também sei que nos últimos meses os Conselhos Gerais se tornaram, em regra, ainda mais inúteis do que antes, assinando de cruz ou nem sequer tomando posição sobre uma série de decisões e documentos que teriam de ser por si analisados e aprovados, a começar pelos Planos de Contingência e mudanças de critérios dos horários dos alunos.

Quando ao ministro, enfim, há que acreditar que lá para a frente, o túnel tenha uma saída.

Domingo

É importante que existam cada vez mais professores sem medo das consequências de ir contra o diktat do costismo educacional. Que tenham a coragem de denunciar as mentiras oficiais e de apontar o dedo com clareza aos responsáveis por políticas desastrosas com a cosmética da pós-modernidade. Maria do Carmo Vieira fez isso há uns dias e agora foi o Luís Filipe Torgal. Bem-hajam aqueles que não receiam tresmalhar do rebanho das conveniências instaladas e do desejo de ficar num qualquer canto de uma fotografia para o twitter do ME.

A atual autonomia escolar impôs às escolas menos liberdade e mais dependência dos intricados decretos e portarias ordenados por este ME e a flexibilidade educativa pouco acrescentou ao que já se fazia.

Quanto a acrescentar, acrescentou mais uma camada de burrrocracia inane e idiota a que aderiram, mesmo que por vezes com algum discurso auto-desculpabilizador, muitas criaturas com vértebras amolecidas.

Thumbs

Responder Com Nível Ao Abuso Estúpido

(sim, sou daqueles que tolera pouco o “gozo” de certas críticas, nem sempre bem intencionadas e muito mais preconceituosas e intolerantes do que a média aceitável e tendo a não ficar triste quando certos “atletas” se esbardalham todos e depois fingem que, por exemplo, andar de canadianas e ficarem de atestado meses a fio com menos 20 anos do que eu – apesar de uma vida de barritas energéticas e batidos proteicos com aspecto de muco – foram grandes “conquistas”. Até porque o karma é lixado.)

Ainda Sobre O Artigo 79 E Imbecilidades Diversas

Que existe na classe política uma imbecilidade quase “genética” não me espanta em gente de vistas a curto prazo e muito permeável a chavões demagógicos. Já esperaria isso menos – a uma pessoa dizem que a esperança só morre a caminho do caixão – de gente que é noca cronologicamente e se acha “nova” ou mais nova do que os “velhos”.

Vem isto a toque de cajado da forma como algumas criaturas que de bestunto beneficiam pouco assumiram como sua a “injustiça” posta a circular há uns 15 anos dos “velhos” terem direito a redução da componente lectiva ao abrigo do amputado artigo 79º do ECD e assim “trabalharem menos” e ganharem mais. Em primeiro lugar, os “novos” um dia deixarão de o ser como aconteceu comigo, só que nessa altura em não embarcava em botes sem antes ver se estavam furados porque quem hoje corta os direitos dos “velhos” amanhã lixa-se.

Mas se pensassem apenas um pouquinho mais, nada de einsteins, feynmans ou mourinhos, perceberiam que por cada redução que foi cortada no ECD aos “velhos” foi tempo para horários para “novos” que deixaram de existir. Por cada 1000 docentes que ficaram sem a primeira redução de 2 horas aos 45 anos na sequência da mudança da legislação (e que assim em vez de terem a segunda redução aos 50 passaram a ter a primeira) foram 2000 horas (quase 100 horários) que deixaram de ser necessários. E se fizerem as contas a todos os docentes que agora estão acima dos 50 anos e ficaram entalados com o ECD da “reitora” MLR, tão aplaudido por tanta gente, perceberão que foram milhares os horários que desapareceram porque os “velhos” foram obrigados a “trabalhar mais”.

Confesso que não poucas vezes tenho os maus fígados de pensar que, se calhar, foram muitos os que ficaram sem lugar nos quadros ou sem horário, exactamente por causa de uma medida que aplaudiram, pensando que seria “justa”. Há alturas em que se quer muito que o karma funcione.

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Felicidades

Li há pouco, no mural de uma “rede social” de um amigo que gosto de seguir e ler sabendo a enorme discordância que nos divide neste momento, o quanto algumas pessoas estão extremamente felizes com o estado da Educação e a situação das escolas no presente. Congratulam-se efusivamente pelas suas reformas, pelo triunfo das suas ideias e do seu modelo/paradigma. Eu compreendo essa felicidade, a dos vencedores, a dos que sentem que conseguiram impor as suas crenças. O que acho curioso é que lhes desagrada imenso as críticas que destacam o que se passa de mal nas escolas (como se fosse tudo mentira) e o modo como criticam quem foge da cartilha dominante. Afinal, a tolerância com as opiniões divergentes é mais fácil de enunciar do que de praticar. E não é de espantar que muitas dessas pessoas estejam mais próximas da formação doutrinária (claro que estimo mais a opinião de um certo presidente de assembleia municipal, doutorado em fretes políticos) do que do quotidiano escolar completo e repleto. Claro que as há em exercício, mas a riqueza de espírito não é para todos nós.

 

4ª Feira

Pelo que leio (nomeadamente nas aclamadas “redes sociais”), há quem não tenha percebido exactamente a dimensão da derrota sofrida pelos docentes o mês passado, nem sequer o que isso pode significar para um futuro que poderia ser a médio prazo, mas é capaz por ser a curto. Ainda há quem ande a sugerir umas coisas absolutamente folclóricas, sem perceber que em termos políticos a coisa se não morreu ficou em morte cerebral. Há a via judicial – aquela que uns desvalorizam quando dá jeito – a nível nacional ou europeu, mas parece-me que pouco mais, pois o Costa Vencedor já decretou o fim do assunto e as bengalas da geringonça foram avisadas que ou esquecem o assunto ou nem migalhas levam, passando a alpista para um PAN que vai ser levado ao colo até às eleições legislativas, acarinhado como foram as dissidências do Bloco há 4 anos. Só espero que lhe aconteça o mesmo e o tiro saia pela culatra, mesmo que de pouco sirva.

Mas, regressando à vaca que não ri… seria boa ideia que tomassem consciência do que nos passou por cima ou correm o risco de não perceberem o que é “verdadeiramente essencial”, como costuma dizer o JPP:

Zero, Senhor Presidente!

Porque a métrica da dignidade só se mede em fracções quando já foi perdida. Lamento que o não entenda. Solução criativa ou imbecil, o tempo de serviço prestado deve ser devolvido a quem o trabalhou por completo. “Populismo”, por exemplo, é branquear o amesquinhamento, com dados falsos, feito pelo governo e os seus delegados na comunicação social, alegando que os professores querem ser “privilegiados” ou são “egoístas”.

Marcelo questiona professores: “É preferível zero ou alguma recuperação?”

Pessoalmente, expliquei isso há quase 5 meses, não me apetece repetir tudo.

Zero

(e desta vez abri uma excepção e escrevi mesmo ao senhor PR, enviando-lhe este post)