Domingo

Cresci (como a minha geração e as anteriores) sem ter bem a noção de existir uma (falta de) saúde mental. Havia “esgotamentos” (talvez para estudantes universitários, como uma rapariga das vizinhanças, que literalmente “caiu para o lado” ao regressar um dia de Lisboa, quando eu ainda era petiz de primária) e quiçá “depressões” (em idades mais avançadas), mas fora disso tudo o que fosse menos “normal” tinha rótulos muito básicos e simplistas. O mundo também era mais básico e simples, mas a mente humana já era complexa e não chegava dizer que fulano tal era “maluco” para que se percebesse e muito menos resolvesse os seus problemas. E com o avançar da idade, qualquer tipo de distúrbio mental era quase sempre associado ao universo feminino e lá se arranjavam uns comprimidos (as “escápulas” na involuntariamente perspicaz designação de uma tia-avó minha), que deixavam as pessoas num estado de dormência quase permanente.

Com o passar do tempo, a situação foi-se gradualmente modificando, mas não sei até que ponto melhoraram as técnicas de lidar com situações como as da (falta de) saúde mental dos mais novos. Há agora imensos nomes para todo e qualquer tipo de comportamento que se considere “diferente” (a terminologia inclusiva e não discriminatória deixou-nos quase sem conceitos agregadores simples), ao mesmo tempo que se proclama a dignidade de toda e qualquer diferença. Claro que há agora muito mais medicações, aplicadas à petizada na base do “vamos lá a ver se el@ fica mais calm@” e quase tudo passou a associar-se aos best sellers dos tempos: hiperactividade e défice de atenção ou espectro do autismo. E medica-se, que é rápido na “pedrada” e não muito caro. Ou, para quem tem meios para isso, lá se envereda, por exemplo, pela psicoterapia quinzenal ou mensal que tem quase tanto efeito quanto um paracetamol numa perna partida.

O que fica quase sempre de fora? O que causou a eventual “disfunção” ou “distúrbio”. E falta muita paciência e capacidade de atenção a cada caso individual. No caso das escolas, o pessoal especializado para lidar com algumas situações mais extremas é escasso e não vou adiantar mais considerações, para não atingir gente inocente e devidamente capacitada. Só que cada vez há mais situações de diversos graus de urgência na intervenção, que não podem ficar meses e meses à espera de uma consulta, da definição de um rumo acerca do que se fazer. E, repito, cada vez há mais miudagem e mais nova a revelar sinais preocupantes de (falta de) saúde mental. Mesmo antes da pandemia, que esta agora tem as costas largas. Porque na origem do problema estão fenómenos que existem há mais tempo e colocam uma enorme pressão em quem ainda não tem ferramentas para lidar com o que muitos adultos não conseguem.

E se há atitude que me consegue irritar é a daquelas pessoas que se armam em muito equilibradas e peroram sobre estes casos que “pois, pois, quem tem atitudes dessas é porque não está de bem com a vida”. É por aí, quando dou com esse ensimesmamento convencido e bacoco, que me apetece partir para o vernáculo.

(e quem escreve isto há muito tempo assumiu os seus problemas de ansiedade e sabe o quanto custava falar do assunto quando a reacção normal ainda era a do género “ai, coitado, teve um esgotamento e ficou assim, é melhor tomares uns comprimidos que isso passa”)

Saúde Mental

Eu compreendo algumas das razões e conheço mesmo algumas situações em concreto. Mas não deixa de ser curioso que se argumente, de forma geral, que as crianças precisam da escola e de estarem horas com aqueles arcaicos professores do século XX para ficarem mentalmente mais estáveis e sãos, em vez de estarem com as “famílias”. A menos que se tenha dito muita asneira ao longo dos anos sobre a relação da petizada com as ditas escolas e os velhotes professores.