Sobre A Educação Nos Programas Eleitorais – 2

Continuação e fim.

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Bloco: no programa do Bloco, a Educação também está ausente das grandes promessas. Como no caso do PS, a Educação é acessória do objectivo da “Igualdade” (p. 93) e essa distorção ideológica explica algumas opções que acho negativas como considerar-se “imprescindível acabar com os exames em todos os ciclos de ensino e separar a conclusão do secundário do acesso à universidade”, sem que se explique como isso está ao serviço da “igualdade” quando as vagas são limitadas nos cursos mais procurados e os sistemas alternativos de ingresso à Universidade não apresentam qualquer garantia de maior equidade e neutralidade que os exames que contam apenas 30%. Esta deriva anti-avaliação externa é o aspecto mais negativo de um programa que tem mais de ideológico e político do que de análise da realidade. O programa do Bloco está cheio de considerações e juízos de valor, sem qualquer verdadeiramente fundamentação empírica, pelo que muitas das medidas não passam de profissões de fé sem darem a sensação de se basearem em mais nada.

Pela positiva fica a explicitação da necessidade de adoptar medidas “tão importantes como a democratização do modelo de gestão, a reversão dos mega-agrupamentos e atribuição de autonomia às escolas”, sendo de lamentar que no anterior mandato nada tenha sido feito para o concretizar.

CDS: o programa do CDS para a Educação também nos surge dependente, como em outros partidos, dependente de um objectivo maior, neste caso de “vencer no mundo global”. Assim como é algo confuso e entra em contradição em diversas partes, como se fossem da responsabilidade de autores diferentes que não comunicaram entre si as versões finais. Tem formulações frequentemente vagas e que procuram conciliar aspectos muito díspares, parecendo querer tudo e o seu contrário. Exemplo de uma passagem que fica bem no papel mas nada quer dizer é afirmar que “é um erro pensar que capacidades e ferramentas ensinadas para a previsibilidade vão servir para a imprevisibilidade; é uma irresponsabilidade pensar que temos apenas de deixar as coisas andar só porque funcionaram até aqui”.

Pela negativa, destaco exactamente a contradição entre a crítica ao afunilamento curricular e defender-se na mesma página (p. 73) a actualização dos “conteúdos dos programas, com um reforço das componentes de ciência, tecnologia, engenharia e matemática” o que revela a continuidade de um pensamento que desvaloriza as Humanidades e Ciências Sociais como sendo áreas periféricas do currículo. Também acho negativa a forma como se pretende fazer passar a defesa dos interesses do ensino privado em formulações indirectas ou alegadamente defensoras da “liberdade” ou mesmo igualdade de oportunidade das famílias. É mais clara a sua defesa dos contratos simples e de associação (p. 77), mas com pretextos que sabemos estarem longe da realidade, pois não são os alunos mais carenciados a, historicamente, beneficiarem desse tipo de “ferramenta”.

Acho ainda peculiar, vinda do CDS, a afirmação de que “os exames nacionais devem servir apenas para verificar se as competências mínimas estabelecidas pelo Ministério, para cada ciclo educativo, foram adquiridas ou não por cada aluno” (p. 76), algo que na prática os esvaziaria de qualquer relevância, numa espécie de proposta simétrica à do Bloco, mas com os mesmos resultados práticos.

Pela positiva, a preocupação com a burocracia escolar e com a simplificação dos procedimentos (pp. 75 e 79) e a defesa de “um programa extraordinário e voluntário de aposentação antecipada” a que ficam a faltar detalhes mais específicos.

PCP: a Educação está ausente, de uma forma explícita das “cinco questões nucleares para o futuro do país” (p. 22) ou das “políticas-chave” (p. 43) identificadas pelo PCP no seu programa. Mas surge no capítulo com o título “Avançar na Educação” com as recorrentes formulações fortemente ideológicas que se concretizam de forma clara apenas na recusa da exigência de exames ou na estranha forma como se pretende rever o sistema de provas de aferição “rejeitando distorções que as transformam numa espécie de exames”, o que é manifestamente desajustado da realidade. E esta aversão extrema à avaliação é um dos aspectos mais negativos de um programa que é especialmente parco em propostas para o Ensino Básico e Secundário (e também para o Superior), nomeadamente em relação ao modelo de gestão escolar, que é criticado de forma muito passageira e pouco assertiva ou à lógica de organização da rede escolar, não se lendo uma palavra de oposição aos chamados “mega-agrupamentos.

Por fim, falta ainda uma posição clara sobre as alterações curriculares implementadas nos últimos anos, dando a sensação de não existirem propostas alternativas e de se estar completamente de acordo com aquilo que foi feito-

Pela positiva, fica a defesa da “reversão do processo de transferência de competências para os municípios que para lá da desresponsabilização do Estado comprometerá o carácter universal da Escola Pública” (p. 84) ou do fim da Parque Escolar.

Flagellati

Responder Com Nível Ao Abuso Estúpido

(sim, sou daqueles que tolera pouco o “gozo” de certas críticas, nem sempre bem intencionadas e muito mais preconceituosas e intolerantes do que a média aceitável e tendo a não ficar triste quando certos “atletas” se esbardalham todos e depois fingem que, por exemplo, andar de canadianas e ficarem de atestado meses a fio com menos 20 anos do que eu -apesar de uma vida de barritas energéticas e batidos proteicos com aspecto de muco – foram grandes “conquistas”. Até porque o karma é lixado.)

Sobre A Educação Nos Programas Eleitorais – 1

Primeira parte da análise enviada para a peça da Sábado de hoje. Dificilmente seria exaustivo, se a ideia era seleccionar apenas alguns pontos dos cinco partidos com maior representação parlamentar. E tem nota prévia com declaração de interesses.

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Nota prévia: o que em seguida escrevo parte de uma posição pessoal clara de oposição a boa parte das políticas desenvolvidas nos últimos anos na Educação, muito para além das questões laborais relativas aos docentes. Não é, pois, uma posição “descomprometida”, mas que tenta ser o mais objectiva possível dentro dos limites da minha discordância em relação à “municipalização” da educação ou ao modelo de gestão escolar unipessoal.

PS: quanto à Educação, é um programa de continuidade em que esta área de governação nem merece um capítulo autónomo, surgindo (pp. 101-104) integrado numa espécie de “políticas-ferramenta” do combate às desigualdades. A Educação deixou de ser uma prioridade por si só, para ser apenas um instrumento ao serviço de outras políticas.

No caso do Ensino Básico e Secundário o pior, em meu entender, é mesmo esta sensação de que se pretende apenas continuar o que se acha ter sido bem feito, mas que está claramente por demonstrar. Assim como a ausência de qualquer referência a uma alteração do modelo único de gestão escolar, do qual foram retirados praticamente todos os procedimentos vagamente democráticos.  Quando se assume um objectivo a partir de cima de “não retenção” afirmando-se que isso será feito “trabalhando de forma intensiva e diferenciada com os alunos que revelam mais dificuldades” e conhecendo-se a prática governantiva do PS na pasta da Educação percebe-se que se tratará mais de uma imposição legislativa do que daquilo que está a ser afirmado. É ainda muito duvidoso o objectivo de “definir uma estratégia integrada de ação sobre a aprendizagem da matemática, uma vez que se trata da disciplina com mais insucesso” quando a pasta da Educação esteve em governos do PS desde 2005 durante cerca de 11 anos. Não se percebe o que significa, para além de um novo “emagrecimento curricular”.

Pela positiva, se for para levar a sério, pois pouco ou nada foi feito pelo PS nesta matéria no último mandato, destacaria dois pontos (p. 101):

  • “Implementar um sistema de deteção precoce, ao longo da educação pré-escolar, de problemas de desenvolvimento da linguagem e da numeracia, acompanhado de um programa universal de estimulação da competência linguística;”
  • “Promover programas de enriquecimento e diversificação curricular nas escolas públicas, nomeadamente assentes na formação artística, na introdução de diferentes línguas estrangeiras e de elementos como o ensino da programação, permitindo que as escolas especializem a sua oferta educativa (à semelhança do que fazem muitos colégios privados);”

Em relação ao Ensino Superior não encontro qualquer medida verdadeiramente identitária, para além da extensão da lógica de garantir o máximo de sucesso a todos, sem que se perceba se a aposta é apenas na quantidade do sucesso e não na sua qualidade.

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PSD: o programa do PSD deixa de fora a Educação das suas “cinco reformas inadiáveis”, pois o que surge no subcapítulo “mais e melhores oportunidades para os mais jovens” (p.39) não passa de uma subordinação das políticas da Educação e Formação aos interesses da Economia.

Quanto trata especificamente da Educação, o programa do PSD parece apenas distinguir-se do do PS pelo modo como pretende alcançar as mesmas metas, seja no plano da gestão escolar, seja no da continuação do esvaziamento de competências das organizações escolares.

A defesa (p. 71) da “instituição de três Academias (Norte, Centro e Sul) orientadas em exclusivo para a formação de futuros diretores, subdiretores, adjuntos e coordenadores de estabelecimento, de agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas, através de programas certificados de estudos pós-graduados” limita-se a levar mais além aquilo que desde 2008 é o modelo criado pelo PS, sem qualquer abertura para um modelo de gestão mais flexível. Por outro lado, é paradoxal afirmar-se que o “reforço de competências na gestão das escolas deve ser articulado com o processo de descentralização para as autarquias” porque estes são dois processos divergentes e contraditórios. Não é possível defender aquele reforço, quando se concorda com a transferência de competências para as autarquias.

Pela positiva, assinalo a preocupação em manter um sistema de avaliação externa das aprendizagens (p. 72) que abandone a ficção em que se tornou a implementação das provas de aferição no modelo em funcionamento, em particular as do 2º ano. Acho positivo que se reintroduzam provas finais, pelo menos, no 2º ciclo.

Quanto aos aspectos relacionados com a classe docente, acho negativo que a proposta de revisão do modelo de avaliação do desempenho docente (p. 73) reforce a componente burocrática (portfolio) e não a da prática pedagógica em sala de aula, assim como acho que avaliação final não deve ser por “um júri maioritariamente externo à escola a cujo quadro o professor está vinculado”. A questão da recuperação do tempo docente é apresentada de uma forma que quase a inviabiliza, concordando claramente apenas com o fim da penalização das aposentações a partir dos 63 anos.

Flagellati

E Ainda Há Quem Nos Queira Dar Lições Sobre Inclusão E Profissionalismo?

Observei como uma colega minha levou a maior parte da tarde de hoje a fazer materiais específicos para apoiar um único aluno neste arranque do ano. Esteve ali várias horas a escolher materiais, organizá-los em fichas (in)formativas ao ponto de eu lhe pedir encarecidamente para parar de estar já a desgastar-se a este ponto com a preocupação que lhe suscita esse aluno, sem que sejam necessários decretos, despachos, referenciais, manuais para a inclusão ou impressos diversos para que ela sinta este dever como imperativo seu. Ela faz aquilo, como muit@s de nós, porque é essa que sente ser a sua obrigação para com os seus alunos mais vulneráveis, para com aquele aluno em particular. Eu sei que por vezes pareço um bocado cínico em relação a tudo isto, mas é porque depois me irrita muito que apareçam luminárias diversas (lá do topo das cátedras ou gabinetes mas cada vez mais abencerragens de proximidade) a darem lições que ninguém pediu sobre “inclusão” ou a fazer juízos de valor sobre o profissionalismo docente. Sim, sei que há quem mereça críticas, mas raramente são ess@s a levar com a devida sapatada. Em regra, as críticas sobram para quem faz o seu melhor, mas falha em marketing, lambebotismo ou choraminguice.

Cigarros

(ando cada vez menos “filtrado” e com menos vontade para aturar quem pouco faz e muito fala do que não pratica. Ou da protecção dada a quem menos o merece, enquanto se queimam quem menos se sabe defender)

 

 

 

Mega-Manuais

Há turmas inteiras de Secundário a arrancarem o ano sem qualquer manual, mesmo quando já foi feito o resgate dos vouchers. Felizmente, parece não atingir nenhum responsável parental, como o sempre intenso pai ascenção em outras circunstâncias e calendários, como aquela dos riscos mal apagados. Pelos vistos, mais vale nem ter manuais.

livros