Tolerância E Liberdade

Quando servimos para apoiar causas que dão jeito e divulgar posições, ai que bom, que bom. Mas se aparecemos um dia a questionar as fontes de certas afirmações, é um desvario e completa perda de controlo. Deve ser a tal “névoa mental” de que se fala e eu já referi mais abaixo. Se mandam uma mensagem e não se responde logo a agradecer não sei o quê, praticam o desamiganço virtual (ai, a triste submissão ao espírito dos tempos em trânsito) a que chamam “remoção de amizade”, como se isso me despertasse algo mais do que a prova da incapacidade de lidarem com o contraditório.

Se já removi amizades ou bloqueei comentários? Sim, quando me foram dirigidas ofensas ou ameaças pessoais (e nem foram poucas ali há uma boa dúzia de anos), ou quando me imputaram (pelas costas) actos e malfeitorias que nunca cometi (chegam-me para ir para qualquer Inferno as de que fui efectivamente responsável). Mas porque me pedissem para dar substância a uma afirmação errónea ou sem base empírica? Não, posso ter ficado chateado (em especial comigo, se a crítica foi certeira) e tento corrigir onde falhei ou retiro mesmo o que escrevi (coisa mesmo muito rara), se alguém foi desnecessariamente atingido. A minha liberdade tem limites e admito que algumas vezes acabo a auto-censurar-me para ficar dentro desses limites. Mas a minha tolerância também os tem, mesmo se tenho casca grossa e a minha auto-imagem não entra em colapso se não me respondem a uma mensagem num par de horas. Acho que muitas vezes me acham “arrogante”, apenas porque não tenho paciência para coisas escusadas ou redundantes.

O que lamento mais? Que algumas pessoas ainda sejam professor@s (mas não posso, nem quero, fazer nada acerca disso). Porque acho que estariam melhor numa central de comunicação, onde pudesse haver uma tabela de remunerações pelos serviços prestados pelas figuras tristes em nome da “liberdade de expressão”.

Aceito!

Que é como quem diz, reconheço a existência.

Que existe um vírus com propagação pandémica que não se restringe ás páginas dos jornais e televisões. Aceito que não é uma complexa conspiração mediático-político-farmacêutica do grande capitalismo global. Aceito que é melhor tomar uma vacina experimental, mesmo se a sua dosagem é baixa e não consegue imunizar por completo, de uma vez. Aceito que existem comportamentos que podem diminuir os riscos de contágio e propagação da doença, mesmo que sejam moderadamente incómodos para o meu quotidiano “normal”. Aceito que existam pessoas que possam ter outra opinião e que argumentem com essa base. Aceito posições críticas fundamentadas e articuladas, sem ser na base do uso das maiúsculas nas redes sociais ou de gritos nas redes humanas. Aceito dúvidas, que as tenho sobre diversas matérias que não se resumem à pandemia, desculpem, à grande conspiração. Aceito que me chamem “aceitacionista”, se isso significa o que acima está, apesar de, em regra, essa designação seja acompanhada de certificados de imbecilidade e carneirismo.

Há várias coisas, contudo, que tenho mais dificuldade em aceitar, mas agora não quero aborrecer ninguém que já tenha atingido o estádio das certezas supremas (embora por vezes camuflem isso com o discurso do “tenho dúvidas e tenho direito a tê-las em nome da liberdade e da Constituição”) ou que considere todas as oportunidades boas para derrubar a Ciência ao serviço do Grande Capital (desde que isso possa fazer-se sem prescindir de smartphones e aqueles pequenos luxos que a Ciência ao serviço do Grande Capital nos tem permitido nos últimos 100-150 anos).

Sábado

Cabrita fez-nos lembrar, ontem, que foi o MAI em exercício mais tempo em regime democrático (4 anos, mas 2 como ministro adjunto e mais 4 como secretário de Estado do primeiro governo do “engenheiro”). O que é mais do que um violento murro no estômago. Porque se percebe que, como ele, há outros por aí que governaram muitos anos a República apesar de, mais do que não terem qualidades (que as têm, só que raramente na sua área de actuação e quase sempre em contradição com o interesse do próprio Estado nessas áreas), serem criaturas escolhidas para os cargos com base em jogos de influências que devem mais ao peso de organizações externas que condicionam a ascensão nas máquinas partidárias e aos jogos de poder interno nos partidos. Cabrita é apenas o caso mais notório. Está longe de ser o único.

A Sério Que O “Número De Novos Docentes Necessários Vai Subir Com O Passar Dos Anos”?

A sério? Nunca me tinha ocorrido. E lá vem mais uma “força da tasca” para estudar a circulatura do quadrado. Esta gente é mesmo pândega. E aposto que tornar a profissão “mais atractiva” vai significar algo muito diferente do que eu penso. Porque aposto que vai ser dar umas migalhas maiores à entrada para depois cortarem o horizonte de progressão. Mas sobre isso há tempo para escrever, porque eu já detectei umas quantas “lebres” que andam por aí a querer antecipar-se.

Número de novos docentes necessários vai subir com o passar dos anos. Será necessário contratar mais de três mil professores por ano, em média. No fim da década, esse número sobe para os quatro mil.

E já agora, o estudo (não li referência aos autores, mas tenho quase a certeza que que são os do costume, mais ou menos peralta, a avaliar pela novidade das conclusões) baseia-se nas aposentações “previsíveis”, ou seja, por limite de idade, ou deu-se ao trabalho de ir ao terreno e inquirir quanto se querem ir embora à primeira oportunidade?

Sábado

Claro que há quintais diferentes, com fauna diversa, pelo que não vou dizer que os alunos não estão ansiosos, apáticos, “desfasados no desempenho” (whatever that means) ou preocupados com as provas finais. Acho que depende muito dos contextos sociais e familiares, assim como das idades. No caso da minha limitada observação directa, parecem apenas ter-se acentuado as características pré-existentes: os que eram calados ficaram mais calados; os mais agitados entraram em roda livre. No casos destes, há quem tenha perdido quase por completo a noção das regras de civilidade básica e estão selectivamente surdos a qualquer recomendação ou indicação (cruzes, “ordem”, nem pensar) a esse respeito. A menos que seja acompanhada de um inconsequente aviso cobre as consequências. Porque a maioria já interiorizou que já vale qualquer coisa e que, chegando ao momento da avaliação final, vencerá em quase toda a linha a teoria do “coitadinhismo”, se não chegar a intimidação dos professores mais arcaicos no sentido de demonstrar que “rubricaram” todas as avaliações à moda das abelhas maias e que deram bui da fidebeque sobre as aprendizagens perdidas em combate (ou melhor, desprezadas de forma activa).

Claro que existem excepções. O que seria das regras sem elas?

3ª Feira

Ao fim de um mês de aulas, lá vai a primeira tarefa para fazer entre 5ª e 2ª feira. Eu que nem sou fã de tortura para crianças (com algumas excepções). Tarefa simples: identificar três espaços da escola que possam ser melhorados e um par de parágrafos sobre a “escola ideal” de cada alun@.

Resultado: 27 fichas entregues, 5 recebidas de volta. Não há feedback que aguente. Venham os embaixadores “maiatos” e expliquem-me como é que vamos intervir nos 22 agregados em falta.

Ahhhh… já sei. A culpa foi minha. Não interessa porquê, mas foi. É falha do “projecto”. Pelo menos é o que diz o modelo formativo do professor doutor Fernandes. O paradigma inovador, entenda-se.