Secção “Maravilhas Da ADD” – 2

Eu sei que há quem diga que a add não é o problema maior, que é o modelo único, não democrático, de gestão escolar e eu concordo. Mas já lá chego. Entretanto, concedam-me uns minutos para mais uma aberração processual de que tomei conhecimento.

O árbitro de um@ recorrente pede o acesso a alguns documentos para elaborar o seu parecer (nada de especial, apenas a reclamação original, a resposta e pouco mais). Após semanas (!) recebe a comunicação – no dia X – de um@ pcg a dizer que já “há dias” tinha comunicado que os documentos estavam no cofre da escola, em envelope fechado, e só podiam ser acedidos presencialmente pelo árbitro ou pelo recorrente com procuração daquele (!!). Não interessa agora, sequer – ao ponto a que isto chegou -, demonstrar que essa comunicação nunca existiu.

Após peripécias por demais caricatas, lá se consegue abrir o envelope e… as cópias dos documentos originais estão carimbadas e rubricadas pel@ tal pcg com a data do dia X+2.

Acham isto um pormenor?

Que nada tem a ver com o modelo de gestão escolar?

Que não faz falta um verdadeiro código deontológico para a profissão?

Pensem de novo.

Isto só é possível porque a gestão escolar entrou em alguns recantos deste rectângulo num completo desnorte, misto de arrogância, displicência e incompetência, para não lhe chamar coisas mais exactas. Tudo com “coatas quentes” porque internamente toda a gente faz parte da “equipa” e exteriormente, a ige diz que não é com eles e remete para a dgae e a dgae responde, de forma redonda, remetendo para a legislação em vigor. Acreditem, num recurso anterior, foi mesmo isto que aconteceu porque a dgae, depois de implodida, tornou-se uma extensão dos humores políticos que mandam, claro que sem rasto documental, não desautorizar as lideranças locais, em especial as que seguem fielmente os éditos do secretário.

A add não tem nada a ver com a gestão escolar? Tem tudo.

A add não tem nada a ver com os actuais governantes que a não criaram e desconhecem estas situações? Tem tudo a ver, porque não se pode alegar desconhecimento de algo que enxameia o sistema de ensino público. Mesmo se existem exemplos de extrema competência e correcção, que também se encontram. Pois nem toda a gente é assim tão deprimente.

A Evidência Da Complexidade

Por uma questão de cortesia, tenho evitado comentar prosas incluídas no suplemento do JLetras/Educação, no qual sou colaborador há uns anos. Já li por lá algumas barbaridades, capazes de me fazerem enviar as barbas aos céus, mas tenho-me contido. A começar pelas platitudes e banalidades do ministro e continuando pelas peças de propaganda do secretário, até desaguar nas réplicas de alguns cortesãos, para quem a minha presença numa daquelas páginas deve funcionar como uma estranha anomalia.

Mas desta vez não há mesmo forma de um tipo se calar, porque o nível do discurso (e do “pensamento” que lhe parece estar subjacente) atingiu níveis mesmo insuportáveis de demagogia. O destaque da prosa deste mês do secretário João Costa é uma “evidência” do que ele parece considerar “complexo”.

Ao que parece foi preciso arranjarem um indicador qualquer para demonstrar o que todos sabemos desde que o matusalém descobriu as fraldas para idosos incontinentes, ou seja, que há alunos que com um mesmo contexto socio-económico atingem níveis de desempenho diferentes. Ele refere que isso acontece em escolas diferentes, mas eu acrescentaria que até acontece nas mesmas escolas em que não se inventam notas. Alunos com perfis socio-económicos semelhantes têm desempenhos académicos diferentes? Meu Deus, que “evidência” inovadora. E isso foi medido só para os “pobrezinhos” ou também recolheram “evidências” de desempenhos divergentes em alunos de meios favorecidos?

Já agora… tal constatação, a menos que devidamente apoiada em outro tipo de dados, não permite, por si só, garantir que a escola é o factor decisivo de mobilidade social. O SE Costa sabe isso, pelo que o que lá vem escrito é que “a escola pode mesmo ser fator de mobilidade social”.

JL/Educação, 6 de Outubro de 2021

Pode, claro que pode, senhor secretário. Poder, pode. Mas será que, em regra, isso acontece, se acompanharmos o percurso dos alunos pelo menos até à sua inserção na vida profissional e como isso se desenvolve na idade adulta em termos de estabilidade e nível de rendimentos?

Ahhhh… já sei… isso é um problema “complexo”.

Vai Com Uns 20 Anos de Atraso

Tenho saudades da Grande Reportagem, de que tenho a larga maioria dos números, desde o primeiro, ainda (se bem me lembro) com o Barata-Feyo como director. A partir de então tenho sérias dúvidas que se possa chamar “jornalismo” ao que MST tem feito. Até porque tenho muita consideração pela profissão que partilha (idealmente) a busca de informação verdadeira com a de historiador (de quem leva a História a sério, não daqueles que aparecem para justificar as opções políticas). MST, nos últimos 20 anos, passou a ser um daqueles precoces “senadores” mediáticos, bem pagos para produzir uma página semanal de verborreia sem qualquer verificação de factos, chamando-lhe “opinião”, e fazendo algo a que chama “entrevistas” cujo rigor depende muito dos humores e amores em relação a quem “entrevista”, porque de preparação prévia cada vez mais pareceu mais assentar apenas nos preconceitos enquistados naquela cabeça que parece ser sempre loura.

MIGUEL SOUSA TAVARES TERMINA CARREIRA COM ENTREVISTA A MARCELO NA SEGUNDA-FEIRA

Será Outro Problema “Complexo”, Senhor Secretário?

Ter a gestão das escolas e da avaliação do desempenho dos professores entregue, em muitos locais, a gente que nem sequer ouviu falar do Código do Procedimento Administrativo? A alguns antigos, que lá estão antes de existir o Código de Hammurabi, eu ainda entendo, mas gente “nova”, que anda a entrar para os cargos agora? Não tiveram de fazer um curso qualquer? Eu sei que até pode ser online, desde que paguem, mas pelo menos convinha que algumas “chefias intermédias” percebessem ao que andam, em especial quando acham que devem fazer parte de uma SADD que, como ainda me aconteceu há não muito tempo, nem umas contra-alegações sabem alinhavar em condições e em tempo legal. Ou nomear um árbitro em condições, sem evidente incompatibilidade de funções ou conflito de interesses (lembra a alguém com um mínimo de sensatez nomear para arbitrar um recurso alguém que concorreu directamente por vagas com o recorrente?). Raios, o DR 26/2012 operacionaliza uma lógica abjecta de controle da progressão na carreira, mas ainda por lá ficam umas réstias de garantias para os avaliados, em especial quando articuladas com o CPA (“CPA, o que é isso, colega?”). E não é assim tão complicado de ler aquela meia dúzia de artigos.

O senhor secretário, em toda a sua imensa sabedoria e desdobramento em matéria de presença de “proximidade” junto dos seus comissários políticos, poderia recomendar a algumas figurinhas do círculo exterior da sua “corte” que ao menos se informassem antes de se candidatarem ou aceitarem certos cargos? Porque quem lixa o próximo sem pudor (e culpa a lei), não pode depois pedir “boa vontade” quando mete os cotovelos pelos artelhos (por não saber o que diz a lei que antes fez que citou).

Em seu tempo, abandonarei a técnica do “vocês sabem que eu sei que vocês sabem que eu sei”, porque há coisas que só mesmo com muita paciência dá para aturar.

Quanto ao senhor secretário, já que abocanhou praticamente todas as funções que antes eram da secretária Leitão, que tal não fingir que nada do que se anda a passar é com ele? Fazer algo de relevante em vez de andar a webinar de um lado para o outro cheio de sorrisinhos?

Cidadania nas escolas? Nada como ensinar pelo exemplo.

6ª Feira

Ontem, pouco depois da meia noite, nos canais noticiosos parecia que tinha sido derrubada uma qualquer ínvia ditadura, a propósito da reabertura de bares e discotecas, sem especiais medidas de prevenção da pandemia. Em entrevistas de fino recorte informativo, algumas jovens adultas (por qualquer razão, vi em especial raparigas), revelavam toda a sua felicidade por já poderem beber uns copos e dançar fora de casa. Viva, pois, a Pátria está salva!

Foi um ano e meio muito duro, foi quase como atravessar o deserto em busca de um bote precário no Mediterrâneo ou escapar a pé de um cativeiro do Daesh, quiçá mesmo comer amendoins com casca.

Como ontem escrevia o José Eduardo Martins, na sequência dos votos “criativos” no PAN com florinhas e árvores, realmente há alturas em que apetece fugir daqui, qual Rendeiro.

Lido Há Pouco Numa Carta Aberta/Petição

Tenho a quase certeza de três coisas acerca do está escrito: a) que os autores não perceberam ainda que a Universidade é um dos nichos mais clientelares de uma sociedade já de si marcada indelevelmente pelo factor C; b) que o atestado de qualidade a uns tem no seu reverso um atestado de menoridade a outros c) que no Superior há quem não tenha muita vontade de fazer esse trabalho de selecção chato, a menos que o primo da vizinha jeitosa do 3º esquerdo ou o sobrinho do senhor embaixador etc e tal. Já sei que vão dizer que não é nada disso, mas…

O contexto atual de pandemia, a mudança da construção dos exames trouxe à tona o desajuste
deste instrumento para o objetivo final da seleção dos alunos, na medida em que se mostrou à
evidência que um número, uma média ponderada é um método pobre e absolutamente
redutor, nomeadamente quando o usamos para seriar alunos no acesso ao Ensino Superior.

A qualidade, conhecimento e saber dos docentes do ensino superior saberá, melhor do que ninguém, qual a melhor forma de escolher os seus alunos, sem esperar que alguém o faça por si.

(até parece que nos cursos superiores “de topo”, aquilo não é em grande parte na base do marranço para ter “nota” e dar nas vistas por isso mesmo…)

Domingo

A diferença entre a pré-campanha e a campanha eleitoral, neste caso para as autárquicas, é que no segundo caso já se pode escrever uma variação da palavra “vota” nos cartazes. Ahhh… e há debates que ninguém verdadeiramente vê ou vê com atenção. Por curiosidade, vi na RTP3 as mini-entrevistas finais com pouco mais de metade dos candidatos a Lisboa e se lá vivesse é que ficava mesmo sem votar, tamanha a confusão das “alternativas” a um modelo actual que acho o retrato do país chico-esperto quando tem algum dinheiro para gastar e não sabe bem como, tirando as negociatas com os amigos. Quanto ao resto do país, só posso esperar que a partir de dia 27 comecem a limpar a paisagem da papelada que cansa, pois há meses que vejo aquelas caras e, por azar, nem vivo em nenhum dos concelhos ou freguesias com nomes que se prestam a trocadilhos, nem com candidatos (alguns também nomes do caraças) com um sentido estético-político de bradar aos céus e infernos.

E neste período ainda há aquele clássico que é os incumbentes gostarem de obrar mesmo em cima do acontecimento, sendo que agora as rotundas (a fazer ou embelezar) têm a competição das ciclovias a nascer como cogumelos em qualquer sítio, nem que seja de um modo que quase impede os carros de se cruzarem em segurança, enquantos os profissionais da lycra continuam a andar onde bem entendem.

Coerências

Apresentar uma comunicação em que, assim como que de passagem, se criticam os professores “velhos” (cheguei a ouvir pessoa dizer coisas que nem vale a pena aqui repetir) por darem aulas em tempos digitais recorrendo ao Powerpoint como recurso substitutivo do velho quadro e fazer exactamente isso durante a intervenção. Realmente, a inovação não tem idade cronológica, mas mental. E há quem não tenha espelhos em casa. Claramente.