Um Desnecessário (E Involuntário, Por Certo) Equívoco

Por vezes leio coisas que me fazem pensar que há uma espécie de campeonato para ver quem gosta mais do ensino presencial e dos seus alunos nas aulas. O que pode dar a entender que tamanho gosto e essa afeição possam ser menores em quem tenha reservas quanto ao prolongamento até aos limites da razoabilidade do regime presencial. Prolongamento necessário em grande parte porque a tal Transição Digital continua em trânsito parado no semáforo e nem sequer tanto por outros motivos economicistas. Se é para levar a sério que a tal recomendação para o teletrabalho nos concelhos de risco.

Como o da Anabela Magalhães, que eu sei de sabida certeza que adora estar nas aulas com os alunos.

Narrativa Ficcional Construída para Burro Ver

(eu sei que é menos complicado conhecer casos de contágio do que conhecer casos concretos de morte num par de semanas por causa da doença…)

Quase (Mas Apenas Quase) Me Apetecia Dar Razão Ao MEC…

… mas li tudo o que disse e só lha posso dar de forma muito minguada.

Miguel Esteves Cardoso. “Os portugueses não leem e a culpa é dos professores”

(…)

Faz-me imensa pena quando as pessoas não dão valor a uma coisa que está ali. Acho que a culpa é toda dos professores! A maneira como se estuda os autores portugueses castiga! “Tens de saber isto e aquilo”. A maneira como o tornam técnico, é uma espécie de vingança dos professores sobre os escritores.

Os professores tornam a escrita uma coisa chata e obrigatória. Uma espécie de sacrifício que é preciso fazer. No meu tempo, era dividir as orações. É uma crueldade, um sadismo. O que é que interessa o que o autor pensa ou pensava?!

É verdade que alguns(mas) professor@s são capazes de tirar o gosto por muita coisa a qualquer alma, de tanto não gostarem el@s mesm@s do que ensinam ou de aprenderem mais do que a sebenta do curso.

É verdade que o gosto pelo sabor da literatura tem sido estragado pelo ensino de aspectos técnicos e factuais (alguém está a pensar em linguistas especialistas em advérbios? ou em adept@s da velha TLEBS?) em detrimento da fruição dos aspectos literários.

É ainda verdade que quem perde tempo a comprar livros das doutoras ariana e cohen (ou do gustavosantos ou do paulocoelho ou do zézédossantos ou do émeéssetê ou aquelas m€rd@s pseudo-espirituais ou inspiracionais), dificilmente consegue ter a disponibilidade e o gosto para ler um ensaio decente ou boa literatura que não apareça nos topes de cá.

Mas é completamente falso que isso resulte de uma “vingança” dos professores quanto aos “escritores”. Apesar do que escrevi acima, os professores adoram os escritores. Provavelmente, não os professores do MEC, não sei se em algum colégio inglês, com aquelas pancadas todas que eles têm por lá (cf. a série que recomendei há uns dias com base nos livros do Edward St. Aubvn). Mas os professores, em especial os de Português e os mais “envelhecidos” são leitores ávidos e adoram mesmo os escritores. E é aqui que o MEC se esparrama todo, exibindo um preconceito maior do que aquele de que acusa os outros.

E o preconceito é o de que os professores não sabem escrever e que por isso invejam os “escritores” por isso se “vingam” deles. Nada de mais errado.

É pena. Tomara eu que o MEC produzisse mais do que crónicas por encomenda e não andasse agora sempre a publicar coisas requentadas para ver se revendem. Para quem o lê desde o Se7e e o tem em forma de livro desde o Escrítica Pop há falta de um MEC a escrever mais do que dois parágrafos de cada vez. E quantas vezes sem nada de novo. Por rotina. Por mero automatismo de sobrevivência. Não foram só os professores que envelheceram.

Outra Esperança Inútil

Mesmo discordando dos reais objectivos da Iniciativa Liberal em termos político-económicos, quando passaram a liderança para o actual deputado Cotrim de Figueiredo tive alguma esperança que se ganhasse algo em termos de sofisticação na argumentação, já que quanto ao líder fundador estávamos mais do que falados. Até por ter pouco tempo de antena, no parlamento e fora dele, esperava que surgisse com algo que, à imagem dos cartazes, “refrescasse” o léxico no bom sentido. Repito, mesmo discordando, gosto de quem realmente traz algo de novo ao debate, na forma ou no conteúdo.

Mas foi esperança vã. Hoje, ao sair da reunião com os “especialistas” sobre a pandemia, o melhor que arranjou como soundbite foi um “não se morre da doença, morre-se da cura”, o que é algo que até o Tino de Rans conseguiria dizer sem um esforço enorme. Aliás, o termo que me lembro de se usar em tempos para este tipo de sabedoria popularucha era “sediço”, que é como quem diz serôdio de outro modo.

Que pena tamanho desperdício de boas camisas brancas, meticulosa e estrategicamente desabotoadas.

4ª Feira

No contexto actual de agravamento das medidas restritivas em muitos concelhos e em que se sugere – ou impõe – a redução de “convívios” sociais ou familiares e das deslocações ao mínimo essencial, merece especial adjectivação vernácula quem anda a convocar reuniões de avaliação presenciais para o final do 1º período. Cheira logo a mando de quem ou não tem reuniões dessas ou acha que não deve ficar na escola sem companhia alargada, mesmo que isso signifique desnecessários riscos acrescidos para os ex-pares. É nestas alturas que custa imenso não partir para uma escalada verborreica, porque realmente há gente que não merece tal esforço de contenção.

Os Eunucos Da Linguagem

Da escrita e da falada. Por acção de depilações ortográficas ou de estupro do seu sentido e forma. Sou dos que adora o enriquecimento da língua através da imaginação, da criação, mas dos que detesta o seu empobrecimento ou abstardamento com base em ideologias que pretendem “neutralizar” o que acham ser os seus conteúdos “incorrectos”, algo que agora está muito em voga em certos nichos do belo pensamento de uma neo-esquerda intolerante na defesa da assepsia linguística. De uma novilíngua que eu não hesito em crismar como eunuquês.

E tratar a petizada, mesmo que numa perspectiva de igualdade de género, como “querides alunes” é muito estúpido e ainda mais porque quer impor a descaracterização e uniformização em vez de exaltar a diversidade. Ao contrário do que seria de esperar, recusa identidades no desejo insano de não querer estabelecer diferenças e promover igualdades forçadas. E é por aqui que eu traço uma linha muito grossa em relação a esta corrente herdeira das teses da linguagem como instrumento de dominação e que pretende fazer exactamente o que em tempos afirmou criticar: forçar os outros a aceitar uma concepção unívoca do que é aceitável na língua de que todos nós precisamos para descrever o mundo na sua pluralidade colorida. É ridículo que os defensores das cores do arco-íris pretendem representar o mundo numa linguagem de cinzentos. Ora, se há algo que me é muito caro é exactamente a defesa do direito à diferença e à sua enunciação.

Mas vou passar antes a palavra a João Barrento e a dois excertos de crónicas suas de 1993, na altura mais preocupado com os efeitos do avanço da imagem sobre a palavra.

Diz-me como falas, dir-te-ei quem és. A língua é um espelho, não apenas daquele que a usa (que julga que a usa: na verdade, muitas vezes é ela que dele se serve!), mas também do mundo, e da visão que dele se tem.

(…)

As palavras vêm perdendo o corpo, desde que o culto da imagem o vem fazendo definhar, Quase ninguém repara nesse corpo, à maior parte das pessoas nem lhes passa pela cabeça que tal coisa existe. Cada vez mais as palavras se vêem esmagadas ou abastardadas, no seu lado corpóreo e sonoro, numa certa nobreza de porte que lhes é própria, pela penetrante violência das imagens que nos submergem e transformam o verbo em verborreia sem contornos, o perfil preciso do adjectivo em mero adorno, o sopro subtil da frase num urro sem rosto. Ninguém tem pachorra para atentar bem no texto dito, para o seguir de perto, e muito menos para o ler e tentar sentir nele o peso, os cheiros, a aura da palavra ou da imagem verbal.

João Barrento, Uma seta no coração do dia, 998, pp. 99, 103)

Causas E Efeitos

Primeiro aumentam os contágios. Depois os internamentos. Depois as mortes e as recuperações. Esta sequência demora dias, semanas a verificar-se. Como a luz das estrelas que vemos não é a que está agora a ser emitida, o número de morte ou recuperações não corresponde aos contágios ou sequer aos internamentos do mesmo dia ou dos dias imediatamente anteriores, pelo que ao fim de meses e meses deste tipo de relatórios, cansam aqueles títulos como “mais mortes, mas mais recuperações” (ou uma frase semelhante ou at´+e com os factores com outros sentido como “mais contágios, mas menos internamentos e menos óbitos”) porque os dois fenómenos são efeitos da mesma causa – o aumento de contágios há duas ou três semanas.

Efeito E Causa

Ouvi parte da conferência de imprensa do actual PM, o que está longe de ser um hábito meu porque raramente fico impávido perante o atropelo formal da concordância nas frases mais elementares, mesmo se suporto as manigâncias do conteúdo.

Mas desta vez apetece-me embirar com a forma como alguém que todos afirmam ser dotado de uma inteligência superior, não apenas no plano político, parece não compreender a relação entre causa e efeito. Ou então acha que somos nós que não compreendemos.

Afirmou António Costa, com voz quase segura que na 1ª vaga, com menos casos de contágio e menos mortes se tomaram medidas mais duras, pelo que agora na 2ª vaga não compreende como, com mais casos e mortes, se acha que as medidas estão a ser muito duras.

Ora vamos lá tentar recapitular as coisas pela ordem certa.

Na 1ª vaga, perante o desconhecimento de alguns aspectos da pandemia, mas perante os avisos de um potencial crescimento exponencial, tomaram-se medidas duras, sim, bastante cedo. E, sim, os casos ficaram a um nível relativamente baixo ao ponto de ser falar em qualidades miraculosas da prudência nacional.

Depois… parece que, pelo menos entre alguma classe político-mediática, se acreditou que no Verão o vírus hiberna (sim, eu percebo o oxímoro) e que tudo poderia voltar ao “normal” que a 2ª vaga viria longe e daria muito tempo para fazer o que não apeteceu (ou existiu coragem para) fazer. Foi a fase da cigarra.

Chegou a 2ª vaga e as medidas tomadas começaram por ser tíbias, parecendo acreditar-se que tudo iria “acabar bem”, quando ainda estava a começar. E os contágios e as mortes começaram a acumular-se. E surgem então as tais medidas que se afirmam “duras”.

Ora bem… é impressão minha ou a sucessão entre causa e efeito é clara nas duas vagas, mas inversa à “lógica” do discurso do actual PM?

Os casos foram relativamente baixos na 1ª vaga porque se agiu depressa e com alguma firmeza. Depois veio a conversa da “economia não pode parar” e “ai meu deus que não aguento mais os putos em casa”. Começou a 2ª vaga e as medidas a sério (seja nos lares, seja em certos “eventos”) tardaram, pelo que os casos aumentaram.

As trancas na porta ainda podem impedir o pior, mas percebe-se que há receio disto e daquilo, das reservas economicistas às libertárias, passando pelas de pura e simples falta de clareza e o tal medo do “cansaço”.

Cansado ando eu de tanta conversa da treta. É que nem fazem, nem saem de cima. E, pelo meio, nem o pai, nem a mãe almoçam, mesmo com as crianças na escola.

Estou Cansado De Títulos De Livros Sobre Auschwitz…

… sem praticamente nenhum fundamento ou razão que não seja ganhar dinheiro à conta da desgraça alheia, com recurso a dotes de “imaginação” que vão pouco além das variações do título. Por maioria de razão, abomino quem consegue ser oportunista em duplicado com Auschwitz-Birkenau. Porque ultrapassa a fronteira para uma certa obscenidade “literária”.