A Redescoberta Da Roda Quadrada

A OCDE descobriu que os alunos têm dificuldade em distinguir factos de opiniões na Internet e o ME acrescenta que são preocupantes os problemas resultantes da dificuldade em compreenderem o que lêem. Que constatações extraordinárias e inesperadas, só ao alcance de estudos internacionais. Claro que nestas ocasiões aparece logo o SE Costa (tão parco em intervenções em outras matérias menos demagógicas) a debitar chavões e verborreia variada, em alegre troca de preconceitos com o seu grande amigo Schleicher.

Entre os dois, espremendo bem, ainda se ficará a saber, quase por certo, que tudo isto resulta dos efeitos da pandemia (mesmo que o estudo seja anterior) e que tudo se resolve recuperando aprendizagens e formando os professores para ensinarem os alunos o que deveriam saber e foi culpa dos professores não terem ensinado, apesar dos alunos terem dito que ensinaram. E lá aparecem as “aprendizagens essenciais” como salvadoras do gosto pela leitura, quando a cada ano que passa o espartilho das obras a analisar nas aulas é maior. Quando o ensino da língua faz, em muitas passagens das tais “aprendizagens”, lembrar uma checklist de tipo administrativo.

Não tenho paciência para isto. Mandem-me costinhas, arianinhas e tiaguinhos da nova geração que aceitem dar aulas sem pensar, que não há mais pachorra para este nível de patacoada propagandística sem substância de quem confunde as suas opiniões com factos.

Não Adoram?

Aqueles mails que algumas pessoas decidem enviar com palavras todas em MAIÚSCULAS, que é para percebermos que estão a ser tão intensas e sérias quanto num comentário numa qualquer rede social?

No meu caso, a caixa de correio em causa fica logo numa quarentena de 24 horas que é para perceberem que se tivessem sido minhas alunas teriam aprendido a ter maneiras.

6ª Feira

Um professor não é mágico, embora faça com regularidade falsos milagres, não é padre, embora ouça muitas confissões, não é saco de porrada, embora a leve em termos figurados com enorme frequência (e mesmo de forma literal em alguns casos). Um professor é muitas coisas que não estão escritas no estatuto, mas nem sempre é um boneco de borracha, apesar do treino e calo que se vai ganhando.

Intimidações

Confesso que reajo muito mal quando tentam obrigar-me a fazer qualquer coisa com base na força de qualquer poder ou na ameaça de recurso a qualquer poder, sem que exista razão legítima. Não é que não esteja habituado, mas é sempre algo que desperta o mais “assertivo” que há em mim, para não usar termo mais acutilante. É a minha faceta pinheiro de azevedo. Não gosto de ser, seja em que modalidade for, “sequestrado”.

Não gosto de quem acha que pode ameaçar como forma de condicionamento da acção de terceiros. Em especial se o terceiro for eu. Dá-me logo uma travadinha daquelas. Muito menos quando envolvem aspectos críticos da minha conduta como professor e da minha preocupação com o bem-estar dos alunos. Ai, vocelência ameaça que se vai queixar “ao ministério”? Então, vá e depressa, que eu fico sentado à espera e vamos ver quem leva fica a arder no final. Porque, em muitos caos, quem é menos capaz do lado da parentalidade é quem mais gosta de exigir aos outros tudo e mais uma bota de sola cardada. Irritam-me este tipo de atitudes, em especial porque sei que funcionam em mais situações do que o desejável.

A culpa, para além da má educação e prepotência de bullies? A forma como muita gente vai recuando, para evitar chatices e aquela atitude sempre muito dúbia dos poderes na Educação em relação à autoridade profissional dos docentes. Há sempre por ali uma insinuação de incompetência, insensibilidade ou “falta de formação” para isto ou aquilo. Vem de longe, mas nunca parou, apenas se maquilhando em alguns momentos para cativar apoios para outras causas. Mas a verdade é que há quem ache que “o ministério” é amigo de quem se queixa dos professores, com ou sem razão. O professor é aquele que, coitado, muitas vezes não faz melhor porque não sabe, não tem formação específica, não tem em conta os contextos e depois precisa que lhe ensinem a não discriminar, a não ser um agente do racismo sistémico, de um paradigma de reprodução das desigualdades e isso tudo por aí adiante. Quem ameaça com “o ministério” sente que tem as costas quentes. Ora, coma consciência tranquila, eu lixo-me profundamente para quem assim age. E não me coíbo de o transmitir.

Afinal, quantos são?

A Mãe

Maria Antónia Palla interroga-se no Público acerca do ódio que existirá em Portugal contra Sócrates. O momento para tal interrogação não deixa de ser curioso, mas eu preferiria relembrar que ele foi o primeiro líder do PS a conseguir uma maioria absoluta e que governou seis anos, com muitos apoios, cumplicidades e silêncios. Para o bem e o mal. E, já agora, gostaria ainda de recordar que o “animal feroz” nunca se caracterizou pela forma simpática ou amorosa de tratar a generalidade dos adversários.

Que o PS tem um problema por resolver? Claro, mas acho que em alguns casos o “ódio” (dentro do PS) é mais porque José Sócrates exagerou (apesar da enorme habilidade em tirar fotocópias), deu nas vistas e há agora quem só com muita dificuldade nos possa fazer acreditar que nada sabia, nada viu ou ouviu.

Pessoalmente, que nunca tive cartão de nenhuma cor, nunca “odiei” o homem (em termos pessoais ou políticos). Só que já em 2005 tinha ouvido o suficiente, mesmo vivendo numa aldeia e não frequentando tertúlias de gente informada, ao ponto de abandonar o comodismo da abstenção (não, não fui votar no Santana, aquietem-se algumas almas muito puristas). Que tanta gente tenha andado distraída é que me causa imensa impressão.

(na TVI24, Sócrates usou como grande argumento em favor da sua honorabilidade o apoio dado por Mário Soares… como se todos nos tivéssemos esquecido do apoio que também deu, por exemplo a Bettino Craxi…)

A Pobreza, Vista Ao Longe…

… surpreende muito os investigadores, quando chegam perto dela. Estes estudos têm o mérito de dar chancela “científica” a realidades mais do que conhecidas por quem vive fora de casulos, mas acabam quase sempre a irritar-me em certa medida. Porque depois há daquelas constatações que “surpreendem” os engomados de gabinete, por estimáveis que sejam. Parece que descobriram que ter um emprego, mesmo estável, não dá imunidade à pobreza. Logo pela manhã, fiquei a falar com o rádio do carro ao ouvir a peça da TSF e as declarações do principal investigador que descobriu que quem nasce em meio pobre, dificilmente se endireita ou passa de remediado, mesmo que seja “efectivo”. O problema de algumas tertúlias académicas certificadas é que tomam os seus conceitos, nascidos dos seus problemas pessoais (como os de pós-doutorados, com bolsas anos a fio, que ainda não conseguiram vaga nos quadros da Universidade e depois despejam raivas contra Básicos e Secundários), por uma realidade social que não existe. Sim, o “precariado” é indesejável, mas os baixos salários são uma chaga ainda maior. Por acaso, o período em que mais ganhei, em termos relativos, foi quando era professor contratado e tinha mais um par de biscates que me davam outro tanto de remuneração. Há precários a ganhar muito bem e “estáveis” a ganhar muito mal. O problema é estes últimos serem muitos. Mesmo muitos.

Pode andar-se anos ou décadas a fio a dizer que a desregulação das condições de trabalho (abusivas em termos de horário e remuneração) estão na base de muitos problemas, incluindo o insucesso escolar ou o “sucesso remediado”, mas há sempre aquela malta que teoriza a batata na perspectiva do contra-factual e do camandro ao cubo e conclui que a pobreza é apenas um estado de espírito. Sim, é verdade que há muita pobreza de espirito por aí. Mas essa tem uma distribuição transversal nos diversos escalões de rendimento. A pobreza material, daquelas pessoas que sobrevivem um mês com menos dinheiro do que custa uma bicicleta (ou uma roda, que as há a mais de 1000 euros e não necessariamente para profissionais) dos ciclistas chique que se pavoneiam ao fim de semana em leque por aí, é muito diferente. É aquela pobreza, como constatou com ar de alarme o investigador, para a qual uma diferença mensal de 10-20 euros pode ser decisiva.

Que em 2021 seja preciso um estudo com uma dezena de autores para o demonstrar revela muito sobre a tal “pobreza de espírito” de que falava mais acima.

Se Bem Percebo…

… algumas das acusações são consideradas improcedentes porque os acusados declararam que as coisas não foram assim e não fizeram nada de mal.

Considera-se acertada a minha decisão de nunca ter considerado a possibilidade de seguir uma carreira nas leis e muito menos na magistratura, porque isto é muito à frente. Por outro lado, manifesta-se claramente errada a minha opção por não me ter envolvido no mundo dos negócios políticos, mesmo aqueles mais estranhos, porque basta dizer que nada se fez de mal para ficar provado que nada se fez de mal.

Como Bater Muitos Recordes Mundiais E Olímpicos Com Facilidade

Basta que no atletismo (ou na natação, por exemplo) se transforme a unidade de medida de metros para jardas.

(pensei nisto quando li mais uma notícia sobre a necessidade de encurtar programas para os leccionar melhor, por que tem conteúdos “encilopédicos” e tal… até poderíamos ficar só pelas vogais e pela tabuada dos 5… ou então dar apenas os conteúdos em que @ professor@ se sentisse mais “motivado” ou “interessado”… )