Domingo – Dia 35

Quando o encerramento das escolas aconteceu e foi claro que duraria mais do que um par de semanas, não era necessária muita perspicácia para prever que a realização, pelo menos, das provas de aferição do Básico era algo dispensável. Mas a 12 de Fevereiro, com uma nova calendarização do resto do ano escolar, continuou a prever-se a realização de quase todas as provas (com a  excepção de algumas do 2.º ano). A 11 de Março tudo voltou a mudar e recuperou-se o modelo que tinha sido adoptado no ano lectivo anterior, deixando-se cair todas as provas de aferição e provas finais do Básico.  Ainda bem que eu planifico o meu trabalho com “autonomia e flexibilidade” ou os meus alunos (de 5.º ano, a quem disse cedo para esquecerem as provas de aferição) estariam a navegar na maior das confusões.

Está Bem Pensado

A 12 de Fevereiro sai o “novo” calendário escolar, com datas para as provas de aferição do Básico que qualquer pessoa com um mínimo de bom senso sabe que, para além de inúteis nesta sua variante, seriam de realização perfeitamente idiota, para a 11 de Março serem canceladas. O mesmo para as provas finais do 9º ano. Porque parece que a 12 de Fevereiro a prioridade era dar a entender que isto estava quase tudo normal, como é evidente. E depois ainda há quem fale em stress e ansiedade na miudagem, como se este tipo de ziguezagues nada tivessem a ver com isso.

A Sério?

Turmas a receberem ordem de isolamento no sábado, a contar até dia 2 de Fevereiro. Se calhar o delegado de Saúde em causa quererá dizer os alunos da turma? Todos? Então, para que pede os contactos de risco= Para testar? Sendo assim, porque será que em casos similares, em concelho limítrofe, o delegado vizinho nunca mandava qualquer turma para casa?

Enfim. O completo desnorte.

Ou será “desigualdade”?

(e não me venham dizer que isto é inventado, que é em primeira mão, de um lado e do outro)

Este Mês, No JL/Educação

Até porque na edição em papel não saiu uma nota de rodapé com uma referência, fica aqui um texto que faz uma espécie de revisão de matérias sobre as quais já tina escrito. E porque, no panorama envolvente nas páginas em redor, faz um papel de blot on a landscape..

JL 15Jul20

O cargo de director de turma é um dos que, fora das estruturas formais de “liderança”, mais importância tem na relação das escolas com as comunidades educativas envolventes, porque o bom e velho “DT” funciona como uma espécie de primeira linha de contacto com as famílias dos alunos. O tema tem sido estudado abundantemente pelas Ciências da Educação e é um dos poucos assuntos em que parece existir uma espécie de consenso que ultrapassa ferozes clivagens ideológicas em outras matérias. Como refere Marta Sofia Ferreira, ele é informalmente uma espécie de “líder intermédio” e “para muitos Encarregados de Educação, o Diretor de Turma é considerado o rosto da escola, pois desempenha a função de elo de ligação entre a instituição e a família” (O Diretor de Turma no Papel de Líder Intermédio. Dissertação de Mestrado. Viseu: Universidade Católica, 2014, p. 66)

Há quem reconheça que, em muitos contextos e na ausência de outros recursos humanos especializados “as competências exercidas pelo diretor de turma extravasam nalguns pontos as competências legalmente atribuídas” (Guilherme Rodrigues, O Papel do Diretor de Turma na Autonomia: estudo de caso numa Escola Secundária. Dissertação de Mestrado. Lisboa: Universidade Aberta, 2011), porque “não há legislação para a dimensão humana do diretor de turma” (Fani Simões, O papel do Diretor de Turma na vida dos alunos, Relatório de Mestrado: Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 206, p. 97).

Mas, apesar dessa importância do papel como mediador entre a escola e a família e do seu envolvimento na vida escolar dos alunos, grande parte do trabalho do director de turma tem sido progressivamente dominado pela dimensão burocrática que envolveu o exercício da docência nos seus mais diversos aspectos e isso é algo que é reconhecido não apenas no terreno, mas pelas próprias investigações. Ana Rita Pacheco e Mariana Amaral da Cunha e Paula Batista, no seu trabalho “O Papel do Diretor de Turma na dinâmica relacional entre a escola e a família” concluem que “os dados revelaram que os inquiridos consideram que é exigido ao DT o desempenho de vários papéis sociais e funções de caráter burocrático”[i], o que coincide com a visão de Clara Boavista e Óscar de Sousa que afirmam que “nesta pesquisa fica claramente percetível a ideia de que os principais fatores limitativos ao exercício da atividade dos Diretores de Turma são o tempo reduzido de que estes docentes dispõem, o excesso de burocracias com que são confrontados no exercício das suas tarefas” (“O Diretor de Turma: perfil e competências” in Revista Lusófona de Educação, 2013, nº 23, p. 91).

Serve esta sequência de referências para sublinhar que o papel central do director de turma na vida escolar e junto dos alunos tem sido descaracterizado e tomado de assalto pela deriva hiperburocrática que nas últimas décadas levou a que à influência e intervenção eficaz junto dos alunos se passasse a dar maior importância aos directores de turma como uma espécie de burocratas a quem são atribuídas as mais diversas funções de carácter administrativo que em outros tempos não faziam parte do seu “perfil de funções”, como seja a “monitorização” do trabalho dos colegas de Conselho de Turma, a realização de matrículas ou a recolha de manuais escolares.

Em tempos de ensino remoto, com todas as atribulações que marcaram os últimos meses, o papel de elo entre o que restou de vida escolar “normal” e os alunos e respectivas famílias passou ainda mais pelos directores de turma. Mas, infelizmente, foi vítima da tal deriva burocrática mais preocupada no seu papel como controlador do trabalho alheio e registador aplicado das actividades desenvolvidas do que em qualquer outro. Foram tempos penosos em que se atingiram novos níveis de transbordamento das funções do director de turma para a esfera puramente administrativa. Do preenchimento de inquéritos e relatórios à exigência que se transmitisse a necessidade desse preenchimento a alunos, encarregados de educação e colegas. O director de turma como funcionário administrativo e simples operacional de uma cadeia hierárquica de controlo acima das suas atribuições como elemento unificador e estabilizador do seu grupo de alunos em tempos de grande insegurança.

A terminar o ano, a barragem final de deveres em forma de novos inquéritos e monitorizações e monitorizações de monitorizações e grelhas para tudo registar de irrelevante e redundante.

E os manuais para recolher, embora se garantisse que as primeiras semanas do próximo ano lectivo serão para “recuperar as aprendizagens” não realizadas ou não devidamente consolidadas nestes últimos meses. E as escolas fizeram escalas para a devolução dos manuais, escalonando pessoal não docente e docente, com os directores de turma à cabeça. E os directores de turma comunicaram-nas aos encarregados de educação, mesmo quando achavam que não fazia sentido, mas era assim que teria de ser. E veio a discussão do Orçamento Suplementar e a aprovação da proposta para que os manuais não fossem devolvidos. E os directores de turma transmitiram essa informação aos encarregados de educação. Só que no Ministério da Educação alguém falhou as aulas de História do 6º ano e achou que o poder executivo pode atropelar as decisões do legislativo e um senhor director-qualquer-coisa mandou uma informação para as escolas a dizer que havia um despacho a cumprir e os manuais a receber. E as direcções comunicaram isso aos directores de turma e estes, mesmo contrariados, lá fizeram o papel de pombos correios de novo para os encarregados de educação. Até que veio de novo a indicação de que não poderia ser, que os devolvidos já estavam, mas afinal não deveriam ser devolvidos. Tudo isto em poucos dias, muitos mails e pouco siso da tutela.

A meio do processo, pessoalmente, desisti de alinhar com a insanidade e como dou aulas de História do 6º ano, comuniquei aos meus encarregados de educação que não devolvessem os manuais e ponto final. Se alguém perguntasse, a culpa que me fosse atribuída que tenho costas largas para a idiotice. Poupei um par de mails desnecessários, graças a isso.

Já quanto às matrículas, não tive tanta sorte.

Porque foram dias iniciais em que o “Portal das Matrículas” era a grande ferramenta em tempos de recurso a soluções não presenciais. E os directores de turma instaram os encarregados de educação a usarem o Portal. Quando? Quando saíssem as classificações. E antes? Não deveria ser, porque não saberiam o ano em que se iriam matricular, mesmo se quase toda a gente ia passar de ano. Mas houve quem tentasse e conseguisse e passasse palavra. E aquilo começou a emperrar. E os encarregados de educação a perguntarem como preencher a parte em que existe a necessidade de apresentar comprovativos e porque não se conseguia aceder em horário útil. E este director de turma, também encarregado de educação, compreendia e partilhava as agruras da plataforma que só parecia funcional com a lua cheia no alto do horizonte.

Mas não… o Portal das Matrículas é que deveria ser usado e os procedimentos respeitados, renovação ou não renovação. E os directores de turma lá deram a cara de novo, por mail ou telefone, por causa da urgência, para que a coisa se fizesse à distância, tido M@D (Matrícula a Distância). Por vezes, com recurso a tutoriais e tudo, que os professores são gente engenhosa e de rápida reacção ao infortúnio. Não é bem o meu caso, mas sei quem assim seja.

Até que se tornou por demais evidente que a dita ferramenta deve ter sido concebida para as matrículas de um único ciclo e não de todos. E muita gente começou a pensar que o melhor era não perder horas e bater com a cabeça no teclado e fazer matrícula presencial.

E então surgiu uma informação da DGEstE a recomendar que para “agilizar” o processo se deveriam fazer no portal apenas as inscrições nos primeiros anos de ciclo e as transferências. E surgiu, quase em simultâneo, não sei se ovo, se galinha, a notícia de que o Portal teria sido alvo de “ataques” informáticos de “elevada complexidade” (notícias a circular desde a tarde de dia 7 de Julho).

E assim se voltou atrás e ao que deveria ter sido o alfa de tudo, a renovação automática do que o bom senso recomendaria que fosse automaticamente renovado, em especial nas presentes circunstâncias.

Pelo caminho, o campo pejado de encarregados de educação e directores de turma esgotados, após inglório combate pelo acesso ao Santo Portal.

[i] repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/124873/2/317045.pdf (consultado em 8 de Julho de 2020).

E Agora? Vou Até À Serra De São Luís Ao Pé Coxinho?

Depois do SE Costa, é o mais costistas dos costistas em exercício na Educação a vir alinhar com a tese do “remedeio”. David Rodrigues vem dizer que vivemos uma “pobre imitação” da escola, depois de muita outra coisa ter sido dita e escrita sobre este ser o verdadeiro caminho para repensar a Educação. Quando o ministro da Economia promete uma enxurrada de meios digitais para as escolas, esta reacção faz-me pensar que algo mais anda a pass(e)ar por aqui. Porque tudo isto já tinha sido percebido há quase um trimestre e tão doutas mentes só agora perceberam que a realidade é o que é? Porque eu ainda me lembro de muita prosa por aí, até no Jornal de Letras onde, todos os meses, fiz o papel de desmancha-prazeres e “velho do Restelo” ao sublinhar o que só agora lhes parece ter ocorrido.

Há uma ou duas teorias que podem explicar esta inversão de marcha na retórica e o abandono do voluntarismo tecnológico da segunda quinzena de Março e todo o mês de Abril, mais umas coisas ainda a salpicarem por Maio dentro (não me esqueci da prédica do David sobre a distinção entre “diferença” e “desigualdade”, como se os críticos do “remedeio” fossem estúpidos). Foi o calor que lhes acelerou os neurónios? Perceberam que continuar assim no próximo ano seria cavar um buraco enorme de onde seria muito difícil sair? Que não chegam formações apressadas da treta e webinars mais ou menos vácuas (ontem, uma colega dizia-me que esteve recentemente três horas a assistir a uma que se poderia resumir em 20 minutos de coisas quase todas conhecidas e repisadas) para avançar destemidamente para o que seria uma absoluta distopia?

Acreditemos que algumas destas personalidades (e aposto que outras aparecerão em breve no mesmo sentido, deixando pelo caminho muita orfandade) ganharam senso. Resta saber se ganharam vergonha na cara.

sinal

 

Isto Foi Um Debate Ou Um Beija-Mão?

Clicar na imagem para aceder a um programa que revelou, entre outras coisas, um assinalável espírito de união entre os actores do sistema estabelecido em torno dos lugares-comuns, mas, ao mesmo tempo, uma enorme falta de coragem política. “Revolução”? Cruzes, credo, só na retórica, que esta gente borrava-se toda se tivesse mesmo de passar por uma.

ProsBeija

“O Foco Tem Sido Dois”

Um SE Costa com cara de sexta.-feira ao fim do dia apareceu na TVI24 a agradecer a colaboração do canal na divulgação da sua mensagem e a dizer que a preocupação do ministério é tranquilizar os alunos que o ano termina e termina com trabalho no 3º período, mas sem saber bem como (garanto que a sequência foi mesmo assim). A seguir, que estão a trabalhar em “grande proximidade” com as escolas, em busca de uma resposta única às necessidades, enquanto tentava fugir à questão do acesso (ou falta dele) dos alunos à net. Encaminhado para o tema começou a falar em questões de violência quando os alunos ficam em casa fechados com os pais (a sério, a articulação de ideias seguiu um caminho esquisito) e depois passou para os contactos com o Alto Comissariado para as Migrações e com os Escuteiros e, em bom momento, a jornalista cortou-lhe o pio, porque se estava a notar muito a opção pela navegação à bolina e, no fundo, a opção por encenar qualquer coisa.

Estão perdidos, sem saber se devem tomar decisões antes de fazer cálculos sobre os custos políticos. O ministro, que ontem também apareceu com umas vacuidades, ainda deve estar a carpir todas as viagens que não fará.

Se eu tenho muitas certezas sobre o caminho a seguir? Nem por isso, mas não passo de um professorzeco de subúrbio, daqueles que não alinha em geringonças blogosféricas telecomandadas. Mas, pelo menos, não finjo ignorar os “problemas” que se colocam a certas “soluções” da treta.

Lost1

(não, não se mandam os chefes escuteiros entregar fichas em certos bairros onde serão o equivalente a tenrinhos frangos ou docentes reformados de porta em porta… atinem, ganhem juízo, desçam à terra… acordem desse sono que vos faz pesar as pálpebras e raciocinar em forma de oito)

(isto não é qualquer embirração pessoal, é mesmo embirração com quem sabe governar em modelo de visita vip, com os cortesãos a aplaudir mas que, quando as coisas apertam, fica muito pouco de substancial debaixo do folheado)