5ª Feira

Roça a obscenidade política toda a novela do IVA do gás e electricidade. Votar as contrapartidas antes de se votar a medida a que se aplicam é de uma maravilhosa singularidade. Assim como guardar para o fim as votações que, na devida ordem, podem causar birrinhas, dando tempo para negociatas de bastidores.

E depois queixam-se que os “populismos” nascem de fenómenos de iliteracia disto ou daquilo. Não, eles nascem de se constatar que temos quem ache que é por manter o IVA da luz em 23% que eu acendo velas em casa após o anoitecer. Ou que passo a tomar banho com água gelada. Que o ambiente se defende com impostos, enquanto se destrói a cobertura vegetal do país ou se criam excepções em série para construções em zonas protegidas. Quando muito pouco se faz para reduzir a poluição industrial ou a eficácia energética das grandes indústrias.

Há um dia ou dois, o nosso excelso PM declarava que era uma “bizarria” dar-se atenção aos novos partidos na comunicação social. Bizarro é ter décadas a fio gente a comentar sem qualquer contributo para nos esclarecer, funcionando apenas como correntes de transmissão das chefias partidárias e interesses pessoais. Gente que, em muitos casos, assistiu de camarote ou colaborou, nem que seja por omissão, em políticas de transparência altamente duvidosa. “Economistas” de ocasião que nada viram de grave anos a fio nas negociatas em torno da PT e da banca privada ou políticos, incluindo com responsabilidades executivas, que acharam que tudo foi uma “festa”. Comentadores que saltitam da vida política para administrações de grupos económicos, com apeadeiro em gabinetes de advogados. Para quem Angola era o paraíso dos negócios até terem medo de apanhar com salpicos de petrodólares corruptos.

Os “populismos” nascem de uma classe política de oportunistas que mentem sem pudor ou de invertebrados que saboreiam os ventos. Esta é uma tirada demagógica? Lamento, mas parece mais ser um retrato de uma realidade que não muda. Porque agora acusa-se de serem “demagogos” aqueles que denunciam a verdadeira demagogia do “ambientalmente irresponsável” e do “socialmente injusto”. Porque há “paradigmas” que parecem impossíveis de substituir.

Alcatrao

Será Que O PM Costa Se Aconselhou Com O SE Costa Quanto Ao Uso Demagógico Dos Advérbios De Modo?

Costa voltou a destacar os benefícios da proposta do Governo em contraposição com a do PSD que considera “financeiramente insustentável”, e que não respeita os princípios ambientais e é “socialmente injusta”.

Só faltou o “ambientalmente irresponsável”.

Embora eu ache que se poderia dizer que é uma medida “sustentavelmente financeira” e “justamente social” e andaríamos mais próximos da verdade dos factos.

Entretanto, aproveitando-se dos meandros das politiquices, o PCP ainda acaba em segunda muleta, porque o PAN já não consegue esconder ao que anda.

AntCosta

(parece que desta vez não ameaça demitir-se, apesar de birrar como menino mimalho que é…)

Grande MOOCA

Decidi explorar o maravilhoso mundo dos massive open online courses. Há umas coisas nacionais com algum interesse e muitas coisas lá fora. A generalidade das maiores universidades têm-nos e de borla para quem quiser “frequentar” e a 40-50 euros para quem quiser ficar “certificado” por Harvard, Yale, Stanford ou pelo MIT.  Por cá há umas borlas, umas coisas assim para o carote (o dobro dos de lá de fora) e a velha habilidade de cobrar mais quando certifica créditos pós shores professores.

Dou um exemplo: inscrevi-me num anunciado como sendo de borla, mas certificado e tudo, só que para outro grupo disciplinar. Mas o tema interessava-me. E lá me “matriculei”, mesmo se nem preciso, por agora, de créditos. No dia de arrancar, não arrancou. Ficou para uma semana depois. No dia do segundo arranque, descubro que, afinal, a minha “matrícula” tinha sido “deslocada” para uma de duas variantes do curso (a “geral”), sendo que esta já seria para todos os grupos disciplinares com certificado em troca de umas dezenas de euros (80), não publicitados no anúncio online do curso. O curso em que me tinha inscrito passou a ser frequentável apenas por “convite”. O pessoal começou a protestar no espaço de “debate”. Com razão. E começarem a dizer que, coiso e tal, existiam dois cursos, um “aberto” e o outro “fechado”. O que não era verdade quando me inscrevi. Por estas bandas, basta cheirar à possibilidade de negócio e não há nada garantido. Eles é que são os “donos” da coisa.

Carteira

 

Os Coreógrafos Do Regime

Não é bem por ordem cronológica, mas talvez seja pela ilógica.

  • O Bloco e o PCP defendem a descida do IVA da electricidade, pois esta deve ser considerada como “bem essencial”.
  • O PS diz que é uma irresponsabilidade orçamental, apesar do magnífico superavit.
  • O Bloco e o PSP dizem que o PS não tem maioria absoluta e deve negociar.
  • O PS faz uma proposta de descida diferenciada que sabe ser ilegal de acordo com as directivas comunitárias.
  • O PSD faz uma proposta de alteração ao OE que contempla a descida do IVA da electricidade para 6%.
  • O Bloco e o PCP dão a entender que poderão apoiar esta medida.
  • O PS diz que é uma irresponsabilidade orçamental, apesar do magnífico superavit.
  • O PSD diz que faz propostas de redução de outras despesas (como os chamados “consumos intermédios” dos gabinetes ministeriais) para compensar esta descida, apesar do magnífico superavit.
  • O PSD diz que, se chumbarem essas propostas de compensação da despesa, não avança com a da redução do IVA.
  • O Bloco e o PCP., por abstenção ou voto contra, inviabilizam parte dessas propostas.
  • O PSD deve retirar a proposta de redução do IVA da electricidade.
  • O IVA da electricidade vai manter-se nos 23% como no início de todo este processo (com o paralelo anúncio de algumas “esquerdas” que o governo cedeu em qualquer outra coisa que eles queriam).

Sou só eu a achar que isto faz lembrar, em versão ainda mais apalhaçada, a questão da recuperação integral do tempo de serviço dos docentes?

E que tudo isto não passa de uma enorme encenação em que o PS faz o que quer e os outros fingem que fazem qualquer coisa de diferente?

clown

Os Troca-Tintas Do Regime

O Ricardo Araújo Pereira, no Governo Sombra desta semana, lamentava não ter atingido ainda o estatuto daqueles que, mudando de opinião conforme os seus interesses, declaram que o seu pensamento “evoluiu” e escapam a ser tratados como meros troca-tintas. Ele referia-se assim a alguém que, em matéria de divulgação de informação “reservada” terá sido contra a publicação das escutas do Apito Dourado, mas a favor da divulgação dos mails do Benfica. Que considerava “abjecta” o conhecimento público de documentos relacionados com o caso Marquês, mas já acha que é de interesse público a publicação da papelada de Isabel dos Santos.

Já agora, num evidente non sequitur, gostaria de reconhecer que, afinal, o abnegado trabalho intelectual ainda compensa.

Miguel Sousa Tavares foi aos saldos do Novo Banco comprar casa

Comentador pagou 1,2 milhões por um imóvel em Lisboa, referindo que o banco estava “à rasca” para vender. Mas assegura que o negócio não envolveu o compadre Ricardo Salgado.
Monopolio