Injustiça? Desigualdade?

Talvez… mas eu acho que eles estão bem na Madeira, nós é que estamos mal. E, em conformidade, acho que devemos lutar pelo mesmo e não criticar quem conseguiu aquilo a que tem direito. Há uma fina (?) linha que defende a luta por conseguir o melhor para todos e a lógica do “se eu não tenho, tu também não”.

Despacho garante 100% no acesso ao 5.º e 7.º escalão

Madeira

5ª Feira

Uma das poucas “vantagens” de irmos sendo mais velhos e, já agora, adultos, deveria ser uma certa capacidade de desmontar as tretas, as desculpabilizações com escassa vergonha, as justificações sem ponta por onde se lhe pegue, enfim, a chamada banha da cobra. Mas parece que não. Dá a sensação de cada vez ser mais apertado o espaço entre a infantilidade e a senilidade.

E Quem Fecha A Porta?

O Nogueira não é, porque está para durar, sacrificando-se ao ponto de não cumprir o desígnio tantas vezes expresso de voltar às salas de aula. De vitória em vitória até à aposentação final.

Não há greve. Professores trocam paralisação por “comícios da indignação”

pie-in-face

(não uma vigília, um luto, um velório qualquer? não estou a gozar… até porque sou um dos defuntos…)

O Pior de 2018

Por momentos, para mudar de registo, pensei escrever algo meio divertido sobre aquelas pessoas que são muito amigas do ambiente e todas sustentáveis, mas depois pedem para cortar as árvores que fazem cair-lhes folhas nos quintais e porque têm passarinhos que lhes fazem cocós nos tejadilhos dos carros. Mas desisti, por tentador que fosse a hipocrisia à micro-escala. Porque o pior continuou a ser, como há muito, a forma como as pessoas reagem ao poder, seja à sua proximidade, seja à sua “posse”, sendo raros os casos em que não façam quase tudo ao seu alcance para se chegarem mais, para o alcançarem ou perpetuarem. A forma como o Poder – ou os poderzinhos – transfiguram quem parece precisar de doses cada vez mais fortes ou de manter um estado de high permanente, como uma adição (é assim que agora se diz, anglicizando) insuperável. Como encaram a mentira como razoável quando é a sua, como se acham insubstituíveis ou quase predestinad@s para o exercício desses poderes sobre os outros. Como se formam cortes submissas, domesticadas, dúplices, para que um dia se possa chegar nem que seja a sub-secretário do vizir. A contaminação e corrosão do carácter pelo contacto próximo e demorado com o poder, em especial em sociedades periféricas, desiguais e com uma muito fraca habituação à transparência democrática, instala-se e forma uma cortina opaca que provoca uma sensação de claustrofobia que nos definha.

claustrofobia

Um Ciclo de 12 Anos Eliminaria Esse Problema

Pelo menos é a conclusão lógica do que se afirma. Falta ousadia às propostas. Eu lecciono o 2º ciclo e também acho que é uma redundância a existência de dois ciclos entre o 5º e o 9º ano e que um ciclo de cinco anos permitiria eliminar redundâncias nos conteúdos e abordá-los de uma forma diferente, sem precisar de flexibilidades e malabarismos.

Mas, se tudo é obrigatório… que tal apenas um ciclo? Acabavam-se as transições… até porque, como um dos argumentos é financeiro e não pedagógico, bastava meterem um professor a dar tudo e outros a fazerem uns biscates no resto, tipo aec com saco azul (ou da cor que gostarem mais, conforme a associação ou autarquia).

Para a presidente do CNE, Maria Emília Brederode Santos, deveria ser repensada a organização do ensino básico, atualmente dividido em três ciclos, “designadamente a velha questão do 2.º ciclo [um ano para entrar e outro para sair, dadas as dificuldades assinaladas nos anos de transição”, lê-se na introdução do relatório Estado da Educação 2017, esta quarta-feira divulgado.

As taxas de retenção e desistência têm vindo a diminuir nos últimos anos, tendo atingido no ano letivo de 2016/2017 o valor mais baixo da última década em todos os três ciclos de ensino.

No entanto, olhando para o relatório divulgado, percebe-se que é nos anos de transição de ciclo (5.º e 7.º) que os alunos apresentam mais dificuldades e acabam por ficar retidos, uma realidade que continua a preocupar o CNE.

Os Pratos da Balança (Negocial) E Alguns Pensamentos Divergentes

Todos sabemos que a parte pública das disputas negociais entre sindicatos e ME são apenas uma pequena parte do icebergue real dos contactos e negociações que se estabelecem de modo informal, fora das datas formais em que se aparece para os retratos e declarações aos microfones. Se alguém não sabe isso, vai-me desculpar, mas anda nisto há pouco tempo ou tem uma dose de candura acima do razoável numa pessoa adulta e com estudos superiores. Claro que há períodos em que esse tipo de contactos emagrece substancialmente (Crato. em especial para o lado da fenprof) ou tem de usar vias paralelas (MLR). Mas sempre que existe uma afinidade mais ou menos clara entre as partes, grande parte do que é decidido acontece fora das luzes, em encontros muito informais (por exemplo, nos tempos de Alçada e Ventura). Não digo isto apenas porque me apetece, mas porque nessas alturas tive algum conhecimento – não vou dizer que extenso – desse tipo de procedimentos.

Nos tempos que correm, não tenho qualquer tipo de informação desse tipo, pelo que as minhas inferências resultam apenas do conhecimento que tenho desses processos negociais informais, das personagens relevantes em presença e das suas posições e contexto político, sendo que algumas (dessas personagens) raramente têm aparecido à superfície, preferindo manter-se na penumbra.

No entanto, parece-me dificilmente controverso que tem havido um esforço colectivo por obter uma espécie de equilíbrio entre interesses em confronto, não necessariamente coincidentes, no interior da própria classe docente, na sua acepção mais ampla. E esse equilíbrio é entre satisfazer a facção que luta pela vinculação de mais professores e a que defende os interesses de quem já está no quadro e pretende recuperar parte do que lhe foi retirado ao longo de mais de uma década.

O que me parece é que há quem prefira, em troca de uma satisfação imediata, hipotecar as possibilidades futuras, na crença que mais tarde logo se vê. E essa posição tem ganho à outra, até porque ao ME interessa mais ter professores com mais horas lectivas e salário mais baixo do que ter professores do quadro a progredir de forma vagamente “normal”.

E é assim que acho que as vinculações extraordinárias, com uma entrada na carreira pelo escalão mais baixo, têm sido equilibradas (do ponto de vista de quem faz as continhas no excel) com a contenção da progressão dos professores já integrados na carreira.

Acho que quem está do lado de “cima” tem conseguido o seu primeiro objectivo (entrada nos quadros), hipotecando diversos outros (como o de uma carreira com uma progressão real além do 4º escalão)  e, pelo caminho, tramando os “outros” qiue acham que já estão bem. Estão no seu direito, assim como no de pensar que, a pouco e pouco, lá conseguirão ir obtendo os objectivos, através de cumplicidades diversas e fretes cirúrgicos e pouco visíveis a olho descoberto ou destreinado.

Pessoalmente, sempre achei errado nivelarmos as aspirações pelo patamar mais baixo, pela mediocridade ou achar que o argumento do “há quem esteja pior, há quem nem trabalhe, portanto, cala-te” é válido. Sempre achei que devemos nivelar aquilo a que aspiramos por um horizonte ambicioso, fazendo apenas os compromissos indispensáveis para que não se comprometa o essencial.

Significa isto que discordo de quem acha que o que deve existir é uma carreira docente tendencialmente “horizontal”, porque o “conteúdo funcional” é o mesmo. Esse é um argumento que vem dos tempos da tríade MLR/Lemos/Pedreira e que é partilhado, por estranho que pareça, por mais gente do que seria de esperar, dos igualitaristas de esquerda aos niveladores de direita. Quando os professores optarem por render-se a essa lógica da “horizontalização” da sua carreira terão deixado de resistir à progressiva proletarização da docência que, acreditem, ainda está em progresso. Sendo que, se olharem ainda melhor, essa horizontalização correrá em paralelo, pelos estrangulamentos a meio da carreira. a um processo, só aparentemente contraditório, de elitização piramidal, em que um grupo cada vez mais restrito de docentes com acesso aos escalões mais elevados se tornará uma espécie de casta dominante quase fechada.

E termos uma carreira docente em que 80-90% ficarão estacionados, no máximo, nos actuais 5º-6º escalão, só conseguindo ir mais além uma minoria. Esse é o modelo de carreira ideal para quem quer um professorado barato, proletarizado, domesticado. Que está de novo a ser implementado de uma forma apenas moderadamente subtil. Com colaboradores dentro da própria carreira, uma espécie de kapos sempre com a esperança de serem poupados como recompensa pelo seu trabalho. Ou de terem compensações (materiais e simbólicas, internas ou externas à docência porque a vinculação abre muitas portas para outro tipo de posições) que mitiguem os efeitos da proletarização geral. E têm conseguido que o seu prato da balança tenha mais peso.

Não sei se precisarei de fazer um desenho, como aqueles muito criativos que aparecem no youtube, para explicar melhor o que as palavras podem nem sempre deixar claramente claro e evidentemente evidente.

balanca

(e a desqualificação progressiva do trabalho intelectual na educação não-superior, disfarçada com a conversa das “competências superiores” a desenvolver nos alunos em “projectos” em que desaparece o papel do professor como alguém com um capital de conhecimento específico não substituível por um gadget ou qualquer outro professor de qualquer outra área, pois tudo é transversal, é apenas uma outra faceta deste processo…)