“Meios Telemáticos De Comunicação Síncrona”

Por mim, na boa! Até porque reuniões a meio de Julho sem ar condicionado, sabem tudo menos bem. O Secretário de Estado Adjunto e da Educação (atenção que primeiro é adjunto e só depois da Educação), por uma vez, não está a pensar mal. Resta saber se é para levar a sério.

Tendo chegado à DGESTE pedidos de informação sobre a realização dos conselhos de turma do 3.º período, encarrega-nos o Secretário de Estado Adjunto e da Educação de informar que, dadas as circunstâncias, as reuniões de conselho de turma de avaliação poderão, neste ano letivo, ser realizadas não presencialmente através de meios telemáticos de comunicação síncrona. Importará garantir que todos os docentes têm acesso à documentação necessária e que estão garantidas as condições que permitem não só a participação de todos os docentes, mas também a tomada de decisão colegial nos termos legais.

Com os melhores cumprimentos,

João Miguel Gonçalves

Diretor-Geral dos Estabelecimentos Escolares

Sobre O E@D

As respostas completas (longas) para esta peça do Educare.

.Qual o futuro do ensino à distância? Justifica-se ou não se justifica? Poderá integrar um modelo de ensino daqui por diante, num modelo misto? 

Neste momento não é possível fazer uma previsão fundamentada, excepto para o Ensino Superior, no qual se percebe que o ensino à distância se tem vindo a afirmar como uma modalidade complementar ou mesmo alternativa ao ensino presencial. E justifica-se como elemento de um ensino de tipo misto, pois permite desenvolver actividades diversificadas com um maior número de alunos, que nem sempre é possível realizar no modelo presencial.

No Ensino Secundário e, em especial, no Ensino Básico parece-me que só será um recurso em situações de emergência ou como ferramenta auxiliar do ensino presencial. E isso será assim em especial para os primeiros ciclos de escolaridade, nos quais é necessário um trabalho prévio de preparação dos alunos para este tipo de ensino, assim como de formação dos próprios encarregados de educação para o apoio a esta modalidade.

Embora muitos digam que este é o futuro da Educação, considero que mesmo no caso do Ensino Secundário a generalização do ensino à distância como ferramenta complementar terá de passar por um período de transição, marcado pela generalização dos meios digitais de trabalho nas salas de aula, o que está muito longe de estar garantido, por falta de meios técnicos suficientes. Não podemos confundir o eventual sucesso de projectos já em desenvolvimento com a possibilidade de os alargar, a breve prazo, a todo o sistema público de ensino.

No caso do Ensino Básico e dos primeiros anos de escolaridade, penso ser insubstituível o ensino presencial, pela dimensão humana e de empatia que a relação pedagógica deve envolver nos anos iniciais de formação dos alunos. Nesse caso, o ensino à distância servirá principalmente como um espaço virtual para a realização, entrega e avaliação de algumas tarefas.

.Uma coisa é a questão técnica, outra é a vertente pedagógica do ensino à distância. Quais as fragilidades e potencialidades deste regime de ensino

A seu favor, um modelo de ensino à distância bem estruturado tem a sua flexibilidade (em termos de tempo e métodos de trabalho) e capacidade de envolver um número elevado de alunos. Como acontece já com os MOOC em contexto de formação profissional, de aprendizagem ao longo da vida ou mesmo de cursos de especialização de nível superior. A flexibilidade de potenciais abordagens (síncronas e assíncronas) e a diversidade de temáticas e materiais que podem ficar disponíveis, por um tempo longo ou mesmo indeterminado, são pontos positivos claros. No caso de alunos mais velhos, a metodologia “self-paced”, em que os alunos são em parte responsáveis pela regulação do modo como desenvolvem as aprendizagens, é uma outra vantagem.

Os principais problemas, para além do já referido elemento humano que fica limitado pelo distanciamento que reduz muito a capacidade de professores e alunos desenvolverem uma relação mais individualizada, passam por questões como a falta de fiabilidade da avaliação desenvolvida, porque as possibilidades de fraude são evidentes, ou como o equívoco de considerar que o ensino à distância é uma mera réplica do ensino presencial em termos de gestão do tempo ou de abordagens pedagógicas. O ensino à distância não pode limitar-se a ser uma transmissão de vídeos com professores a explicar as matérias como se estivessem numa aula, porque assim a interacção como os alunos ainda é menor. E muito menos pode corresponder a uma sessão de “sessões síncronas” como se fossem aulas convencionais. Há que pensar de um modo diferente, mais exigente numa fase inicial de planificação do trabalho, de produção de materiais de apoio e de concepção de ferramentas fiáveis de avaliação.

Até ao momento, infelizmente, aquilo a que temos assistido em muitos casos é, por muito que se anuncie como um “novo paradigma”, a uma réplica à distância, com menor qualidade, do ensino de tipo mais tradicional. Uma aula presencial tem um potencial interactivo maior do que assistir a um vídeo ou mesmo a responder a um questionário online. E o mesmo se passa com a “diferenciação” pedagógica. Em termos pessoais, considero que em sala de aula, curiosamente, é mais rápida a possibilidade de adaptação do trabalho a fazer com os alunos que apresentam dificuldades, O feedback contextualizado, para além do certo/errado, é mais rápido no ensino presencial. Mesmo os fóruns de debate que surgem em cursos online só funcionam de modo eficaz quando têm vários responsáveis a responder às dúvidas e a aconselhar formas alternativas de abordar os problemas e ultrapassar as dificuldades verificadas.

.O que nos tem ensinado a experiência do ensino à distância até agora? Funciona ou não funciona? As escolas estão preparadas? Os alunos estão preparados? Os pais estão preparados? 

O ensino à distância no final do ano lectivo de 2019-20 acabou por ser reconhecido como um “remendo” ou um “remedeio”. Serviu para que a maioria dos alunos tivessem “qualquer coisa” que os mantivesse ligados às escolas e às aprendizagens. Mas percebeu-se depressa que o entusiasmo com os meios digitais implica muito mais do que ligar um computador e este à net para se ter um verdadeiro modelo alternativo de ensino. Na primeira vaga da pandemia, “funcionou” no sentido de que existiu, mas ficou muito longe de funcionar de forma satisfatória.

Os alunos do ensino não-superior, e como já referi os do Ensino Básico por maioria de razão, precisam de muito mais do que uma disciplina semestral (ou mesmo anual) de T.I.C. com uma carga horária muito reduzida, para conseguirem desenvolver uma consolidar uma lioteracia digital que ultrapasse a de utilizadores de recursos lúdicos ou de regras muito básicas de uso seguro de redes sociais. Necessita de uma abordagem transversal ao currículo. E que esse trabalho se desenvolva em articulação com as famílias dos alunos, caso contrário não conseguirá ter um verdadeiro sucesso.

.A comunidade escolar tem condições para que este ensino funcione? Fala-se de um aumento de desigualdades, de desequilíbrio de oportunidades. 

Neste momento, ainda não há condições para a generalização deste modelo. Não porque crie necessariamente novas desigualdades, mas porque acentua as que já existem e as tornam mais evidentes. Seja de tipo material, como a falta de acesso a equipamentos ou acesso em condições precárias, seja ao nível do capital cultural das famílias, porque muitos alunos não têm no seu contexto familiar quem esteja em condições de os apoiar.

Nas escolas, há também um evidente desequilíbrio de meios, com escolas muito bem equipadas (com apoio de autarquias ou através de parcerias com empresas do meio digital ou editorial) e outras sem terem sequer condições de segurança para terem salas equipadas com os equipamentos indispensáveis para que todos os alunos possam aceder a um modelo de ensino de base digital. Não chega ter 1 ou 2 salas equipadas, mas muito mais do que isso. Já hoje se verifica que entre colégios privados ditos “de topo” (com elevadas propinas e meios financeiros avultados) e a generalidade das escolas públicas existe uma clara diferença de oportunidades.

Há um investimento muito avultado a fazer, não apenas na aquisição de equipamentos, mas muito em particular na sua manutenção e actualização, pois rapidamente ficam obsoletos ou, no mínimo, pouco competitivos. É um investimento que não fica para uma década sequer, exigindo meios financeiros permanentes. Não é o mesmo que comprar mesas, cadeiras e armários.

“Sincronia” Quer Dizer “Ao Mesmo Tempo” Ou “Em Simultâneo”

E não é sinónimo de “vídeo-conferência”. Uma vídeo-conferência deve ser síncrona, mas uma sessão síncrona não implica que se esteja de câmara ligada. Uma sessão de chat também pode ser síncrona. Ou uma troca de mensagens no uótezape.

Eu vou tentar explicar mais em detalhe para quem não domina ainda aquilo do que é “síncrono” ou “assíncrono”, parecendo confundir isso com, como já escrevi acima, a câmara estar ligada ou desligada.

Se começarmos uma aula às 10 da manhã com os alunos todos ao mesmo tempo e os mandarmos fazer qualquer coisa às 10.30 com a câmara desligada (mesmo “saindo” da aula virtual), para depois apresentarem o que fizeram das 11.15 às 11.30, isso significa que se esteve numa sessão síncrona de 90 minutos e não numa síncrona de 45 e outra assíncrona de outros 45. Porque estiveram todos a fazer o mesmo ao mesmo tempo. O que é sincronia. Certo?

Porque estiveram todos a fazer o mesmo, ao mesmo tempo no início, no meio e no fim.

Uma sessão assíncrona acontece quando se termina a sessão síncrona e se deixa uma tarefa para ser feita, com maior ou menor prazo, mas nunca meia hora ou uma hora, pelos alunos, mais tarde.

Por exemplo: após uma aula síncrona de 30 ou 40 minutos, deixa-se uma tarefa para os alunos entregarem até ao final do dia ou da semana e eles podem fazê-la ao seu ritmo, durante mais ou menos tempo, não necessariamente em simultâneo.

Achei útil explicar isto porque há quem diga que o horário não é 100% síncrono porque durante uma parte das aulas os alunos podem fazer tarefas/exercícios de câmara desligada, voltando só perto do final para apresentarem o que fizeram ou “marcar a presença”.

(estariam a bater palmas em sincronia, mesmo se não tivesse sido feita gravação!)

Phosga-se! – Série “Isto Vai Dar Uma Ganda Confusão!”

A intenção de boa parte do que vou publicando não é necessariamente apontar o dedo a quem decide estes métodos de trabalho, mas sim deixar claro que este é um período muito mais complicado do que o presencial, que exige muito mais em termos de planeamento e que quem acha que os professores querem é ficar em casa está muito enganado e a mais de um nível. E deixar igualmente claro que parte disto poderia ter sido evitado se tivesse sido preparado a tempo, a nível central, não se esperando que sejam apenas as “escolas” a desenrascar-se ou as autarquias a chegarem-se à frente, porque há muitas que não se chegam.

O mail seguinte retrata a situação de um agrupamento também da zona norte onde é notória a carência de equipamentos dos alunos e as dificuldades familiares no actual contexto. São 100 alunos a terem de continuar na escola, em regime presencial/misto (mais de 6% do total do agrupamento), mesmo depois da distribuição dos kits aos mais carenciados. Destaco ainda o facto (raro) dos critérios de avaliação para esta situação terem sido aprovados em Conselho Pedagógico e Conselho Geral.

Tenho outros exemplos, alguns deles disponíveis online, mas este é um retrato claro da complicação que se vai desenrolar a partir de dia 8. Poderia ter sido diferente? Podia, mas agora dizem que não interessa nada.

Seguem algumas informações referentes ao Ensino à Distância.
Ensino à Distância: este regime de ensino tem de ser muito, muito bem organizado.

A – Três cenários de aprendizagem no agrupamento:  

1 – ensino não presencial – alunos e professores trabalham a partir de casa. 
A mancha de horário dos alunos é aquela que ficou definida em setembro passado, embora se tenha procedido a algumas alterações pontuais. Nesse mesmo horário está definido as aulas síncronas (mínimo de 30 minutos) e assíncronas.  Os horários são para cumprir de acordo com as horas marcadas (horários enviados).
No 2.º e 3.º ciclos não há desfasamento de horário.

A partir do dia 8 de fevereiro os Professores das Atividades de Enriquecimento Curricular, Professores das Expressões no Pré-Escolar e Animadores do Pré-Escolar irão efetuar teletrabalho através da Plataforma + Saber.
Desta forma, através do acesso facultado anteriormente aos alunos, estes poderão interagir com os seus Professores e Animadores, bem como ter acesso a atividades diversificadas e lúdicas, solicita-se divulgação desta informação junto dos alunos e encarregados de educação.  

Pré-escolar: a regra é que cada educadora estipule com os EE o que é melhor para a família e para o educador; é da responsabilidade do educador identificar as crianças que não têm contacto. Tem de ter um plano de atividades semanal. De referir que os alunos que não têm recursos informáticos, devem ser contactados telefonicamente, no mínimo 1 vez por semana, com entrega do plano a cumprir.
 1.º Ciclo: Dado que a escola vai receber, aproximadamente, 50 alunos para realizarem o ensino à distância na escola, estabeleceu-se um horário por ano de escolaridade. Por exemplo, na próxima segunda-feira aula de Português síncrona e depois um tempo assíncrono, permitindo que o aluno realize as tarefas propostas com o apoio de um professor supervisor. No 3.º e 4.º anos a mancha letiva altera-se um pouco pois tem que se ter em conta a disciplina de Inglês. Cumprimento do horário enviado. O Apoio Educativo é realizado pelos professores supervisores.
2.º e 3.º Ciclos: Os professores e alunos cumprem o horário estabelecido. No 2.º ciclo não há Apoio ao Estudo. Os Apoios Educativos 2.º e 3.º ciclos – podem ser realizados, o professor responsável decide, juntamente com o DT, a sua pertinência.

2 – Ensino não presencial para os alunos sem recursos
O Office 365 vai ser o ponto de recolha das atividades a realizar por estes alunos, sem recursos informáticos. As tarefas devem ser só páginas do manual e anexar uma ficha em PDF, a disponibilizar até à sexta-feira, da semana anterior. Os alunos e/ou os EE vão buscar na segunda-feira, seguinte, a planificação semanal e as respetivas tarefas, que voltam a entregar no final da semana, para que o professor dê, posteriormente, o seu feedback. Não é permitido o uso de links, nem PowerPoint para este tipo de aluno. 
A ficha de atividades encontra-se no OFFICE 365.

3 – Ensino presencial/Regime Misto alunos em risco identificados pelos PTT/CT – aproximadamente 100 alunos: 3 do Pré-escolar; 50 do 1.º Ciclo; 47 do 2.º e 3.º Ciclos. Dado elevado número de alunos a logística não é fácil para ter estes alunos na escola e dar-lhes condições de estudo adequadas. Professores supervisores – Foram selecionados os colegas que têm menos horas letivas e mais tempos letivos de apoio e coadjuvação; no 1.º Ciclo, foram escolhidos os professores de Apoio Educativo. Neste momento a escola tem 5 espaços diferentes, por ano de escolaridade. A mancha destes alunos é o horário da turma. No 1.º Ciclo, a opção vai ser a começar às 9H00 e terminar às 13h, havendo algumas aulas de tarde.  

B – Quanto aos critérios de avaliação: no que respeita ao Ensino à Distância, relembro o que foi aprovado em CP e CG:
Com menos de 2/3 das aulas em Regime Presencial – aplicam-se os Critérios de Avaliação e as Ponderações dos diferentes períodos, usados no Regime Presencial; ressalva-se a situação das disciplinas eminentemente práticas, onde o domínio psicomotor tem uma ponderação elevada. Neste caso, a ponderação atribuída a este domínio será distribuída pelos domínios cognitivo e sócio afetivo, em função das decisões de cada disciplina. No que se refere aos Instrumentos de Avaliação, alguns deles, especificamente, utilizados no Ensino Presencial, podem ser suprimidos por questões relacionadas com a sua inexequibilidade no Regime Não Presencial. Nesta avaliação, perante a situação de excecionalidade que vivemos, os alunos não serão prejudicados pelo facto de não disporem de ferramentas adequadas e suficientes para realizarem as aprendizagens pedidas, bem como de não poderem usufruir de apoios educativos. 

C – Quanto aos testes presenciais que ficaram definidos no Plano de Ensino à Distância, nesta situação de confinamento, não se realizarão.
Assim, os professores devem adaptar/acrescentar/reforçar os instrumentos de avaliação (chamadas orais; realização de trabalhos; participação e empenho nas aulas; questionários, entre outros) de forma a cumprir o que foi definido nos Critérios e Instrumentos de Avaliação para o E@D. Devem ler o texto de apoio enviado.

Ficha de avaliação no OFFICE 365:. Quanto à tabela de registo a preencher semanalmente por todos os docentes é uma situação particular da semana (mera indicação de como o processo está a decorrer com aquele aluno); as avaliações particulares são para cada professor, com a aplicação dos instrumentos e critérios de avaliação que se encontram em vigor e estão disponíveis no site do Agrupamento. A tabela com as informações semanais não podem ser partilhada com os EE (documento interno). 
Esta avaliação refere-se ao desempenho do aluno (assiduidade, empenho, participação, trabalhos/tarefas, outros critérios)

D – Sumários

TODAS AS HORAS LETIVAS E NÃO LETIVAS (horário entregue em outubro), DEVEM TER SUMÁRIO.

Os sumários devem retratar o trabalho realizado, independentemente de ser apoio, coadjuvação, clubes, coordenações, entre outras.

(As)Sincronias

Fiquei a saber pela Anabela que a DGE divulgou uma espécie de “manual” para a 2ª vaga do E@D, em que recicla propostas antigas e ocupa o resto das páginas com uma espécie de prós e contras do “trabalho síncrono e assíncrono, em contexto educativo, integrando sugestões metodológicas”. Fica mais abaixo para quem estiver com insónias.

Esperar Para Ver

O anúncio da possibilidade de adaptar o calendário de provas e exames até dia 12 de Fevereiro resulta da velha estratégia de tentar ver para onde sopra o vento na próxima semana. O vento epidemiológico, mas também a borrasca de um novo E@D que, para o Ensino Básico, terá poucas diferenças em relação ao do ano passado, sendo que algumas dessas (o nº de aulas síncronas) são no sentido de mais rapidamente fazer parte do sistema entrar em colapso. Se era possível fazer diferente? Só com a devida preparação, que não passa apenas por papelada e promessas. Mas quando se fala nisso, até o falinhas mansas fica de verniz estalado.

A maioria vai tentar fazer o seu melhor, mas nem o mais virtuoso e dedicado condutor consegue fazer uma carroça velha e com três rodas andar muito depressa e sem tombos.

2ª Feira – Dia 11

Não é fácil encontrar a solução “certa”, que agrade a todos ou mesmo a uma parte significativa de todos os envolvidos neste novo período de E@D. Não tenho nenhuma solução mágica que considere superior a todas as potenciais alternativas. Ao contrário de quem acha que a tem, apenas tento aprender com o que não correu bem, assim como prever o que parece óbvio ter tudo para não resultar, mo sentido de evitar bloqueios a curto prazo. A questão da desigualdade de acesso está mais do que falada, embora continuei por resolver. Assim como a da preparação da miudagem, em especial dos mais novos, em matéria de literacia digital para efeitos educacionais ficou muito aquém do desejável.

Mas, para além desses problemas, existe o da previsível saturação técnica e humana de uma solução que procure replicar de muito perto os tempos, ritmos e métodos do ensino presencial, só que por via remota. Mais do que 2 a 3 sessões (síncronas) de 30 minutos por dia parece-me algo impensável para os alunos do 1º e 2º ciclo, se essa for uma opção para mais de um par de semanas. Há uma enorme diferença entre aulas síncronas por via remota e aulas presenciais ou jogos online. A miudagem pode estar horas a fazer jogos, mas está longe de ser o mesmo. Será preciso explicar isso? Sim, podem estar horas agarrados aos telemóveis, mas mesmo que consideremos que isso também é “aprendizagem”, não é claramente o mesmo. Assim como uma hora decorre de uma maneira muito diferente se for presencial ou à distância.

Para além disso, acho que nem mesmo os maiores entusiastas e solucionistas do ensino remoto acreditarão que será possível manter o tráfego pela net que implica a realização de milhares de aulas síncronas em simultâneo. Ainda há dias me foi dito que algumas sessões de vídeo-conferência de uma instituição de bastante nomeada não conseguiam ser feitas de modo contínuo nos períodos de maior utilização das plataformas de streaming.

Há erros que podemos evitar, sendo talvez o maior o do preconceito de que “os professores não querem é trabalhar” ou que “os alunos vão sofrer perdas irreparáveis”, se não tiverem uma carga de aulas síncronas de não sei quantos por centro do seu horário presencial. A obsessão com a quantidade continua a sobrepor-se ao da qualidade do trabalho feito. Assim como a obsessão com uma variante da “igualdade” que é a completa antítese da tão apregoada “diferenciação pedagógica”.

A “solução” deve ser feita de “soluções”, conforme as idades e ciclos de escolaridade, conforme o perfil das turmas, conforme as disciplinas, conforme os meios disponíveis. Em vez de grelhas uniformes e rígidas para todos, seria muito importante que a tal ideia da “flexibilidade” fosse mesmo aplicada neste contexto, em que faz todo o sentido. Não é que seja desejável uma espécie de mosaico incoerente, mas parece-me razoável perceber que um 12º ano com 5 disciplinas e alunos com 17-18 anos não pode ser encarado da mesma forma como um 5º ano com 10 disciplinas e petizada de 10 anos. Ou que uma turma de 2º ano não pode ter a mesma “solução” que uma do 9º ano.

Infelizmente, o que vou começando a ver em matéria de horários e “sincronicidades” leva-me a pensar que muitos adultos são realmente de aprendizagem muito lenta.

Estou Cansado De Delírios

Estou cansado destes discursos “positivos”, desta tentativa de transmitir “confiança”, de revelar “esperança”, de suspirar por excelentes para quem mais amochar perante os interesses políticos governamentais.

Escolas garantem que estão a postos se for preciso continuar o ensino à distância

É mentira que as escolas estejam “preparadas” se isso quer dizer que estão em melhores condições do que em Março, porque não estão. Há a experiência do que se passou (e já se percebeu que foi um fiasco em termos globais, com estas ou aquelas excepções) e a chegada de um número insuficiente de kits tecnológicos para os alunos. Mais nada se fez,para além dos bastidores do Plano de Capacitação Digital dos Docentes.

Se passarmos de novo ao ensino não-presencial (o que seria da mais elementar prudência) quase tudo será igual ao que foi e só poderá funcionar se os professores usarem de novo os seus recursos, porque nada – NADA – chegou à generalidade das escolas para que a partir delas se faça algo de diferente. Aqui em casa conhecem-se três realidades distintas, mas que confluem no essencial: foram 10 meses em que a incompetência do ME foi por demais evidente, pois só sabem falar, falar, falar e debitar chavões ou parvoeiras (o caso dos “cornudos” do ministro Tiago é apenas o exemplo mais deplorável) sem que as medidas necessárias tenham surgido.

Há escolas onde @sdirector@s conseguiram alguns avanços? Há. Mas a generalidade dos Planos de Contingência vai muito além de explicar a diferença entre ensino presencial, misto ou não-presencial no caso de ser necessário alternar entre modelos? Muito poucos, esmo se são muito explicadinhos sobre condutas a adoptar e circuitos a seguir, no caso do ensino presencial.

Foram redefinidos critérios de avaliação pelos Conselhos Pedagógicos para a eventualidade de ter de alterar a forma de avaliação? Os Conselhos Gerais foram consultados em nome das comunidades educativas? Talvez, mas duvido que isso tenha acontecido na maioria dos casos. Basta consultar a documentação que está publicada nos sites das escolas e agrupamentos. Basta passar uns minutos pelo Google.

Claro que a norma tem excepções; não nego que há onde tudo esteja previsto. Mas garantir que as escolas estão preparadas para um novo E@D é risível. A menos que seja em forma de encenação como há 10 meses, apesar de toda a boa vontade que possamos ter. E que a mim cada vez mais escasseia, porque me pedem uma dedicação e competência de que quem tem responsabilidades de decisão superior não dá qualquer exemplo.

Tenho Pouco Contra Continuar Na Escola…

… a trabalhar de forma remota com os alunos, deslocando-me eu e ficando eles em casa. Nem me incomoda que me obriguem a cumprir horário presencial na escola, se é que é isso que dá tanta comichão aos sousastavares e outros como ele (ou quase tão fraquinhos de raciocínio).

Só que para isso é necessário que existam nas escolas computadores devidamente equipados para o efeito e que ao fim destes meses todos, seja possível acudir aos alunos e famílias sem meios para seguir o ensino à distância com um mínimo de qualidade. Não é com 2 ou 3 a partilharem o mesmo equipamento. E a verdade é que neste momento esse continua a ser o grande risco, porque dos 400 milhões de euros anunciados para a Escola Digital, nem um décimo terá chegado a quem de direito: em primeiro lugar, os alunos e depois, escolas e docentes. Em vez disso temos entretenimentos, em que o dinheiro se vai escoando nos meandros da “formação”, conforme os grupos a satisfazer. Agora é o da “Capacitação”. Que tal “capacitarem” as escolas para assegurarem o ensino remoto a partir das suas instalações e não do meu escritório ou sala?