Tiago, O Domesticador De Sindicalistas Façanhudos

Eu ainda me lembro das fotos – que depois se dizia de cortesia – com os dois muito amiguinhos e sorridentes. Assim como dos elogios mútuos. Foi um namoro pegado. Agora, parece que um dos elementos do par (não interessa o género que representa) ganhou voz grossa e diz que o outro investia pouco na relação portas adentro, preferindo exibir-se para efeitos mediáticos. Não sei se têm bem memória da coisa, mas há uns anos o Crato disse algo não muito diferente, apesar do tipo de relação parecer muito diferente.

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Quem Se Mete Com O PS…

… se não leva é “dissolvido”. A ameaça passa dos corpos sociais da Ordem dos Enfermeiros para o sindicato dos motoristas que mantém greves. Que ameaça terá sido feita a outros para meterem a viola no saco? Que os mandariam de volta para as escolas cumprir a missão que tanto dizem adorar?

E ainda há inteligentes que dizem que o exercício do direito à greve não está em risco.

Ministério Público pede dissolução do sindicato de matérias perigosas por causa de Pardal Henriques

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(porque isto das leis serem interpretadas literalmente ou não depende muito de quem tem os cordelinhos da forca na mão…)

Já Se Percebeu Que Tudo É O Que Não Parece

O sindicato dos motoristas de matérias perigosas marcou uma nova greve, desta vez ao trabalho suplementar, para Setembro. Isto sem que tenha ocorrido sequer qualquer negociação. O que faz pensar que a suspensão da última greve foi apenas táctica e destinada a não perder a face num contexto que começava a ser complicado do ponto de vista jurídico, político e económico (devido à forma como o governo estava a aplicar serviços máximos-mínimos, alegando que iria existir uma mediação que, afinal, nem chega a ser. Será que Costa encontrou, enfim, a sua verdadeira oposição ou um salvo-conduto para a maioria absoluta? Confesso que ainda não percebi.

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Dúvida Mesmo Parva

As pessoas de Direita não terão também direito à greve? E a ter sindicatos? Ou são obrigadas a pertencer a sindicatos ditos de “Esquerda” e a obedecer à sua lógica? A pergunta tem apenas um pouco a ver com a questão dos motoristas (é apenas a parte em que surgem aquelas tenebrosas e patuscas associações a um potencial financiamento “obscuro” da “direita internacional”) e muito mais com a liberdade que deve existir para todos exercerem direitos completos de cidadania. Se uma greve é de “direita” ou “esquerda” não é muito relevante, mas sim se os direitos dos cidadãos são respeitados de igual modo, independentemente da sua ideologia. Já é relevante que o pessoal muito de “esquerda pura” e que se reclama praticamente dono do código genético das liberdades se cale quando essas liberdades são atropeladas por um governo que apoiam, apenas porque os atropelados mesmas não são da sua cor.

E esta não é mesmo uma questão menor, porque ao longo dos últimos 15 anos, para não ir mais longe, a maioria das portas abertas aos abusos laborais por parte dos patrões (privados ou públicos) o foi pela mão do PS. Se depois outros aproveitaram isso? Talvez tivessem tido muito mais dificuldade se o ferrolho não tivesse sido retirado e a porta deixada ali entreaberta, mesmo à mão do primeiro empurrão. Nestes dois anos (2018-19) assistiu-se a um retrocesso evidente no respeito pelo direito à greve, fosse no sector público como no privado. Algo que vai ao encontro de reclamações antigas de alguma “Direita”, mas que está a ser uma pretensa “Esquerda” a colocar em prática. Até porque, no momento actual, o PSD e o CDS não podem com um hamster pelo rabo quanto mais com um gato de tamanho médio. O “papão” acenado é o de um PS “terceira via” que à maneira do Blair adoptou como suas muitas políticas conservadoras. Mas, nesse caso, tinha sido a Thatcher e o Major a abrirem a porta toda. Agora… é ao contrário.

Com isto, o PS consegue seduzir boa parte do eleitorado de um PSD à deriva e não perde grande coisa à esquerda visto que o PCP é o primeiro a perfilar-se contra “interesses obscuros” de cada greve mais incómoda (e a correr a assinar acordos) e o Bloco foi a banhos médio-burgueses como convém nos tempos que correm.

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(já agora… lembram-se dos “serviços mínimos” no caso da greve dos professores, aceites pelo próprio representante dos sindicatos, os quais vieram a ser tardiamente declarados ilegais pelos tribunais? pois… foi o treino para os “serviços máximos” que a partir de agora terão precedente em qualquer reacção a greves chatas…)

A Idade Não Pode Ser Atenuante Para O Camarada Jerónimo

É verdade que já no caso dos enfermeiros o PCP tinha demonstrado que qualquer greve que lhe escape é uma greve má. Com os professores e a ILC também entraram por esse caminho. Mas há argumentos e argumentos. A estratégia é a do costume. Tentar descredibilizar, insinuando motivações políticas “obscuras”. Há uns dias foi essa a forma de atacar os motoristas., como tinha sido feito com os enfermeiros (sem depois pedirem desculpa quando se demonstrou a falsidade das insinuações). Agora é porque a greve se dirige contra a “população” não o “patronato” e porque está a ser “instrumentalizada para a limitação do direito à greve”. De novo, ecoam as críticas à ILC para recuperação do tempo de serviço docente que também foi apresentada como sendo uma estratégia para prejudicar os professores.

Nada disto é novo, nem sequer a hipocrisia. Quando um punhado de pilotos da Soflusa faz greve, o camarada Jerónimo e o PCP não lamentam os prejuízos para a população, sendo que nesse caso são mesmo trabalhadores que ficam prejudicados quase em exclusivo e não um mix de turistas, veraneantes e “população em geral”.

A fidelidade canina a uma ortodoxia sindical que não suporta “independências” e o papel de cão-de-fila do governo são lamentáveis, não chegando depois declarações sobre os perigos da limitação ao direito à greve (que partem do PS e não de uma anémica direita nacional, sem saber onde cair defunta) para nos distrair do essencial: ou é a CGTP a controlar ou então é para abafar. Falta começarem a dar cobertura explícita aos ataques pessoais ao porta-voz dos motoristas, ficando caladinhos sobre o da Antram.

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Treinaram Com Os Professores E Enfermeiros…

… e na altura não me lembro do Manuel Carvalho ter-se preocupado. Será que agora é porque a greve é no sector privado?

Nunca como hoje o Governo, os partidos da esquerda, os partidos da direita, a imprensa e até o Presidente de República se colocaram de forma tão clara e deliberada do mesmo lado da barricada. Nunca um sindicato, uma luta laboral e uma classe profissional foram tão ostensivamente isolados e censurados como nesta greve.

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32 Requisições Civis (1976-2019)

O balanço foi feito pelo DN na altura da 30ª requisição civil que recaiu sobre os enfermeiros (o Observador apenas retoma essa cronologia) . Acrescento as duas sobre os motoristas de matérias perigosas às contas.

Resumo por ano e primeiro-ministro:

  • 1976 – 1 (Mário Soares)
  • 1977 – 5 (Mário Soares)
  • 1978 – 1 (Mário Soares)
  • 1979 – 1 (Mota Pinto)
  • 1980 – 2 (Sá Carneiro)
  • 1981 – 1 (Pinto Balsemão)
  • 1982 – 1 (Pinto Balsemão)
  • 1983 – 1 (Pinto Balsemão)
  • 1986 – 1 (Cavaco Silva)
  • 1988 – 2 (Cavaco Silva)
  • 1989 – 1 (Cavaco Silva)
  • 1990 – 3 (Cavaco Silva)
  • 1992 – 1 (Cavaco Silva)
  • 1997 – 1 (António Guterres)
  • 1998 – 1 (António Guterres)
  • 2000 – 1 (António Guterres)
  • 2004 – 2 (Durão Barroso/Santana Lopes)
  • 2005 – 2 (José Sócrates)
  • 2014 – 1 (Passos Coelho)
  • 2019 – 3 (António Costa) 

Anos com mais requisições: 1976 (5), 1990 (3) e 2019 (3).

Por décadas:

  • 1976-1979: 8.
  • 1980-1989: 9
  • 1990-1999: 6
  • 2000-2009: 5
  • 2010-2019: 4

Primeiros ministros com mais requisições civis:

  • Cavaco Silva com 8 (em 10 anos),
  • Mário Soares com 7 (em 2 anos no seu primeiro mandato, nenhuma no segundo, no governo do Bloco Central)
  • António Costa com 3 (em 4 anos).

Partidos a liderar governos com mais requisições civis:

  • PSD com 16 em 22 anos;
  • PS com 15 em 21 anos;
  • Uma em governo de iniciativa presidencial.

Períodos mais longos sem requisições civis: 1993-1996, 2001-2003, 2006-2013, 2015-2018.

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