E Se Deixássemos De Ter Secretários De Estado?

E se as escolas deixassem de ter diretor de turma?

Até poderia ser uma boa ideia se fosse para baixar o número de alunos acompanhados de forma directa por um professor. Mas, infelizmente, é apenas um estratagema pretensamente “pedagógico” para justificar a redução de horas atribuídas às direcções de turma. O interessante neste secretário de Estado é que quer fazer-nos acreditar que as suas sugestões são purezas teóricas e não medidas destinadas a operacionalizar opções economicistas.

(basta lembrar o modelo de tutorias à dezena)

Ainda há quem seja enganada com aquela forma melosa de apresentar as coisas, como se fossem as melhores das intenções, mas ao fim de quatro anos só acredita quem acha que pode vir a ganhar alguma coisa com isso. O truque de dizer que a culpa é apenas das Finanças já começa a ter barbas de Pai Natal, mas daquele que nos fica com as prendas.

Já se deixassem de existir secretários de Estado da Educação, poupava-se imenso no gabinete e em viagens, não se perdendo nada em qualquer outro aspecto da nossa vida educativa.

pie-in-face

A Tertúlia Dos Génios Financeiros Do Burgo

A meio da manhã caí de cabeça numa espécie de “debate” na TSF com os cinco presidentes dos maiores (?) bancos a “operar” (deve ser no sentido da ablação de órgãos) em Portugal, tudo a abrir com o genial presidente do Banco de Portugal e a fechar com o secretário de Estado que é primo do (ainda?) Special One. Até deu para Paulo Macedo contar a história (que é mais um poema) de Mário Henrique Leiria, o que motivou entusiasmo na plateia e jornalistas presentes, como se fosse a primeira vez que ouvissem falar n’A Nêspera.

E vamos assim.

Monty

(continuo a achar maravilhosas as iniciativas, cheias de parcerias, apoios e sinergias, em que surgem a falar pessoas de grande currículo em qualquer coisa sobre o futuro do país, com moderação e promoção de órgãos de comunicação social que precisam muito de publicidade e coisas desse tipo)

Este Homem Quer Ficar Na História

(não sei bem se como o coveiro da escola pública e o grande impulsionador das alternativas privadas…)

Tiago Brandão Rodrigues: Não haverá “eliminação administrativa” de chumbos, mas mais trabalho com alunos

Mais trabalho com os alunos?

Porquê? Os professores trabalham pouco, é isso? Não se esforçam? O ministro Tiago pensa assim? Não terá sido por causa de tantas reuniões com quem não dá aulas?

E já agora, como? Seduzindo-os? Forçando-os a ir às aulas ou a outras actividades? O ministro Tiago oferece-se para demonstrar como se faz, mas sem escolher escola e turma? Pode trazer o SE Costa com ele?

E, já agora, assumir o fim das provas finais de 9º ano.

Claro que já apareceu o do costume a reclamar a paternidade da criança.

METiago

O Problema De Toda A Gente Querer Escrever Sobre Educação É Que Uma Larga Maioria Ignora Profundamente O Que Se Passa Nas Escolas E Depois Sai Parolice Da Boa Como Se Fosse Coisa Sofisticada E Muito Pensada

A Patrícia Reis (que eu conheci ainda sem idade para votar, mas muito evoluiu entretanto) descobriu a pólvora seca da promoção da leitura. Benzádeus que ninguém, até hoje, se lembrou de fazer tal coisa.

Então, o desafio que me colocaram foi este: o que farias tu para promover a leitura? E eu, porventura ingénua, aqui deixo uma possibilidade de política pública de promoção da leitura que, na verdade, é de uma simplicidade imensa. E de se trata? Trata-se de implementar clubes de leitura em todas as escolas de primeiro ciclo.

Eu acho que deveria ser já convidada para vogal do PNL, de um grupo de missão para estudar o assunto e dar formação aos professores do 1º ciclo para que aprendam a formar clubes de leitura, essa coisa estranha de que nunca se lembraram em anos e décadas de carreira.

banging-head-against-wall

(a sério que a conheci em idos dos anos 80 e ainda me lembro dos discos de vinil que lhe emprestadei… pois nunca mais os vi)

Assimetrias (Ou A Miopia Dos Especialistas Em Gestão Dos Recursos Humanos)

O país envelhece e acentuam-se velhíssimas assimetrias. Perante a falta crescente de alunos no interior temos a atracção macrocéfala da capital do velho Império e arredores. Resultado: ao contrário de outras profissões (como médicos e enfermeiros), em que a dificuldade é consegui-los no interior, no caso dos professores o diabo está em consegui-los em Lisboa e ao redor, onde os que se deslocam de outras regiões e precisam de casa ou quarto enfrentam a bolha especulativa do arrendamento nestas zonas. Claro que tudo isto escapou aos brilhantes estrategas da política de gestão dos recursos humanos em Educação, mais preocupados em poupar para ter com que tapar os verdadeiros buracos. Quem fica mesmo a perder? Alunos sem aulas em várias disciplinas meses a fio, a lembrar os idos de 70 e inícios de 80. Mas, claro, desde que se flexibilize e semestralize nem se nota nada.

E todos somos centeno há 15 anos.

CM2Out19

Correio da Manhã, 2 de Outubro de 2019