O Regresso dos Tesourinhos Deprimentes

É bem verdade que estas coisas nunca desapareceram, que em todas as escolas é preciso enroupar documentos com palavreado para fazer o boi dormir, mas este documento com data de 17 de julho é um manancial imenso. As partes destacadas já me chegaram assim por quem me enviou. E estas nem são as melhores.

Só espero que isto não se generalize como incêndio em eucaliptal. Mas as esperanças são poucas porque anda a verdascar forte e tem a legitimação da católica lá de cima.

E lá voltam(os) aos PCT…

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E o que dizer das práticas pedagógicas “inovadoras” de que se espanejaram as teias de aranha?

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E agora a parte melhor, a da avaliação do “projecto” que até mete a OCDE e tudo, porque isto é em grande e o schleicher virá cá confirmar (ou o santiago, caso ele não possa).

Espanta-me a falta da variação “auto”.

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Navegar à Vista dos Apoios Conseguidos

O alegado “debate” em relação à “profunda” reforma curricular que se diz ir acontecer para o ano ou outro, continua a ziguezaguear de acordo com a necessidade do ME, leia-se SE João Costa, encontrar apoios para as suas ideias no périplo que anda a fazer pelo país. Ao que parece, aquilo que vai dizendo aqui e ali é tudo hipotético, como já escrevi uma espécie de atirar barro à parede, a ver o que cola, quem apoia o quê e evitar o que pode levantar mais ondas e reduzir a base de suporte para o regresso ao futuro.

Por acaso (!), acho que o assunto é demasiado sério e importante para ser tratado desta forma, em reuniões onde se dizem coisas que depois se desdizem para o público dos jornais, em confidências que se destinam a medir a profundidade da água e e em exercícios de pesca à linha de apoios para as medidas que se diz servirem para “emagrecer o currículo”. As minhas fontes (sempre infidedignas, como sabeis) contam-me como, de forma rápida, hábil e convincente, são traçados cenários em tais reuniões e sessões acerca de tudo e mais alguma coisa, desde a possibilidade de se reduzirem horas nesta ou aquela disciplina à forma como podem passar a ser dadas aulas em determinadas condições (o caso da semestralização das disciplinas enteadas).

Os relatos que tenho recebido são coincidentes na estratégia apresentada, nas possibilidades em aberto e, se eu sei parte do que foi dito/confidenciado/explicado e sou um zeco de subúrbio, claro que jornalistas com bastante experiência e fontes melhores do que as minhas também terão sabido do que se falou por aí. Se isso foi feito para surgirem notícias destinadas a avaliar o sentido e força dos ventos e em seguida se desdizer o dito, afirmando-se que nunca tal coisa foi ponderada quando há celeuma no ar, só posso considerar que é uma táctica lamentável pela sua falta de imaginação (o regresso ao passado não é apenas nas ideias pedagógicas) na forma de produzir spin em torno de um tema que exigiria maior seriedade e menos irritação quando há ruído diferente do desejado.

O Ministério da Educação (ME) garantiu nesta quinta-feira, em resposta a questões do PÚBLICO, que não haverá nenhuma redução da carga horárias das disciplinas de Português e Matemática. “Não está, nem esteve, a ser equacionada qualquer redução da carga horária das disciplinas de Português e Matemática, nem tal alguma vez foi afirmado pelo ME”.

Até agora, discordava de várias das ideias que pareciam transparecer das declarações “oficiais” do ME/SE acerca deste assunto. Agora, ao avolumarem-se sinais de desorientação e de corrida para a frente, lados, cima e baixo, procurando recrutar apoios nas associações amigas, deixei de ter a mínima confiança neste processo de “diálogo” que volta aos tempos guterristas de prometer queijos limianos em troca de tropas, trocando a mobilização dos professores a quem se continua a negar qualquer compensação por uma década de cortes e de degradação das suas condições materiais de trabalho pela sedução de “âncoras” destinadas a ampliar a mensagem e/ou combaterem as resistências.

“Nunca foi posta em cima de mesa a redução da carga horária”, disse também ao PÚBLICO a presidente da Associação de Professores de Matemática (APM), Lurdes Figueiral. A APM é uma das associações de professores que tem estado a trabalhar com o Ministério da Educação na definição do que serão as aprendizagens consideradas essenciais, uma das peças do programa de mudança que está a ser preparado pelo ME.

(…)

Da parte dos professores, este trabalho deverá estar concluído até ao princípio das férias da Páscoa, a 5 de Abril, indicou Lurdes Figueiral, que refere ainda que um dos objectivos do que tem vindo a ser analisado é o de se caminhar para um currículo “onde as aprendizagens não estejam apenas espartilhadas pelas disciplinas”, desenvolvendo “abordagens transversais”. “Há aprendizagens que podem ser feitas sem ser na carga horária das disciplinas”, especificou.

O que eu acho espantoso é que se fale em trabalho concluído “da parte dos professores”, quando se trata apenas de alguns, fidelíssimos, excluindo-se toda a gente que discorda. Apesar da estima que tenho pela Lurdes Figueiral, com quem me cruzei num par de ocasiões, há declarações que não fazem qualquer sentido quando se diz uma coisa, o seu contrário e ainda uma versão twilight zone.

(nunca se falou em cortes, mas as aprendizagens podem fazer-se sem carga horária, os programas devem restringir-se ao essencial, mas não é para serem cortados… ontem era para haver semestres, hoje já não há, há abordagens transversais; e nem vale a pena cruzar isto com a prosa dos poucos progenitores do “perfil” que aparecem publicamente a defendê-lo – e cito de forma quase literal – na base do não encham a cabeça das crianças de conteúdos ou não empolem discursos sobre o conhecimento, num dia – David Rodrigues – e no outro que o saber não ocupa lugarGuilherme de Oliveira Martins)

O secretário anda meio perdido no labirinto, porventura confundido com o brilho que acredita emanar da sua Razão e dos aplausos dos cortesãos do momento. Infelizmente, tenho poucas dúvidas que algo vai sair disto, mesmo que seja assim a modos que um…

frankenstein

Sociologia do Agressor

É aquela para quem quem leva pancada é culpado de vitimização e o agressor uma vítima da sociedade. Em que as regras atrapalham a vida dos que as não seguem. Percebe-se, depois, que os operacionais desta sociologia da treta se sintam confortáveis com certas práticas políticas (e não só) que só são criminalizáveis se existirem leis, sendo que isso é arbitrário. Esticando um pouco a lógica de tubérculo, só há doenças porque os médicos as diagnosticam, a polícia é um aparelho repressor de pessoas que só são ladrões ou homicidas porque regras humanas assim o definem. Nas escolas, os alunos que são maltratados pelos outros apenas têm uma percepção exagerada dos seus direitos à integridade e os professores que tentam promover um ambiente de segurança para as aprendizagens não passam de cripto-fascistas autoritários e anacrónicos. Os heróis são os “rebeldes” que fazem lembrar ao sociólogo da treta aquilo que ele se calhar quis ser e não conseguiu porque algum@ professor@ o traumatizou em piquinino, para usarmos aqui um cliché, quiçá válido, da psicologia da treta.

Quando o ps chega ao governo, esta sociologia da treta renasce com os respectivos observatórios associados, aqueles que conseguem sempre demonstrar que a violência e indisciplina nas escolas não existe, a menos que sejam outros os partidos no governo. Num outro mundo, ligeiramente mais lúcido, quem observasse estas coisas, daria nula credibilidade a esta malta que sobrevive na base do ajuste razoavelmente directo para a produção de estudos com as conclusões escritas à cabeça. Isto sou eu a lançar suspeições? Nem tanto, apenas observo a repetição do padrão nas conclusões e anos de produção. No nosso mundo, eis que voltam a colocar a cabecinha de fora. Ainda veremos as novas NO a ser avaliadas pelo monge capuchinho.

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Operador@s de Call Center

O presidente do Instituto Superior Técnico escreve hoje no Público que “de acordo com uma estimativa muito divulgada, 2/3 dos alunos que agora iniciam a sua formação escolar irão trabalhar em profissões que ainda não existem”. Seguem-se algumas generalidades sobre a necessidade de formação ao longo da vida, “o advento da quarta revolução industrial”, a crescente penetração das tecnologias de informação e comunicação em tudo e mais umas passagens  capazes de deprimir qualquer pessoa com alergia a clichés – o título é apropriadamente “uma revolução na Educação”, algo parecido ao que já li tantas vezes que perdi a conta excepto ao caso em que o Vital Moreira designou assim as políticas da MLR –  e desagua na publicidade a novos cursos do IST.

Em outros dias menos cinzentos, nem perderia tempo a copiar aquelas citações acima e apenas pensaria se não era mais adequado o texto ter sido publicado como publicidade institucional. MAs hoje está de chuva e decidi começar por lamentar que o presidente de uma das mais respeitadas instituições universitárias portuguesas baseie a sua argumentação numa “estimativa muito divulgada”, como se a sua identificação roubasse espaço a informação relevante sobre os cursos que quer divulgar.

Em seguida, temos a tal questão da “revolução” necessária por causa da aceleração das necessidades do mercado laboral, como se isso nunca tivesse acontecido antes. As primeiras telefonistas ou telegrafistas fizeram a sua formação escolar quando nem existiam telefones ou telégrafos; o mesmo com as profissões ligadas à rádio, televisão ou informática, ao longo do século XX. Nos últimos 200-250 anos, a adaptação às novas exigências do mercado de trabalho foi uma permanência e a própria revolução industrial original levou a que 100% dos operários que trabalharam nas novas unidades fabris tivessem crescido (quase sempre sem formação escolar) num mundo que os não preparou para a nova realidade. Muitos foram expulsos das suas aldeias e campos de forma dramática (para quem não é das letras, leiam-se O mundo que nós perdemos de Peter Laslett na sua versão revista ou, na área da ficção, Colheita de Jim Crace) e o mundo avançou.

O que está em causa não é a novidade das profissões que surgem com regularidade, mas sim se essas profissões significam um emprego com melhores condições. Muita gente que fez a sua formação académica em finais dos anos 80 ou nos anos 90, acabou a ter de trabalhar em alguns momentos em call centers ou a vender time sharing, algo para que não existiam cursos de pré ou pós-graduação à data.

A mobilidade profissional não é um bem em si e nem sempre a “revolução” é coisa boa, mesmo sendo a “quarta revolução industrial” (consultar aqui a introdução à teorização do conceito por Klaus Schwab). Se Engenharia Empresarial para a Transformação Digital é uma área em crescimento entre nós? Se calhar, é. O IST deveria divulgar isso sem ser como “opinião” do seu presidente. A menos que os cursos sejam oferecidos e não cobrados a bom cobrar.

lampadinha21

O Preço do Sucesso

Há escolas a empurrar alunos problemáticos para outras? Mas é novidade para quem? Só se for para alguém que é especialista em Educação há décadas, que teve responsabilidades governativas e que diz acompanhar múltiplos projectos em escolas. Custa-me escrever isto sobre Joaquim Azevedo, alguém que desconheço pessoalmente mas por quem tenho alguma admiração intelectual, mas que só em 2016 parece ter descoberto que a água molha.

É nestas alturas que se percebem as imensas limitações de quem se especializa em gabinete e teoria adaptada a realidades muito circunscritas.

O que faltou – ainda – descobrir a Joaquim Azevedo para ter uma ideia aproximada da realidade escolar do nosso país? Que nas escolas privadas de sucesso estes alunos nunca tiveram lugar. Nas escolas públicas ainda há aquelas que aceitam toda a gente, mesmo sabendo todos os problemas acrescidos.

lampadinha21

Cansado de Tretas

Daquelas que há 20 anos pretendem impor um futuro à medida das convicções de um grupo específico de especialistas que, quando necessário, atropelam os factos, alho que já não me admira e, confesso, já desperta em mim uma indignação cada vez mais moderada.

Já não quero sequer saber se o 1º ciclo passa a ter seis, nove, doze ou quinze anos (incluindo o pré-escolar). É uma velha luta de um grupo de conselheiros inoxidáveis do CNE que há – no mínimo – duas décadas querem que o 2º ciclo desapareça, através da extensão do 1º ciclo. A última tentativa em força foi do período Sócrates com estudo de 2009. A argumentação da altura é a mesma de agora, mais ou menos detalhe. Pronto, está bem, levem a bicicleta. Só que, por favor, não retorçam as coisas.

O maior insucesso que temos no Ensino Básico ao longo dos últimos anos foi consistentemente no 7º ano (só foi superado pelo 9º ano em 2013), e resulta, em muito, daquilo a que vou chamar, para não ferir mais susceptibilidades, um desajustamento de perspectivas entre os vários ciclos de escolaridade, algo que será agravado com a medida agora proposta. Os dados são claros, estão no raio de um relatório do CNE do ano passado e acho um tristeza que isso seja tratado desta forma com – não estou para hesitações – desonestidade intelectual evidente.

RetencaoPortugalAfirmar que, no actual momento, “a transição do 1.º ciclo para o 5.º ano de escolaridade, de um para onze professores, é um salto muito grande, com mudanças bruscas” é objectivamente falso, porque os alunos já têm mais de um professor no 1º ciclo, mesmo se só um é o “titular da turma” e no 2º ciclo a regra será de 7 professores, podendo ser apenas 6 (1 para Port/HGP, 1 para inglês ou Port/Ing, 1 para Mat/CN, 1 para EV/ET, 1 para EMusical e 1 para EFísica). Falar em 11 professores para o 2º ciclo é um disparate enorme. Assim como não parece bem que quem sabe disso assim como da ausência de “choque” dos alunos no 5º ano ao nível do insucesso (que é pouco superior ao do 2º ano), oculte que o “pico” de insucesso no 7º ano poderá vir a ser agravado, e não minimizado com a opção por seis anos de 1º ciclo, quase certamente a apostar nas transversalidades (porque esta corrente de pensamento critica muito, com ou sem razão não é o que interessa mais aqui, a “disciplinarização” do 1º ciclo.

Claro que se vierem a ser praticamente proibidas (e não meramente desaconselhadas) as retenções no 7º ano, como agora acontece no 1º ano, poderão sempre dizer que a diminuição do insucesso se ficou a dever à extensão do 1º ciclo para 6 anos.

Já estou por tudo, já espero tudo, não acredito em praticamente nada destas tretas que se acabam por ir impondo por moerem o juízo ao pessoal tempos infindos até conseguirem que o que acham ser “soluções de futuro” não passem de soluções que deveriam ter ficado perdidas no passado, por estarem ultrapassadas. Claro que me apresentarão exemplos brilhantes de outros países, que terão explicação para as suas evidências não serem as dos dados existentes e não faltarão outras considerações sobre a minha atitude e estreiteza de vistas, mas… wtf.

E Quando Ele(s) Mandar(em) Em Tudo?

Agora imaginem que Rui Moreira passa a mandar em toda a escolaridade obrigatória na zona do porto. Imaginemos que, por tacticismos diversos, esta é uma opção partilhada do outro lado do Douro, onde temos Albino Almeida a comandar a Assembleia Municipal de Gaia com a não disfarçada satisfação de muita gente outrora lutadora contra a municipalização, mas agora reconvertida à situação.

O problema nem é Rui Moreira estar errado em algumas partes do que afirma (a sério, há coisas que são bem verdade), o problema é que a solução dessas situações não deve ser retirada às escolas e, muito em particular, a uma forma partilhada de as resolver, em vez de colocar tudo nas mãos dos piratas das pernas de pau. O problema é que a autonomia das escolas públicas nunca foi grande coisa e vai passar ainda a significar menos, com os directores (que já de si são polarizadores quase exclusivos do poder nas escolas) a terem de ir fazer vénia aos Paços do Concelho para terem os projectos aprovados e a dependerem imenso de poderes externos para dar alguma identidade às suas escolas. Porque apesar dos estudos dizerem que os nossos alunos até têm boas relações com os professores e serem dos que se sentem mais felizes nas escolas a nível europeu, há sempre os que buscam novos paradigmas, aqueles em que só as suas ideias têm direito a expressar-se. E quando as ideias a expressar tiverem de depender de uma cadeia hierárquica ainda mais limitada do que a actual, a liberdade que tantos afirmam defender estará definitivamente morta e o conceito de autonomia só poderá ser usado à laia de paródia.

A péssima imagem que os políticos se têm esforçado por passar das escolas públicas, procurando que ela se multiplique na opinião pública, é um atentado ao tal interesse público que alguns afirmam defender. A tenacidade, arrogância e sobranceria com que esta gente se tem dedicado a amesquinhar o trabalho alheio e todas as realizações das escolas públicas de acesso universal e não apenas para as “classes médias” que querem os filhos longe da ralé, a forma como – por exemplo – Maria de Lurdes Rodrigues tentou criar oásis de primeiro mundo com a Parque Escolar enquanto deixava o resto das escolas num limbo de abandono ou como Nuno Crato acabou o mandato a fazer fretes à santa aliança das PPP da Educação (dando a uma e outra obra contratos que alguns pretendem perpétuos), demonstram bem até que ponto a aproximação (eufemismo para municipalização) ou territorialização das políticas educativas vai por um caminho demasiado perigoso, por muito estimáveis que posam vir a ser as excepções. Porque, no fundo, o que estará sempre em causa será o carcanhol, o pilim, aquilo com que se compram as consciências.

A regra será a destes iluminados como Rui Moreira, que até fez 7 anos numa escola pública (com sorte até teve um pretinho barnabé numa turma, não foi, para se afirmar multicultural e tolerante?) e que por isso acha que sabe tudo sobre os males da Educação em Portugal. Vista-se de amarelo, apanhe a Ryanair e olhe que ainda chega a tempo à 24 de Julho.

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