Domingo

Ontem, a novel tracking poll da novel CNN Portugal apresentou pela primeira vez o PSD à frente do PS. Tenho sérias reservas acerca da metodologia destas sondagens, mas isso já virá a seguir. Antes, conviria dizer que a descida acentuada do PS durante esta semana corresponde ao rescaldo das primeiras intervenções de António Costa em que ele falou em “maioria absoluta”, no que foi um erro crasso por parte dos seus spin doctors. Achando que maioria absoluta rimava politicamente com estabilidade, revelaram uma imensa falta de memória, ou então apostaram na falta de memória dos portugueses, a qual existe, mas de forma intermitente. Por outro lado, houve outros momentos em que António Costa falho por completo em termos comunicacionais, como quando tentou esquartejar ao vivo um debilitado Jerónimo de Sousa, mostrando a sua faceta de rufia a todos (mesmo eu que não vi o debate ao vivo, fui confirmar depois o que se tinha passado e, independentemente de simpatias políticas, o que aconteceu foi lamentável) ou quando quis acabar o debate com Rio exibindo para as câmaras o calhamaço com o Orçamento de Estado chumbado pela oposição (fazendo lembrar a insistência de Sócrates em culpar tudo com o chumbo do PEC IV). O resultado foi uma profusão de montagens em que o OE22 se transformou nas 100 melhores receitas de bacalhau ou na inesquecível revista Gina.

De qualquer modo, por muito que me digam que a metodologia das sondagens e em particular destas diárias é algo fiável, mantenho as minhas reservas. Li material suficiente sobre o assunto (por razões de trabalho que nunca passaram por participar ou montar empresas de sondagens com meia dúzia de estagiários e linhas telefónicas), para perceber como justificam as margens de erro e a representatividade da a ostra usada. O problema é que discordo por razões que penso serem de ainda mais simples compreensão.

Vejamos a ficha técnica da tracking poll referida. Uso um excerto extenso para que não se diga que tirei seja o que for de contexto.

Durante 4 dias (18 a 21 de janeiro de 2022) foram recolhidas diariamente pela Pitagórica para a TVI e CNN Portugal uma sub-amostra de 152 entrevistas representativa do universo eleitoral português (não probabilístico) tendo por base os critérios de género, idade e região. O resultado do apuramento dos 4 últimos dias de trabalho de campo, implica uma amostra de 608 indivíduos que para um grau de confiança de 95,5% corresponde a uma margem de erro máxima de ±4,06. A seleção dos entrevistados foi realizada através de geração aleatória de números de “telemóvel” mantendo a proporção dos 3 principais operadores identificados pelo relatório da ANACOM, sempre que necessário são selecionados aleatoriamente números fixos para apoiar o cumprimento do plano amostral. As entrevistas são recolhidas através der entrevista telefónica (CATI – Computer Assisted Telephone Interviewing).

A minha maior reserva prende-se naturalmente com a dimensão da amostra e a sua relação com a forma como representará a população, nomeadamente tendo em conta que os deputados são escolhidos por círculos eleitorais. Apenas 4 distritos representam 125 deputados (Lisboa, Porto, Braga e Setúbal). Por sua vez, 6 distritos elegem apenas 17 deputados no seu conjunto (todo o interior raiano de Bragança a Beja). Isto para não falar, em termos de assimetrias nos círculos da emigração que elegem 4 deputados e que duvido que tenham sido “sondados”.

Com uma amostra com 608 indivíduos, para 230 deputados, isso significa que cada deputado corresponderá a 2,64 entrevistas. O que significa que distritos com 3 deputados corresponderão a 8 entrevistas, mais ou menos, distritos com 4 deputados a 10,5 entrevistas e distritos com 5-6 deputados por 13 ou 16 entrevistas. O que significa que as entrevistas diárias com 152 indivíduos corresponderão a um quarto destes valores. O que equivale a dizer que de Bragança a Beja, diariamente, serão feitas apenas 1 a 2 entrevistas para determinar o sentido de voto desses círculos eleitorais. Mesmo em círculos eleitorais de maior dimensão (8 a 10 deputados, o que inclui Leiria, Coimbra, Santarém, Faro ou Viseu) por dia serão inquiridos 3 ou 4 indivíduos. Basta a mudança do sentido de voto declarado por um deles para alterar por completo o panorama desse distrito.

Ahhhh, dir-me-ão os “técnicos”, mas a sondagem agrega isso tudo e dá o resultado global da percentagem e não o cálculo dos deputados em concreto. Ssim, mas assim sendo ainda mais inútil se torna, porque podemos ter partidos empatados “tecnicamente” (o que se passa com o Bloco, o Chega, a IL e a CDU, por exemplo, ou o PAN, o CDS e o Livre) que, devido à concentração de votos em alguns círculos eleitorais, poderão ter um número de deputados muito diferente. 6% de votos concentrados em especial nos 4 círculos mais representativos podem corresponder a 7-8 deputados e 6% de votos dispersos pelo país podem representar apenas 1 ou 2 eleitos. 2% em Lisboa e no Porto e 0,5% no resto do país podem dar um par de deputados ou mais, enquanto 2% espalhados pelo país podem até nem dar nenhum.

Sim, as sondagens e as tracking polls são interessantes mas são muito mais falíveis do que afirmam ser, porque ou são vulneráveis a distorções com amostras tão magras ou acabam por não nos dar o retrato do país em termos de potenciais deputados eleitos. Em boa verdade, são mais indicadores de tendência do que previsores rigorosos dos resultados finais, até porque o erro de antes se usar os telefones fixos para as entrevistas agora é replicado por se usar quase exclusivamente telemóveis. Assim como há uma tendência para “esconder o voto” por parte de quem, mesmo por via remota, tem uma certa vergonha em revelar em quem vai votar. O fenómeno não é desconhecido em outras paragens, tendo o “voto escondido” sido uma das explicações para o falhanço das sondagens na disputa entre Trump e Hillary Clinton e chegou a ser um receio na disputa com Biden. Por cá, há ex-votantes no PCP que dificilmente admitirão ter passado para o Chega, mesmo se a geografia dos resultados o demonstra, no que seria uma variante nacional do chamado Bradley effect. Este tipo de distorção (embora possa existir a inversa, como o recente orgulho em se ser “liberal” em Lisboa, Porto e entre as elites de Odemira 😉 ) tem sido visível historicamente com o CDS que tem quase sempre resultados acima do previsto na generalidade das sondagens. Outra possibilidade é ainda a o dos respondentes serem sensíveis a outro efeito já estudado (e longe de ser novo) para vários contextos (incluindo os das sondagens) como Social Desirability Bias.

Que o PS e António Costa estão em queda neste momento, não duvido. Que estes indicadores sejam muito fiáveis em termos de resultados finais? Duvido.

5ª Feira – Dia 18

De acordo com uma sondagem conhecida ontem, mais de 80% dos inquiridos concorda com o fecho das escolas e que elas assim se mantenham nas próximas semanas. Este resultado entra em claro conflito com a atitude de grande parte da opinião publicada e mediatizada. Porque se lermos ou ouvirmos muito do que surge nos jornais ou nos canais televisivos de notícias, ficamos convictos que a maioria dos portugueses está contra o encerramento das escolas e as quer abertas o mais depressa possível.

O Povo Tem Os Seus Momentos

Raramente coincidindo com certas “bolhas” de notáveis, que gostam de se apresentar como falando em nome do “bem comum”, até porque a vida não é a mesma. Só falta aparecerem, como o outro tipo que teve de se demitir da vacinaçáo, a dizer que quem assim pensa é tudo malta que vota no Chega.

Esmagadora maioria dos portugueses quer manter escolas fechadas

Sim, A “Reabertura” Correu “Bem”

E muita coisa foi bem feita, mas muita outra nem tanto, o que dá duas “muitas” numa só frase que assim fica duplamente indefinida. Claro que depois da “reabertura” tem havido o “funcionamento” e sobre isso muito haveria a dizer, desde logo acerca dos riscos que uns correm mais do que outros e dos silêncios que funcionam como a almofada contra a “insegurança”, porque a “confiança” é muito importante.

Claro que faltam professores, os prometidos meios informáticos não chegaram e as salas de aula são uma espécie de “zonas francas” em relação às regras da DGS, mas o que interessa verdadeiramente isso, a não ser a gente sem uma visão “ampla” de tudo isto?

Sondagem: Só 17% acha que a reabertura das escolas correu mal

A partir dos mesmos dados, o Expresso parece-me ainda mais “positivo”:

Sondagem: 42% dos portugueses considera que reabertura das escolas “decorreu de forma positiva”

Contrariando Claramente Certa Opinião Publicada Por Encomenda…

… parece que os encarregados de educação portugueses estão satisfeitos com a escola que têm em tempo normal e em especial com os professores. Mas também com a avaliação e os métodos de trabalho O estudo é da DECO e foi publicado na última Proteste. Claro que, ao contrário de outros, o mais certo é ser pouco citado naquela imprensa que considera os sousatavares a 5ª essência da opinião informada. Também é giro que no site oficial da Confap não se ache nada sobre este estudo, mesmo se são organizações parceiras em várias iniciativas. As conclusões vão contra a “narrativa” do Poder? Porque estes resultados são consistentes com todos os restantes inquéritos conhecidos, sempre que são feitos por entidades exteriores a certos ambientes ou que não têm certos “especialistas” a dirigi-los.

Dia 43 – Uma Pequena Sondagem Pessoal

Prefiro isto a fazer grelhas de tudo e quase nada.

No âmbito da disciplina de Português (6.º ano) e Cidadania e Desenvolvimento (8.º ano) fiz um pequeno inquérito (cinco questões) aos meus alunos sobre a situação do ensino à distância, da telescola televisiva e do eventual regresso às aulas presenciais (que não se coloca para o Ensino Básico, mas que achei interessante inquirir).

Embora ainda só tenha recebido a resposta de metade dos inquiridos, os resultados já apresentam alguns padrões reconhecíveis. Em primeiro lugar, as respostas do 6.º ano (alunos de 11-12 anos) e do 8.º ano (alunos de 14-16 anos) são bastante distintas, com os mais velhos a apresentarem-se muito mais críticos e cépticos em relação a quase todos os parâmetros.

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Dia 17 – A Maioria Dos Alunos Já Quer Voltar

(entretanto já foi publicado no Educare)

De acordo com os resultados de um questionário colocado online pelo Observatório das Políticas de Educação e Formação divulgado ontem à noite, perto de dois terços dos alunos que responderam revelam que já querem regressar à escola. Nas notícias que li ou ouvi, este valor, como outros sobre a satisfação dos encarregados de educação com as medidas já praticadas ou a mudança de hábitos de estudo ou no quotidiano, são “preliminares” e baseiam-se em cerca de 1200 respostas. Vou ultrapassar as reservas metodológicas que me levantam o inquérito, que entretanto preenchi, constatando que não existe qualquer forma de verificar a veracidade da situação dos respondentes (poderia ter declarado que era aluno e respondido na mesma, sem qualquer tipo de controlo). Vou crer que todas as pessoas responderam de forma séria e que os dados não se encontram de forma alguma afectados por essa opção pela facilidade da recolha dos dados em detrimento da sua fiabilidade.

A corresponder ao sentir da maioria dos alunos, isto demonstra que, afinal, a escola é um local que eles apreciam e do qual ao fim de duas ou três semanas já sentem saudades. O que contraria a ideia preconceituosa de alguma opinião publicada e mesmo de “estudos” acerca da insatisfação dos alunos com o seu quotidiano escolar. Eu sei que há quem separe o gosto pelo espaço de socialização e o desgosto com as aulas. Mas eu acho que essas fronteiras são mais artificiais e operatórias para alguma sociologia simplista da educação do que a realidade. As alunas e alunos, na sua maioria, gostam da escola e mesmo das aulas, embora com naturais assimetrias. E basta uma minoria mais vocal para conseguir perturbar o quotidiano de colegas e professores (no actual ambiente de complacência com esses comportamentos) e para justificar conclusões apressadas acerca das atitudes da maioria dos alunos em relação à Educação. Ainda há esperança, apesar de tudo que tem sido feito para em nome do “sucesso para todos”.

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