Treinaram Com Os Professores E Enfermeiros…

… e na altura não me lembro do Manuel Carvalho ter-se preocupado. Será que agora é porque a greve é no sector privado?

Nunca como hoje o Governo, os partidos da esquerda, os partidos da direita, a imprensa e até o Presidente de República se colocaram de forma tão clara e deliberada do mesmo lado da barricada. Nunca um sindicato, uma luta laboral e uma classe profissional foram tão ostensivamente isolados e censurados como nesta greve.

brainstorm

4ª Feira

Apesar de pouco atento às novidades do dia, noto que por entre o noticiário sobre a possível transferência do Bruno Fernandes e da eventual necessidade de guarda-redes para o Benfica se hiperbolizam os efeitos da anunciada greve dos motoristas de “materiais perigosos”. Numa concertação entre poder político, organizações sindicais tradicionais e comunicação social ávida de publicidade institucional e favores de Estado se desenvolve uma campanha que me parece bem concertada e eficaz de acções e omissões que visa a pulverização, pelo exemplo, de qualquer esperança de sucesso de um esboço de movimento sindical independente, diferente do praticado pelos pizza boys (and girls). Depois do massacre sem contemplações do sindicalismo menos conformista pequeno burguês dos enfermeiros e da agitação recorrente da classe docente, segue-se o novo sindicalismo de matriz mais proletária. Apesar do ar mais polido do seu representante negocial (que demonizam por ter carros de alta cilindrada e processos em decurso, como se isso não acontecesse a muito amigo político), os motoristas são uma classe “trabalhadora” à moda antiga, ainda classificável como o proletariado que os camaradas arménio e jerónimo se orgulham de representar quando sob a sua alçada. Mas que decidiu agir por si mesma, nem sempre com o melhor discernimento, mas com uma coragem que urge ao poder político controlar, para que não venha a espalhar-se o vírus incómodo e imprevisível do “sindicalismo independente”, de proximidade. Isso incomoda demasiada gente. Daqui até dia 12, o massacre político-mediático será constante. Adivinho apenas 2 ou 3 figuras públicas a desalinhar do coro de interesses instalados. E nisso alinharão mesmo os revolucionários de pergaminhos (bastou ler um incrível texto de Elísio Estanque há uns dias no Público para perceber como o vento sopra forte de um só lado).

Todos os outros (incluindo um presidente sistémico em busca de segundo mandato) farão tudo para levar a opinião pública a desejar os motoristas ser levados em via sacra e crucificação final. Em nome da “responsabilidade”.

marioneta-de-madera

Olhó Programa Do PS Fresquinho!

(a sério, estava quase a escrever um comentário sardónico acerca de alguém que não o Arlindo a quem subiu à cabeça qualquer coisa…)

No que respeita às carreiras da administração pública, salienta-se no texto que as progressões “custam todos os anos 200 milhões de euros e, deste valor, quase dois terços é gasto em carreiras especiais em que o tempo conta no processo de progressão”.

“Uma realidade que cobre cerca de um terço dos trabalhadores do Estado. Este desequilíbrio deve ser revisitado. O aumento desta despesa não pode continuar a limitar a política salarial na próxima década e a impedir uma política de incentivos na administração pública que premeie a excelência e o cumprimento de objetivos pré-definidos”, adverte-se no programa eleitoral do PS.

No programa eleitoral do PS aponta-se ainda que, em conjugação com as carreiras e a gestão, “importa também continuar a desenvolver uma análise organizacional sistemática da administração central do Estado”.

Já perceberam quem é que vai ter de pagar e, em contrapartida, quem deve ser recompensado pela “política de incentivos”?

O programa eleitoral do PS está aqui.

O que se pode ler (p. 19):

Avaliar a criação de medidas e reforço e valorização das funções de direção das escolas, incluindo as chefias intermédias;

Caramba , há coincidências (sublinho, coincidências) do caraças...

E o que acham disto (p. 18)? Que não é apenas a sujeição das estruturas de gestão das escolas aos poderes autárquicos locais?

Avaliar o modelo de administração e gestão das escolas e adequá-lo ao novo quadro que resultou do processo de descentralização e aos progressos feitos em matéria de autonomia e flexibilização curricular;

 

Algodao

A Sério?

À aproximação do fim do mandato, o homem vai-se tornando cada vez mais pândego. No Escolarizar pode ler-se que:

Foi no âmbito das jornadas pedagógicas que se decorreram nos dias 3 e 4 no Agrupamento de Escolas de Benfica que o secretário de estado proferiu a seguinte afirmação: “O 54 [Diploma que regulamenta a Inclusão] não exige em lado nenhum a obrigatoriedade de papeis e grelhas… as escolas deviam acabar com este exagero burocrático, que desvia o foco do trabalho que tem de ser desenvolvido”.

Ora bem… eu li o 54/2018 e gostava mesmo de saber como se concretizam documentos como o programa educativo individual ou o relatório técnico-pedagógico de um aluno. Sim, pode não ser, em sentido estrito, em papel… mas são documentos que devem ser feitos e para os encarregados de educação o assinarem, implicará então que procedam a assinaturas digitais.

Para início de conversa (artiho 2º)  gostaria de saber como se registam as “acomodações curriculares”, as “adaptações curriculares não significativas” e as “adaptações curriculares significativas”. Ou como se concretizam os seguintes documentos e respectiva avaliação:

i) «Plano individual de transição», o plano concebido, três anos antes da idade limite da escolaridade obrigatória, para cada jovem que frequenta a escolaridade com adaptações significativas, desenhado de acordo com os interesses, competências e expectativas do aluno e da sua família, com vista a facilitar a transição para a vida pós-escolar e que complementa o programa educativo individual;

j) «Plano de saúde individual», o plano concebido pela equipa de saúde escolar, no âmbito do Programa Nacional de Saúde Escolar, para cada criança ou jovem com NSE, que integra os resultados da avaliação das condições de saúde na funcionalidade e identifica as medidas de saúde a implementar, visando melhorar o processo de aprendizagem;

k) «Programa educativo individual», o programa concebido para cada aluno resultante de uma planificação centrada na sua pessoa, em que se identificam as medidas de suporte à aprendizagem que promovem o acesso e a participação em contextos inclusivos.

De novo… a lei não diz que deve ser em papel e ter grelhas, mas… o que demora é preencher a coisa, mesmo que seja online… e depois se é em forma de grelha ou de renda de bilros, não sei, mas quer-me parecer que os maníacos da “monitorização” gostam muito de formulários com quadradinhos para cruzes e setinhas.

Depois há o artigo 5º do supracitado 🙂 diploma onde se pode ler:

3 – As linhas de atuação para a inclusão devem integrar um contínuo de medidas universais, seletivas e adicionais que respondam à diversidade das necessidades de todos e de cada um dos alunos.

4 – As escolas devem, ainda, definir indicadores destinados a avaliar a eficácia das medidas referidas no número anterior.

Como é que se avalia o progresso da eficácia dos “indicadores”? Pois… deve ser só de boca…

Passemos ao artigo 10º… o das !medidas adicionais”:

2 – A mobilização das medidas adicionais depende da demonstração da insuficiência das medidas universais e seletivas previstas nos níveis de intervenção a que se referem os artigos 8.º e 9.º

3 – A fundamentação da insuficiência, referida no número anterior, deve ser baseada em evidências e constar do relatório técnico-pedagógico.

Garanto-vos que por “evidências” não se entende nada virtual.

Artigo 20º… o da identificação das “necessidades”:

2 – A identificação é apresentada ao diretor da escola, com a explicitação das razões que levam à necessidade de medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão, acompanhada da documentação considerada relevante.

3 – A documentação a que se refere o número anterior pode integrar um parecer médico, nos casos de problemas de saúde física ou mental, enquadrado nas necessidades de saúde especiais (NSE).

A “documentação considerada relevante” será o quê? Bolinhas de sabão coloridas?

Artigo 21º, o do RTP, que transcrevo de forma extensiva, para que quem faz o digest de textos para o SE Costa lhe possa dar a conhecer a “lei”:

Artigo 21.º

Relatório técnico-pedagógico

1 – O relatório técnico-pedagógico é o documento que fundamenta a mobilização de medidas seletivas e ou adicionais de suporte à aprendizagem e à inclusão.

2 – O relatório técnico-pedagógico contém:

a) A identificação dos fatores que facilitam e que dificultam o progresso e o desenvolvimento das aprendizagens do aluno, nomeadamente fatores da escola, do contexto e individuais do aluno;

b) As medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão a mobilizar;

c) O modo de operacionalização de cada medida, incluindo objetivos, metas e indicadores de resultados;

d) Os responsáveis pela implementação das medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão;

e) Os procedimentos de avaliação da eficácia de cada medida e, quando existente, do programa educativo individual;

f) A articulação com os recursos específicos de apoio à inclusão definidos no artigo 11.º

Sim, as escolas começaram a contornar alguns procedimentos, mas acreditem que os RTP têm muitas vezes resmas de anexos… em papel.

O RTP pode conter um programa educativo individual (artigo 24º);

3 – O programa educativo individual deve conter os seguintes elementos:

a) O total de horas letivas do aluno, de acordo com o respetivo nível de educação ou de ensino;

b) Os produtos de apoio, sempre que sejam adequados e necessários para o acesso e participação no currículo;

c) Estratégias para a transição entre ciclos e níveis de educação e ensino, quando aplicável.

E ainda há o plano individual de transição (artigo 25º) que “deve ser datado e assinado por todos os profissionais que participam na sua elaboração, pelos pais ou encarregados de educação e, sempre que possível, pelo próprio aluno”. Deve ser assinado nas nuvens, como é óbvio.

E que dizer do artigo 33º, sobre o acompanhamento, monitorização e avaliação disto tudo?

2 – As escolas devem incluir nos seus relatórios de autoavaliação as conclusões da monitorização da implementação das medidas curriculares, dos recursos e estruturas de suporte à educação inclusiva.

3 – Sem prejuízo das competências gerais previstas na lei e no respeito pela autonomia de cada escola, cabe à Inspeção-Geral da Educação e Ciência acompanhar e avaliar especificamente as práticas inclusivas de cada escola, designadamente a monitorização e verificação da regularidade na constituição de turmas e na adequação do número de alunos às necessidades reais, bem como no modo como a escola se organiza e gere o currículo, com vista a fomentar a eficácia das medidas de suporte à aprendizagem, garantindo uma educação inclusiva para todos.

Acreditam mesmo que nada disto “obriga” a preencher “papéis” e/ou grelhas?

Pois… pode ser que não “obrigue”… e que por papéis se entendam meios digitais (a burocracia permanece, só muda o suporte) e que em vez de “grelhas” lhes chamemos “tabelas”, “ferramentas de registo”, “quadros de progressão” ou outra treta equivalente.

E, “tecnicamente”, o SE Costa não “mentiu”. Apenas deu uma versão semioticamente alternativa da realidade.

Mas parece que é um dom, esta forma de, sorrindo, tentar cativar as plateias com a estratégia de sacudir as responsabilidades e, no fundo, dizer que os outros é que são burros e não perceberam nada do que leram.

JCosta1

A Verdade É Que A Flexibilidade Foi Muito Maior Na Avaliação Do Que No Currículo

E se fizerem as contas depressa, depressinha, perceberão que este ano o milagre rosa das passagens ainda é maior.

Chumbos no ensino básico e secundário continuam a diminuir

Taxas de retenção nunca foram tão baixas, indicam as estatísticas relativas a 2017/18 agora divulgadas.

Será que conseguem ter um powerpoint a tempo da campanha eleitoral com os dados deste ano milagroso? Para demonstrar que, por exemplo, até os anos sem flexibilidade  curricular foram positivamente atingidos pela mudança de paradigma?

Claro que se pode colocar a questão… se a evolução tem sido tão boa, bastando governantes preclaros, firmes e hirtos, para que faz falta a municipalização?

Beaker-Bunsen

Não Me Choca Nada, Mas Não Me Parece Inovador, Antes Cobrindo Com Verniz E Purpurinas O Que Já Se Conhece

Vamos lá ler o que passa por ser uma grande novidade:

“O modelo, a implementar no próximo ano letivo, passa por não dar notas aos testes e outros instrumentos de avaliação dos alunos, tal como são conhecidas, mas por várias menções descritivas do seu desempenho em vários itens e em cada momento de avaliação, seja escrita ou oral, indicando onde pode melhorar o seu desempenho”, disse o presidente daquele Agrupamento de Escolas, que abarca cerca 200 professores e 1.900 alunos do pré-escolar ao 12º ano de escolaridade.

Ora bem… isto não é muito diferente de avaliar por domínios e subdomínios com uma escala qualitativa em vez de quantitativa.

Mas apresenta-se como sendo algo diferente.

Segundo Jorge Costa, este novo modelo representa uma “avaliação ao serviço da aprendizagem” e é o “tomar a dianteira” relativamente a “novos critérios de avaliação e outra forma de avaliar, ensinar e aprender”, num projeto idealizado e concebido no âmbito da autonomia de gestão pedagógica do Agrupamento de Escolas de Abrantes, no distrito de Santarém.

“É uma alteração significativa no modelo de avaliação”, notou, tendo referido que “o que se vai começar a avaliar são descritores, ou seja, as competências que um aluno consegue ter em cada domínio, em cada disciplina”, num modelo que privilegia o “caráter contínuo e sistemático” da avaliação.

Qual o problema? É que, em especial no Secundário, é necessário converter essa avaliação com base em descritores num valor de 0 a 20 e então como se fazem as coisas? Sim, o aluno não “carrega” com “uma nota negativa” mas, afinal, vai dar mais ao menos ao mesmo no final do processo/período/ano. E o “carácter contínuo e sistemático” da avaliação não depende do tipo de avaliação (descritores qualitativos sem classificação final/avaliação quantitativa por domínio com nota final), mas sim do diálogo estabelecido com os alunos.

Nesse sentido, acrescentou, “o aluno deixa de carregar com uma nota negativa e é avaliado por vários descritores ficando a saber onde pode melhorar o seu desempenho em cada domínio, através de uma classificação parcelar e não através de uma nota global“.

Para Jorge Costa, a mais valia do novo modelo “passa por colocar a avaliação ao serviço da aprendizagem e de conseguir arranjar uma estratégia” para a sua consecução, sendo apenas atribuídas notas de 0 a 20 no final de cada um dos três períodos letivos, para que, através da avaliação formativa, se chegue à avaliação sumativa, atribuída no 3º período letivo.

Pessoalmente, acho que este modelo é mais interessante para o Básico do que para o Secundário porque, podem achar que não, mas os alunos ficarão mais perdidos, enquanto não perceberem como se dará a conversão dos “descritores” em “valores”.

Compreendo a necessidade de apresentar como um enorme avanço o que é apenas uma demão de pintura na fachada, mas isso só engana quem não percebe que, no fundo, os procedimentos “novos” vão dar ao mesmo.

Ideia