Sábado

Não é nada de excepcional e acho mesmo que é uma espécie de metodologia padrão para grande parte dos docentes. Avaliar a progressão das aprendizagens dos alunos, comunicar o que não correu bem, desenvolver estratégias de remediação, recuperação ou remediação (como lhes queiram chamar) e verificar de novo como estão as coisas. Só que em tempos de recauchutagem do velho, como verniz para parecer novo, fazer isto passa por ser enorme inovação, desde que se lhe coloque a palavra “Projecto” e se acrescente mais qualquer termo identificativo que sirva para servir de pretexto para “formação”. Há casos em que até vejo antigos colegas meus, que sabem fazer isto há décadas, ser nomeados como “embaixadores” de tamanha novidade.

A Ternura Dos Quarenta

Deem-me um texto sobre a reabertura das escolas e eu dir-vos-ei a década de vida em que está @ autor@ e, como consequência, a do nascimento, com uma margem de erro de 1 ou 2 anos. Conraria, Cristo, Oliveira, Peralta, Raposo, Tavares and friends, quase todos estarão ali entre 1969 e 1980. Com bónus, se for um texto muito preocupado com os pobrezinhos e os desfavorecidos, escrito em sala das avenidas novas, da quinta da família ou em solar apalaçado.

Há excepções, claro, mas servem para confirmar a regra.

Estou a ser insuportavelmente preconceituoso em termos sociais? Sim, porque decidi entrar nesta versão de lutas de classes 2.0, só que não pretendo ser o porta-voz daqueles a que não pertenço e de quem mantenho as devidas distâncias, para evitar qualquer contágio, apenas os usando como recurso demagógico.

“Surpreendente” Para Quem?

Há muitos meses que se avisava para a tal “impreparação”. Isso foi denunciado de forma repetida, mas alguma comunicação social decidiu alinhar na conversa saída de certos gabinetes de comunicação de que eram apenas “más línguas”, pessoas mal informadas e que “só sabem dizer mal”. Não, por acaso as críticas vinham de quem está no terreno e não embarca em cantigas de embalar, de quem se preocupa mesmo com os alunos e não apenas com alguma opinião publicada, por vezes com a chancela de “notícia”.

Só que a culpa não é só, nem em primeiro lugar, do inepto ministro Tiago, que é mantido no lugar porque dá um imenso jeito ao par de Costas que na verdade governam a Educação, o de cima, o António, o das promessas balofas, que perpetua a animosidade de um certo PS em relação aos professores mais críticos de governações demagógicas, e o do lado, o João, que não é de baixo, porque é ele que decide muito do que interessa, resguardando-se habilmente das saraivadas, rodeado pela sua corte pessoal de candidat@s a comendas e futuros lugares de destaque no CNE (ou afins).

O Risco Da Incompetência É Muito Superior (Até Porque São Os Outros Que Sofrem Com Isso)

Isto é ministro para dias “gordos”, com muitas viagens e “eventos”. Massa humana de minguado calibre para tempos complicados, quando a prioridade é apenas parecer bem ao PM. Já o secretário, mais matreiro e com outros “andaimes”, anda encoberto. Porque sabe que um dia se escreverá História e não apenas estórinhas de embalar mentecaptos.

“Custo do encerramento das escolas é bem superior ao risco”, argumenta ministro da Educação

No meio disto tudo, ainda temos as maiorea federações sindicais à deriva, a tentar acertar o passo com quem mexe os cordelinhos, também a não quererem desagradar e a representarem-se a si mesmas. Entre umas “mesas de negociações” e o risco dos professores que dizem “envelhecidos” e com milhares “, não hesitam.

Claro que a decisão vai ser “política”, porque “científica” não será.

Quando se fecham as escolas, há todo um conjunto de actividades que também é reduzido na comunidade, como as deslocações, incluindo os transportes, e as entradas e saídas na escola, com uma tendência para que se sejam feitas em grupos, quer se queira, quer não. E depois finalmente há ainda a atitude da maioria dos países da Europa que, quando optam por confinamentos, têm optado por algum fecho de escolas.

António Diniz, pneumologista

Entretanto, arranjam sempre um “mas”. Claro que é possível… apenas demora mais e tem mais custos em vidas, mas deve ser “o preço de ser humano”.

Fechar as escolas reduz transmissão de forma mais acentuada, mas é possível fazer descer o R com aulas presenciais

Sábado

Nos dias de Natal, o ME decidiu fazer chegar a algumas redacções, a notícia de que decidiu testar 30.000 alunos do 3º, 6º e 9º anos “para perceber de que forma a suspensão das aulas, durante o ano lectivo passado, afectou as suas aprendizagens”, tendo o cuidado de tranquilizar o país que “não se trata de um exame nem de uma prova de aferição, mas de um estudo”.

À primeira vista parece uma decisão sensata. Assim para quem olha de fora e para produtores de opinião apressada e “preocupados” com o que se passou no 3º período de 2019-20, apostando eu em especial nos que têm estado muito activos na defesa da continuidade das aulas presenciais a qualquer custo, manipulando ou ocultando esta ou aquela informação e intimidando de diversas formas quem, nas escolas, ousa desalinhar, com a complacência de quem afirma “representar os professores”, mas os desencoraja, no concreto, de qualquer acção mais firme.

Mas voltemos ao “estudo” entregue ao IAVE e que será implementado nas primeiras três semanas de Janeiro, com resultados a ser conhecidos em Março (será que vão pedir aos professores do #EstudoEmCasa para os classificar ou vão requisitar pessoal que está a dar aulas, a meio do período, assim quase sem pré-aviso?), não sabemos bem se para desenvolver estratégias de remediação a partir de Abril.

Claro que o estudo teria de ser feito por amostra e, preferencialmente, nos anos em que não se fazem provas de aferição (o que deixa o pessoal do 9º ano que as fizer na situação de fazer uma duplicação de provas no mesmo ano, mesmo que uma seja só de estudo e não tenha implicações em nada… com as de aferição, já agora). Mas essa amostra será representativa da realidade do país? Que critérios serão usados para seleccionar os alunos (a nível de escolas e turmas)? Terão em conta os diferentes contextos em que se desenvolveu o E@D? Porque a mera distribuição geográfica e por tipo de estabelecimento está longe de permitir um retrato credível do que se passou.

O teste vai ser aplicado em 154 agrupamentos públicos (que totalizam 1247 estabelecimentos de ensino) do continente, e outras 79 escolas nos Açores e Madeira, bem como 102 colégios. A escolha da amostra teve em conta três aspectos, de modo a manter a representatividade da população escolar: o número de alunos por região (NUT II), os que frequentam escolas públicas e privadas e ainda os estudantes com Acção Social Escolar.

Mais importante, em termos de coerência interna das políticas do ME: afinal, havendo “autonomia” na definição de uma parte do currículo e na “flexibilidade” da leccionação dos conteúdos, qual será o “padrão” usado para determinar o que se perdeu ou não, já os mesmos conteúdo0s poderiam estar planificados para alturas (ou mesmo anos) diferentes conforme as escolas e os “projectos educativos”? Qual o referencial que vai ser usado? O das “aprendizagens essenciais”? Mas não é verdade que “As Aprendizagens Essenciais estão ancoradas numa cultura de escola de autonomia e de trabalho em equipa educativa dos docentes, nomeadamente ao nível do conselho de docentes e de turma, em que as disciplinas cruzam o que deve ser ensinado e que ações estratégicas devem ser concretizadas para que os alunos aprendam melhor e de forma mais significativa”

Se vão ser usados como referenciais as “aprendizagens” para o 2º, 5º e 8º anos (porque é óbvio que não podem ser as definidas para o 3º, 6º e 9º), no que diferirão estas provas das de aferição que este ano estão calendarizadas para esses anos de escolaridade? Não poderia ser o desempenho em tais provas servir de base para este “estudo”?

Este “estudo” terá o seu valor, mas o momento em que surge (quase a meio do ano e não em Outubro, por exemplo, quando se estariam a recuperar as “aprendizagens não consolidadas”, e não venham dizer que estavam mesmo marcadas inicialmente para os dias que acabaram por ser de “pontes” anti-pandémicas, como se quer dar a entender) e a metodologia da escolha da amostra levantam muitas reservas sobre a sua utilidade, apenas parecendo que se quer transmitir a sensação de que algo se está a fazer. Um bocado como os 400 milhões para a Transição Digital, de que nem 10% terá sido gasto nos 100.000 kits tecnológicos que só começaram a chegar às escolas a poucos dias do fim do 1º período.

Em outras circunstâncias diria que tudo isto resultaria de “desorientação”. Conhecendo os truques já de sobra desta malta, lamento dizer que acho que isto, por muito bom que esteja o relatório “técnico”, não servirá para muito mais do que “manipulação” ao nível da comunicação política.