Sábado

Termina Outubro sem que nada do tal plano de transição digital tenha chegado às escolas comuns. Não estranharia se tivesse chegado a outras, tipo “best friends forever” do secretário ou do ministro. Ou enviados especiais da microsoft ou similares. Dizem que é em Novembro sem falta, só que se é verdade que nas primeiras semanas de Dezembro de prepara por aí qualquer coisa (embora saiba que as escolas serão sempre as últimas a confinar), o tempo encurta para que tudo seja preparado devidamente, em especial para os que já o ano passado tiveram mais problemas.

Confesso que a aplicação à Educação da lógica das Obras Públicas (anuncia-se a ideia da obra, anuncia-se que a obra será mesmo feita, anuncia-se o concurso para a obra se fazer, anuncia-se quem ganhou o concurso, anuncia-se que as coisas estão atrasadas porque houve recurso, anuncia-se novo concurso, anuncia-se o projecto e os estudos de impacto ambiental, anuncia-se… etc, etc, etc) é particularmente deprimente.

(e depois até se descobre que acabou tudo em ajuste directo…)

Sim, A “Reabertura” Correu “Bem”

E muita coisa foi bem feita, mas muita outra nem tanto, o que dá duas “muitas” numa só frase que assim fica duplamente indefinida. Claro que depois da “reabertura” tem havido o “funcionamento” e sobre isso muito haveria a dizer, desde logo acerca dos riscos que uns correm mais do que outros e dos silêncios que funcionam como a almofada contra a “insegurança”, porque a “confiança” é muito importante.

Claro que faltam professores, os prometidos meios informáticos não chegaram e as salas de aula são uma espécie de “zonas francas” em relação às regras da DGS, mas o que interessa verdadeiramente isso, a não ser a gente sem uma visão “ampla” de tudo isto?

Sondagem: Só 17% acha que a reabertura das escolas correu mal

A partir dos mesmos dados, o Expresso parece-me ainda mais “positivo”:

Sondagem: 42% dos portugueses considera que reabertura das escolas “decorreu de forma positiva”

Ó Shôtôra, Mas De Maneira Que Não Lhe Mandem Nenhuma Netinha Para Casa!

Porque eu ainda me lembro bem da forma como tem abordado este assunto ao longo dos meses e só gostava mesmo de saber se a “lei da rolha” que está a vigorar em muitos lados é por sugestão oficial ou se é atitude voluntária por parte de algumas direcções.

Um mês depois [do início das aulas], a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, admitiu esta quarta-feira que as normas adotadas para os estabelecimentos de ensino precisam de ser revistas, adiantando que aconteceu uma reunião entre a DGS e parceiros escolares para analisar a situação.

(Sábado, 14 de outubro)

A Desconfiança

Já escrevi várias vezes sobre a importância da credibilidade e da necessidade de confiança em quem governa ou em que surge publicamente a prestar “informações” ou a fazer “recomendações”. Seja na questão pandémica, seja nas suas ramificações, por exemplo, nas escolas.

A confiança perde-se quando as cabeças falantes dizem agora uma coisa e depois outra, sem explicarem claramente o porquê ou admitirem que antes erraram ou divulgaram conselhos que já então sabiam não ser os mais ajustados. Ou quando nos estão a tentar convencer que aquilo que estamos a ver não é o que estamos a ver. Ou que só sabemos o que nos rodeia e eles é que sabem tudo. Os últimos meses foram de comunicação política eficaz no curto prazo, mas algo desastrosa numa perspectiva menos míope.

Não é de espantar que os indicadores de confiança na resposta à pandemia estejam em acelerada erosão. Da senhora da DGS ao PR, passando por todo um leque de personagens mais ou menos secundárias, já tudo foi dito e o seu contrário também, mais umas posições intermédias. Se em alguns casos isso resultou do avanço dos nossos conhecimentos, em muitos outros dá para perceber que foram apenas umas mangueiradas para tentar apagar fogos que, percebia-se, mais tarde ou mais cedo reacenderia.

Lamentável é que muita gente ainda reaja a estas coisas com base na cor da camisola, como a sondagem revela. Porque há mesmo quem tenha abdicado de pensar por si mesmo, preferindo ser encaminhado pelos pastores do rebanho a que aderiram há muito, como se fosse traição imensa o que apenas revela alguma inteligência, ou seja, perceber que sobre a pandemia tem predominado a “comunicação política”. Muita dela desastrada, incoerente e, principalmente, desajustada, por pensar apenas no prazo curto. A verdade é que se está a perceber que a abordagem casuística não chega. Que apelar nuns dias à precaução, enquanto nos outros se trata como se fosse cobardia quem se quer precaver ou se tomam medidas que dificultam qualquer precaução mínima, é meio caminho andado para se perder a credibilidade e, mais grave, deixar grande parte da população desorientada ou mal orientada.

Vamos atravessar um período pior do que o vivido entre Março e Maio. Não adianta muito lançar às 2ªs, 4ªs e 6ªs apelos à “responsabilidade” e agir nos restantes dias de forma irresponsável. Ou tentar ocultar ou manipular informação. Ou estarem mais preocupados na forma como se vão alambazar com os milhares de milhões da bazuca do que no que podem fazer de útil com eles, para além de estudos de opinião, consultorias ou campanhas de comunicação.

É muito dinheiro, mais uma vez, para ser encaminhado para as escápulas do costume. Tudo se parece encaminhar para mais uma festança à tripa-forra dos cortesãos ou eminências pardas do regime, enquanto se minguam os “gastos” com despesas mais do que justificáveis. Ou se atrasam pagamentos com base em procedimentos que o povinho tem muita dificuldade em seguir sem ter quem “interceder”, cobrando avultada comissão. Se o dinheiro é para responder aos efeitos da pandemia, não é para meter nos bolsos, novamente, de escritórios de advogados, consultoras ou empresas criadas de propósito para o efeito, com as conexões certas e o recrutamento adequado do pessoal a ser pago.

É que já vimos este filme muitas vezes. O que admira é que ainda reste alguma confiança, sem ser nos que já estão com a conta aberta para as transferências, enquanto a maioria está de mão estendida.

Universos Paralelos

Há o das escolas das reportagens televisivas que, num espírito de admirável cooperação como governo no sentido de uma mensagem de “confiança”, que assegure ao país que os espaços escolares são seguros, no qual aparecem salas bem iluminadas e arejadas, com carteiras individuais, bem espaçadas e grupos de 12-15 alunos e tudo o que parece próprio de um país do 1º mundo em tempos de pandemia e há o de muitas outras escolas que se debatem com problemas de gestão de espaço e condições ligeiramente menos próprias para a mensagem oficial nas parcerias Governo/SIC ou Governo /TVI.

Hoje, uma turma já com 27 alunos (apareceram 25, mais uma que não sabia onde estava e acabou por ir em busca da turma certa), em mesas duplas, numa sala que até é das maiores da escola, mas no máximo consegue ter 30 lugares. Se algum “vizinho” recusar mais transferências ou alguém chegar de fora, já sei que ficarei a caminho dos 30, mesmo com 1 PEI à mistura e mais tudo aquilo que vou agora descobrindo. Com a chuva e ventania matinal, janelas quase todas fechadas… porta aberta para corredor interior de passagem para outras salas.

Ora bem… eu até lido com isto com a “resignação”/compreensão mínima indispensável, mas o que dirão os encarregados de educação que vêem na televisão uma coisa e os seus educandos lhe descrevem outra completamente diferente? A culpa é das “escolas”, dos “professores”, que não se souberam “organizar” devidamente com tanta “autonomia” que lhes foi dada? Pois… quase se entende essa tentação.

Como também sou encarregado de educação e a turma da petiza vai em 29, até posso pensar que é um complot. Para mais porque a DT da cara-metade vai em 27, também em circunstâncias físicas similares. Que me enviaram para o “planeta mau”, tipo bes falido, e que os outros estão todos no universo goldman sachcs do durão.

Era bom que a “informação” fosse menos propaganda oficial mal disfarçada, porque algum jornalismo desacredita-se a si mesmo ao apresentar campos floridos quando há quem olhe em redor e muito além e só veja poeira no ar.

E não me venham com a necessidade de ser “positivo”, de a encarar tudo como uma oportunidade, porque ainda lhes digo que, nesse caso, falecer é uma belíssima oportunidade de fugir ao fisco.

Coisas Que Custam A Perceber

Ainda não há aulas presenciais… mas parece-me que a Economia não está parada. Ou estará? Porque de acordo com o actual PM, se as escolas fecharem (leia-se… se pararem as aulas presenciais) a Economia pára.

O primeiro-ministro deu a cara pelas novas medidas de restrição, as tais que acompanham um país – todo ele – de novo em estado de contingência, já a partir de terça-feira. E apareceu com uma mensagem determinada, a justificar esse novo apertão nas regras: “Temos uma linha vermelha: não podemos voltar a fechar as escolas, não podemos voltar a fechar a economia.”

Esta não pode ser uma “linha vermelha”… a menos que António Costa seja mesmo irresponsável. E a menos que o “aparelho” esteja afinado e pronto para mentir à opinião pública, se isso for necessário para manter a linha vermelha no lugar.

(será que longe dos microfones disse algo mais interessante, quiçá picaresco sobre os professores que metam atestado?)

Nada De Novo

O SE Costa já tinha há coisa de um mês aos directores o mesmo sobre a forma como o tele-trabalho não se aplica aos professores (embora não seja verdade que é como se passa com os outros trabalhadores, mas se o desmentirem ele faz birra). Quanto aos computadores, faz lembrar as promoções até 90% de desconto. Desde que exista um artigo com 90% de desconto a promessa está certa. Portanto, desde que chegue um computador até ao Natal a alguma escola, ele não mentiu.

Professores de grupos de risco não podem optar por teletrabalho e devem meter baixa

Regime para os docentes é semelhante aos dos restantes trabalhadores, sublinhou o secretário de Estado da Educação, João Costa, num debate promovido pelo PÚBLICO. Computadores prometidos chegarão “durante o 1.º período”.

Esta atitude faz-me lembrar – porque será? – certas tiradas do velho SE Valter Lemos, mesmo se em modelo soft.

(sou obrigado a admitir que o SE Costa consegue mesmo convencer muita gente do que diz, mesmo quando troca as tintas e retorce os factos… tem efectivamente um rebanho alinhado em muitas escolas no discurso “positivo” do “ahhh… vamos dar o nosso melhor pelos nossos alunos… é a nossa obrigação”, quando na verdade o que querem dizer é “façam o que vos mandam e calem-se ou vão para casa”…)

Não Consigo Alinhar…

… com aquela atitude apresentada como inevitável em situação de “crise” que postula que todos nos devemos unir, numa frente comum, contra a “ameaça externa” que no presente momento é o “vírus” e a situação de pandemia. Considero de extrema demagogia a tentativa de condicionar qualquer tipo de críticas, como se fosse delito de lesa-majestade criticar esta ou aquela posição/decisão em nome de uma “unidade” que apenas serve para desresponsabilizar quem decide, através da co-responsabilização de todos por tudo e mais alguma coisa. É em situações difíceis que se torna mais importante fazer opções e essas nem sempre são consensuais. E tantas vezes as posições que prevalecem, podendo mesmo colher apoio maioritário, não são necessariamente as mais adequadas e o abafamento das críticas ou a sua qualificação como algo quase anti-patriótico é a negação de uma democracia verdadeira ou, pelo menos, que respeite o direito a discordarmos de quem tem o poder de mando. Estou cansado de quem acha que quem desalinha do discurso oficial normalizado e formatado pela maior denominador comum da vulgaridade só o faz para criar “problemas”. Assim como desgosto de quem acha que existem fórmulas ou soluções únicas para situações complexas, a partir do momento em que o debate em circuito fechado leva a uma dada decisão. situações complexas e com alto grau de imprevisibilidade obrigam a soluções “abertas” e à consideração da necessidade de se inflectirem rumos, sem que com isso venha mal ao mundo, excepto quando antes se afirmou que só podia ser daquela maneira e mais nenhuma. E estou muito farto de quem joga na erosão da memória e na justificação truncada ou desonesta de afirmações e actos praticados apenas com intuitos de oportunidade política ou conveniência pessoal.

Em resumo, estou mesmo sem paciência para a grande e pequena política, nacional ou local, praticada por quem tem escassa vergonha na cara e carácter a roçar a nulidade. Estando convidado a enfiar o barrete quem bem o sentir à medida.

A Questão Ao Lado

Perdi uma horita a passar por canais noticiosos lá de fora, para perceber como andam as coisas a ser encaradas e a regra é a da desvalorização, pelos políticos, dos riscos de contágio nas escolas para os alunos. Porque, apesar da tese já ter levado com uns estudos em cima a contrariá-la, se afirma que nas crianças e jovens o risco é baixo de contrair a covid-19 e ainda menor de ser com sintomas graves. Como se fosse apenas isso que está em causa.

Eu percebo que a escola digital do século XXI levou com um choque de realidade entre Março e Junho e que, afinal, o ensino presencial é ainda essencial e até mesmo algum de tudo mais tradicional do que se de desejaria.

E também percebo que a Economia parece sofrer mais com o encerramento das escolas do que de outros serviços públicos ou mesmo de sectores de actividade económica.

Mas seria bom que ao menos não se escondesse que os problemas não se resumem a haver contágio (ou não) entre os alunos, no interior das escolas. Há muitos mais do que isso, desde tudo o que envolve a deslocação dos alunos fora da escola, a situação dos familiares e, claro, em último lugar para quem gosta de falar sobre isto, os riscos do pessoal docente e não docente.