Nem Chega A Meia Verdade

Claro que se impedirem, por critérios administrativos, certos horários de ser colocados na plataforma logo que são necessários, consegue-se a ilusão dos 97%. Mas não passa disso, de um estratagema.

“Estamos a fazer tudo para que, a cada semana, estejamos sempre a colmatar as dificuldades que existem”, mas “todas as semanas nos estão a chegar novos pedidos de professores”, disse o governante, assinalando que, ainda assim, os horários preenchidos e com professores mantêm-se nos 97%“.

Em agosto, início de setembro, aproximou-se dos 100%.

Volto a dizer que se na folha de horário da turma estiver o nome de um@ docente, mesmo que esteja de baixa, o ministério considera o horário “atribuído”. O que o ministro refere são os horários que aparecem sem qualquer nome, resultando de horas que remanesceram da distribuição inicial que, em Agosto e Setembro, contemplavam colegas com atestados de longa duração ou indicação das Juntas Médicas para serviços moderados. Aqueles horários que aparecem, por exemplo com designações como “Hist 403″/”Geo423” ou “H403″/G423”.

De acordo com a forma de “cálculo” do ME, a minha DT tem 100% dos horários atribuídos. No entanto, só têm 70% da disciplinas. Porquê? Porque os horários continuam “atribuídos” a pessoas que não estão a leccionar.

Já agora, é curioso que afinal seja Geografia uma das disciplinas que esteja com mais problemas. Não é novidade nenhuma, pois há vários anos que assim é. No entanto, não foi identificada pelo ministro costa como tal há umas semanas. Deve ter sido o “dinamismo” disto tudo.

Por outro lado, é curioso que se qualifique como “ágil” um procedimento que apenas permite a colocação de docentes numa dia da semana quando antes, mesmo sem computadores, bastava agarrar na lista ordenada “centralista” e fazer telefonemas em qualquer dia da semana. mesmo com as 40 horas para a eventual recusa/aceitação do horário, daria para fazer 2 ou 3 contactos por semana. Se o primeiro fosse feito na manhã de 2ª feira, o terceiro podia ser feito na tarde de 6ª. Isto era a velha “agilidade analógica”. Agora, com tanta plataforma só se podem comunicar horários uma vez por semana e ter acesso aos resultados das RR à 6ª feira.

Realmente, a realidade é tramada, porque não corresponde ao spin produzido e a uma “narrativa” que se baseia em dados truncados e verdades minguadas. Sim, “a realidade está a ser desafiante”, em especial para quem ou não percebe ou não quer perceber essa mesma realidade.

“Ajudam”, Mas Estão Longe De Explicar Tudo

Vamos lá ser um pouco sérios nisto… o senhor ministro disse ainda há pouco tempo que não havia problemas de maior na substituição dos professores de Matemática e não incluiu sequer Português nas disciplinas prioritárias para as medidas de combate à escassez de docentes. Vir agora dizer que foi essa falta que levou à quebra de resultados é um pouco estranho.

Quanto à pandemia, já se percebeu que tem as costas mais largas do que um nadador olímpico. Mas é tudo uma grande treta, pois os resultados destas provas não se podem comparar com nada, pois antes da pandemia as provas tinham peso na avaliação final da disciplina. Estas realizaram-se para preencher calendário e pouco mais, pois são incomparáveis a vários níveis, desde logo a sua irrelevância para o futuro dos alunos.

Esta forma de argumentar é desonesta e quem alinha nisso apenas entra no “jogo” da mistificação da opinião pública. Vá lá que as declarações da APM e da APP vão por um caminho um pouco diferente, mas seria bom que se percebesse de forma clara que isto é comparar o resultado de um voo num simulador em terra com uma viagem de avião a sério.

Pandemia e falta de professores ajudam a explicar descalabro nas provas do 9.º ano

Controlo De Danos

Depois do estampanço na entrevista ao Expresso, eis que o ministro João Costa dá mais uma longa entrevista, agora à Renascença, a qual polvilha de números e factos sobre a falta de professores. Espremido, é apenas um momento para alijar responsabilidades e, no fundo, dizer que quase nem faltam professores, sem ser em Moral e Educação Especial, o que não deixa de ser uma reviravolta surpreendente e uma clara desfocagem quanto ao que se observa nas escolas. E, claro, é quase tudo culpa das baixas médicas dos docentes que, apesar de velhos, deveriam estar todos sãos como maçãs de Alcobaça.

Depois de Tiago, o Nulo, temos o João, o Ilusionista.

Ainda (E De Novo) A Semestralidade

Neste caso, da divisão do ano lectivo em semestres, que ao fatiamento de algumas disciplinas se voltará em termos mais incisivos.

Fiquemo-nos agora, que se começa a estar nos preparativos do lançamento do próximo ano lectivo, pela nova investida, a partir das lideranças doutrinadas pelo secretário agora ministro e seus arautos locais, no sentido de alegadamente dividir o ano em semestres porque dizem que assim é melhor. Sem que se perceba porquê, pois as auto-avaliações do ME em relação a medidas que lança (e formalizadas em “encontros” de amigos com muita palmadinha nas costas e auto-congratulamento colectivo) raramente ficam abaixo do Excelente+, Ferrari Testarossa, top of the tops, com chancela especializada da ocdêé ou isczé, que as coisas da católica eram mais no tempo da troika.

Há algo que gostava que me explicassem devagar, a mim que sou de Letras enciclopédicas e tenha escassa capacidade de reflexão aprofundada em Hermenêutica da Treta.

Porque já ouvi e li que os semestres são melhores, porque reduzem a burocracia a dois momentos de avaliação em vez de três, mas depois também ouço e leio (mais ao nível das bases) que na prática existem intercalares com avaliação praticamente tão formal como a outra (com abundante preenchimento de registos e feedback e reuniões e o escafandro mal fechado), pelo que se fica com quatro momentos de avaliação e não dois ou os anteriores três

Mas também já li que esta forma de organizar o ano é mais “racional” (?) atendendo à disparidade da extensão dos três períodos tradicionais, pois o primeiro é quase sempre muito longo e cansativo. Mas, nesse caso, a transformação de um trimestre em semestre (mesmo que de 4 meses ou 4,5 meses) melhora as coisas como? E como é mais “racional” ficar com semestres com pausas pelo meio, raramente a meio do dito cujo, pois o Natal e o Ano Novo raramente mudam de data e a Páscoa, apesar de mais valdevina, também calha quase sempre mais para cá do que para lá, se o segundo semestres se iniciar com o fevereiro lançado? E se os alunos acabam esgotados e fartos a meio de Junho (ou antes), como é se ficarem sem a pausa pascal que já foi normal?

A nível local, o debate em torno destas questões raramente levanta voo, pois fica-se pelo “tem de ser” ou pelo “é melhor assim”, sem qualquer explicação razoável, preferindo acusar-se os cépticos de imobilismo, conservadorismo e outros ismos assim. Mas antes isso do que acrítico e salivante seguidismo.

O Erro Do Chega Foi O Erro Básico De Todos Os Oportunistas

A não eleição de um vice-presidente do Chega para o Parlamento podia ter-lhes corrido bem, não fosse a natureza oportunista – e não tanto “populista” – da maioria da agremiação. Apresentado um inelegível Pacheco de Amorim, poderiam alegar que até tinham tentado ser “institucionais” e tal. Não eleito, apontariam o dedo á intolerância do “sistema” para com a “diferença” (sim, Pacheco do Amorim é diferente da maioria, quer queiram, quer não, até porque por “diferença” não entendo necessariamente algo bom) e bateriam em retirada para a sua trincheira anti-sistémica. Até o liberal Cotrim percebeu que nem com boas maneiras se deve entrar numa festa onde não nos querem. Pior ainda quando é uma festa da qual desdenhámos ainda há bem pouco tempo, chamando vigaristas aos donos da casa.

Mas não. E lá se foi o véu e ficou às escancaras a vontade imensa – de grupo e individual – de escalar a colina das honrarias republicanas que se diz desdenhar. Conheço moderadamente o Gabriel Mithá Ribeiro e não o tenho por fascista, racista ou sequer populista, mesmo que ele tenha adoptado (de forma espontânea ou calculada) alguns tiques retóricos que possam dar a entender que até pode ser alguma dessas coisas. Ele é apenas alguém que sente que pode e merece ter um papel que não lhe tem sido permitido até agora e que no PSD lhe foi barrado por outros ex-jovens turcos de onde saíram figuras como Rangel, Morgado, até o Moedas.

A passagem para o Chega foi a oportunidade que viu de chegar à fila da frente da política nacional. E a insistência em ir a votos depois de recusado Pacheco de Amorim foi apenas a tentativa de apanhar uma outra “oportunidade”, apostando na sua imagem mais discreta e menos agressiva do que alguns correlegionários. Mas foi um erro, porque revelou a vontade de aproveitar a oportunidade para chegar, logo à entrada no Parlamento, a um cargo de destaque no “sistema”. Foi um erro de principiante muito comum – e como ele diz que passa por aqui com alguma regularidade, pode ser que até concorde – em quem troca a coerência anti-sistémica (gostemos ou acreditemos nela ou não) e a sedução pelo brilho das luzes do dito “sistema”. Faltou por ali alguma perspicácia e a manobra de saída, alegando de forma pouco subtil um eventual racismo da sua recusa roçou o ridículo, porque vem de alguém que está atrás do André “vai para a tua terra” Ventura. Ficou demasiado à vista o oportunismo do Chega que quer para si o que critica aos outros. O chamado “tacho”. E iludir isso é uma enorme treta.

Promessas De Campanha

Em tempos pré-eleitorais, como escreveu o Alberto, estas conversas são meramente ilusórias. Esta secretária de Estado ocasional, sem qualquer rasto de conhecimentos sobre a matéria diz o que lhe mandam dizer. Quando os professores já faltam há um par de anos, tivemos pessoas a efectivar-se em média aos 50 anos de idade e mais de 20 de exercício da docência. Só entra com poucos anos de serviço quem, em certos contextos “extraordinários”, tem vaga aberta à medida, Este é um dos casos em que mentirá porque lhe mandaram mentir e isso serve para garantir carreira futura.

E deixemo-nos de tretas sobre “pós-verdade” e regressemos ao arcaísmo de chamar “mentira” ao que não é verdade.

Não li o resto da entrevista (é conteúdo “exclusivo” com a ilusão de facturação), mas o destaque permite-me reconstituir os talking points do aparelho com escassa margem de erro.

Professores: “Não vão ser precisos muitos anos para entrar no quadro

Títulos Por Encomenda

A reforma dos professores é algo previsível, assim como o ME dispõe de dados sobre a tendência para muitas serem antecipadas. Nada fez quanto a isso e manteve (ou agravou) políticas míopes de gestão dos recursos humanos, obcecadas com as micro-poupanças de horas ou dias de trabalho dos professores.

Depois, manda cá para fora isto e a há quem faça o frete costumeiro (disfarçado de vez em quando com uma “notícia” vagamente desagradável por cada dezena de empreitadas).

Quem deixa os alunos sem aulas é a falta de planeamento estratégico deste governo e o facto das prioridades dos governantes desta área serem outras, passando em parte por dar a ideia que a culpa de tudo é dos professores “velhos”, enquanto cria em aviário uma nova geração de professores cuja formação inicial, na sua vacuidade, lembra a de gente habilitada para ser regente escolar em outros tempos.

JN, 5 de Outubro de 2021, Dia do professor

Gouveia E Medina

Gouveia e Melo fez sombra aos políticos e, mesmo não sendo de tendências militaristas, é minha convicção que fez um óptimo trabalho. Sei que há quem torça o nariz, mas a verdade é que há que reconhecer o mérito a quem o tem e nisso tenho dificuldade em regatear o óbvio e ir em busca teorias rocambolescas sobre as intenções do homem, onde vale de tudo um pouco sem qualquer tipo de factos substantivos que não sejam as pegadas da máquina mediática do costismo.

Sinceramente, acho que em tempos de falhanço autárquico, o costism quis entalar ou mesmo enlamear Gouveia e Melo na despedida, atirando cá para fora “notícias” que só servem para alimentar quem acha que Gouveia e Melo afinal e coiso e tal, e calhar é como um qualquer Medina.

Ora… que me desculpem, mas parecem-me duas figuras muito, muito diferentes. Um deles já terá certo um poiso europeu ou qualquer coisa reguladora ou regional que lhe cubra a falta de emprego, que não sabe ser outra coisa. O outro, que bem perceba, não está com falta de lugar.

Que se queira misturar tudo, pode ter algum interesse, mas há que saber identificar com clareza os asnos, para não cairmos nós na asneira.

Sábado

Almoço em família e com família, em local aprazível (mas a partir da 1.30-2.00 hiper-congestionado, já sem quaisquer restrições), mas não convém explorar gastronomias, que pode parecer mal. Algumas leituras (Amin Malouf, Le Naufrage des Civilizations; Elif Shafak, 10 Minutes, 38 Seconds in This Strange World) para limpar sinapses no arranque de mais um ano de embrutecimento burocrático e paralisia intelectual, cortesia do feudo da pedagogia-patchouly dominante no ME. Um dia ainda me dizem que foi a Escola da Ponte que inspirou Summerhill e que foram o doutor Domingos Fernandes e a doutora Ariana Cosme que conceberam o DUA (pesquisem por UDL – UDI ou UID – e Ronald Mace e percebam que a coisa tem já uma barbas bem crescidas).

Musaranho por lebre e pombo comum por faisão são os pratos que nos andam a servir como se fossem a última tendência gourmet.

4ª Feira

Muita conversa acerca do aumento do número de candidatos ao Ensino Superior e da decisão de aumentar as vagas disponíveis. Muita propaganda em torno disso como se fosse o resultado de uma política planeada, o que seria paradoxal atendendo à surpresa mostrada. O aumento de candidaturas é natural devido à conjugação de dois factores: o aumento da escolaridade para 12 anos em 2009 e a evolução dos resultados em exames nacionais, em especial os do ano passado, que permitiram que muito mais alunos estivessem em condições de ingressar nas Universidades e Politécnicos.

Quanto ao aumento de vagas, pelo que se vai percebendo, resulta em parte da conversão para o contingente geral de vagas que estavam reservadas a contingentes especiais, como o dos estudantes estrangeiros em diversas instituições. Perante os efeitos da pandemia na menor mobilidade dos alunos, é previsível que parte dessas vagas fique por ocupar, pelo que serão redireccionadas.

Note-se ainda que nada de concreto se sabe, pois o mais certo é estarem á espera de saber o número de candidaturas, para só depois decidir que vagas passam para o contingente geral. Ou seja, as vagas não aumentam, apenas mudam de destinatários e só quando se perceber até que ponto se reduzirá a procura por alunos estrangeiros, muito atractiva porque pagam propinas bem mais elevadas do que os estudantes nacionais.

O resto não passa de fumaça.