A Montra E O Miolo

Primeira página do Público:

A notícia (só tenho o destaque, pelas razões que há dias expliquei, pois não dei qualquer opinião).

Ministério da Educação revela resultados do inquéritos feito a professores. Entre os docentes consultados pelo PÚBLICO há uma nota que sobressai: as AE carecem de revisão urgente.

Nunca esperei que a “avaliação prometida pela tutela” fosse abaixo da xalência. Até porque as “consultas” são sempre muito “focalizadas”. E há uma enorme acção de propaganda para tentar influenciar a opinião pública. Se em si a propaganda já é algo que tende a distorcer a realidade para provocar a adesão de quem a consome, neste caso é de assinalável desonestidade intelectual.

As AE são um “programa mínimo” que nos deveria embaraçar a todos (não apenas aos más-línguas como eu) se é para as considerar um horizonte para as aprendizagens a realizar.

A Sério?

Duvido seriamente das aparentes certezas e o que observo e me é relatado fora de acções de propaganda é no sentido contrário. E só quem não entende que um desfasamento de seis ou mais meses na leccionação de uma disciplina significa um corte muito significativo é que pode achar que deixar uma disciplina no fim de Janeiro e retomá-la em meados de Setembro é boa ideia.

Sim, eu sei que por semestralidade se pode entender a organização do ano em dois semestres, mas não nos podemos esquecer da outra aplicação da semestralidade. Ou que a passagem de três para 2 momentos de avaliação formal se acabou por traduzir em muitos lados por quatro momentos de avaliação, mesmo que dois tenham outra designação.

No curto prazo, da avaliação instantânea, até poderá parecer que funciona, mas a médio prazo percebe-se que é necessário no ano seguinte estar a fazer uma – aqui sim – recuperação ou consolidação mais demorada das aprendizagens anteriores.

Não digo que não tenha algumas vantagens em termos de organização de horários, mas em termos de “aprendizagens” dos alunos, mantenho as minhas sérias reservas.

Aliás, para se verificar se acham que é mesmo assim, que as aprendizagens ficam a ganhar, e que esta não é uma medida destinada apenas ao que se consideram disciplinas “menores”, proponha-se lá a aplicação da semestralidade( no sentido da sua leccionação em alternativa) na Matemática e no Português.

Vantagens do modelo semestral, que já existe em 95 agrupamentos de escolas, são assinaladas por directores, professores e alunos. Na apresentação do plano de recuperação das aprendizagens, o ministro garantiu que calendário escolar completará esta hipótese.

O Esperado Desconforto

Esperei para ver como o Governo Sombra iria tratar a questão da nomeação do pedro Adão e Silva para comissário do PS para as comemorações do 25 de Abril e a coisa correu de modo ainda mais curioso do que esperava.

Se o Carlos Vaz Marques é rapaz das minhas idades, os três comentadores são da geração do comissário PAS e fazem parte daquela tertúlia alargada de opinadores em vários espaços da “arena mediática” que partilha de uma série de elementos comuns, que não apenas a idade. Embora com três posturas com tonalidades diversas, a verdade é que desde o mais crítico (um João Miguel Tavares que se deve lembrar das críticas que mereceu por causa do 10 de Junho recente) ao mais complacente (um Ricardo Araújo Pereira com sérios problemas em articular um argumento minimamente consistente sobre o tema), todos decidiram confluir no acessório (e não estou a armar-me em JPPereira). Pu seja, que a questão só surgiu por causa do Porto Canal, do salário do comissário PAS e da dimensão a que pode chegar a equipa de apoio.

Ou seja, entraram pelas questões que se poderão caracterizar, pelos defensores de PAS (papel desempenhado em boa parte pelo RAP e em menor escala pelo Pedro Mexia), como as relativas à “inveja”, não faltando a referência às mal amadas “redes sociais”. Só o JMT recordou o currículo político de PAS, em especial do seu proselitismo socratista, deixando de lado a assessoria a Paulo Pedroso no ministério da Segurança Social. RAP até disse que era interessante terem nomeado alguém nascido em 1974 (o próprio RAP nasce um pouco depois do 25 de Abril, pelo que percebo a afinidade). Com um ataque de amnésia oportuno, parece ter-se esquecido de tudo o que PAS escreveu durante muito tempo, mesmo em períodos recentes, de acordo com a cartilha do PS governamental, mesmo se isso significava mentir sem pudor acerca de vários temas (e ocorre-me um, bem em particular).

Estranhamente, ninguém falou – ou fez isso muito, muito de raspão – na adequação das competências do comissário PAS ao cargo. Porque o trajecto académico de PAS – em especial das reveladas na sua tese sobre o impacto económico do surf ou na de doutoramento sobre políticas públicas europeias. Parece que PAS é simpático, conhece muita gente e almoça com quase tudo o que mexe, tendo estabelecido uma rede de cumplicidades que amarra algumas línguas, tão viperinas quando se trata de nomeações de gente menos dada ao convívio social, aos petiscos e aos comentários futebolísticos.

Ora, a minha crítica não nasceu do salário ou equipa de apoio (acho que a ocasião justifica que quem fique com a função seja bem pago e apoiado) ou de ver uma reportagem no Porto Canal (que não vi, porque é canal que me passa ao lado, como qualquer um ligado a clubes, incluindo o do Sporting), mas sim de achar que Pedro Adão e Silva não tem o perfil mínimo para tal função, excepção feita a, pelo que foi dito, almoçar e jantar com muita gente e ser um tipo simpático. Vamos lá deixar-nos de tibiezas: PAS vai ser um comissário político para as comemorações e não adianta vir dizer que já houve outros no passado (até foram à Comissão de Descobrimentos para “limpar” a actual nomeação); vai ter boa imprensa, porque ele aparece em quase todo o lado e tem lugar residente um pouco em todos os sítios; quem levantar reservas é porque tem inveja do salário e das mordomias ou é do FCPorto. O cenário está montado e faz lembrar outros tempos de intoxicação mediática.

Eu não sou dos que acha que deveria ser um “historiador com vasta obra reconhecida” sobre o tema ou parecido. Sou dos que abominaria tanto um Fernando Rosas como um Rui Ramos na função, porque são líderes de facção. Mas não me chocaria um mais discreto António Costa Pinto, por exemplo, já que não temos entre nós um Medeiros Ferreira. Alguém que, mesmo conhecendo-se as afinidades e inclinações, não tivesse um passado conhecido de deturpação consciente dos factos e de tentativa de construção de uma memória falsa de alguns acontecimentos. Isso é que é importante. Se recebe 4500 euros por mês é o que menos me chateia e se querem que vos diga até acho muito pouco, se compararmos com o balúrdio que vão pagar à esposa do ministro Cabrita por coisa de muito menor relevo. Se vai ter um gabinete de 14 pessoas a apoiá-lo? Desde que não sejam mini-PAS, sempre de cabecinha a dar a dar durante muitos anos perante as piores tropelias, tudo bem. O problema é se são apenas um bando de cartilheiros ou “abrantinos” a quem é preciso recompensar serviços prestados.

Voltando ao Governo Sombra. Percebi onde estão as linhas vermelhas ou as linhas de desconforto. É que o desconforto foi tal que nem uma tirada com piada conseguiram produzir acerca do tema. Quer dizer… eu ri-me com aquela de PAS já ter almoçado com quase toda a gente. Qual gente?

A Moínha

(eu sei que agora se escreve “moinha”, mas eu ainda a pronuncio como sempre pronunciei…)

Eles vão moendo, moendo, quase sempre com o mesmo tipo de objectivo e vão conseguindo, a pouco e pouco, causar uma erosão que se torna irreversível.

A porta é aberta um bocadinho por uns que dizem que fica por aí. Os que se seguem, escancaram-na e dizem que não foram eles que a abriram.

Tem sido assim em quase tudo e só não percebe quem não sabe (ou não quer saber, ou faz-se de desentendido) que “el@s” fazem parte da mesma tertúlia e não pensam de forma muito diferente acerca de assuntos como a gestão escolar, a carreira docente, a “avaliação do desempenho”, a desregulação dos concursos em articulação com a municipalização e todas essas matérias em que, na verdade, nunca existiu qualquer reversão ou inversão, apenas desilusão.

Sábado

Não é nada de excepcional e acho mesmo que é uma espécie de metodologia padrão para grande parte dos docentes. Avaliar a progressão das aprendizagens dos alunos, comunicar o que não correu bem, desenvolver estratégias de remediação, recuperação ou remediação (como lhes queiram chamar) e verificar de novo como estão as coisas. Só que em tempos de recauchutagem do velho, como verniz para parecer novo, fazer isto passa por ser enorme inovação, desde que se lhe coloque a palavra “Projecto” e se acrescente mais qualquer termo identificativo que sirva para servir de pretexto para “formação”. Há casos em que até vejo antigos colegas meus, que sabem fazer isto há décadas, ser nomeados como “embaixadores” de tamanha novidade.

A Ternura Dos Quarenta

Deem-me um texto sobre a reabertura das escolas e eu dir-vos-ei a década de vida em que está @ autor@ e, como consequência, a do nascimento, com uma margem de erro de 1 ou 2 anos. Conraria, Cristo, Oliveira, Peralta, Raposo, Tavares and friends, quase todos estarão ali entre 1969 e 1980. Com bónus, se for um texto muito preocupado com os pobrezinhos e os desfavorecidos, escrito em sala das avenidas novas, da quinta da família ou em solar apalaçado.

Há excepções, claro, mas servem para confirmar a regra.

Estou a ser insuportavelmente preconceituoso em termos sociais? Sim, porque decidi entrar nesta versão de lutas de classes 2.0, só que não pretendo ser o porta-voz daqueles a que não pertenço e de quem mantenho as devidas distâncias, para evitar qualquer contágio, apenas os usando como recurso demagógico.