Pelo Público

Porque é importante perceber que certos “sucessos” não passam de ficções produzidas para esconder que – na vida real extra-portões – a realidade é a da erosão do que foram 200 anos de árduas conquistas sociais e de aumento das desigualdades que nenhum diploma automático do 12º ano consegue ultrapassar, sem as adequadas “conexões” ou cartão.

E quem aparece por aí a clamar que a flexibilidade, a inclusão e a descentralização são o alfa e ómega para singrar no século XXI não passam de peões na lógica-centeno que mantém em funcionamento do “mais com menos” e devolve o manual no fim do ano. Tudo com chancela de “esquerda” e pózinhos de pseudo-consciência ambiental (daquela que abate coberto vegetal e espalha alcatrão e piso sintético para fazer pistas “ecológicas” para tardo-hipsters tugas).

Pode a Educação mascarar o retrocesso social?

A sociedade ocidental do século XXI perdeu a dimensão meritocrática que marcou o século XX. E não há níveis de sucesso escolar que possam ocultar isso.

PG PB

4ª Feira

Dia de JL/Educação, em que gosto sempre de ver como destoo do resto das prosas, no caso de hoje destinadas a provar, demonstrar e inscrever em pedra que a retenção/chumbo/repetência é um flagelo que é possível combater até à sua erradicação. Objectivo que não recuso. Mas, em todas essas prosas, entre as quais avulta a maior qualidade do texto de João Couvaneiro, elevado a porta-voz mediático da política educativa do governo, uma espécie de Porfírio Silva mas em menos hipócrita, falta um aspecto essencial: quando os alunos e famílias optam por não colaborar, por virar as costas à escola onde apenas vão buscar o que lhes interessa (o convívio, o almoço, o “armazém” para depósito da criançada) ou que nem sequer por lá aparecem (e não me venham com aquilo da denúncia de todos os casos para as CPCJ ou “forças da autoridade” porque isso apenas significa que não sabem do que falam ou escrevem), a culpa é apenas e só da escola e dos professores? São estes que “falham” quando há encarregados de educação que nunca se deslocam à escola, que não justificam faltas, que não se responsabilizam pelos seus educandos ou quando estes adoptam uma atitude de clara e inquestionável recusa de colaboração, por muito que se tente e faça?

A verdade é que já vejo muitos desses a passar de ano, apenas por “antiguidade”. Porque “tem de ser”, mesmo quando não fizeram nada que o merecesse e tudo foi tentado no âmbito pedagógico ou mesmo de relacionamento social e pessoal?

O passo final é começar a transitar alunos que apenas passaram pela escola para fazer a matrícula, mas já vi a coisa mais longe. Porque é mais “barato”, porque são os “mais desfavorecidos”, porque “todos têm direito ao sucesso”.

Polegares

(claro que tudo se torna mais ridículo quando se diz isto a quem está anos a fio num escalão por não ter vaga, mesmo tendo avaliação de Muito Bom, porque a política geral e de proximidade é a do gargalo por onde passam apenas os que dão a patinha e revelam “espírito de equipa” ou “colaborativo” com todo o género de disparates)

Quando Se Perde O Pé, Tende-se Para Distorcer As Posições Contrárias Na Falta De Melhor

Percebe-se agora como, afinal, era essencial que o SE Costa continuasse ao leme da sua grade reforma educativa, aquela que promete uma Escola Pública de 2ª escolha e que ilude quem nela fica com um sucesso e uma “igualdade de oportunidades” que não passa do nome, como bem demonstrou a sua antiga colega e actual ministra Leitão ao justificar a sua opção, como encarregada de educação, por colégios privados de elite.

A herança na Educação dos Costas (António e João) será visível daqui a uma década, para não dizer antes (se contarmos a partir de 2015), quando tivermos um dos sistemas de ensino mais desiguais da Europa e uma completa clivagem entre “ricos” e “pobres”, porque a promessa de sucesso a qualquer custo, desde que custe pouco, é demagógica e a maior mistificação que se pode fazer aos tais grupos desfavorecidos que se diz querer defender, mas de quem se quer apenas o voto em troca de miragens.

João Costa já é um demagogo experiente, que procura apelar a adesões emocionais, através da demonização das posições contrárias, chegando a qualificar quem com ele discorda de recusar a Educação como direito universal. De acordo com o senhor secretário de Estado da Educação, quem não salta para a sua caravana só pode ser insensível e querer o pior para os alunos. Pelo contrário, quem respeita os alunos dificilmente pode estar de acordo com “planos” que se limitam a burocratizar o insucesso e a implementar medidas perfeitamente ineficazes em tempo real como as actuais EMAEI ou o modelo de tutorias ao molho. Quem quer uma Escola Pública de qualidade e conhece a realidade para além das visitas em modelo vip, sorrisos e florzinhas, não pode aceitar como boas tiradas que se baseiam num raciocínio maniqueísta e simplista que nos quer passar a todos um atestado de simplórios.

Rejeitar o plano do SE Costa não é rejeitar “esforço” algum. Como aquela do “fácil é chumbá-los”, ele apresenta as coisas de forma popularucha. Rejeitar o seu querido plano (que há pouco dizia não existir) não é rejeitar o desejo de um sucesso pleno para os alunos. É rejeitar a batota, o truque burocrático, a mal disfarçada imposição administrativa. É ser honesto com os alunos e rejeitar as teses que colocam o ónus de todo o insucesso em professores do século XX, incapazes de entenderem as imensas profundezas das teses aprendidas por alguns nos anos de estágios feitos… no século XX, com teorias do século XX, nascidas de problemas do século XX.

O artigo da Visão de hoje (pelo menos deu agora a cara e não mandou enviados de uma fragilidade assustadora), com o apropriado destaque, é apenas mais uma peça no seu “legado” que provavelmente justificará em futura obra sobre o tema do “Sucesso vs Insucesso – Uma Dicotomia Disparatada na Educação”..

E já agora… isto não é uma disputa entre a boa Esquerda e a má Direita porque, que me lembre, politicamente, o actual SE Costa foi um imenso vazio político em períodos bem delicados da nossa vida colectiva e só meteu a cabeça de fora quando já era seguro. Nos anos de chumbo primou por tratar da vidinha.

Se isto é, de certa forma, dar a ler um pouco do próprio remédio ao SE Costa? Espero que sim, c’um caneco, que eu cá não sou de sonsices e nunca fui à catequese.

Visão21Nov19