4ª Feira

Dia de JL/Educação, em que gosto sempre de ver como destoo do resto das prosas, no caso de hoje destinadas a provar, demonstrar e inscrever em pedra que a retenção/chumbo/repetência é um flagelo que é possível combater até à sua erradicação. Objectivo que não recuso. Mas, em todas essas prosas, entre as quais avulta a maior qualidade do texto de João Couvaneiro, elevado a porta-voz mediático da política educativa do governo, uma espécie de Porfírio Silva mas em menos hipócrita, falta um aspecto essencial: quando os alunos e famílias optam por não colaborar, por virar as costas à escola onde apenas vão buscar o que lhes interessa (o convívio, o almoço, o “armazém” para depósito da criançada) ou que nem sequer por lá aparecem (e não me venham com aquilo da denúncia de todos os casos para as CPCJ ou “forças da autoridade” porque isso apenas significa que não sabem do que falam ou escrevem), a culpa é apenas e só da escola e dos professores? São estes que “falham” quando há encarregados de educação que nunca se deslocam à escola, que não justificam faltas, que não se responsabilizam pelos seus educandos ou quando estes adoptam uma atitude de clara e inquestionável recusa de colaboração, por muito que se tente e faça?

A verdade é que já vejo muitos desses a passar de ano, apenas por “antiguidade”. Porque “tem de ser”, mesmo quando não fizeram nada que o merecesse e tudo foi tentado no âmbito pedagógico ou mesmo de relacionamento social e pessoal?

O passo final é começar a transitar alunos que apenas passaram pela escola para fazer a matrícula, mas já vi a coisa mais longe. Porque é mais “barato”, porque são os “mais desfavorecidos”, porque “todos têm direito ao sucesso”.

Polegares

(claro que tudo se torna mais ridículo quando se diz isto a quem está anos a fio num escalão por não ter vaga, mesmo tendo avaliação de Muito Bom, porque a política geral e de proximidade é a do gargalo por onde passam apenas os que dão a patinha e revelam “espírito de equipa” ou “colaborativo” com todo o género de disparates)

Quando Se Perde O Pé, Tende-se Para Distorcer As Posições Contrárias Na Falta De Melhor

Percebe-se agora como, afinal, era essencial que o SE Costa continuasse ao leme da sua grade reforma educativa, aquela que promete uma Escola Pública de 2ª escolha e que ilude quem nela fica com um sucesso e uma “igualdade de oportunidades” que não passa do nome, como bem demonstrou a sua antiga colega e actual ministra Leitão ao justificar a sua opção, como encarregada de educação, por colégios privados de elite.

A herança na Educação dos Costas (António e João) será visível daqui a uma década, para não dizer antes (se contarmos a partir de 2015), quando tivermos um dos sistemas de ensino mais desiguais da Europa e uma completa clivagem entre “ricos” e “pobres”, porque a promessa de sucesso a qualquer custo, desde que custe pouco, é demagógica e a maior mistificação que se pode fazer aos tais grupos desfavorecidos que se diz querer defender, mas de quem se quer apenas o voto em troca de miragens.

João Costa já é um demagogo experiente, que procura apelar a adesões emocionais, através da demonização das posições contrárias, chegando a qualificar quem com ele discorda de recusar a Educação como direito universal. De acordo com o senhor secretário de Estado da Educação, quem não salta para a sua caravana só pode ser insensível e querer o pior para os alunos. Pelo contrário, quem respeita os alunos dificilmente pode estar de acordo com “planos” que se limitam a burocratizar o insucesso e a implementar medidas perfeitamente ineficazes em tempo real como as actuais EMAEI ou o modelo de tutorias ao molho. Quem quer uma Escola Pública de qualidade e conhece a realidade para além das visitas em modelo vip, sorrisos e florzinhas, não pode aceitar como boas tiradas que se baseiam num raciocínio maniqueísta e simplista que nos quer passar a todos um atestado de simplórios.

Rejeitar o plano do SE Costa não é rejeitar “esforço” algum. Como aquela do “fácil é chumbá-los”, ele apresenta as coisas de forma popularucha. Rejeitar o seu querido plano (que há pouco dizia não existir) não é rejeitar o desejo de um sucesso pleno para os alunos. É rejeitar a batota, o truque burocrático, a mal disfarçada imposição administrativa. É ser honesto com os alunos e rejeitar as teses que colocam o ónus de todo o insucesso em professores do século XX, incapazes de entenderem as imensas profundezas das teses aprendidas por alguns nos anos de estágios feitos… no século XX, com teorias do século XX, nascidas de problemas do século XX.

O artigo da Visão de hoje (pelo menos deu agora a cara e não mandou enviados de uma fragilidade assustadora), com o apropriado destaque, é apenas mais uma peça no seu “legado” que provavelmente justificará em futura obra sobre o tema do “Sucesso vs Insucesso – Uma Dicotomia Disparatada na Educação”..

E já agora… isto não é uma disputa entre a boa Esquerda e a má Direita porque, que me lembre, politicamente, o actual SE Costa foi um imenso vazio político em períodos bem delicados da nossa vida colectiva e só meteu a cabeça de fora quando já era seguro. Nos anos de chumbo primou por tratar da vidinha.

Se isto é, de certa forma, dar a ler um pouco do próprio remédio ao SE Costa? Espero que sim, c’um caneco, que eu cá não sou de sonsices e nunca fui à catequese.

Visão21Nov19

Para Quando Um Plano De Não-Retenção No Ensino Superior?

Porque é um desperdício de meios financeiros e capital humano o que se anda a passar ,pois mesmo em licenciaturas bolonhesas (não estamos a falar de Medicinas ou coisas assim), nem metade dos alunos as completa com um percurso directo de sucesso em 3 ou 4 anos. Penso que este insucesso poderia ser combatido com um PNPSE para o Ensino Superior, ao qual se deveria estender a lógica dos PIPP. Porque é sempre possível às instituições e aos professores trabalharem mais com os alunos e diversificar melhor as suas metodologias e abordagens pedagógicas.

O estudo da DGEEC de 2018 é o seguinte:

PERCURSOS NO ENSINO SUPERIOR
Situação após quatro anos dos alunos inscritos em licenciaturas de três anos

Há muitos dados interessantes, mas este quadro é um resumo bem revelador do flagelo do insucesso escolar no Ensino Superior, sendo que o dinheiro dos contribuintes não é infinito e deveriam existir medidas para estancar esta hemorragia, pois o custo por aluno é elevado e não sei quantos milhões poderíamos poupar para outras áreas da governação como a promoção do Turismo ou os incentivos fiscais para aposentados estrangeiros que se fixem no país. Ou para chineses com cartões de crédito dourados.

EnsinoSuperior

E para quem diz que a nota de ingresso não prevê o desempenho dos alunos, embora possam ter razão nas excepções, não a têm na regra, como bem se pode ver.

EnsinoSuperior1

Mas, claro, devemos esquecer esse método arcaico e ineficaz de “selecção” dos alunos.

Demagogia Sonsa Em Três Frases

Afirma o SE Costa a abrir o boletim Noesis deste mês:

Um sistema de saúde deve ter como objetivo a prevenção de todas as doenças.
Um sistema de segurança deve ter como objetivo a erradicação de todos os crimes.
Será assim tão estranho que um sistema educativo tenha como objetivo a erradicação do insucesso?

Não, não é estranho, embora eu pensasse que o objectivo central seria a constante melhoria da aprendizagem dos alunos o que podemos definir como “sucesso”, mas não necessariamente como ausência de retenções.

Mas o que é mais demagógico é que:

  • No sistema de saúde não se culpam os enfermeiros e médicos se os doentes não curarem as doenças por não cumprirem as prescrições ou se voltarem a ficar doentes devido a comportamentos inadequados. E a maior parte dos doentes nas urgências são de condição socio-económica mais desfavorecida.
  • No sistema de segurança – embora exista momentos em que há quem entre nesse caminho – não se culpam os polícias pela reincidência de actos criminosos ou se os proíbe de prender quem os pratica (bem… aqui até há quem ache que…). E a maior parte dos criminosos presos são de condição socio-económica mais desfavorecida.
  • Já agora, no sistema de justiça acusam-se os juízes pela reincidência de réus condenados e aconselha-se que os crimes fiquem por punir (não falo, claro, daqueles que nasceram para serem arquivados), em especial os daqueles que são de condição socio-económica mais desfavorecida.

No caso da Educação, os primeiros suspeitos pelo insucesso são os professores, em especial os não-pipis ou aqueles que não amocham perante a cartilha da desresponsabilização da sociedade envolvente pelo combate às desigualdades ou dos alunos pelo seu desempenho ou da demagogia sonsa do SE Costa.

Porque é disso que se trata: de pura e sonsa demagogia que promete o mais fácil e populista, como se quem insiste em apontar falhas à prática fossem apenas pessoas sem princípios, sensibilidade ou sem o maior respeito pelos alunos que fazem o melhor que sabem e conseguem. Pelo contrário, é o respeito pelos alunos e por não os mistificar com um sucesso de pacotilha, fabricado em laboratório, que faz com que ainda há quem resista a estas investidas a transbordar de infernais boas intenções.

Que pena o SE Costa não aplicar toda a beleza dos seus princípios de justiça social e a sua subtileza retórica na crítica ao modelo de legislação laboral que afasta as famílias dos seus educandos, de um modelo de proto-desenvolvimento económico que mantém Portugal com um dos maiores níveis de pobreza e desigualdade social da UE ou da regra do trabalho precário com baixos salários como factor de “competitividade”.

Quanto anos de governo e a esse nível só desabafos assim como que se fossem em privado para centeno não ouvir. Não chega e revela falta de coragem política.

Porque a Escola e a Educação podem muito, mas não podem tudo. E é tudo o que lhes é pedido por alguns. Que, como uma certa antecessora, apostam tudo na conquista da “opinião pública”.

JCosta1

O Expresso De Sexta Quase À Meia Noite

Onde se podem tirar dúvidas sobre o que foi dito efectivamente. E onde, como disse quando recebi o inesperado convite, iria estar quase sempre numa proporção de 1 para 3. Mas antes isso do que todos a empurrar para o lado da demagogia.

Do ME ninguém aceitou ir, deixando de forma pouco corajosa para a presidente do CNE o ónus de defender o que outros assumem apenas pela metade; já a recusa do ex-presidente do CNE, David Justino, se compreende à luz do que ele defende e do que foi a intervenção do líder do seu partido no Parlamento. Ou foram só mesmo questões de agenda, claro.

Redução dos chumbos escolares

ExpMeiaNoite