Felicidades

Li há pouco, no mural de uma “rede social” de um amigo que gosto de seguir e ler sabendo a enorme discordância que nos divide neste momento, o quanto algumas pessoas estão extremamente felizes com o estado da Educação e a situação das escolas no presente. Congratulam-se efusivamente pelas suas reformas, pelo triunfo das suas ideias e do seu modelo/paradigma. Eu compreendo essa felicidade, a dos vencedores, a dos que sentem que conseguiram impor as suas crenças. O que acho curioso é que lhes desagrada imenso as críticas que destacam o que se passa de mal nas escolas (como se fosse tudo mentira) e o modo como criticam quem foge da cartilha dominante. Afinal, a tolerância com as opiniões divergentes é mais fácil de enunciar do que de praticar. E não é de espantar que muitas dessas pessoas estejam mais próximas da formação doutrinária (claro que estimo mais a opinião de um certo presidente de assembleia municipal, doutorado em fretes políticos) do que do quotidiano escolar completo e repleto. Claro que as há em exercício, mas a riqueza de espírito não é para todos nós.

 

O Mito Da Era Dourada

Que eu me lembre, a esmagadora maioria dos meus colegas achava a escola uma seca, desde que não fosse para jogar à bola e, a partir de dado momento, desenvolver o que agora se chamam “afectos”, mas antes tinha designações mais corpóreas. Tudo era chato, desinteressante, complicado, um horror. E chumbavam que nem tordos em dia de abertura de caça. Não se faziam sondagens, mas acredito que os valores de desafeição seriam maiores do que aqueles a que Daniel Sampaio, no JL/Educação deste mês, se agarra para reforçar as hostes que defendem uma revisão curricular. E no tempo dele também seria assim, excepto quando, já no Secundário, quem lá estava era uma minoria de alunos, privilegiados e interessados em continuar estudos.

Sim, nos tempos de Sócrates (o grego) os seus discípulos bebiam as suas lições (os do actual também beberam, mas foi uma coisa mais material) e os estudantes juntavam-se nas escadarias das nascentes universidade medievais, ansiosos por nova palestra do mestre escolhido. O que fica por dizer é que seriam entre 0,1% a 1% da população juvenil ou jovem adulta a fazê-lo (dados assim numa de “suponhamos” e não recolhidos na Pordata) e a ter interesse pelos estudos. E mesmo quando se alargou o acesso a estudos a algumas camadas da burguesia isso era mais um dever imposto em virtude da necessidade de negócios familiares do que a um gosto especial ou vocação. Mas parece que há quem ache que no passado os alunos adoravam a escola. Só quem ignora profundamente a dificuldade em espalhar a alfabetização no nosso país pode pensar isso. Ou quem vive(u) numa redoma social, económica e cultural típica as nossas estreitas elites.

No “século XXI” as coisas deveriam ser diferentes? Sim, mas raramente o futuro, os anseios e interesses dos “jovens” correspondem ao que é a sua representação em mentes que estacionaram algures nos anos 60 do século XX. É muito raro que quem foi responsável pelo estado em que se está e esteve associado ao que se tem, décadas a fio, perceba vagamente o que quer a petizada e miudagem 3-4 gerações mais novas. Não chega ter perfil no fbook ou distinguir o instagram do canal disney.

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JL/Educação, 2 de Janeiro de 2018

Aprendizagens Essenciais – A História Contada aos Meninos

Não são tanto as alterações de conteúdos (a Antiguidade Clássica reduzida a um fiapo, a I Guerra Mundial como se fosse uma coisa passageira, entre outras mudanças), mas o discurso a recuperar aquelas coisas do tipo “o grande remorso do homem branco” em passagens como esta:

Reconhecer a submissão violenta de diversos povos e o tráfico de seres humanos como uma realidade da expansão portuguesa; (8º ano)

Ou então aquilo que se apresentam como “Ações Estratégicas de Ensino Orientadas para o Perfil dos Alunos”, invertendo a lógica do perfil como uma ferramenta para a o tornar um Fim em si mesmo ou “O Fim”, submetendo tudo e todos à ideologia de alguns. Podem apanhar-se nacos distribuídos um pouco por todos os documentos em análise, Fico-me por um par de exemplos relativos a História do 9º ano:

Aprendizagens

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(estamos entregues à bicharada…)

Os Superiores

Em diversos tempos, salvo as honrosas excepções que se destacam da norma, a generalidade dos superiores esteve-se nas tintas para as agruras dos básicos e secundários, revelando uma solidariedade nula. Agora, embora não se dizendo a reboque, afirmam-se atentos.

Vamos lá ser sinceros… generalizando à medida das circunstâncias, o que muitos esperam é que, ao contrário dos básicos e secundários, os governantes da área tenham de regressar às Universidades e também queiram ver a sua vidinha organizada. A aposta foi sempre, de forma “superior”, no soft power. E nas críticas ao que vem de “baixo”.

Sim, há excepções… já o escrevi lá em cima. E nem todas resultam de alinhamentos partidários.

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