No JL/Educação De Início De Ano

Uma Educação 24/7?

Após alguns meses à espera do seu momento, agarrei e li com crescente interesse e rapidez o ensaio de Jonathan Crary sobre o capitalismo tardio e o fim do sono (edição inglesa da Verso de 2013 e tradução da Antígona de 2018) que, embora pensado para a escala global da economia e sociedade mundial se adequa, com muito pequenas adaptações a uma série de lógicas locais/nacionais, em particular à forma como as novas formas de funcionamento de um capitalismo global que nunca adormece tem imposto a completa desregulação do tempo natural e biológico dos indivíduos e tem provocado uma progressiva erosão de velhas dicotomias como dia/noite, vigília/sono, ou trabalho/lazer.

Através da imposição, alegadamente ditada pela necessidade de uma economia global que está sempre em laboração algures no planeta, de um modelo de movimento contínuo  em que os indivíduos, enquanto produtores/consumidores de bens/serviços/imagens, devem estar sempre disponíveis para produzir/consumir, vendo o seu tempo pessoal, privado, de repouso, de convivialidade familiar ser comprimido em função do tempo público, de trabalho, de relacionamento global com as redes de transmissão/venda/recolha de informação ao serviço dos mecanismos essenciais do capitalismo globalizado e que nunca dorme graças a toda uma parafernália tecnológica em permanente mutação e aceleração do ritmo de obsolescência.

Em simultâneo com a compressão do tempo pessoal, do próprio tempo do sono (período de tempo que, em termos de produção/consumo, é inútil) existe uma pressão sobre os indivíduos para não “ficarem para trás” e para se esforçarem por acompanhar as “inovações” que devem consumir para se sentirem incluídos na “sociedade do século XXI”, criando fenómenos de angústia, frustração, ansiedade e mesmo depressão a todos os que sentem que não conseguem alcançar os parâmetros e marcadores apresentados como significativos do “sucesso”.

A fase do capitalismo de massas que se caracterizou pela sincronia dos comportamentos e a linearidade das condutas (produção em série nas fábricas, serões televisivos perante os mesmos programas) foi substituída pela da fragmentação e sobreposição do tempo em virtude da multiplicação de “aparatos” disponibilizados para o acesso à informação e fornecimento dos nossos dados.

“(…) desde que nenhum momento, lugar ou situação existe agora em que uma pessoa não possa comprar, consumir ou explorar redes de recursos, existe uma incursão sem pausa do não tempo do 24/7 em cada aspecto da vida social ou pessoal. Não existem, por exemplo, agora praticamente nenhumas circunstâncias que não possam ser registadas ou arquivadas como imagem ou informação digital. A promoção e adopção das tecnologias sem fios e a sua aniquilação da singularidade de lugar ou acontecimento é simplesmente um pós-efeito de novos requerimentos institucionais. Na sua expoliação das ricas texturas e indeterminação do tempo humano, o 24/7 incita simultaneamente uma insustentável e suicidária identificação com os seus requerimentos fantasmáticos e solicita um sempre aberto mas sempre inacabado investimento nos muitos produtos que facilitam essa identificação” (pp 30-31 da edição da Verso)

Este tipo de lógica descreve de forma rigorosa o modo como a Educação e o tempo escolar passaram a ser concebidos e, em especial, colocados em prática em sociedades de desenvolvimento tardio e que, como os indivíduos que sentem que devem integrar-se nas mecânicas da modernidade para não serem menorizados simbolicamente pelos seus pares ou mesmo excluídos das “novas oportunidades” que este “novo tempo” (estilhaçado) tem para lhes oferecer, apresentam como progresso o que não passa de um retrocesso. Assim como se promove um fascínio exacerbado pelo papel das “novas tecnologias” no trabalho pedagógico e na forma como alunos e professores devem recorrer à mediação das ferramentas digitais para acederem ao conhecimento que, por outro lado, é apresentado como tendo um valor relativo, exaltando-se mais o “processo”, a competência na pesquisa (que implica o consumo das tecnologias e adesão a plataformas e redes que recolhem o histórico de pesquisas e preferências individuais e de grupo para posterior uso) e de um alegado “saber fazer prático” do que uma verdadeira apropriação dos fundamentos científicos disciplinares, qualificados como “arcaicos”.

As minhas críticas ao conceito e prática da “escola a tempo inteiro” têm raízes similares às que Crary apresenta porque tenho reservas equivalentes acerca das “vantagens” ou “inevitabilidade” do trabalho pedagógico ficar dependente de “inovações” assimiladas a uma adesão pouco crítica à economia digital do conhecimento, determinada por algoritmos que, em vez de promoverem a diversidade ou criatividade, apenas reforçam a homogeneização. Perante uma folha branca, com um lápis ou caneta nas mãos, há todo um vazio por preencher com o que o indivíduo consegue e quer comunicar. Perante um ecrã com resultados de pesquisa iguais e massificados e programas com dezenas de templates, animações e sugestões, o esforço desaparece, mas também se esvai a possibilidade do aluno expressar por completo a sua singularidade, mesmo que de forma mais imperfeita do que o “facilitado” pelo programa informático.

Por muito úteis que considere as ferramentas digitais de acesso e tratamento da informação, considero que a excessiva sedução pelo recurso às redes digitais culmina numa intromissão inaceitável na nossa individualidade, ao mesmo tempo que implicitamente exige que estejamos disponíveis 24/7 para sermos contactados e reagir e, de forma progressiva, nos afasta do domínio e mestria de saberes e técnicas que cada vez, aparentemente para nossa comodidade, deixamos a cargo da “inteligência artificial” dos algoritmos e aplicações.

Os alunos são as principais vítimas de um sistema que fragiliza as relações familiares e os ambientes primários de socialização, tornando-se a cínica razão para as “reformas” que – dizendo que o currículo é “gordo” e o tempo nas escolas muito, – fragmentam o currículo, multiplicam as áreas e estende o tempo em que a escola guarda crianças e jovens enquanto os encarregados de educação trabalham, o que agora atinge os próprios avós, ainda em idade útil, com o horizonte da possível reforma sempre em fuga. E incomoda-me que esta cedência completa ao ritmo do 24/7 seja feita com argumentos que ousam utilizar termos como “humanismo”, “equidade” ou “justiça social” ou adulterando por completo o sentido de outros como “flexibilidade” ou “autonomia”.

Os professores, neste contexto, são encarados como operacionais necessários à implementação de uma Educação 24/7, preferencialmente numa lógica low cost, em que a proletarização da carreira docente e a precarização crescente dos contratados é agravada com a exigência de uma disponibilidade permanente, independentemente do momento ou local onde esteja. O uso do mail, da “partilha” no “grupo” a que o telefone inteligente permite aceder em qualquer lugar a qualquer hora, em vez de ser um recurso facilitador do trabalho docente, torna-se um novo elo da cadeia de controlo e retira a “desculpa” de não se ter sabido da nova solicitação. Mesmo que aconteça em horário pós ou extra-laboral. As plataformas ou programas nem escondem a sua finalidade, pois quando temos a aplicação “xxx360” ou o pacote “yyy365” percebe-se que o seu objectivo é cercar-nos o quotidiano, esvaziando as zonas de privacidade sem ecrãs, preenchendo-nos todo o tempo tido como disponível.

E ainda existe a aparência dúplice da simplicidade/complexidade, simplicidade de utilização mas complexidade da concepção, que encoraja o utilizador a ser apenas isso, a seguir fórmulas já testadas e a integrar-se numa lógica que o despersonaliza e insere numa “equipa” em que por “trabalho colaborativo” se entende “trabalho sem conflito”, sem contestação informada dos fundamentos organizacionais. Quem inquire deve fazê-lo de acordo com as regras do jogo. A crítica é aceite, mas desde que “construtiva”.

No século XIX, o modelo da produção industrial retirou as ferramentas (“meios de produção” na terminologia marxista coeva) aos indivíduos que assim ficavam mais vulneráveis perante o poder dos patrões, embora mantivessem os seus saberes tradicionais. Agora, são facultadas “ferramentas” aos indivíduos, para que seja possível esquecerem esses saberes, apresentados como supérfluos na sociedade pós-industrial digital 24/7. Tornando-os tanto mais frágeis e substituíveis quanto cedam à crença num modelo educativo que visa a sua indiferenciação e adormecimento. O da Educação 24/7.

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5ª Feira

Queremos uma Educação 24/7 com plataformas 360 a cercar-nos ou 365 a intrometer-se em todo o nosso tempo, como se fossemos obrigados a responder/reagir em qualquer momento a toda a nova exigência. Só seremos “inovadores” se aceitarmos que expoliem o nosso repouso? Não chegam os tais 1100 minutos, mais todo o restante tempo registado na folha do horário? Mais grave do que “sobretrabalho” é o assédio “moral” que se foi insinuando lentamente até quase parecer natural.

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(confesso… talvez só tardiamente tenha começado a reagir da forma certa a lógicas que só servem para satisfazer quem tem vazios por preencher…)

24/7

Há tradução em português. A lógica da exploração do “tempo inteiro” da vida de todos nós enquanto produtores, consumidores, peças de uma engrenagem que não pode ter tempos mortos. Tudo contado ao minuto.

We are long past an era in which mainly things were accumulated. Now our bodies and identities assimilate an ever-expanding surfeit of services, images, procedures, chemicals, to a toxic and often fatal threshold. The long-term survival of the individual is always dispensable if the alternative might even indirectly admit the possibility of interludes with no shopping or its promotion. In related ways, 24/7 is inseparable from environmental catastrophe in its declaration of permanent expenditure, of endless wastefulness for its sustenance, in its terminal disruption of the cycles and seasons on which ecological integrity depends.
In its profound uselessness and intrinsic passivity, with the incalculable losses it causes in production time, circulation, and consumption, sleep will always collide with the demands of a 24/7 universe. The huge portion of our lives that we spend asleep, freed from a morass of simulated needs, subsists as one of the great human affronts to the voraciousness of contemporary capitalism. Sleep is an uncompromising interruption of the theft of time from us by capitalism. Most of the seemingly irreducible necessities of human life – hunger, thirst, sexual desire, and recently the need for friendship – have been remade into commodified or financialized forms. Sleep poses the idea of a human need and interval of time that cannot be colonized and harnessed to a massive engine of profitability, and thus remains an incongruous anomaly and site of crisis in the global present. In spite of all the scientific research in this area, it frustrates and confounds any strategies to exploit or reshape it. The stunning, inconceivable reality is that nothing of value can be extracted from it. 

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O número de provas de elevada aferição que deverei codificar (certo?) enquanto decorrem reuniões de avaliação, matrículas, vigilâncias, relatórios de final de ano, balanços de conteúdos e etc. Claro que teoricamente estamos dispensados da componente não lectiva, mas nem sempre é bem assim. Uma colega dizia-me hoje que no seu agrupamento quase com vista para o Tejo a senhora directora disse que todo o serviço é obrigatório, apesar de estamos a aferir/codificar.

Mas o despacho deste ano já existe: Despacho Dispensa Serviço Classificadores.

No meu caso codificarei em devido tempo e com o adequado rigor, porque a petizada não tem culpa das inutilidades alheias que as obrigam a fazer e de cujo “resultado” ou “(in)conseguimentos” tomarão conhecimento (?) daqui por uns meses. Mas confesso a minha animosidade em relação a tudo isto que não passa de um simulacro de “monitorização das aprendizagens”. Pelo menos esta prova de HGP de 5ºano foi, em termos técnico-científicos”, bem melhor do que a de há dois anos. Quanto à do 8º, foi uma espécie de sorteio de conteúdos pois em 90 minutos não se afere nada relevante relativo a dois anos de escolaridade de duas disciplinas.

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4ª Feira

Pelo que leio (nomeadamente nas aclamadas “redes sociais”), há quem não tenha percebido exactamente a dimensão da derrota sofrida pelos docentes o mês passado, nem sequer o que isso pode significar para um futuro que poderia ser a médio prazo, mas é capaz por ser a curto. Ainda há quem ande a sugerir umas coisas absolutamente folclóricas, sem perceber que em termos políticos a coisa se não morreu ficou em morte cerebral. Há a via judicial – aquela que uns desvalorizam quando dá jeito – a nível nacional ou europeu, mas parece-me que pouco mais, pois o Costa Vencedor já decretou o fim do assunto e as bengalas da geringonça foram avisadas que ou esquecem o assunto ou nem migalhas levam, passando a alpista para um PAN que vai ser levado ao colo até às eleições legislativas, acarinhado como foram as dissidências do Bloco há 4 anos. Só espero que lhe aconteça o mesmo e o tiro saia pela culatra, mesmo que de pouco sirva.

Mas, regressando à vaca que não ri… seria boa ideia que tomassem consciência do que nos passou por cima ou correm o risco de não perceberem o que é “verdadeiramente essencial”, como costuma dizer o JPP:

50%? Quem?

Quem teve promoção desde 2018 não recupera tempo de serviço

Decreto-lei confirma ainda que nenhuma carreira especial recupera mais de 50% dos sete anos congelados.

(…)

O diploma reconhece o tempo aos trabalhadores de carreiras em que a progressão dependa do decurso do tempo, e o Ministério das Finanças confirmou ao jornal que só abrange magistrados, oficiais de justiça, militares das Forças Armadas e da GNR.

O tempo será recuperado em três tranches: um terço a 1 de junho de 2019, um terço a 1 de junho de 2020 e um terço a 1 de junho de 2021.

Em relação os professores, estava previsto que só recuperassem o tempo na primeira progressão após 1 de janeiro de 219. Mas também os docentes vão poder optar pela recuperação nestas três fases. O prazo para poderem optar foi alargado até 30 de junho.

A agora ver se nos entendemos, sem necessidade de grandes explicações:

  • Quem progride em 2019 recebe a bonificação toda de uma vez… pode ficar quieto e pronto.
  • Quem progrediu em 2018 terá sempre a ganhar materialmente com o faseamento.

Ponto final, parágrafo… deixem-se de outros cenários.

Mad-Hatter