A Culpa Será Da Troika?

É um pouco deprimente ler algumas pessoas a justificar uma série de coisas com os tempos malfadados da troika, como se essas malfeitorias justificassem todas as anteriores e posteriores. E depois ainda acusam quem discorda dessa narrativa, que coloca a origem de todos os males em 2011, de “relativizar”. “Relativizar” é branquear que isto apaga qualquer reversão inacabada. “Relativizar” é negar que isto corresponde a um terceiro congelamento salarial.

A clubite partidária está de volta de um modo absolutamente canhestro.

Estimativa do Governo para a inflação em 2022 é de 7,4%. A confirmar-se, a perda de poder de compra dos trabalhadores do Estado em 2022 será a maior dos últimos 12 anos. Em algumas carreiras as perdas poderão chegar a 15,9%

É que nem a narrativa que estão a tirar aos pseudo-privilegiados para dar aos mais desfavorecidos bate certo.

Portugal é o 8.º pior na lista de países com maior risco de pobreza ou exclusão social

A Dúvida

Há não muito tempo, a propaganda, as falsificações, eram feitas para enganar, para dissimular, para apresentar certezas. Para eliminar dúvidas. Agora, com todos os relativismos e “factos alternativos”, até pode continuar a ser isso, mas há uma mudança, que é a de apresentar tudo como potencial falsificação, nada como certo, tudo como dúvida. Mais do que à acção, incita-se a inacção. Num tempo em que tanto se reclamam “evidências” para agir, nada é considerado evidente, para justificar que nada se faça.

5ª Feira

Quanto tempo demorará a conquista definitiva do currículo e da educação básica pelas tendências relativistas anti-científicas e filosofias de ocasião para fazer passar melhor os dias sem dores d’alma?

Só não digo que alastre de igual modo ao secundário, porque ainda há filhos, sobrinho, primos de amigos e conhecidos que querem seguir cursos superiores de elite e é preciso dar-lhes algumas bases, por essenciais que sejam.

Embora, como se vê no debate político, o sofismo tenha ganho definitivamente à substância.

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Morreriam de qualquer forma, certo? Não vamos estar a “dramatizar” isto. O drama era se as escolas do 1º ciclo (e a parte do 2º ciclo das velhas EB23) tivessem fechado mais um par de semanas. Como se muitos que andam a passear pelos 9 anos do Básico com “sucesso” certificado tivessem todas as aprendizagens (mesmo as mínimas, agora, chamadas “essenciais”) mais do que realizadas. Essa é a enorme mistificação em curso e eu muito gostaria que colocassem a fazer provas de aferição alunos da pré-pandemia para ver o que ficou lá, comparando com os actuais.

A Teoria Da Relatividade Factual

Setembro de 2012:

Crato diz que há professores a mais e que “redução é inevitável”

Novembro de 2021:

Falta de professores é um “drama anunciado há muito tempo”, diz Nuno Crato

Ó faxavor, pode definir o que entende por “muito tempo”?

E lembram-se de todos aqueles que repetiram o estribilho dos “professores a mais”? Por onde andam agora e a dizer o quê? Eu lembro-me bem das discussões que tive na altura. E com quem. Mas isso agora não interessa nada, certo? Com jeitinho, ainda se paga aos que criaram o problema para o estudarem e fazerem propostas de solução. Como aqueles que acham que sabem como seleccionar os “melhores” e evitar a entrada de uns 15% de maus. Estaremos agora em condições de fazer as escolhas mais adequadas? Ou damos carta branca às escolas para recrutar quem aparecer?

5ª Feira

Este tipo de teorização teve um sucesso imenso na área da Educação e ainda hoje domina muitos feudos académicos e políticos ligados ao sector, sendo uma espécie de imagem de marca fraternal de um número muito vasto de pensadores e especialistas em Educação, que se irmanam na relativização da importância do Conhecimento e do papel dito “tradicional” do professor.

3ª Feira

Uma outra tendência é a de considerar que, para além de prolongar o ano lectivo, se devem ter as escolas abertas no Verão, de novo com o pretexto das tais aprendizagens “perdidas”, que ninguém ainda me demonstrou que o foram por causa dos efeitos da pandemia e não um efeito natural da desorganização e atomização que passou a caracterizar o currículo do Ensino Básico, com o aumento do número de disciplinas e áreas disciplinares e a redução de alguns programas disciplinares a esqueletos para arranjar tempo para áreas criadas a gosto desta ou aquela clique próxima do poder.

A História Está Cheia De Maus Exemplos De “Empenho E Dedicação”

Depois daquele post sobre o despacho shôr sub-director da DGAE, o ex-novo e ex-contratado e ex-activista César Israel Paulo, falei com alguém que o conhece melhor do que eu, assim como ao SE Costa. Percebendo as minhas razões, não deixou de me assegurar que os dois (CIP e JC) são pessoas que fazem o seu trabalho com grande “empenho e dedicação”, o que eu nunca coloquei em dúvida. Aliás. sendo de História, estou de barriga cheia de malta que, ao longo dos tempos, se empenhou e dedicou de forma quase insuperável à “operacionalização” das suas ideias e convicções. O problema está nos objectivos que norteiam tamanho “empenho” e tão desmesurada “dedicação”. Então o século XX está cheio de vultos deste tipo. E lá surge a tentação pelo argumento ad hitlerum. Alguém acha que o Hitler, o Estaline, o Mao e tantas outras luminárias menores se dedicaram à aplicação das suas políticas de forma desleixada e preguiçosa? Acho mesmo que são exemplos maiores de “empenho e dedicação” às suas causas. O problema eram mesmo as causas. Que, ainda por cima, se dizia serem “ao serviço do povo” e “a favor da Pátria/Nação/[coloque o que achar mais adequado]”.

Claro que não estou a comparar políticos menores (ou aspirantes a isso pela via do engraxadorismo administrativo) de um país periférico a essas personalidades e muito menos as suas políticas ao extermínio de povos/classes sociais/[coloque o que achar mais adequado]. Calma. Apenas estou a afirmar que o “empenho e dedicação” são muito relativos. E sim, não é um argumento válido para acharmos que alguém está a agir bem. Assim como a “sincera crença que estão a fazer o melhor para o país”. O Salazar achava isso mesmo. Ou aqueles tipos da Polónia e da Hungria que ainda hoje se congratularam por terem defendido os interesses dos seus povos ao negarem, com empenho e dedicação, a obrigação de respeitarem o Estado de Direito. Mesmo se os ditos povos parecem discordar, pelo menos em boa parte.

Estaremos Então Todos Em Casa Com Professor@s E Encarregad@s De Educação A Partilhar Conselhos Sobre Decoração De Interiores

E os putos a fazerem provas de aferição… ou talvez não. E a preparar as provas finais… ou talvez não. Mas certamente estaremos a monitorizar o cumprimento dos cronogramas e dos indicadores e níveis de (auto-satisfação) que provocam orgasmos múltiplos aos tecno-excitados do ME.

Já sei… estão a tentar pressionar o máximo até serem mesmo obrigados a “mitigar” o desvario e reconhecerem o óbvio, justificando o atraso das decisões com a necessidade de não sei quê.

Coronavírus: pico do surto em Portugal “nunca será antes do mês de Maio”

CasteloCartas

Ainda Sobre O Insucesso

Contra algumas ideias feitas, há factos que acho difícil ignorar e ainda mais complicado adulterar de forma sistemática para a opinião pública. Mesmo não partilhando a crença da autora acerca do “contexto favorável” que se viverá (que interpreto de outra forma). gostaria de destacar algumas das evidências que recolheu.

Vejamos o que pensam os alunos que mais insucesso têm do que se passa com eles nas escolas:

Sobre a melhor forma de combater esta situação:

Os alunos que não aprendem necessitam de colo e atenção em casa. Necessitam de programas de sensibilização das famílias, porventura antes do início da escolaridade obrigatória. Necessitam de ir mais cedo para o jardim infantil. Necessitam de programas que reduzam a desvantagem dos agregados familiares. Necessitam que a comunidade esteja atenta ao bullying. Necessitam de modelos para se comportarem melhor. Necessitam de não ser segregados em escolas estigmatizadas. Necessitam de aprender a ler para poder criar o gosto pelas histórias e pela criatividade. Necessitam que não desistam deles.

Os professores tentam dar um contributo positivo para que estes alunos continuem. Sempre os professores como o melhor ativo do sistema de educação.

Já agora, matizando a teoria de que só os pobrezinhos é que são protagonistas do insucesso, típica daquele determinismo simplório pseudo-sociológico:

Embora o sucesso das aprendizagens esteja ligado ao estatuto socioeconómico e cultural das famílias (educação dos pais, qualidade do emprego, poder de compra, hábitos culturais), esta realidade pode atingir todas as classes sociais, incluindo 6% pertencente à classe social mais favorecida. Por outro lado, dentro da classe social mais desafortunada há 42% de alunos que atinge nível “3 “ou mais. Cada um destes alunos adquiriu competências para entrar no elevador social, tem capacidades que permitem manter as portas do futuro abertas.

profpardal