O Direito À Informação E Ao Conhecimento – 1

Primeira parte do texto da comunicação apresentada no CNE, no dia 26 de Novembro.

1.

“A educação deve visar a plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos do homem e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das actividades das Nações Unidas para a manutenção da paz.”

O excerto anterior transcreve o nº 2 do artigo 26º da Declaração Universal dos Direitos Humanos e seria de esperar que o progresso das sociedades humanas, nomeadamente no plano da promoção da Educação e do desenvolvimento tecnológico tivessem tornado o seu conteúdo praticamente incontroverso. Contudo, 70 anos depois de ser escrito e de todas as ameaças que foi sofrendo ao longo das décadas, em especial em regimes de matriz ditatorial e mais ou menos totalitária nos processos de controlo dos sistemas educativos e da submissão dos indivíduos a poderosas máquinas de propaganda, encontramo-lo em risco onde seria menos expectável que isso acontecesse, ou seja, nas sociedades democráticas mais desenvolvidas em termos culturais, educativos e económicos, onde o acesso à informação e ao conhecimento se multiplicou de uma forma dificilmente previsível em meados do século XX.

Após um período de enormes avanços na escolarização das populações e de se ter considerado que a fase mais problemática do combate propagandístico em torno da Informação, típico da Guerra Fria, estaria ultrapassada, assiste-se a um forte refluxo marcado não pela limitação do acesso à Informação, mas por um fenómeno inverso: “não o informar pouco (pouco de mais), mas o informar mal, deturpado” como escreveu Giovanni Sartori (2000, 81) quando ainda pensava no predomínio que a informação televisiva mais rápida e emocional começava a revelar sobre a informação dos meios de comunicação tradicionais, leia-se, impressos.

Há perto de vinte anos, quando ainda a internet dava os seus segundos passos e era difícil imaginar como se fragmentaria e multiplicaria o panorama comunicacional global, Paul Virilio escreveria, com o pretexto do conflito no Kosovo, que:

“enquanto no passado eram a falta de informação e a censura que caracterizavam a negação da democracia pelo estado totalitário, o oposto é agora o caso. A desinformação é conseguida inundando os telespectadores com informação, com dados aparentemente contraditórios. A verdade dos factos é censurada pela sobre-informação (…). Agora, mais é menos. E em alguns casos é menos do que nada. A manipulação deliberada e os acidentes involuntários tornaram-se indistinguíveis” (Virilio: 2007b, 48).

E mais adiante acrescenta que “com a ‘libertação da informação’ na web, o que mais falta é significado ou, em outras palavras, um contexto em que os utilizadores da Internet possam colocar os factos e assim distinguirem a verdade da falsidade” (Idem, p. 78). Sendo que os factos ou dados surgem numa catadupa que cria a ilusão de um conhecimento que, na verdade, não existe. A obsessão com os dados (“dataism”) torna-se problemática, pois esses dados em vez de servirem para se compreender a realidade, podem servir para a tornar mais opaca ou distorcida.

De acordo com o Dadoísmo [Dataism], a Quinta Sinfonia de Beethoven, uma bolha do mercado de valores ou o vírus da gripe são apenas três padrões do fluxo de dados que podem ser analisados usando os mesmos conceitos básicos e ferramentas. Esta ideia é extremamente atractiva. Dá a todos os cientistas uma linguagem comum, constrói pontes sobre clivagens académicas (…).

Neste processo o Dadoísmo inverte a pirâmide tradicional da aprendizagem. Até agora, os dados eram vistos apenas como o primeiro passo numa longa cadeia de actividade intelectual. Era suposto os humanos extraírem a informação dos dados em conhecimento e conhecimento em sabedoria. Contudo, os Dadoístas acreditam que os humanos já não conseguem lidar com o imenso fluxo de dados, pelo que não podem extrair informação dos dados, muito menos conhecimento ou sabedoria. O trabalho de processar os dados deve ser entregue aos algoritmos electrónicos, cuja capacidade excede a do cérebro humano”. (Harari, 2017, 429)

Os dados valem por si e em si mesmos, tratados por algoritmos que, apesar de terem origem humana, começam a escapar a qualquer controle de qualidade ou fiabilidade por parte dos cidadãos comuns. Os “Grandes Dados” [Big Data] são apresentados como a própria realidade, tenha sido bem ou mal tratados por algoritmos que parecem criados ex machina. Mas não são. São de criação humana e não são neutrais. Os “Grandes Dados” criam uma realidade alternativa desde que isso seja do interesse de quem manipula o seu tratamento. E a grande desigualdade instala-se entre quem tem capacidade para definir os algoritmos que criam uma Matrix virtual e o resto da população que desconhece como essa representação do mundo é criada. E em que se serve a ilusão de um Conhecimento, tido por irrefutável, mas que é o resultado perverso do que Cathy O’Neil designa como “armas de destruição matemática” (O’Neill, 2016).

A sociedade do consumo (Baudrillard) e a cultura do espectáculo (Debord) são submersas por uma infinidade de “dados”, no que se apresenta como uma “sociedade de informação” que esconde o crescente vazio de significado e verdadeiro conhecimento, numa mistura fatal em que a informação criada pelos algoritmos e a diversão parecem ter o mesmo valor.

“A declaração de um ministro não vale mais do que o folhetim; passa-se sem hierarquia da política às «variedades», sendo a audiência determinada pela qualidade do divertimento. (…) Daqui resulta a indiferença pós-moderna, indiferença por excesso, não por defeito, por híper-solicitação, não por privação.” (Lipovetsky, 1988, 38)

Quando cresce o fenómeno do “infotainment”, mistura de informação e entretenimento que torna difícil distinguir o que é notícia, com dados reais, e o que é ficção, preocupada em manter as audiências interessadas a qualquer custo, confirma-se a tese de Neil Postman que em 1985 escrevia que:

 “(…) quando a população é distraída por trivialidades, quando a vida cultural é redefinida como um perpétuo ciclo de entretenimentos, quando a conversa pública séria se torna uma forma de conversa de bebé, quando, em resumo, um povo se torna uma audiência (…) é a própria nação que se encontra em risco.” (Postman, 2005, 155-156)

Tudo é efémero, tudo é transitório, tudo é relativo e equivalente, desde que não seja aborrecido ou exija muito esforço. A própria política se resume a “sucessões de acontecimentos que chegam, um após outro e geralmente sem aviso nem razão de ser evidente (…) cada um deles desligado de todos os outros, cada um deles levado à atenção do público como que sobretudo para apagar dela os acontecimentos de ontem. O sucesso de hoje equivale ao varrer da confusão que ficou do que foi celebrado ontem”. (Bauman, 2007, 286) Podemos então “divertir-nos até à morte” (Postman, 2005).

PGAPP

Porque Faz Parte da Natureza Humana

No século XIX ou XXI. Teorizar sobre a coisa é um exercício interessante mas redundante. É como o velho enviar recadinhos e papelinhos agora transformados em sms e mensagens uótes e snapes sem parar.

Why Students Cheat—and What to Do About It

A teacher seeks answers from researchers and psychologists. 

Closeau cartoon

(o que fazer? que tal tentar lembrarmo-nos dos truques do passado… os zingarelhos até brilham e tudo… são fáceis de detectar…)

Sociologia do Agressor

É aquela para quem quem leva pancada é culpado de vitimização e o agressor uma vítima da sociedade. Em que as regras atrapalham a vida dos que as não seguem. Percebe-se, depois, que os operacionais desta sociologia da treta se sintam confortáveis com certas práticas políticas (e não só) que só são criminalizáveis se existirem leis, sendo que isso é arbitrário. Esticando um pouco a lógica de tubérculo, só há doenças porque os médicos as diagnosticam, a polícia é um aparelho repressor de pessoas que só são ladrões ou homicidas porque regras humanas assim o definem. Nas escolas, os alunos que são maltratados pelos outros apenas têm uma percepção exagerada dos seus direitos à integridade e os professores que tentam promover um ambiente de segurança para as aprendizagens não passam de cripto-fascistas autoritários e anacrónicos. Os heróis são os “rebeldes” que fazem lembrar ao sociólogo da treta aquilo que ele se calhar quis ser e não conseguiu porque algum@ professor@ o traumatizou em piquinino, para usarmos aqui um cliché, quiçá válido, da psicologia da treta.

Quando o ps chega ao governo, esta sociologia da treta renasce com os respectivos observatórios associados, aqueles que conseguem sempre demonstrar que a violência e indisciplina nas escolas não existe, a menos que sejam outros os partidos no governo. Num outro mundo, ligeiramente mais lúcido, quem observasse estas coisas, daria nula credibilidade a esta malta que sobrevive na base do ajuste razoavelmente directo para a produção de estudos com as conclusões escritas à cabeça. Isto sou eu a lançar suspeições? Nem tanto, apenas observo a repetição do padrão nas conclusões e anos de produção. No nosso mundo, eis que voltam a colocar a cabecinha de fora. Ainda veremos as novas NO a ser avaliadas pelo monge capuchinho.

fake

Dar o Exemplo

Sempre achei que a melhor forma de ensinar algo, ao nível das atitudes e comportamentos, passa por dar o exemplo do que é fazer bem. Para modificarmos as más práticas, nada como dar o exemplo das boas e, a partir daí, conseguir a mudança.

Ao nível das leis laborais o Estado foi entre nós, desde o 25 de Abril, como em outras paragens, em outros momentos, o principal impulsionador de leis destinadas a proteger os direitos dos trabalhadores, em múltiplos aspectos como o horário e condições de trabalho, a protecção social no desemprego ou da maternidade (e paternidade). O exemplo do sector público impulsionava as transformações no resto da sociedade e no sector privado. Desde o início deste milénio que as coisas começaram a mudar e mesmo a inverter-se. Com o último governo PSD-CDS as coisas atingiram mesmo o estado inaceitável de se defender que deveria ser o Estado a dar o mau exemplo com a desregulação dos horários de trabalho, a precarização dos vínculos laborais e a redução dos direitos sociais.

Embora exista quem diga que não pode ser revertido tudo o que foi feito de uma só vez – mas se foi feito dessa forma e se disse que estava mal, porque não se pode? – a verdade é que há áreas que permanecem cinzentas como se a cartilha dos outros não fosse para abandonar por completo, como se, afinal, tivessem parte da razão (a tese dos direitos insustentáveis do sebastiânico rio, assim mesmo, minúsculo). É o caso da manutenção, anos a fio, décadas, de trabalhadores em regime precário na função pública e, em particular, entre o corpo docente das escolas. Fala-se agora em – mais uma vez – combater a precarização do trabalho público. Resta saber se o Estado decide dar o exemplo das boas práticas, com transparência de procedimentos, se opta pela opacidade que impera em largos sectores do trabalho privado. Resta saber se a geringonça tem a coragem se assumir-se mesmo como uma coligação das esquerdas, se não passa de um governo ao centro com muletas do lado canhoto. Porque a malta das direitas não teve qualquer rebuço em assumir as suas opções que apresentou como inevitáveis. Será que conseguiram afirmar a sua narrativa mesmo aos que a ela se diziam opor à outrance, com toda a força das convicções mais fortes.

Quem defende a justiça da vinculação de quem a ela tem direito, dificilmente pode defender coisas extraordinárias, feitas à medida como se por um alfaiate, com ultrapassagens pela faixa de emergência (política? partidária?).

Magoo