Se lhe Chamarem “Trabalho Autónomo”…

… parece logo outra coisa. Falo dos arcaicos “trabalhos de/para casa” que tanta celeuma levantam entre os eduardossás deste rectângulo e mais umas mamãs e papás muito preocupados com o quality time que os filhos deixam de ter em casa ao fazer tarefas escolares em vez de jogarem no seu zingarelho electrónico enquanto os papás e mamãs descansam.

Já por diversas vezes disse e escrevi publicamente que não sou grande adepto dos tais “trabalhos”, em especial quando resultam da acumulação da falta de bom senso, e os meus alunos sabem isso. E pratico o que afirmo, sendo mesmo muito frugal no pedido dos ditos.

Mas sei que “trabalho autónomo” é algo que fica muito bem, por exemplo, em certas planificações do trabalho no Ensino Superior bolonhês. Porque desenvolve a “autonomia” e pode ser feito com recurso às TIC e mais coisas do século XXI. E a expressão fica muito bem em papéis relacionados com estratégias de sucesso e outras verdasquices que somos obrigados a produzir ao metro.

Por vezes, temos que usar a semântica em nosso favor.

Minion Sorridente

Os Têpêcê (Novamente)

Fica em seguida o meu depoimento completo para esta peça do Educare:

TPC: sim ou não? E por que razões?
Sou favorável ao recurso moderado aos trabalhos de casa, não achando razoável uma resposta absoluta para todos os níveis de ensino e disciplinas. Como professor de História recorro a eles numa perspectiva de pesquisa a médio prazo, em que solicito aos alunos que façam pesquisas sobre um determinado tema e elaborem pequenos trabalhos num horizonte de duas a três semanas. Como professor de Português, o mais comum é solicitar a leitura de textos a trabalhar em sala de aula ou apenas completar algum exercício que tivesse ficado por fazer em aula. Só em situações excepcionais peço trabalhos sem ser a alguns dias de distância e tento saber se os alunos já os têm de outras disciplinas.

Há os que defendem os TPC como forma de incutir métodos de estudo. Há os que dizem que os TPC tiram tempo de brincar às crianças e tempo de qualidade em família. Qual a sua opinião?
Tudo tem o seu meio termo e muito depende da metodologia. Acho importante que, por exemplo em disciplinas como Matemática, os alunos possam fazer exercícios fora da aula e depois possam colocar dúvidas aos professores acerca do que não entenderam. Ou nos primeiros anos, o pedido de exercícios de escrita e caligrafia, por muito conservador que isso possa parecer a alguns pedagogos do momento. Em outras disciplinas acho que, por vezes, se exagera no pedido de tarefas que deveriam ser desenvolvidas em sala de aula. Discordo radicalmente de exercícios como cópia de páginas de manuais para o caderno ou outras tarefas desse tipo.
O tempo para brincar pode sempre existir e não é uma hora por dia que o inviabilizará. Preocupa-me mais que muitos pais não tenham horários que lhes permitam ajudar os seus filhos e acompanhá-los nas tarefas escolares, algo que também pode ser encarado como “tempo de qualidade”.

Como deve a comunidade educativa abordar este assunto? Faz sentido repetir rotinas escolares em casa ou os TPC são fundamentais para consolidar aprendizagens?
Os trabalhos para casa são importantes para consolidar aprendizagens em algumas disciplinas e conteúdos e não como forma de “apresentar serviço” inconsequente. Deve ter um objectivo significativo para os alunos e devem ser integrados no trabalho em sala de aula e não como tarefa mecânica e destinada apenas a verificar se estão feitos ou não.

Alunos e pais queixam-se da sobrecarga dos TPC, os professores sentem-se sobrecarregados com os currículos. Poderá haver aqui um equilíbrio?
A sobrecarga de tarefas relaciona-se com o tempo disponível para as realizar. Lamento que se tenha abdicado de reclamar melhores condições laborais para os pais com crianças em idade escolar, em particular no Ensino Básico. Quanto ao currículo, ele sobrecarrega-me se me exigirem que leccione conteúdos equivalentes na extensão aos de há uma ou duas décadas e me derem pouco mais de metade do tempo que então tinha. O problema é a relação entre o tempo disponibilizado para cumprir determinado programa. E a solução tem sido, quase sem excepção, mesmo quando se multiplicam metas, encurtar os conteúdos e simplificá-los por forma a que seja possível “produzir sucesso”. As medidas tomadas nesta área têm sido ditadas por imperativos financeiros e não pedagógicos ou então por derivas demagógicas, sejam as da exigência e exames (por exemplo, no mandato do anterior ME), sejam as da pressão para transitar os alunos a qualquer custo, para diminuir despesa e alimentar estatísticas (que é o que me parece ser o que se passa actualmente).

calvin exams

Os Têpêcês

Os meus alunos sabem desde cedo o que penso do assunto (está no Youtube, descobrem-no depressa). Uso-os pouco, raramente ou mesmo nunca de um dia para o outro, mas não os diabolizo como certos psicólogos e pedagogos da moda. O bom sendo deveria imperar e tal como temos tabelas para a marcação de testes, deveríamos tê-las para os trabalhos de casa, para que o bom senso não fosse tanta vezes atropelado. A pseudo-polémica é antiga e há opiniões para todos os gostos, pelo que a prudência aconselharia algumas pessoas a terem posições menos definitivas e absolutas, em especial quem defende que o tempo dos pais não deve ser passado a ajudar os filhos nas suas tarefas escolares. Embora eu saiba que há quem pague e bem para que outros o façam, acho que um pouquinho de envolvimento na matéria não faz mal nenhum à ascendência. Se os tempos andam acelerados e são escassos os momentos para o fazer, atendendo aos horários laborais desregulados e sobrecarregados? Que tal exigirem, nas instâncias próprias, que os pais com filhos em idade escolar (em especial no Básico) tenham alguns benefícios de horário nos locais de trabalho? Nunca lhes ocorreu isso? Acham que a batalha é difícil e preferem assestar armas sobre escolas e professores, por acharem que é mais fácil esse caminho, com a ajuda dos educardossás e outros psicologizantes do tubérculo com borboleta? Ok… mas não peçam a minha compreensão total, em especial se têm tempo para andarem horas a actualizar redes sociais. Em Espanha fizeram um boicote? Muito bem… mas não precisam de andar por cá a encavalitar-se na coisa. De acordo com um relatório recente, em Portugal, o tempo gasto pelos alunos em têpêcês é dos mais baixos da OCDE e menos de metade do que é em Espanha. Portanto, façam lá o favor de não se esticar em queixinhas. No sul da Europa, quase parecemos escandinavos nessas matérias.

homeworkchart

À escola o que é da escola, aos pais o que é dos pais. Não poderia estar mais de acordo, embora leve algum tempo a preocupar-me na escola com assuntos que deveriam ser de casa como, só para exemplificar, se os alunos tomaram o pequeno almoço, se estão adoentados demais para estar nas aulas, se trazem roupa adequada ao acentuado arrefecimento que se vai finalmente verificando: Entre outras coisas. A vida está difícil? Sim, e nem digam nada quando há gente arraçada em corno de cabra que, como eu, ousa ser professor e pai e está sempre a levá-las dos dois lados. Pena há que existe tanta gente que não quer fazer nada, deixar tudo aos professores e depois ainda os culpem de ensinar para uma escola do século XIX que eles nem sabem como eram, apenas aprenderam a papaguear que era assim.

Mas, por caridade, que os factos não perturbem os vossos preconceitos e as naturais conclusões pré-definidas. Como aconteceu com os alunos bem ensinados que – espanto dos espantos – disseram aos governantes tão só e apenas o que eles queriam ouvir, não faltando os lugares-comuns e as “revoltas” que só um distraído acreditará que nasceram assim, espontâneas.