Secção “Sinto-me Com Vontade de umas Pitadas de Demagogia”

Maria Emília Brederode Santos sublinha que Portugal e a Irlanda são os países desenvolvidos (da OCDE) onde mais se usa o método expositivo, o que também ajuda a explicar as dificuldades de muitos alunos e as elevadas taxas de reprovação que ainda existem no país, sem ter em conta outras formas de ensino que podem ser bem mais eficazes.

Muito Bem!

Tal como tenho sido muito crítico de algumas intervenções do secretário de Estado João Costa, a apressar-se com conclusões sem fundamento empírico claro, cumpre-me elogiar bastante o artigo que hoje assina no Público, no qual afirma, por exemplo:

A dissemelhança de resultados a ciências entre o TIMMS e o PISA (com descida nos resultados do 4.º ano e subida nos resultados dos alunos com 15 anos) mostra que é preciso analisar estes dados de forma complementar. PISA, TIMSS, avaliação interna, exames, provas de aferição são instrumentos de análise que se complementam. Os resultados contraditórios devem alimentar reflexão sobre se se estão a avaliar as mesmas dimensões e sobre a robustez dos diferentes instrumentos. Para referir apenas um exemplo, quando vemos que há uma progressão consistente dos resultados do PISA, mas os alunos portugueses não exibem o mesmo nível de progressão nos exames nacionais de 9.º e 12.º ano, devemos questionar as razões para esta assimetria e até avaliar os nossos próprios instrumentos de avaliação externa — um desafio para o Conselho Científico do Iave.

Pista de análise… a avaliação em Portugal por via dos exames não é imune às conjunturas políticas e eleitorais. Quem afirmar o contrário, parece-me ingénuo. Porque há autonomias formais, mas também há vassalidades por telepatia.

Mas aplaudo ainda, em especial, a seguinte passagem, ao arrepio de outras declarações:

Além da afronta inerente, há alguma ingenuidade quando se acha que os sistemas educativos absorvem o impacto de políticas em dois ou três anos. Olhemos de novo para estes resultados: a melhoria é progressiva e consistente, resultado de políticas de muitos anos, de investimento direto e reforço em algumas áreas específicas do currículo, de planos de formação, de práticas locais constantemente melhoradas, de professores que investiram em si e nos seus alunos, de famílias mais motivadas para a educação face ao efeito transgeracional crescente e ao investimento na formação de adultos. Não há uma medida, há um compósito de contributos. E, por isso mesmo, o sucesso escolar não tem dono. Não é deste ou daquele governo, não é desta ou daquela escola. Sempre que temos menos alunos retidos, sempre que a escola combate injustiças sociais garantindo melhores aprendizagens para todos e em particular para aqueles que nascem em contextos em que tudo concorre para que a vida lhes corra mal, sempre que tal acontece, é o país que ganha. O sucesso escolar não tem dono, porque é um desígnio nacional e, por isso mesmo, é uma vitória para todo o país.

Já o artigo, mesmo ao lado, da Joana Mortágua, de tão maniqueísta na análise político-partidária, não passa de um texto panfletário e fica muito longe de qualquer utilidade real para um debate a sério sobre estas matérias, pois parece não ter entendido boa parte do que o SE já parece ter percebido.

O ministro, claro, está em parte incerta ou não leu o briefing no fim de semana.

lampadinha21

A Família Alargada da Criança

A Bárbara Wong faz o balanço mais generoso de todos acerca dos ganhos conseguidos nos PISA 2015. Não estou a ser irónico ou sarcástico. É verdade, no seu texto faz a distribuição mais completa de méritos pelo sucesso. Felizmente, não chega a Couto dos Santos, pois nesse caso eu teria mesmo de ser jocoso. Só acho que ignora o papel dos pais, pois em 20 anos a diferença de habilitações das famílias é muito sensível e a importância dada à Educação é, apesar de todos os problemas e desânimos, muito maior.

Quanto ao resto, vou permitir-me uma discordância respeitosa em dois pontos, para não me alongar muito:

Os ganhos dos TIMMS e PISA não provam nada de particular sobre a concentração da rede escolar e os eventuais ganhos da integração dos alunos em centros (caixotes, para mim) escolares, a menos que me tenha passado algum detalhe nos relatórios, onde se identifique a tipologia das escolas envolvidas ou se faça alguma comparação entre pequenas e grandes escolas, Integro-me no grupo daqueles (não me reclamando de “pedagogo”) que acha que a deslocação de miúdos de 5-6 anos para dezenas de quilómetros do domicílio todos os dias é mais traumática do que a transição do 4º para o 5º ano, que tanta vezes se apresenta como causa (nunca comprovada empiricamente) de insucesso. Também desconheço estudos que demonstrem que os alunos assim deslocados (e não a média das escolas, pois 2 em 20 representam muito mais peso relativo do que 20 em 600) obtêm um sucesso em média superior do que o que era alcançado em escolas mais pequenas. Há dados que o ME pode usar para fazer essa comparação. Posso estar errado, mas, neste momento, não se sabe.

Quando se faz um rol de governantes que desenvolveram políticas “eficazes” ao longo destes 20 anos e que devem ser parabenizados pelos resultados, devemos ter também a mesma atitude quando algo corre menos bem. E existe aí um desequilíbrio recorrente nas análises, uma assimetria nas auto e hetero-avaliações. Como aqueles treinadores que aparecem quando é conseguida uma vitória, que apresentam como sendo da sua estratégia que os jogadores souberam aplicar, mas que na derrota responsabilizam os erros do árbitro, falhas individuais, o azar da bola da barra, mas nunca as suas opções erradas. E em Portugal existe este mal crónico… nos dias bons, todos aparecem ao sol… mas nos dias de chuvas só se molham os pobrezinhos.

CHT164569

E é assim. Eu sei que a Bárbara quis envolver todos na festa dos dias que passam. O problema é que nem sempre isso acontece quando aparecem más notícias. E todos sabemos que é assim.

A excepção é no dia dos rankings, em que se visitam três ou quatro escolas do topo e outras da base. É para a semana, certo?

Pelo Público Online – A Versão Menos Curta

TIMMS 2015: Os pais da criança

(…)

O mais curioso é que, consultados os alunos, os portugueses são os que mais elogiam os seus professores e destacam o seu empenho e trabalho (88%, um detalhe que parece menor para os políticos em trânsito), pois conhecem-no em quotidiana e diária proximidade e, a menos que sofram quase todos de uma variante da síndrome de Estocolmo, são capazes de ser os que estão em melhor posição para fazer uma avaliação com conhecimento de causa. A menos que a opinião dos alunos só conte quando são convidados a declarar que acham os currículos e os programas muito extensos.

Os pais e mães do sucesso nos TIMMS 2015 são mais do que muitos quando chegamos ao campo da política e se trata de recolher os aplausos. E, como têm direito aos microfones e às câmaras, tratam de se congratular com a auto-satisfação típica de quem se vê ao espelho pela manhã sempre tão belo e responsável por todos os bens e por nenhum dos males. O decoro já não é o que era.

PG PB

Colaborações – Bird Magazine

Enquanto espero que uma versão mais longa possa aparecer pelo Público Online:

Andava o país educativo em raro repouso quando se soube, por via da divulgação dos dados dos testes internacionais TIMMS 2015, que os alunos portugueses de 4º ano estão entre os melhores em Matemática e que no Secundário o desempenho em Matemática Avançada e em Física também é completamente contrário aos discursos decadentistas sobre o nosso sistema de ensino e a sua inadequação ao século XXI. Mesmo em Ciências, área com resultados mais fracos, Portugal é apontado como um dos países com maiores progressos desde 1995, quando se iniciaram estes testes comparativos.
 .
São boas notícias, que deveriam ser acolhidas com júbilo, por certo, mas igualmente com um espírito de partilha pela responsabilidade por tais resultados. O que realmente aconteceu, mas como é habitual entre nós, numa lógica de circuito fechado da classe política. O actual secretário de Estado da Educação, na ausência quase permanente do ministro quando se trata de articular mais do que lugares-comuns, apareceu a reclamar que tais resultados comprovam, de forma prospectiva, a bondade das opções curriculares ainda por tomar e, num acto de veneração pela papisa educacional do PS, evocou Maria de Lurdes Rodrigues e o seu Plano de Acção da Matemática. Acrescentou ainda que esta é a prova de que foram desenvolvidas “políticas eficazes”. O PSD, por sua vez, surgiu a reclamar para si a paternidade desses mesmos resultados, por via da paixão de Nuno Crato pela Matemática, desconsiderando outras responsabilidades.
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Se dermos a palavra a mais alguns ex-governantes, mesmo que com algumas picardias político-partidárias pelo meio, encontraremos uma singular confluência quanto à conclusão que foram as políticas que todos delinearam em momento de iluminada inspiração e genialidade, mesmo que aos ziguezagues e de forma incoerente entre si na última década, que estiveram na origem dos bons resultados dos alunos portugueses. Em nenhum momento se vislumbra uma declaração que, de modo claro e – quiçá! – corajoso atribua numa prioridade cimeira a responsabilidade por tal desempenho a quem o teve (os alunos) ou a quem com eles trabalhou ao longo de anos (os professores), apesar dos revolteios curriculares, programáticos e de metas que se sucedem desde o madrugar deste milénio.
 .
Os pais e mães das crianças são mais do que muitos quando chega a altura de recolher os diplomas e elogios e, como têm direito aos microfones e às câmaras, tratam de se congratular com a auto-satisfação típica de quem se vê ao espelho pela manhã sempre tão belo e responsável por todos os bens e por nenhum dos males. O decoro já não é o que era.
PG Verde

Políticas Eficazes

Ler as declarações dos nossos governantes acerca dos resultados dos TIMMS 2015 é assistir a um espectáculo a roçar o indecoroso de auto-elogio. As políticas que definiram foram as melhores, os professores tiveram de ser reeducados para os resultados, tudo resultou por causa d@s mandantes que tiveram o génio de delinear políticas eficazes. Uma palavra de elogio a professores e alunos pelo seu trabalho? Só em segundo, último ou nenhum lugar. Sem os nossos iluminados governantes, nada teria sido conseguido. Com jeitinho, remontará ao inefável Couto dos Santos tudo isto. Deprimente.

peru-real

TIMMS 2015 (Ciências, Matemática Avançada, Física)

O melhor é verem o resumo facultado pela própria organização, sem ser digerido pelo spin interno. Os resultados são muito animadores pois, mesmo em Ciências onde os resultados são menos bons, Portugal está entre os países que mais progrediu. Não se admirem se aparecer muito gente é dizer que é o pai (ou a mãe) da criança. Só entraram em salas de aula como vipes, mas certamente que o valor é todo del@s.

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