O Duplo Padrão (Ainda A Propósito Do Texto Do J. Matias Alves)

Declaração prévia de interesses: o Matias Alves foi um dos primeiros a convidar-me para escrever fora do Umbigo sobre Educação, na altura para o Correio da Educação das Edições Asa. O outro foi o José Manuel Fernandes para o Público. Nunca, qualquer deles me criou o mínimo obstáculo aos textos enviados. Do JMF já explicitamente discordei fortemente em várias ocasiões. Relativamente ao JMA, apesar de ler muita coisa que me arrepela as sinapses e sensibilidades, em especial desde que abraçou a “municipalização” com as duas mãos, tenho tentado manter alguma reserva, por esse respeito com cerca de 15 anos. Mas há limites, em especial quando a argumentação, mais do que chamar falaciosas às posições de que discorda, é marcada por uma evidente falta de consistência e o recurso a um duplo padrão “moral” na análise das situações.

Eu explico: estamos de volta ao tema da “confiança” nos outros. JMA reserva toda a sua confiança para quem, nas escolas, ele considera líderes “legítimos” e qualifica como “forças de bloqueio” quem se ergue contra a vinculação directa de docentes pelas escolas. Repito uma passagem já abaixo usada, quando JMA afirma que duvidar da transparência e lisura das decisões das actuais lideranças escolares é “a evidência da desconsideração profissional, um atentado à autonomia organizacional e à liberdade de decidir e responder pelos atos que se praticam“.

Mas JMA já não se coíbe de lançar a desconfiança e desconsideração sobre as instituições do ensino superior que formam professores, ou pelo menos sobre algumas, quando escreve que “não é verdade que as classificações profissionais produzidas nas mais diferentes e díspares instituições sejam equivalentes. Uma classificação de 14 na instituição A não tem o mesmo valor que na instituição B”. Algo com que eu posso concordar, assim como concordarei que os processos de selecção de docentes podem ser transparentes em tantas ou mais escolas do que naquelas pnde serão profundamente opacos.

Mas sobre isso JMA não levanta reservas, apenas sobre a “igualdade formal” em que ficam os candidatos à docência com base na classificação académica. Ao que parece, nesse caso, não existe “a evidência da desconsideração profissional, um atentado à autonomia organizacional e à liberdade de decidir e responder pelos atos que se praticam” sobre quem trabalha nessas Universidades e avalia os alunos. Ou melhor, provavelmente as instituições A são boas e as B são más, só sendo pena que não nos diga quais são, porque sempre se poderia ficar a perceber melhor do que fala. Ou de quem fala.

E há ainda por aqui um evidente duplo padrão, que é agravado com uma passagem em que declara que “a existência de um sistema que coloca pessoas que vão cuidar de crianças e adolescentes sem garantir o equilíbrio mental, a capacidade relacional e formativa”.

E isto é algo que me ofende pessoal e profissionalmente, porque eu fui colocado (não propriamente para “cuidar de crianças”) por esse sistema que JMA (que durante muito tempo trabalho no ME e até foi professor no Ensino Secundário, mesmo se no seu currículo oficial isso não surja explicitado) considera que não garantiu o meu equilíbrio mental ou a minha capacidade relacional e formativa para exercer a docência (e não para ser “cuidador de crianças” por muito que a expressão possa comover algumas almas mais fofinhas do que a minha..

Isto é profundamente ofensivo, mas não apenas para mim, como é perfeitamente evidente. Porque a “lama” é atirada de forma indiscriminada neste particular, enquanto quando se fala das lideranças escolares, nada surge sobre a forma como essa escolha é feita e com que (falta de) garantias e (excesso) de intromissões externas ocorre em tantos casos.

Pior que falacioso, o argumentário de JMA é enviesado. Poderia ser lírico, mas duvido que ele desconheça os abusos que andam por aí. Aliás, ele até já escreveu sobre isso, mas agora achou por bem branquear por completo aqueles que apresenta, imaculadamente, como “órgãos legítimos e próprios”. JMA sabe que essa “legitimidade” é altamente contestável e que muita coisa má. Pouco transparente e, em casos que vamos considerar no “limite”, para evitar mais fricções, são de clara irregularidade e abuso.

Lamento, mas até a mim a paciência se esgota. Até porque só gosto da ‘Hallucinaville nos livros.

6ª Feira

Andamos cá por casa, numa espécie de ritual diário, a ver ou rever a já clássica série Monk, sobre um detective com um transtorno obsessivo-compulsivo maior do que a cidade de São Francisco onde a acção se passa e uma memória de tipo eidético. A esse respeito, de se lembrar de quase tudo o que viu, leu ou ouviu, ele costuma dizer “it’s a gift… and a curse” ou “it’s a blessing anda a curse”.

Felizmente, os meus distúrbios mentais estão à escala da minha vilória original e a minha memória tem altos e baixos, embora muitos dos pontos altos sejam realmente uma benção (não preciso de ir à pressa googlar uma série de coisas ou imediatamente à procura do livro ou revista onde li determinada coisa), mas também uma maldição (lembro-me de coisas que muita gente gostaria que ficassem no esquecimento, em especial quando remontam a tempos pré-internet de banda larga).

Isto a propósito de me lembrar que, há quase 20 anos, o ministro David Justino ter tentado reformular o concurso para colocação de professores, introduzindo diversas alterações, algumas das quais visavam acabar com o que foi designado como “os horários dentro da gaveta” que os conselhos executivos não tornariam disponíveis de imediato, guardando-os para os mini-concursos, altura em que apareciam a concorrer as pessoas “certas”. Uma outra justificação era que alguns desses horários apareciam propositadamente incompletos, para que nem toda a gentes a eles se candidatasse, enquanto @s conhecedor@s sabiam que, mal chegassem à escola em causa, as 4-6 horas em falta surgiriam quase por milagre. Não era uma acusação descabida, pois se chegasse alguém imprevisto as horas nem sempre apareciam, como poderá confirmar o meu registo biográfico que contém pérolas como 11 meses com 21 horas, enquanto no grupo disciplinar ao lado (e que permite leccionar uma disciplina comum) alguém saltou rapidamente de 12 para as desejadas 22 horas.

Desonestidade? Corrupção? Não me parece. Em alguns casos, mera preocupação com o destino de pessoa estimada. O bom e velho modo de estar português, que permite “desenrascar” as coisas. Ou… se fosse agora… o cuidado em esperar/escolher a pessoa com “o perfil de competências certo” para o lugar. Naquele meu caso específico, ninguém por lá me conhecia… até tinha estado a dar aulas em outro nível de escolaridade, num “contexto” talvez não tão “desafiante”, não tinha uma “formação específica”, pois estava a fazer ainda a parte curricular de um mestrado fortemente centrado em “conteúdos” de História.

O que a mim mais espanta em tudo isto é encontrar quem fez bandeira do combate aos “horários dentro da gaveta” do lado dos que consideram que se deve “localizar” a contratação e mesmo vinculação de docentes. Mas então o sistema é “centralizado” e “ineficaz”? Mas é a “territorialização” do recrutamento dos docentes que permite abrir mais vagas ou multiplicar o número de professores? Não me parece, excepto em casos a que já nos últimos dias aludi, nomeadamente as situações de franca “autonomia” que as direcções já têm na gestão da sua busca de recursos humanos para certas “necessidades educativas” ou serviços específicos de ocupação dos alunos ou “combate ao insucesso e abandono escolar”. O curioso é ver quem achava que antes havia clientelismo e práticas de nepotismo, agora ao lado de quem, qual vestal maculada em seu manto, clama pela honestidade geral. Ou mesmo a apoiar iniciativas municipais que culminam na contratação de “recursos” á medida das conveniências pessoais ou políticas, desculpem, das necessidades dos alunos.

Claro que há aquelas pessoas que nesses tempo nem andavam por estas andanças – há quem, em funções executivas, me lembre apenas desde que fez uma curiosa primeira visita a uma escola dirigida por um velho amigo (a quem interessava muito “projectar” a sua escola em acelerado declínio), mas isso faz parte do tal modo de estar português de nos lembrarmos dos nossos amigos. Mas há quem ande há mais tempo nisto e, como acima escrevi, por vezes é uma maldição lembrar-me do que disseram e fizeram em Primaveras passadas.

Eu Também Não Desconsidero Os Professores, Que Na Maior Parte Dos Casos Não Têm Culpa Das Aleivosias Em Decurso

O ministro Costa é que duvida da qualidade da sua formação académica e acha que isso se cura com vinculações decididas á la carte por directores que ou não dão aulas há décadas ou fizeram formações de aviário em gestão escolar. O ministro Costa é que costuma duvidar das situações de saúde dos professores e nos “padrões irregulares” da suas baixas, embora devesse saber das razões que explicam o regresso de muita gente no verão. O ministro Costa é que duvida da experiência acumulada na prática pedagógica e acha que ela vale menos do “formações específicas” feitas, tantas vezes, pelos seus amigos do coração na área da formação afunilada.

O ministro Costa faz bem em não desconsiderar os professores, porque quem anda a praticar as maiores tropelias são certas “lideranças” que ele protege e a quem quer dar mais poder. O ministro Costa faz bem em não partir do princípio que as pessoas são desonestas porque, como bom sonso que é, acorda todos os dias num país que não é o nosso, no qual as queixas de gente honesta são ignoradas pelos serviços da tutela (se quiser, alinham-se aqui já uns quantos exemplos, com testemunhos na primeira pessoa. Porque, verdade se diga, “as pessoas” não são todas desonestas. Só algumas. Pena é que muitas – felizmente não todas e acredito que não sejam a maioria – estejam em posições de poder decidir o futuro profissional alheio, sem qualquer “formação específica” para isso. Pena é que muitas ameacem os antigos colegas com processos disciplinares, com inspecções e sublinhem que têm linha directa para a 24 de Julho.

“Eu, por sistema, não desconsidero os professores. Não parto do princípio de que as pessoas são desonestas”, contrapôs João Costa, sublinhando as injustiças do modelo actual, no âmbito o qual os professores são colocados com base numa lista nacional, em que estão ordenados em função da sua graduação profissional. “Neste momento sabemos que o modelo de contratação de professores olha para o professor em função da sua nota de fim de curso e dos dias que trabalhou [variantes do cálculo da graduação profissional]”, criticou, frisando também que esta “dimensão até desvaloriza” os professores que investem em formações específicas.

Foi este modelo de contratação de professores que permitiu a melhoria dos resultados dos alunos portugueses nos testes internacionais, que uns dias interessam e nos outros não interessam nada. Foi a transparência deste modelo de c recrutamento de professores que distinguiu a Escola Pública das práticas de muitas escolas privadas que o ministro Costa critica nos dias ímpares, mas cujas práticas quer replicar. Pelos vistos, o ministro Costa acha que a “graduação profissional” não é o critério mais adequado para escolher as pessoas para a profissão em que se foram “graduando”. Devem deixar-se os critérios a gente que – pelo que tenho lido em mais casos do que pode parecer – mal sabem escrever uma acta ou escrever um parágrafo com duas ideias sem tropeções.

No meu caso, que me desculpem, duvido explicitamente da honestidade intelectual de quem nos quer acreditar que vivemos num país de conto de fadas. E não tenho problema nenhum em dizê-lo, com a maior das calmas, na cara de quem disser que já neste momento os centralismos locais já não andam a fazer o que entendem na área da contratação de “técnicos especializados” para “ofertas educativas” à medida de certos “perfis de competências”. E não vou fingir que desconheço o que se passa efectivamente, para dar um ar de algodão doce para a a comunicação social.

2ª Feira

Afinal não são pouco mais de 600 mas quase 2000 os horários por preencher (mais os que ainda não puderam ser colocados na plataforma) e a maior carência em Geografia e Físico-Química e não apenas em Informática. A falta de docentes de Geografia não se deve a carreiras mais atractivas para os respectivos licenciados, porque é preciso seguir a via de ensino para dar aulas e entrar para o quadro. O problema é que, quando da repartição de horas entre História e Geografia, por questões de maior poder junto dos decisores, foram reduzidas as horas daquela (sem falta assinalável de docentes) e aumentadas as desta (que já então tinham dificuldade em preencher os horários que havia). Até me lembro de ser exigido que pudessem leccionar H.G.P. em paridade com o pessoal de História. Só que não havia “oferta” suficiente e tudo foi uma jogada de poder da A.P.G., com gente bem colocada na DGIDC e outros meandros do ME, enquanto a APH se satisfaz em circuito fechado com umas palmadinhas nas costas e convites para umas formações. Isto não significa uma menorização da disciplina e professores de Geografia, mas apenas a constatação de factos. Tal como com TIC, não adianta criar horas no currículo se depois não é possível assegurá-las com pessoal devidamente qualificado.

Quanto aos horários por preencher, muito haveria a dizer sobre o modo como o ministro Costa tem gerido as coisas, evitando a acumulação de horários na plataforma, ao não permitir que certos horários de substituição sejam disponibilizados logo que são necessários. E, por favor, não me digam que isto é não é verdade, porque há casos bem concretos que muit@s director@s poderiam confirmar, não fosse o medo de ficarem mal na avaliação.

Isto Merece Um Post Pós-Música

“Vai ser possível”? Já não era? O ministro Costa excede-se a si mesmo na sonsice e no anúncio da novidade de outrora. Há anos e anos que este é o calvário de muitos contratados. No final do ano passado não diziam exactamente o inverso, ou seja, que uma escola poderia completar um horário a um professor que viesse ocupar o lugar de alguém com redução da componente lectiva?

Se é isto que é anunciado é um retrocesso e o ministro mente (não há outra forma de apresentar a coisa) se anda a anunciar isto como novidade. O desespero e a falta de ideias, a incapacidade, que vem de trás, para encarar o que está verdadeiramente errado na gestão dos recursos humanos docentes, vai-se tornando um espectáculo deprimente para quem conhece a realidade e sabe que isto é uma total mistificação da opinião pública.

Não é embirração ou “perseguição, como o ‘tadinho” gosta de classificar quando se lhe descobrem os factos alternativos, é mesmo porque isto é de uma imensa falta de vergonha na cara. Leia-se, por exemplo a Circular nº B18001934D (de 2018) sobre a contagem de tempo de serviço em casos de “acumulação de horários incompletos em mais de uma escola”. A acumulação de funções, já fora definida pela Portaria 814/2005, que regulamentava o artigo 111º do ECD de então. A versão de 2012 não mudou nada de essencial.

Aqui podem encontrar-se diversos esclarecimentos e exemplos de casos, remontando a 2013.

Um belo discípulo da “reitora”, com um belo futuro de recompensas pela frente, porque só faz esta figura quem sabe que o tem assegurado.

Vai ser possível os professores acumularem horários em diferentes escolas – uma medida que tem como objectivo diminuir o número de alunos sem professor. De acordo com o ministro da Educação, a aprovação desta norma está para breve.

Pura Demagogia

Com a conivência de Daniel Oliveira, que sabe tudo sobre Educação, menos fazer as perguntas certas no momento oportuno. João Costa tem mais de uma hora para se espraiar, começando por atribuir a saída de 30.000 professores ao “memorado de entendimento” com a troika que, segundo ele, obrigava a despedir professores. Estive a relê-lo e não encontrei essa referência explícita na secção relativa á Educação, mas há algumas coisas inegáveis: 1) o número total de professores diminuiu bastante, mas principalmente com a redução de contratados (as aposentações andaram pelas 10.000 entre 2012 e 2015; 2) Já em 2018 o Arlindo apresentava a projecção das aposentações até 2023 e sucederam-se avisos acerca disso; 3) o ministro Costa tem uma relação complicada com os factos que não encaixam da “narrativa” auto-desculpabilizadora.

Depois diz que andou a vincular “mais do que os que seriam necessários”, mas a verdade é que em 2021 o número de docentes é igual ao de 2013. Claro que fala na proeza do descongelamento, sem falar em quem procedeu ao congelamento.

Depois, o Daniel Oliveira deixa passar em claro o discurso do “estamos melhor do que as previsões”, “lá fora é pior” ou que que foi João Costa a inventar a recondução dos contratados. Seguiu-se a questão das habilitações, em que se nota a habilidade do ministro em dar a volta ao assunto, repetindo chavões e dizendo que “sempre tivemos professores com habilitação própria”, como na conferência de imprensa disse que “sempre começámos os anos lectivos com falta de professores”.

Ali, pelos 26-27 minutos’, João Costa entra completamente em roda livre com o elogio de ele e os filhos serem “filhos da escola pública” e de nunca, agora ou antes ter feito qualquer declaração (afirma mesmo “frase”) de “menorização” ou “desvalorização”! dos professores. Foi quando me lembrei da parte em que mais do que insinuou que os professores recorrem a baixas fraudulentas e atestados falsos para obterem mobilidade e desisti de ouvir mais.

De acordo com o ministro da Educação, João Costa, os pedidos passaram de 128 para 8818 numa década. Trata-se um crescimento entre 15 a 20% por ano, havendo casos em que os docentes se deslocaram para uma escola “na mesma rua”. 

De acordo com o governante, trata-se de “uma média apenas ligeiramente superior ao resto da administração publica”, mas com “uma distribuição assimétrica ao longo do ano letivo”. Há “casos de mais difícil substituição”, com “dificuldades induzidas pela suspensão e retoma de baixas com apenas um dia de intervalo”.

Segundo João Costa, os professores que mudaram de escola por motivos de doença passaram de 128 para quase nove mil numa década, havendo casos em que se deslocaram para um edifício na mesma rua.

(…)

O ministro lembrou ainda que cerca de 10% dos professores em mobilidade por doença acabou por fazer “deslocações entre escolas do mesmo concelho, por vezes na mesma rua”.

“Acresce ainda a necessidade de verificar situações de baixa médica que suscitam dúvidas pela sua duração e/ou momentos em que se iniciam e terminam”, explicou o gabinete do Ministério da Educação.

A propósito desse tema, o Ministério da Educação já tinha anunciado há cerca de um mês que seriam constituídas 7.500 juntas médicas para verificar situações de professores em baixa médica que “suscitam dúvidas”.

“Estamos na fase de adjudicação”, disse hoje João Costa, que esclareceu que o objetivo é avaliar padrões irregulares nos pedidos de baixa, casos que, segundo o ministro, criam “muita instabilidade na escola” e prejudicam os professores em regime de substituição.

Se insinuar que os professores apresentam atestados falsos, que os próprios não elaboram, não é “menorizar” é porque é coisa pior. quanto aos “padrões irregulares” de certas baixas, eu até explicaria porque as pessoas voltam e tornam a partir um ou dois dias depois, mas o ministro sabe porquê (ou devia saber) e se os professores substitutos não podem ficar nas escolas, a responsabilidade é das regras impostas pela tutela.

Mas não vale a pena… a sonsice é já um traço permanente na retórica deste governante, alinhando com o seu primeiro homónimo.

Quanto ao Daniel Oliveira, o modelo podcast sempre evita que vejamos aquele gesticular com que dá a entender que aquilo que diz é mais do que uma verdade, é a única possível.

O Especialista Em Meias-Verdades Sonsas

Estive a rever o pedaço que a RTP3 transmitiu da conferência de imprensa do ministro Costa que, a par do deputado Silva de sua graça Porfírio, se destaca como um dos nossos principais especialistas em dizer verdades pela metade, envolvidas em truques de retórica e números que parentam rigor, mas depois não é bem assim.

A transmissão já o apanhou em andamento e largou-o quando acharam que, mesmo depois de morta, a Isabel II é mais interessante. Pelo que apenas posso comentar esse interlúdio.

Ora bem… de acordo com o ministro já foram feitas 4416 colocações, correspondendo a mais de 2000 substituições, aproveitando logo para dizer que estão em “adjudicação” juntas médicas para “vigilância de padrões irregulares” em baixas que ele diz serem interrompidas “durante o Verão” (a insinuação que por ali passa é óbvia, mas é verdade que é ampliada por alguns coisos que por aí andam de dedo em riste, raramente indo além de um ou dois exemplos), prejudicando professores contratados, esquecendo-se de acrescentar que foi o próprio ME a exigir, de há uns anos para cá, que mal terminassem os atestados e voltassem os professores “titulares” se mandassem embora os contratados, contra a opinião de muita gente.

Acrescentou que este ano existe um ganho de eficácia de 50% na RR2, graças às medidas adoptadas pelo governo nos últimos meses, o que de alguma forma é um atestado de incompetência ao seu antigo chefe de equipa, que não terá tomado esse tipo de medidas, pois também disse que é desde 2019 que se verificou o aumento das aposentações e, cito, um “aumento exponencial” da redução da componente lectiva dos docentes, o que revela até que ponto a iliteracia matemática vai neste país, pois a progressão da dita redução é de apenas 2 horas aos 50 e 55 anos de idade e de 4 só quando se chega aos 60 anos, num limite de 8 horas.

Sim, já sei, foi uma forma de expressão, mas foi introduzida para dar a sensação de um crescimento descontrolado e sem limite, quando não é de nada disso que se trata. O crescimento é aritmético, previsível e com um limite pré-definido. Sim, o homem é de Letras, mas eu também sou. E tem gente no gabinete que lhe pode explicar as coisas. Ou então tem, mas é para lhe aperfeiçoar estas habilidezas da treta destinadas a passar culpas para a malandragem dos professores que só trabalham no Verão e cujo horário tem reduções exponenciais.

Seguiram-se números sobre os efeitos das medidas tomadas nos últimos meses: 1104 reconduções de professores contratados (pensei que fossem mais), 350 docentes a quem não foi renovada a mobilidade estatutária em autarquias, clubes e etc. Lembremos que o ministro Costa pretendia “reduzir enormemente” os 2000 docentes que estaria nesta situação. Ao que parece, por “enormemente” entende-se menos de 20%. Nunca esperei que fossem muitos mais, porque a maioria de quem assim está é porque tem uma boa conexão no “sistema”. Falou ainda em 300 professores a quem foi majorado o horário, o que é um número ínfimo. E em 100 professores de Informática (a disciplina é TIC, o grupo é que é de Informática) já contratados.

A partir daí passou a tratar uma previsão da Pordata, feita por uma ex-chefia de topo do ME, como se fosse uma espécie de previsão que seria importante não cumprir e garantiu que perante tal “cenário preocupante” da falta de professores para 100.000 alunos, se já conseguiu uma redução de 40%. Ou seja, reduziu-se em 40% algo que ainda não se verificou. e acrescentou uma distinção quase subtil entre professores em falta para dar aulas e “horários por atribuir” porque, de acordo com ele, boa parte desses horários será para “apoios, projectos, clubes” e etc, o que para mim é uma novidade, a menos que seja em escolas teip com mais projectos do que disciplinas.

Mas como o seu labor é imenso já contactou “Universidades” e “Centros de emprego” porque parece que andam por aí milhares de licenciados que podem dar aulas, mas não sabem como. Ao que parece, isso inclui pessoal formado na área do Ensino, o que, a ser verdade, nos fará pensar no que andaram a aprender anos a fio, se nem sabem como concorrer para dar aulas. Ahhh… e não me supreendendo nada deu o exemplo dos seus conhecimentos na área da Geografia, declarando que de acordo com uma pessoa sua conhecida “há geógrafos desempregados”, mas que não sabem que há horários para dar aulas disponíveis. Nesta altura, eu já não sabia se deveria rir-me ou simplesmente bater com cabeça na televisão.

Numa transcrição que encontro no Expresso pode ler-se que o ministro Costa afirmou que “98% ou mais dos alunos arrancam o ano letivo com aulas” a todas as disciplinas“.

O que significa que tenho um azar do caraças. No CTurma de 5º ano da minha DT, na próxima 2ª feira, quando fizer a reunião de caracterização da turma, vão faltar 4 docentes, correspondendo a 5 disciplinas. Nenhum dos casos corresponde a baixas interrompidas no Verão. Quase todos os casos correspondem a situações (conhecidas há muito) de serviços moderados definidos por Juntas Médicas ou atestados de longa duração que não foram interrompidos para banhos. E isto aconteceu por todo o país. O ministro Costa decidiu apagar esta parte da narrativa. Mas já sei que dia 16 estará tudo resolvido, pois até nem há falta de professor de TIC.

Por certo, é a velha história das médias….alguém deve ter comido os frangos todos, porque a mim falta quase uma mão cheia deles. Mas eu tenho uma proverbial falta de sorte, porque já em 8 de Abril de 2019, no balanço do 2º período, escrevia que:

O trabalho com a turma tem sido sofrido alguma instabilidade desde o início do ano letivo, em diversas disciplinas, na sequência da necessidade de substituição e dupla substituição de docentes, o que tem conduzido a períodos sem aulas numa ou mais disciplinas em simultâneo. Foi o caso, neste período, das disciplinas de Francês, Inglês e Geografia, o que também explica o diferencial entre as aulas previstas e dadas.

As coisas melhorariam pouco (até ficariam piores em Português) e em Dezembro de 2019, a terminar o 1º período, com a mesma turma, já no 8º ano, os problemas continuavam:

A turma está sem aulas das disciplinas de Francês e Geografia desde o início do ano letivo, o que agrava as dificuldades já verificadas no ano letivo anterior, em que as mesmas disciplinas foram lecionadas de modo intermitente por três docentes diferentes cada uma delas.

No 3º período, nem seria possível atribuir classificação naquelas duas disciplinas, porque o problema da falta de docentes nunca seria ultrapassado ao longo do ano. Mas, como digo, devo mesmo ter um azar do caraças e fazer parte dos outliers quando se calculam as médias destas coisas. Ou então “só vejo o meu quintal” e “só olho para o meu umbigo”, para parafrasear pessoas muito imaginativas nas suas críticas ao que escrevo.

O que o ministro Costa disse é tudo mentira ou mistificação?

Claro que não.

Nada como a proporção certa de verdades, meias verdades, omissões e truncagens para transmitir a impressão desejada, sem nunca dizer uma mentira completa. è preciso a tal habilideza e a já demonstrada sonsice.

A Esta Hora, A Maioria Da População…

… já deve estar a perceber melhor o estado de espírito dos professores em algumas matérias, em especial, aquele do toma lá um, dá cá dois. E por uma vez, de forma rápida, a comunicação social e alguns “especialistas” conseguiram desmontar a aldrabice do pacote para as “famílias” e “anti-inflação”, que mais não passa, no principal, ou seja, no caso das pensões, de um adiantamento por conta de pagamentos futuros que não serão feitos. Embora a analogia não seja a melhor, lembrei-me da questão do tempo de serviço, não pela “mecânica”, mas pela operação mediática de mistificação da opinião pública. Por uma vez, repito, a desmontagem do “truque” demorou pouco tempo e já se percebeu que a mão que anda a agarrar com força o acréscimo de receitas fiscais, não larga nada que não consiga recuperar.

Por um lado, é bom que comecem a perceber que se isto é assim ao fim de poucos meses, nem é bom pensar do que esta maioria absoluta costista será capaz.

Meio Flik-Flak À Rectaguarda

Afinal, coiso e tal, os problemas não são apenas nossos e aqueles 97,7% são capazes de não ser bem 97,7%, se calhar nem 90%, mas isso agora não interessa nada, porque na Europa também andam mal e com o mal dos outros a malta justifica-se logo.

O ministro da Educação disse esta terça-feira que espera ter um arranque de ano letivo com tranquilidade, mas “sem ilusões”, porque em todos os anos letivos “há sempre necessidades de professores que surgem”.

“Sabemos que infelizmente, não só em Portugal mas em toda a União Europeia estão a acontecer dificuldades de substituição de professores. Mas, com as várias medidas que temos vindo a desenvolver desde o final do ano letivo do ano passado, estamos a fazer tudo para mitigar as carências que existem”, disse João Costa aos jornalistas à margem da sessão solene de abertura do ano letivo, promovida pelo município de Castelo Branco.

O problema não é o que diz agora estar certo ou errado (até porque é por demais óbvio), mas sim ter andado a promover uma mistificação até há pouco dias.

Hoje Vai Ser O Dia Do Anúncio…

… de uma série de medidas, das quais 30% não sairão do papel, 30% não serão implementadas na sua totalidade ou sequer perto disso, 30% terão a ver com a necessidade de fazer estudos para assegurar que serão bem implementadas, 30% para monitorizar a forma como estão a ser implementadas, 30% para avaliar como foram implementadas e 30% vão sair à casa, que é sempre onde fica uma boa parte disto tudo.

Quem acha que tudo isto soma mais de 10% é porque ainda não percebeu nada da Matemática para o Sucesso ou de Finanças Públicas para o Bolso Sempre dos Mesmos.