Sábado

Ainda se lembram de por cá ter sido considerado “rotineiro” o fornecimento de dados de manifestantes à embaixada da Rússia? Pois… parece que agora querem que o primeiro desculpabilizador de tudo (que depois perceberia que era melhor mudar de posição) seja uma espécie de super-ministro. Entretanto, o bode expiatório de então, está em processo de recuperação por Moedas. Já a lei que disseram estar na origem do “Russiagate” parece não ter sido mudada, pelo que o melhor é não tentar perceber nada disto.

O Tédio Como Defesa Da Saúde Mental

Estava a ler mais uma prosa de outro economista transformando em especialista instantâneo em Educação e “aprendizagens perdidas” por causa da pandemia. É o bostoniano hifenado Aguiar-Conraria, que faz uma espécie de reflexo no Expresso da economista Peralta, ambos subitamente compungidos com os imensos males que as pausas escolares fazem nas crianças mais desfavorecidas. O texto contém diversos disparates e afirmações carentes de demonstração, mas ele já afirmou que não receia dizê-los (aos disparates), pelo que me passou logo parte da vontade de contraditar aquelas certezas formatadas pelos preconceitos. Por outro lado, muito daquilo não é novo e já me entedia tentar explicar o bê-á-bá das coisas a gente que alia a pesporrência a uma arrogância académica nascida de se ser do “superior”. Falam em estudos, mas raramente os dados confirmam realmente as conclusões que apresentam e há momentos em que tentar contraditar quem assim argumenta chega a ser um atentado à nossa saúde mental e eu já tive a minha conta a esse respeito nos últimos 15 anos (para falar apenas em anos-blogue), parecendo-me escusado voltar a martirizar-me a tentar fazer entender algo que vai contra as crendices de quem já decidiu o que está certo e errado.

(basta ver que há quem fale em meses a fio de escolas fechadas, quando em 2020 fomos dos que tivemos as escolas fechadas abaixo da média; entretanto, a situação actual está representada aqui, com Portugal a fazer parte dos países que se considera não terem ainda tomado quaisquer medidas restritivas ao contrário de boa parte da Europa Ocidental)

Há muitos anos que há quem se lamente que os alunos podem fazer um percurso de “sucesso” com imensas “aprendizagens por realizar” em variadíssimas disciplinas. Mesmo naquelas em que atingem a “positiva”, pode haver o caso de até nem ter feito mais de 50% das aprendizagens previstas e/ou desejáveis que, graças às “atitudes” e ao emaranhado das justificações burocráticas, passam de ano. E não me venham com tretas, que não é assim, que se assim é a culpa é dos professores que não se esforçaram. Não se esforçaram uma m€rd@, ok, que o ónus da prova e da culpa não poem ser só dos malandros que um dia decidiram passar de alunos a professores “não-superiores”, tendo perdido praticamente toda a muito exaltada presunção de inocência ou o benefício da dúvida quando algo corre mal. O sistema está montado para fingirmos sucesso, fabricarmos sucesso, quantificarmos sucesso. Mas, mesmo se muita coisa melhorou nos PISA (e quer-me parecer que anda por aí muita tentativa de pré-justificar potenciais derrapagens futuras), a verdade é que as “aprendizagens” realizadas efectivamente estão longe de ser satisfatórias ou boas. Portanto… a pandemia piorou as coisas? Sim, piorou o que já não estava bem. Podia ser de outra maneira? Não sei. Mas é por causa de algumas semanas sem aulas presenciais que é o descalabro? Não propriamente, porque esse descalabro resulta em boa parte das políticas dos últimos anos e da falta da devida preparação desde 2020 para as novas vagas pandémicas.

Portanto, em defesa da minha saúde mental, ainda bem que o tédio me desencorajou a réplica mais detalhada e específica sobre os preconceitos que alguns economistas estrangeirados apresentam como evidências certificadas sobre as aprendizagens “perdidas” das criancinhas em Portugal, branqueando dessa forma o falhanço das políticas sociais da governação dos últimos 5-10-15 anos. A realidade das “desigualdades” tem origens bem mais profundas e endémicas do que esta ou aquela interrupção do ensino presencial.

Em Bicos De Pés

É curioso quando um secretário de Estado acha que, mais ou menos de saída, deve responder ao líder da oposição, colocando-se assim no plano curioso de se armar em ministro ou ainda mais do que isso. Foi o que fez João Costa em defesa das políticas educativas que são como as meninas dos seus olhos. Já aqui bati o suficiente em Rio, mas sem usar terminologia demagógica, como falar em “exames”, “expulsar alunos” ou “explicações” (deve ter emperrado no “ex”) por tudo e nada para apoucar as opiniões adversas. Sinceramente, seria mais interessante que viesse explicar a lógica do despacho de 6ª feira em que, no final do 1º período, dá carta branca para as escolas amigas retorcerem o currículo de forma a conseguirem esconder a falta de professores, falando em “inovação” e “disciplinas agregadoras”, quando se trata de puro truque e mistificação. Até porque já há uns bons dias quem com ele terá discutido estas coisas (ou disso teve conhecimento prévio) as referiu publicamente como formas de combater a escassez de professores em alguns grupos disciplinares e nunca em termos de “inovação” curricular. Se a Rio falta quase tudo em matéria de conhecimentos sobre Educação, há quem use os seus conhecimentos para enganar a opinião pública. Como o deputado Silva, que também achou por bem colocar-se em pontas nas páginas virtuais do Observador, veja-se lá onde, usando exactamente o mesmo tipo de vocabulário (“exames”, “explicações”), típico de uma cartilha. Ingratidão evidente quando se chama hipócrita a quem consigo votou medida atrás de medida contra as justas reivindicações dos professores.

Domingo

O que faz certas criaturas mentir, sem qualquer hesitação, sobre aspectos que são bem claros em relação aos professores? E fazê-lo de forma repetida, apesar de avisos, esclarecimentos, tentativas de diálogo para que entendam que estão a mentir? De início, pode pensar-se naquela mistura de arrogância e ignorância típica de quem se acha filh@ d’algo. Mas ao fim de anos, já não existe a mais ínfima possibilidade de dúvida: mentem porque querem, mentem de forma consciente e mentem para atingir propósitos como enganar a opinião pública e enxovalhar uma profissão. é gente que anda de cara lavada em jornais de referência e com evença em televisões públicas e privadas que parecem não se incomodar com o que vai além da “opinião”, porque opinião é uma perspectiva sobre factos e outra coisa é inventar factos para justificar verborreias descabeladas. Há quem o faça porque ganha pontos lá na tertúlia de iluminados (estou a pensar em certos “liberais” que vivem de contratos com o Estado, central ou local) e há quem o faça por uma desafeição malsã que parece corroer-lhes o que seria alma em pessoa normal (ocorre-me um dos tais filhos, que talvez esteja a ter uma temporada de vendas menos conseguida). Há ainda quem o faça por falha de carácter, preconceito tenaz, recorrente burrice. A coisa torna-se mais grave quando se trata de gente que se diz “jornalista” e/ou que tem responsabilidades editoriais e pode condicionar a forma como são apresentadas as “notícias” que mais não passam do que amplificações dos dossiês que lhes são enviados. Porque se há coisa triste que aconteceu nos últimos quinze anos, foi o modo como – salvo honrosíssimas excepções – a Educação passou a estar entregue a malta “generalista” que é bem mais permeável ao “encaminhamento” das prosas alegadamente “informativas”.

Sábado

O estudo ou o que passa por ser “investigação” sobre Educação em Portugal padece dos males típicos da nossa sociedade pobre, sempre com necessidade de “engenhar” a sobrevivência ou algo mais. São raros os investigadores que tratam a Educação com campo de estudo para obter conhecimento, em especial em relação aos que a usam como campo de batalha político-ideológica ou como via de acesso a contratos públicos ou subsídios com origem em presentes ou pretéritas bazucas. Infelizmente, temos investigadores que, mais do que corresponder a uma encomenda de estudo analítico sobre um tema, procuram satisfazer a necessidade do encomendador em termos de conclusões. Ou legitimar a sua própria agenda ou mesmo o seu passado, quando transitaram pela política. Por isso é que, com poucos anos de diferença e sem que nada de especialmente novo tenha acontecido, mudem de análise sobre um dado fenómeno acerca do qual se enganaram (ou nos quiseram enganar) no passado ou no presente.

Acho especialmente repulsivo trânsito, sem qualquer período de nojo, entre as condições de “investigador” ou académico, decisor político e consultor de outros decisores ou “investigador” com estudo/tese/modelo a vender/ser financiado pelas instâncias certas, que cada vez mais são a nível local ou intermunicipal. Ver um antigo governante a servir de consultor de uma ou outra autarquia da cor certa (ou com o acesso certo a verbas chorudas), para legitimar medidas baseadas em “investigações” à medida dá-nos a medida certa da nossa pequenez. Porque uma coisa é fazer estudos adequados a cada realidade e por eles justamente receber, outra ter acesso privilegiado a dados, criar uma espécie de estudo-chapa 5 e andar numa de oliveira da figueira a ver areia no deserto.

Este “ciclo político” não é inovador nessa matéria, pois é prática antiga. Consigo recuar aos anos 90 (no mínimo) e encontrar exemplos similares. A escala do despudor é que é nova. Com a agravante de se estabelecer uma aliança nem sempre perceptível para a opinião pública entre quem decide e quem “investiga”, assente em interesses comuns, cruzando o ideológico com o financeiro. Quem tem metade de uma orelha e um olho vesgo dentro do “meio” sabe quem são e consegue distinguir o bom trigo da verdadeira investigação (quase sempre de gente pouco conhecida) e o joio das encomendas a preceito. Quantas vezes disse, ao saber da existência de um “estudo sobre” a ser feito por dado grupo ou coordenado por determinada figura, que poderia escrever as conclusões antes de sequer ver os dados e, humildade não me sobeje, acertei em cheio?

Mesmo quando aparecem com muitas fórmulas e aparato de quadros com dados aparentemente fidedignos, mais não temos do que fumaça? Não é que eu tenha pretensões sobre uma objectividade “científica” absoluta neste tipo de estudos sobre fenómenos sociais. Mas a ânsia de ir com o porta-moedas ao pote por vezes é excessiva e fica mal a quem quer ser levado a sério.

Sábado

Parece que o Mário Nogueira apareceu ontem, de novo, a zurzir no ministro. O que não compreendo, porque dizer agora que ele é um zero á esquerda vem tarde, demasiado tarde e revela falta de perspicácia ou apenas hipocrisia. O ministro era uma nulidade logo ao tempo da nomeação em 2015. Na altura escrevi que era uma espécie de Alçada II, que nada decidiria, apenas dando a cara. Mas durante mais de dois anos, Mário Nogueira e a Fenprof parecem ter acreditado que, devido a ligações algo canhotas lá pela família, o rapaz era capaz de ser homem de obra e decisões. Não era. Nunca foi. Em 2017 ainda o camarada Mário lhe fazia elogios. Ou mandavam-lhe fazer, para ver se tudo ficava adormecido.

De lá para cá nada mudou. O ministro não governa, limitando-se a ser cabeça falante de guiões que ele debita de forma empastelada. Não revela ter aprendido quase nada em 6 anos, excepto estar disponível, por isso não percebo esta sanha que nos últimos anos acometeu que antes o considerava um parceiro de conversas. Curiosamente, acerca de outros governantes, com efectivo poder de decisão em muita matéria, não se ouve a Mário Nogueira um pio. Sobre Alexandra Leitão também li encómios quanto à sua capacidade negocial. Não vejo qual a vantagem para “este” lado, Que perceba, ela realmente tem uma imensa capacidade negocial para fazer o que já queria antes de negociar seja o que for. Sobre o secretário Costa, Mário Nogueira nem dá o mais ligeiro palpite, o que é de estranhar, a menos que estejam em sintonia absoluta. Porque não se pode culpar o ministro e encobrir o secretário com o controlo das Finanças.

Há por aqui algo que não chega a ser estranho, porque se conhece o “perfil” de certa malta que nunca dá ponto sem saber que escapa ao nó. Bater no ‘tadinho só a meio do trajecto, quando ele o era desde o início é apenas metade da curiosidade. Não estrebuchar nem um bafo em relação a quem manda efectivamente lá no albergue é a outra metade. Da primeira, percebeu-se já a razão: da segunda, mais tarde ou mais cedo se perceberá, porque pouca coisa fica por cá entre comadres, por muito bem que estejam.

30 De Janeiro

Mais um pouco e poderíamos esperar por 2023. São três meses para fazer tudo à medida de alguns interesses. Gaba-se muito a celeridade de outros modelos (como o inglês), mas nunca se aplica quando se pode. Verdade se diga que os actuais líderes do PSD e CDS também não dão um grande exemplo. Por isso, vamos andar com três meses de promessas e medidas apresentadas como exclusivas do governo PS, porque o Parlamento irá em breve a banhos. Até o deputado liberal estava feliz, porque assim pode ter mais amigos na fila.

2ª Feira

Começo o dia com a leitura de um post de que me foi deixado link na última publicação. É uma espécie desafio que um blogger de blogue recente lança aos bloggers de blogues mais antigos. Em pouco se distingue daquilo que há quase quinze anos a ortodoxia sindical diz da blogosfera docente. E depois há coisas divertidas, como aquilo de mantermos em cativeiro o resto dos docentes, quando nada lhes pedimos ou cobramos, apenas fornecendo (de modos diversos, nem sempre muito à vista) o nosso apoio quando solicitado. Quem escreve o post comete diversos erros de análise, mas parecem-me mais graves os erros de avaliação. Como o post é “generalista” não vou enfiar algumas das carapuças que por lá são atiradas. Apenas direi que lamento a falta de novidade na argumentação e ainda mais na intenção, tão mal disfarçada, de arregimentar os poucos que ainda aí andamos desde 2005 ou 2006, para a causa comum de uma luta sindical cujos protagonistas, pelas costas e fora de plataformas, se ofendem entre si, sem pudor ou decoro, e ainda p fazem mais a nós, os “produtores de ruído”.

Não me parece coincidência que este tipo de intervenção surja exactamente na sequência do chumbo do orçamento e da proximidade de eleições. Porque o que está em causa não é a “libertação” dos professores “cativados”, mas outra coisa que nem sequer se foi especialmente hábil a disfarçar. Até porque o objectivo central do texto, vem na sequência do de outro, de há pouco mais de uma semana em que – será em nome da união? – se prefere chamar estúpidos aos professores bloggers, assim todos ao molho e em forma de colectivo. E como é isso feito? Como é habitual, mentindo descaradamente sobre a alegada inacção de tais bloggers, aqueles que sempre que se uniram e avançaram para algo (da manifestação independente de Novembro de 2008 à Iniciativa Legislativa de Cidadãos para a recuperação do tempo de serviço, passando por pareceres contra o modelo de avaliação do desempenho docente, contra o modelo gestão escolar e contra os objectivos individuais, etc) mereceram o ataque geral e pessoal dos cains-cains.

E isto diverte-me porque, repito, anoto a convergência de acontecimentos, defeito da formação em História não instrumental, bem como o tipo de linguagem, incapaz de renovação no conteúdo e até na forma. Pessoalmente, não me incomoda nada ser chamado de “estúpido” (se é que a mim o epíteto também é dirigido) e está longe se ser a primeira ou última vez que me chamam tal ou coisa pior. Tudo depende de quem o faz. É alguém que apresente “valor acrescentado” em termos intelectuais a qualquer discussão? Não faço ideia. É algum blogger intermitente, eventualmente ressabiado pela falta de adesão que desperta, quando não vai ao colo de terceiros? Não faço ideia. É um sindicalista operacional a quem encomendaram esta prestação de serviços? Não faço ideia.

Em boa verdade, só sei que distribui links nas caixas de comentários dos blogues que aparentemente considera desnecessários, divisionistas, inconsequentes e estúpidos. O que é um contra-senso e até um pouco contrário a alguma etiqueta nestas matérias. Esse tipo de auto-promoção (aposto que também vai deixar ligações nos grupos de professores no fbook) tem algo de caricato, ao procurar desacreditar aqueles em quem se encavalita.

Como em tantas outras ocasiões, a caravana está tranquila, enquanto os daltons se amofinam e o rantanplan adormece.

Para finalizar, alguns detalhes: a criatura escreve longamente, com assinalável respeito pela língua-mãe (pista 1), tem em alta consideração a sua própria capacidade de incomodar (pista 2) e definiu os seus alvos (pista 3). A mim, chegam-me para me deixar bem disposto. Até porque alguém deixou por lá o rabo do gato que deu à costa.

Continue, caro escriba, continue, que sempre me faz mergulhar num passado de que não tenho muitas saudades, mas que é sempre interessante reencontrar nos demónios de outrém. Tenho muita pena por si, que continue prisioneiro dos seus inconseguimentos e em vão busque uma libertação pela qual ninguém dará conta. Lamento se o incomodei, mas prometo não assumir mais em nome pessoal uma resposta que, pelos vistos, teria de ser dada por um colectivo, já que lhe falta qualquer coisa em toda essa aparente coragem e destempero.