A Teoria Do Copo

Há quem se apresse a dizer que está a encher depressa (já não sei quantas pessoas levaram pelo menos uma dose de vacina contra a covid-19 e realmente parece muita gente), mas esqueça que a larguíssima maioria (mais de 90%) não levou dose nenhuma. E aqui não se aplica a teoria dos frangos, porque não haveria pernas e asas para dividir por toda a gente, mesmo que fossem dos mutantes, carregadinhos eles mesmos de vacinas ou antibióticos.

3ª Feira – Dia 58

Claro que tivemos logo toda a gente a negar responsabilidade ou com dedos acusadores. Transcrevo a notícia do Público de domingo: “É ‘frustrante’, dizem alunos. ‘Desmerece a evolução’ dos estudantes, comentam pais. E é ‘errado’, reconhecem directores”. Quanto a estes últimos, é óbvio que para umas coisas são líderes e representam as “escolas”, mas nestes casos, parece que nada passa por eles e que nem sequer são presidentes dos Conselhos Pedagógicos, os órgãos que nas escolas definem os critérios de avaliação. Já se percebeu que, neste caso, por “escolas” se entende “professores”, os suspeitos e culpados do costume. 

Domingo – Dia 56

De acordo com a mesma notícia “esta solução foi admitida pelo secretário de Estado da Educação, João Costa, numa audição no Parlamento, esta terça-feira”, esclarecendo que “o Governo afasta também que o plano de recuperação passe por dar mais tempo de aulas aos alunos, seja através de reforços de horário ou de escolas de Verão”. O que dá a entender que, no essencial, já está mais ou menos decidido o que se vai fazer, apenas se encenando aquela parte da consulta a “todos os outros contributos dos actores normais nas nossas escolas”, para citar o ministro.

O Expresso Está Atento A Estas Coisas

E por lá, com o hãbito de escolher bem a formulação de certos títulos para potenciar as mensagens, sabem bem que “poder” tem vários sentidos e um deles é a possibilidade – para mim bem plausível – de não o ser.

Mas tenham calma, porque devem começar a vacinação pelas direcções e cortes locais mais restritas, porque o que seria de nós sem as lideranças?

Docentes podem começar a ser vacinados no final do mês, garantindo sempre a prioridade a idosos e doentes. Ainda faltam vacinar 500 mil pessoas de risco elevado

Como?

Se para a semana volta o regime presencial no pré e 1º ciclo, a testagem “massiva” vai ser feita no fim de semana? Já sei, os testes rápidos não são a coisa mais eficaz ao cimo da Terra, mas, sempre seria qualquer coisa, mesmo se transmitem uma falsa sensação de segurança. Só que, como em tanta outra coisa, ao anúncio de que a testagem seria feita, seguiu-se muito pouco. As tabelas em excel do pessoal a ser testado seguiram na 3ª feira, mas amanhã a semana termina. Onde estão as dezenas e dezenas de equipas móveis necessárias para que a testagem não passe de retórica propagandística para consumo mediático?

De que adiantam estes anúncios que, de forma repetida, não têm correspondência na prática? Como anunciar que os professores passam para a 1ª fase da vacinação (muito bem), quando não há vacinas para cumprir a promessa em tempo razoável?

Cansativo

O Expresso volta à carga e manda saber que “ninguém fecha tanto as escolas quanto Portugal”. E faz uma lista de países e tempos de encerramento, destacando os que nunca abandonaram o ensino presencial ou os que a ele já voltaram. De forma quase envergonhada, lá se confessa que fomos os que tivemos a maior incidência de covid no início de 2021, mas quase como se isso não fosse razão mais do que suficiente. O que fica também por analisar com detalhe? O que os outros países fizeram no contexto da reabertura das escolas. Na Alemanha, por exemplo, a testagem em massa arrancou há três meses em algumas regiões. Em França, a testagem em massa começou em Janeiro. A Eslováquia, um dos países que também foi muito atingido pela segunda vaga pandémica logo em Outubro, testou em massa a sua população. A Áustria seguiu o seu exemplo. A Irlanda publica semanalmente relatórios dos seus testes nas escolas. Há muito mais exemplos de boas práticas que não ficam apenas por proclamações políticas e pressões mediáticas.

Querem a reabertura das escolas? Dois conselhos: passem à acção (governantes) e informem melhor (certo jornalismo mais opinativo do que outra coisa).

O Regresso

Já fizeram constar que a reabertura das escolas poderá ser amanhã abordada na reunião a realizar no Infarmed. A jovem ministra, aquela que é filha do pai que também foi mais de uma vez ministro, já se adiantou e comunicou à sua juventude que as escolas serão os primeiros estabelecimentos a siar do confinamento. Resta saber se o plano que o presidente Marcelo pediu para isso já foi feito pelo governo ou se é como com quase tudo o resto, à espera para ver se não há necessidade. Ou se basta dizer que umas abrem antes das outras, para isso contar como faseamento estudado.

São As “Escolas” Ou O ME Quem Exige Os Papelinhos Todos Certos Para Dar Os Apoios?

Ainda esta semana foi feito novo pedido de comprovativos da Segurança Social dos alunos com direito a apoios. Se não os tiverem não são excluídos” pelas escolas, mas por quem define as regras a nível superior. Há gente que fala e escreve do que não entende, esquecendo-se que as tais “escolas” malandras acabam a ajudar estes alunos de modo informal e nas entrelinhas das leis. A começar por quem, em nome do Governo, se desresponsabiliza do que faz, atirando o odioso de tudo para os outros. Neste caso, o objectivo ´+e dar a entender que os alunos não são apoiados, não por incompetência da tutela, mas por má-vontade das escolas. Pena que os directores tenham levado uma injecção atrás da orelha parecida à que levou o super-lutador que agora anda sempre a reboque.

A mentira tornou-se a regra na relação do Estado com a opinião pública.

Escolas não podem recusar imigrantes em situação irregular mas há quem esteja a excluir estes alunos dos apoios sociais e dos que precisam de receber computadores. “É como fechar-lhes a porta da escola”, denuncia Centro Padre Alves Correia. Governo esclarece “que estes alunos têm direito aos apoios no âmbito da acção social escolar” e que escolas têm que os incluir.

Agit-Prop

Ouvi num noticiário rapidinho numa rádio que o ME fez anunciar que mandou comprar mais 15.000 computadores. Com jeitinho chegarão todos com os testes anti-tiago e quiçá com as vacinas.

E eu que pensava que estava tudo tratado. Pelos vistos, “tudo foi tratado à boa maneira portuguesa”, como escreveu o Veronesi.

Cá para mim, agora vão ser anúncios, dia sim, dia não.