Porque Será…

… que num livro onde até se afirma que a História e a memória são importantes para as aprendizagens e para tudo aquilo que fica bem proclamar (mas nem sempre praticar) se apague por completo a experiência da Gestão Flexível do Currículo quando se aborda a questão da flexibilidade curricular? Será esquecimento (é verdade que nem toda a gente passou por ela) ou incómodo em admitir que nada está a ser inventado de novo e que, na altura realmente na viragem para o século XXI, a experiência falhou? Mas não interessa analisar (criticamente, claro) as razões… ou sequer relembrar o passado…

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(sim, já li quase todo o livro dos JC’s, mas estou a dar um espaço para respirar antes de ir às partes mais demagógicas…)

A Bíblia Também Não Tem Bibliografia

Confesso um preconceito que poderá ser disparatado, mas quando folheio pela primeira vez um livro sobre qualquer área académica, em especial sobre as que me são mais próximas como a História, a Educação ou sobre o campo mais alargado das Ciências Sociais e Humanas, gosto de ver a bibliografia em que o(s) autor(es) procuram sustentar as suas teses, na presença ou ausência de algumas notas ou referências de pé de página ou final de texto que fundamentem o que é afirmado ou infirmado, mesmo que se trate de uma prosa ensaística mais ao correr da pena. Ou em especial nestes casos. Detesto a exibição bacoca de uma erudição virtuosa (aqueles artigos com mais espaço nas páginas ocupado por notas do que propriamente pelo texto nuclear), mas há limites para a apresentação de certezas sem que elas se sustentem em algo reconhecível, para além de profissões de fé ou de estribilhos como”todos sabemos que” ou “é evidente que” ou “é óbvio que”. É essencial que, mesmo quando se repete o que acha evidente, se explique o porquê e se demonstre. Sem isso todos podemos escrever qualquer coisa e apresentá-lo como dogma, atirando para quem discorda o anátema da intolerância ou “teimosia”.

O livro de João Costa e João Couvaneiro envereda por esse caminho. O de achar que é tudo tão evidente que nem vale a pena fazer a fundamentação empírica das suas “evidências”. Que nem uma variante do método científico é necessário para que as suas verdades sejam auto-explicativas. Em 150 páginas, há 9 notas de fim de página, sendo 3 de documentos produzidos pelo actual governo/ministério. Há uma (a primeira) relativa a um texto de natureza “técnica” e é de 2010. Basta comparar com as 6 páginas de prefácio da responsabilidade de António Nóvoa que, de forma perfeitamente natural e no contexto do que é afirmado, cita João Guimarães Rosa, Michel Serres, Mikhail Epstein, George Steiner e John Dewey. Quem se sente seguro de si e do que sabe, não receia identificar as raízes do seu pensamento. Ou aqueles a que se opõe. Quem se ensimesma, talvez por insegurança ou preguiça, recusa o confronto aberto e argumenta no vácuo referencial.

Simplicidade não é simplismo. Clareza na escrita não deve ser equivalente a pobreza de substância.

Quando se pretende replicar a posições adversas, não é estratégia incomum a caricatura ou a omissão de referências exactas, para ser inverificável o que se atribui a um outrém indefinido. Essa foi a estratégia de João Costa e, lamento, de João Couvaneiro. Referem posições críticas, reduzindo-as a formulações simplistas, sem emissores reconhecíveis, para lhes ser mais fácil manipular a argumentação na resposta. Receiam nomear e citar com rigor o que foi dito ou escrito, para poderem afirmar que estão a discutir “ideias” e “conceitos” em abstracto. Mas a verdade é que na introdução até chamam a ética à pedra para legitimarem a prosa produzida que apresentam como “reacção” e “resposta”. Mas não dizem a quem estão a reagir ou responder. Preferem reduzir a expressões caricaturais o pensamento alheio. Nisso fazem muito lembrar o livro-testemunho da ministra MLR, incapaz de ir além da sua circunstância pessoal.

Pessoalmente, acho de uma imensa falta de coragem, o que se quer passar por “elevação”. Não chega a ser sobranceria, pois carece da devida sustentação. Fica-se, no fundo, pelo “achismo” quando se pretende apontar isso a quem não alinha com uma tendência específica do pensamento pedagógico da segunda metade do século XX.

Agora… pensem que escrevi isto e só li o prefácio e a introdução, passando os olhos sobre o resto. Ao contrário dos autores, tenho todo o interesse em citar com clareza tudo o que discordo, porquê e com base em que pensadores, estudos, “evidências”. É essa a longa tradição do verdadeiro “pensamento crítico”.

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Opiniões – Mário Silva

Ignorância aliada à opacidade e à estupidez burocrática

A nota informativa enviada pela DGAE em junho de 2019 para esclarecer a operacionalização da implementação da recuperação do tempo de serviço, está a provocar interpretações disparatadas em algumas escolas. Uma delas que me foi dado a conhecer, está relacionado com o nº1 da nota informativa que diz:
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 “os docentes que progridem ao longo do ano de 2019 e até 31 de julho de 2020 em virtude da recuperação do tempo de serviço, em qualquer uma das suas modalidades, e só estes, e que não tenham ainda os restantes requisitos do artigo 37.º do ECD, podem
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1. Mobilizar a última avaliação do desempenho, ao abrigo do n.º 7 do artigo 40.º do ECD, desde que a mesma corresponda à efetiva avaliação de 2007/2009, 2009/2011 ou pelo DR n.º 26/2012, de 21 de fevereiro, ou outra legislação aplicável. O suprimento da avaliação atribuído pela Lei do Orçamento de Estado para 2018 não é aplicável.
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Neste número, a mobilização é feita AO ABRIGO N.º 7 DO ARTIGO 40.º DO ECD e várias pessoas (secretarias e direções) não leram o que significa o n.º 7 do artigo 40.º do ECD:
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6- Os docentes que exerçam cargos ou funções cuja enquadramento normativo ou estatuto salvaguarde o direito de progressão na carreira de origem e não tenham funções lectivas distribuídas são avaliados, para efeitos do artigo 37.º, pela menção qualitativa que lhe tiver sido atribuída na última avaliação do desempenho.

7 — O disposto no número anterior aplica -se aos docentes que permaneçam em situação de ausência ao serviço equiparada a prestação efectiva de trabalho que inviabilize a verificação do requisito de tempo mínimo para avaliação do desempenho.”

Portanto, não engloba todos os professores!…

”O suprimento da avaliação atribuído pela Lei do Orçamento de Estado para 2018” está relacionado com os docentes que progrediam em 2018 e não tiveram avaliação entre 2011-2017.

Várias escolas ao lerem o ponto 2 da nota informativa- “Caso a última avaliação corresponda a uma menção de Muito Bom/Excelente, a mesma não pode bonificar NOVAMENTE, nos termos do artigo 48.º do ECD, nem isenta de vaga para acesso ao 5.º /7.º escalão.”- ficam na dúvida se este número é independente do nº1, porque a sintaxe da nota informativa não é explicita. Parece que a maioria está a interpretar como sendo independente pelo que, nesse caso, este número significa que, qualquer professor que foi avaliado sob um regime normativo diferente do DR 26/2012, pode usar uma avaliação que tenha feito e que não tenha tido efeitos jurídicos mas que se for Muito Bom ou Excelentenão pode usufruir da bonificação de tempo de serviço nem da isenção de vaga!… 
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Isto tem como consequência negar a professores que tiveram avaliação em 2009-2011 e que nunca teve efeitos jurídicos, que possam usar essa avaliação para efeitos de progressão. Ou seja, se um docente que não está ao abrigo n.º 7 do artigo 40.º do ECD e que foi avaliado em 2009-2011 com Muito Bom, estão a informar que essa avaliação não tem efeitos nem na bonificação nem na isenção de vaga porque não foi feita ao abrigo do DR 26/2012. Então, esse professor tem de se sujeitar a nova avaliação nos termos do DR 26/2012; se por acaso tiver classificação inferior, é que pode requerer a última avaliação de desempenho feita antes de 2012. É esta a estupidez: obrigar as escolas a uma avaliação redundante porque se a mesma for inferior é óbvio que será requerida a anterior. Não se dá ao docente a opção de querer uma nova avaliação ou manter aquela que ainda não teve efeitos na progressão, libertando a escola de mais um processo burocrático.
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Mas parece que a coisa ainda não fica por aqui: a DGAE na sua linguagem cifrada, dá indicação explicita de que se um docente requerer uma classificação de mérito de um ciclo avaliativo anterior, usufrui da bonificação de tempo de serviço mas não dá indicação se usufrui de isenção de vaga para o 5º ou 7º escalão, o que é algo kafkiano…! 
Mais uma vez, a negligência da DGAE com a sua falta de clareza gramatical em informar, em conjunto com a ambiguidade de algumas secretarias e direções em interpretar o português da nota informativa, está a colocar ‘batata quente’ nas escolas e a levar que muitos professores sejam  ainda mais prejudicados.
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Mário Silva
exclama

Estratégias “Infalíveis”

Se não chega esvaziar o currículo, reduzindo o tempo de disciplinas “enciclopédicas” a favor de transversalidades com “positiva” quase obrigatória, se não chega alargar os critérios de transição, se eliminar as provas finais e exames pode ainda deixar espaço para a avaliação interna menos domesticada, então nada como optar por “currículos curtos” nas disciplinas mais problemáticas, como a Matemática, para garantir “sucesso”. Nada como arranjar os “peritos” certos. Não andará longe o tempo do currículo extenso em “Educações para a Treta I, II e II”.

lapisviarco.tabuada

(o programa de Matemática está desajustado? não será por falta de remendos nos últimos 15 anos… todos validados por “especialistas” e “peritos”)

 

2ª Feira

Seria importante que em todos os ciclos, os alunos pudessem ficar com os seus manuais por terem meios para os adquirir sem ser necessária esta equívoca “generosidade” pública. Porque, afinal, na maioria dos países, a devolução não é obrigatória (cf. esta notícia de 2016 quando se começou a falar disto). Aliás, se é para devolver, trata-se de um empréstimo e não de manuais grátis.

Travolta confuso

(quantos milhões de manuais vale um berardo?)