Este Mês, No JL/Educação

Até porque na edição em papel não saiu uma nota de rodapé com uma referência, fica aqui um texto que faz uma espécie de revisão de matérias sobre as quais já tina escrito. E porque, no panorama envolvente nas páginas em redor, faz um papel de blot on a landscape..

JL 15Jul20

O cargo de director de turma é um dos que, fora das estruturas formais de “liderança”, mais importância tem na relação das escolas com as comunidades educativas envolventes, porque o bom e velho “DT” funciona como uma espécie de primeira linha de contacto com as famílias dos alunos. O tema tem sido estudado abundantemente pelas Ciências da Educação e é um dos poucos assuntos em que parece existir uma espécie de consenso que ultrapassa ferozes clivagens ideológicas em outras matérias. Como refere Marta Sofia Ferreira, ele é informalmente uma espécie de “líder intermédio” e “para muitos Encarregados de Educação, o Diretor de Turma é considerado o rosto da escola, pois desempenha a função de elo de ligação entre a instituição e a família” (O Diretor de Turma no Papel de Líder Intermédio. Dissertação de Mestrado. Viseu: Universidade Católica, 2014, p. 66)

Há quem reconheça que, em muitos contextos e na ausência de outros recursos humanos especializados “as competências exercidas pelo diretor de turma extravasam nalguns pontos as competências legalmente atribuídas” (Guilherme Rodrigues, O Papel do Diretor de Turma na Autonomia: estudo de caso numa Escola Secundária. Dissertação de Mestrado. Lisboa: Universidade Aberta, 2011), porque “não há legislação para a dimensão humana do diretor de turma” (Fani Simões, O papel do Diretor de Turma na vida dos alunos, Relatório de Mestrado: Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 206, p. 97).

Mas, apesar dessa importância do papel como mediador entre a escola e a família e do seu envolvimento na vida escolar dos alunos, grande parte do trabalho do director de turma tem sido progressivamente dominado pela dimensão burocrática que envolveu o exercício da docência nos seus mais diversos aspectos e isso é algo que é reconhecido não apenas no terreno, mas pelas próprias investigações. Ana Rita Pacheco e Mariana Amaral da Cunha e Paula Batista, no seu trabalho “O Papel do Diretor de Turma na dinâmica relacional entre a escola e a família” concluem que “os dados revelaram que os inquiridos consideram que é exigido ao DT o desempenho de vários papéis sociais e funções de caráter burocrático”[i], o que coincide com a visão de Clara Boavista e Óscar de Sousa que afirmam que “nesta pesquisa fica claramente percetível a ideia de que os principais fatores limitativos ao exercício da atividade dos Diretores de Turma são o tempo reduzido de que estes docentes dispõem, o excesso de burocracias com que são confrontados no exercício das suas tarefas” (“O Diretor de Turma: perfil e competências” in Revista Lusófona de Educação, 2013, nº 23, p. 91).

Serve esta sequência de referências para sublinhar que o papel central do director de turma na vida escolar e junto dos alunos tem sido descaracterizado e tomado de assalto pela deriva hiperburocrática que nas últimas décadas levou a que à influência e intervenção eficaz junto dos alunos se passasse a dar maior importância aos directores de turma como uma espécie de burocratas a quem são atribuídas as mais diversas funções de carácter administrativo que em outros tempos não faziam parte do seu “perfil de funções”, como seja a “monitorização” do trabalho dos colegas de Conselho de Turma, a realização de matrículas ou a recolha de manuais escolares.

Em tempos de ensino remoto, com todas as atribulações que marcaram os últimos meses, o papel de elo entre o que restou de vida escolar “normal” e os alunos e respectivas famílias passou ainda mais pelos directores de turma. Mas, infelizmente, foi vítima da tal deriva burocrática mais preocupada no seu papel como controlador do trabalho alheio e registador aplicado das actividades desenvolvidas do que em qualquer outro. Foram tempos penosos em que se atingiram novos níveis de transbordamento das funções do director de turma para a esfera puramente administrativa. Do preenchimento de inquéritos e relatórios à exigência que se transmitisse a necessidade desse preenchimento a alunos, encarregados de educação e colegas. O director de turma como funcionário administrativo e simples operacional de uma cadeia hierárquica de controlo acima das suas atribuições como elemento unificador e estabilizador do seu grupo de alunos em tempos de grande insegurança.

A terminar o ano, a barragem final de deveres em forma de novos inquéritos e monitorizações e monitorizações de monitorizações e grelhas para tudo registar de irrelevante e redundante.

E os manuais para recolher, embora se garantisse que as primeiras semanas do próximo ano lectivo serão para “recuperar as aprendizagens” não realizadas ou não devidamente consolidadas nestes últimos meses. E as escolas fizeram escalas para a devolução dos manuais, escalonando pessoal não docente e docente, com os directores de turma à cabeça. E os directores de turma comunicaram-nas aos encarregados de educação, mesmo quando achavam que não fazia sentido, mas era assim que teria de ser. E veio a discussão do Orçamento Suplementar e a aprovação da proposta para que os manuais não fossem devolvidos. E os directores de turma transmitiram essa informação aos encarregados de educação. Só que no Ministério da Educação alguém falhou as aulas de História do 6º ano e achou que o poder executivo pode atropelar as decisões do legislativo e um senhor director-qualquer-coisa mandou uma informação para as escolas a dizer que havia um despacho a cumprir e os manuais a receber. E as direcções comunicaram isso aos directores de turma e estes, mesmo contrariados, lá fizeram o papel de pombos correios de novo para os encarregados de educação. Até que veio de novo a indicação de que não poderia ser, que os devolvidos já estavam, mas afinal não deveriam ser devolvidos. Tudo isto em poucos dias, muitos mails e pouco siso da tutela.

A meio do processo, pessoalmente, desisti de alinhar com a insanidade e como dou aulas de História do 6º ano, comuniquei aos meus encarregados de educação que não devolvessem os manuais e ponto final. Se alguém perguntasse, a culpa que me fosse atribuída que tenho costas largas para a idiotice. Poupei um par de mails desnecessários, graças a isso.

Já quanto às matrículas, não tive tanta sorte.

Porque foram dias iniciais em que o “Portal das Matrículas” era a grande ferramenta em tempos de recurso a soluções não presenciais. E os directores de turma instaram os encarregados de educação a usarem o Portal. Quando? Quando saíssem as classificações. E antes? Não deveria ser, porque não saberiam o ano em que se iriam matricular, mesmo se quase toda a gente ia passar de ano. Mas houve quem tentasse e conseguisse e passasse palavra. E aquilo começou a emperrar. E os encarregados de educação a perguntarem como preencher a parte em que existe a necessidade de apresentar comprovativos e porque não se conseguia aceder em horário útil. E este director de turma, também encarregado de educação, compreendia e partilhava as agruras da plataforma que só parecia funcional com a lua cheia no alto do horizonte.

Mas não… o Portal das Matrículas é que deveria ser usado e os procedimentos respeitados, renovação ou não renovação. E os directores de turma lá deram a cara de novo, por mail ou telefone, por causa da urgência, para que a coisa se fizesse à distância, tido M@D (Matrícula a Distância). Por vezes, com recurso a tutoriais e tudo, que os professores são gente engenhosa e de rápida reacção ao infortúnio. Não é bem o meu caso, mas sei quem assim seja.

Até que se tornou por demais evidente que a dita ferramenta deve ter sido concebida para as matrículas de um único ciclo e não de todos. E muita gente começou a pensar que o melhor era não perder horas e bater com a cabeça no teclado e fazer matrícula presencial.

E então surgiu uma informação da DGEstE a recomendar que para “agilizar” o processo se deveriam fazer no portal apenas as inscrições nos primeiros anos de ciclo e as transferências. E surgiu, quase em simultâneo, não sei se ovo, se galinha, a notícia de que o Portal teria sido alvo de “ataques” informáticos de “elevada complexidade” (notícias a circular desde a tarde de dia 7 de Julho).

E assim se voltou atrás e ao que deveria ter sido o alfa de tudo, a renovação automática do que o bom senso recomendaria que fosse automaticamente renovado, em especial nas presentes circunstâncias.

Pelo caminho, o campo pejado de encarregados de educação e directores de turma esgotados, após inglório combate pelo acesso ao Santo Portal.

[i] repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/124873/2/317045.pdf (consultado em 8 de Julho de 2020).

Mas Ontem À Noite Não Disse Que Confiava Nas Autoridades De Saúde Do País, As Quais Acabavam De Recomendar Que Não Fechassem?

O secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), anunciou esta quinta-feira, em conferência de imprensa após reunião de sindicatos de Educação, que o “interesse da Educação” é o encerramento imediato de todas as escolas.

Mas… talvez…

“Reconhecemos, porém, que na decisão a ser tomada haverá outros critérios e outros interesses mais abrangentes, designadamente de saúde pública, que devem ser tidos em conta”, explica Mário Nogueira. “Não temos dúvida nenhuma, e isso foi discutido na nossa reunião, de que o encerramento total de escolas vai acontecer. Só não nos podemos pronunciar e não nos compete a nós dizer qual é o momento. Não nos compete dizer se o momento é este, se é mais à frente ou se já devia ter sido…”

Acho que o vírus é outro.

Parvo

 

O Mário Nogueira Diz Que Confia Nas Autoridades De Saúde Pública

A seguir (SICN) diz mais umas coisas em ziguezague, que me deixam em situação de inconseguimento em relação ao que, afinal, ele acha sobre o assunto. Mas ele não percebe que as decisões “casuísticas” vão criar diversas situações de desigualdade?

Travolta confuso

(e que raio foi aquilo de começar a falar na preocupação dos colegas com as “aulas observadas” que assim deixarão de existir?)

Pois É, Alexandre, Mas Nada Se Resolve Propondo Seguir Modelos Em Falência…

… como certas pessoas fizeram em letra impressa, e até recentemente, com um entusiasmo não partilhado por quem sempre se preocupou mais em “diacronizar” e contextualizar as coisas do quem analistas “sincrónicos”.

Não deixa de ser interessante que algumas análises se “desloquem” do domínio do desempenho propriamente dito para as questões “sociais”. Porque houve um modelo de análise que também faliu.

Mas vai-se aprendendo com a experiência e ainda te hei-de ler a defender que a justiça social e o combate às desigualdades deve começar e terminar fora dos portões das escolas.

Na dimensão social, o sistema educativo português está a falhar. 18 anos depois e governo após governo, o mais grave é que ninguém acredita que este desafio esteja verdadeiramente a ser enfrentado.

profpardal

Pelo Educare

As Guerras do PISA & Manjerona

Esta foi semana de divulgação dos resultados do PISA 2018 e nesta altura, mesmo entre os que publicamente desdenham de rankings, testes e comparações internacionais, há sempre uma dose acrescida de excitação para se tentar perceber quem pode reclamar louros ou a quem se podem apontar dedos acusadores pelos resultados que deveriam ser dos alunos. Como se em períodos de três anos fosse possível fazer o exame rigoroso de políticas que devem ser perspectivadas na longa duração.

pg contradit

Os Resultados Dão Para De Tudo Um Pouco

Curiosamente, parece que os resultados desceram em especial onde não havia provas…

PISA 2018: Desempenho dos alunos cai a ciências e mantém-se a matemática e leitura

Alunos portugueses pioram a leitura e a ciências, mas mantêm-se acima da média da OCDE

Alunos portugueses são os únicos da OCDE a melhorar o desempenho na última década

Apenas sete dos 79 sistemas educativos analisados no PISA tiveram melhorias significativas durante toda a sua participação no estudo internacional. Portugal é o único país da OCDE a registar uma trajetória de evolução positiva.

Confusos?
Não fiquem… todos vão reclamar o sucesso como seu e apontar os dedos aos outros por coisas como:

Avaliação da OCDE: estudantes pobres estão mais longe dos ricos

Mais de um quarto dos alunos portugueses falta à escola

Grafico

Tudo E O Seu Contrário Ou Outra Coisa

Era tão bom que o CNE fosse mais regulador e menos actor… Que estivesse mais enquadrado na realidade e preocupado em evitar as distorções da verdade no discurso político sobre a Educação em vez de fazer propostas que aparecem em introduções de documentos oficiais, mas depois são apenas posições pessoais. A actual presidente do CNE merece a minha estima pessoal (coisa rara, confesso, na área dos ocupantes de cadeiras do regime no establishment educacional), mas ganharia muito em não prolongar o que foram as péssimas práticas do seu antecessor, mais preocupado em fazer política e menos em evitar que o CNE se tornasse um reduto de combate ideológico. Agora é de sentido inverso, mas as duas posturas estão erradas, no meu entendimento de leigo. E não é apenas porque discordo das soluções preconizadas. Ou não. Ou talvez.

Para ficar claro, o que é isto de acabar com o 2.º ciclo? Não é acabar com o 5.º e o 6.º ano…
[Risos] Alguém me dizia assim: mas os alunos passam do 1.º ciclo para o 3.º?

Mas também não é mudar o nome, pois não? Se dissermos que o 5.º e o 6.º ano passam a ser integrados no 1.º ciclo fica tudo na mesma. Qual era a sua ideia?
A ideia é a estrutura ser mais semelhante, ou seja, o 1.º e o 2.º ciclo integrarem-se num único ciclo em que a modalidade 3+3 seria possível: os três primeiros anos do básico seriam mais parecidos com a nossa antiga primária, com um professor único, e nos três anos a seguir já haveria alguma especialização, mas sem se cair na multiplicidade tão grande que é hoje o 2.º ciclo. É uma transição mais suave.

Não tem nenhuma solução preferida?
Pessoalmente, gosto desta, mas isso não tem importância nenhuma. [risos]

Outra solução de que se fala muito é o 6+6, em que o 3.º ciclo do básico fica agrupado com o atual secundário [10.º ao 12.º ano].
Sim, o que proponho é quase o 6+6. Dentro do agrupamento dos seis primeiros anos há muitas soluções possíveis, mas a mim parece-me importante manter os primeiros nove anos no básico como um ciclo unificado, não os juntaria ao secundário.

Esta solução de que fala não é uma proposta oficial? 
Não e gostava que isso ficasse claro. Uma recomendação do CNE tem um processo moroso e tem de haver um estudo prévio, um debate nas comissões, ir a plenário, ser votado. Este assunto já foi debatido no CNE há bastante tempo, mas teria de ser atualizado. É uma posição pessoal minha, que coloquei no prefácio do “Estado da Educação” e fiquei espantada com o volume que tomou.

Já agora… o que se segue não passa de um achismo, sem qualquer relação com o que se passa verdadeiramente após 2-3 dias de aulas. O que se vê é mais euforia do que outra coisa E, já agora, deveria perceber que a explicação é incongruente com os dados do próprio relatório sobre as mudanças de ciclo, mas…

Os números mostram que, de facto, os anos de transição têm mais retenções. Mas porque é que acha que isto acontece?
Do 1.º para o 2.º ciclo acho que é óbvio. Podemos perceber bem a confusão dos miúdos quando saem daquela escolinha para uma escola maior onde têm vários professores, várias salas. Andam atordoados à procura da sala, do professor, a tentar adaptar-se. Acho que se percebe, que é muito evidente. Do 2.º ciclo para o 3.º já não saberia dizer. Mas que é um facto é.

pluto-scratching

(e repare-se que nem peguei naquela de com os chumbos se aprender pelo medo… seria demasiado elementar desmontar o paradoxo do discurso em torno desta posição…)