Querem Mesmo Que Vos Responda A Sério?

O que são e a quem servem as tutorias?

Medida foi introduzida pelo Governo depois de ter acabado com os cursos vocacionais, destinados a alunos que já tinham chumbado pelo menos duas vezes.

Claro que tudo depende da forma como se implementa, mas o “desenho” do APE deste governo foi feito a pensar nas poupanças, com aquilo que eu chamaria “tutoria para as massas”. Ora, se há situações em que a necessidade de uma relação pessoal é importante são exactamente estas. Para além de que, mesmo que aquela dos dez por hora tivesse sido abandonada, se uma pessoa está com dois alunos e falta um terceiro, que anda pela escola a vadiar, o tutor não tem forma de ir em busca dele e trazê-lo. Pelo que, rapidamente, muitas destas tutorias se tornaram letra morta com a miudagem a faltar valentemente. Mesmo que isso não apareça nas estatísticas oficiais.

Já as tutorias à moda “antiga”, pensadas de outro modo, individualizadas e com um alargamento das funções e poderes do tutor, podem ser mais eficazes. Só que implicam pelo menos umas duas (ou mais horas) semanais por aluno, para o acompanhar ou, em alguns casos, para ir à procura dele, quando a primeira reacção é faltar. Felizmente, muitas escolas adoptaram variantes deste modelo.

Mas não me espantará nada que o ME avalie a sua medida como muito positiva e muitas escolas e agrupamentos colaborem com estatísticas fantásticas/fantasiosas. E que se apresente como medida a expandir e a colocar um tutor, não para 10, mas para 15 alunos. Só que, com o sucesso a atingir píncaros, talvez não seja necessário.

batmannthink

Tutorias

Eu ainda sou do tempo em que ser tutor de um aluno não era ocupação minutada pelo ministério, servida em lotes, para que a poupança seja o critério essencial na simulação de uma função que deveria merecer mais respeito e menos preocupação com o alegado desperdício de recursos medido a regra, esquadro e compasso rombo.

Eu sei que sou antigo, ainda me lembro dos tempos em que as escolas eram aqueles cadinhos de cultura de retenção, em que os professores se rebolavam de gozo por chumbar alunos, fazendo tatuagens por cada um deitado abaixo, e em que subvertiam a eficácia com eleições abertas para os ocupantes dos cargos de chefia e até ousavam essas descoordenadas lideranças colegiais que tanto escapavam à trela tutelar.

Mas também sou do tempo em que um tutor não ficava à espera do aluno que dele precisava, indo em sua busca para o orientar. Em que não se esperava que o aluno não cumpridor cumprisse a obrigação de ir ter com quem deveria torná-lo cumpridor. Em que a prática de uma tutoria se aproximava do seu conceito original, pouco compatível com grelhas de horas marcadas de cálculos de custos per capita do sucesso. Em que não se simulava o sucesso com estratégia no papel.

Sim, claro, compreendo. Os modelos não são maus em si, podemos fazer maravilhas com um sistema de masmorras e grilhetas se tivermos imaginação. Claro que são as pessoas que as amarram a quem lhes desagrada ou a si mesmas, de forma a desculparem-se pelo imobilismo. E é bem verdade que há quem fogueteie por dentro quando o galfarro não aparece e se pode trocar a perna, consultar os social media em busca dos instagrams do momento e dos trending tuítes, quiçá mesmo dar um pulito lá fora e puxar umas fumaças, aspirando o calor e aroma de uma bica em chávena escaldada e pouco abatanada.

Mas nunca nos devemos medir pela mediocridade, por muita que seja a tentação e nos custe o desalinhamento, porventura a leitura desagradada da prosa.

tutor

Tutorias – 2

Uma curiosidade deste modelo de tutoria para as massas (ou “terapia de grupo” como o Alexandre Henriques lhe chamou numa designação com a qual concordo em absoluto) que este ME quer fazer passar por ser uma alternativa para combater o insucesso escolar é a forma como tenta que esqueçamos – ou, pelo menos, alguns de nós que não se desmemoriaram – que as tutorias são algo que existe há muito tempo no nosso sistema de ensino.

É o caso do despacho 178-A/ME/93, que no seu capitulo III, alínea j) prevê a existência de “programas de tutoria para apoio a estratégias de estudo, orientação e aconselhamento do aluno”.

Assim como no nº 1 do artigo 10º do decreto regulamentar n.° 10/99, de 21 de Julho se estipula que “a direcção executiva pode designar, no âmbito do desenvolvimento contratual da autonomia da escola ou do agrupamento de escolas, professores tutores responsáveis pelo acompanhamento, de forma individualizada, do processo educativo de um grupo de alunos, de preferência ao longo do seu percurso escolar.”

No seu ponto 2, pode ler-se que “as funções de tutoria devem ser realizadas por docentes profissionalizados com experiência adequada e, de preferência, com formação especializada em orientação educativa ou em coordenação pedagógica” e no ponto três temos que:

Sem prejuízo de outras competências a fixar no regulamento interno, aos professores tutores compete:

a) Desenvolver medidas de apoio aos alunos, designadamente de integração na turma e na escola e de aconselhamento e orientação no estudo e nas tarefas escolares;

b) Promover a articulação das actividades escolares dos alunos com outras actividades formativas;

c) Desenvolver a sua actividade de forma articulada, quer com a família, quer com os serviços especializados de apoio educativo, designadamente os serviços de psicologia e orientação e com outras estruturas de orientação educativa.

Explicitamente como medida de combate ao insucesso escolar são previstos “programas de tutoria para apoio a estratégias de estudo, orientação e aconselhamento do aluno” na alínea c) do nº 3 artigo 2º do despacho normativo 50/2005.

Já no decreto-lei 75/2008 de má memória por outras razões, se continua a prever no nº 4 do seu artigo 44º que “no desenvolvimento da sua autonomia, o agrupamento de escolas ou escola não agrupada pode ainda designar professores tutores para acompanhamento em particular do processo educativo de um grupo de alunos.”

É por isso que encontramos ao longo, pelo menos, dos últimos 20 anos imensos materiais sobre as tutorias como método de combate ao insucesso escolar e ao abandono e regulamentos e planos bastante extensos, detalhados e bem estruturados de acção tutorial (este é apenas um exemplo)..

Que isto pareça ter sido esquecido por muita gente é algo que eu consideraria estranho, caso já não estivesse habituado a estas amnésias selectivas.

calvin exams

Tutorias – 1

O Expresso traz hoje uma longa peça (felizmente sem aquelas enormes fotos a ocupar o espaço da informação) da Isabel Leiria sobre o modelo de tutorias reformulado por este ministro da Educação com declarações, por exemplo, do Alexandre Henriques e minhas. Fica aqui o meu depoimento inicial, garantindo eu que escrevi “conselho de turma” antes do corrector ortográfico do jornal (escrevo sem AO) ter baralhado as coisas no texto impresso. De vez em quando dou a minha calinada (mera gralha ou calinada mesmo) devido à pressa ou distracção, mas não foi o caso.

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As tutorias são das medidas mais eficazes no enquadramento dos alunos com problemas de abandono ou insucesso escolar, porque leva ao estabelecimento de uma relação individualizada e de confiança com o tutor. Isso pode permitir a abordagem de questões do foro pessoal do aluno que podem estar a dificultar as suas aprendizagens ou outros aspectos da sua vida escolar. Pude verificar isso nas vezes em que fui professor tutor; quando corre bem, até acaba por levar outros alunos a querer ter tutoria.
Se há um “segredo” ou mais valia desta medida é exactamente a personalização do tipo de apoio e o facto de não ser um mero apoio disciplinar, mas mais uma espécie de aconselhamento.
Por isso, acho um disparate que se definam rácios de 10 alunos por professor com 4 horas semanais. Mesmo fazendo um desdobramento das horas pelos alunos, isso significa que cada hora terá de corresponder a 2-3 alunos e nem sempre as questões a abordar se adequam a um apoio de grupo, em especial quando os alunos nem sequer são colegas de turma. E isso significa que cada aluno acabará por beneficiar apenas de um ou duas horas. Com os 10 alunos em grupo, ainda seria pior com 15 minutos por aluno ou pouco mais.
As tutorias devem ser estabelecidas noutra base, com horas fixas no horário mas, ao mesmo tempo, com a possibilidade do professor-tutor intervir fora de um horário rígido. E também faria sentido que as tutorias fossem atribuídas a professores do Conselho de Turma dos alunos e não conforme a disponibilidade de horas de acordo com os critérios ministeriais.
Na ausência de uma formação nesta área, seria importante que a função fosse assegurada por docentes com perfil para ela e não, como se corre o risco em muitas escolas, por quem tenha insuficiência de horário ou redução da componente lectiva ao abrigo do artigo 79º do ECD.
Quanto a outro tema, acho que os percursos curriculares alternativos – vulgo PCA – são uma resposta mais adequada e menos demagógica do que os cursos vocacionais para o Ensino Básico com a sua pseudo-componente “profissional” e as suas regras de funcionamento desajustadas ao perfil dos alunos, acabando por obrigar escolas e docentes a “fabricar” sucesso sob pressão ministerial. Os PCA permitem adequações curriculares e no processo de avaliação que podem resolver boa parte dos problemas verificados em muitos alunos com 2 ou mais retenções. Embora o essencial seja o despiste precoce das situações problemáticas.
calvin exams