5ª Feira, 31 De Dezembro

Último dia real de “pausa”, último dia do ano e último dia da década, para quem sabe contar bem os anos, o que está longe de ser a regra. E quanto à década, há que dizê-lo com frontalidade e todas as letras no seu sítio, foi uma década de merda. Seja numa perspectiva “corporativa” ou numa mais global. Começámos com o recongelamento e acabamos com um imprudente não reconfinamento porque a economia não poder parar e sem escolas a funcionar, parece que ela pára. Pelo meio tivemos a troika e o “mais com menos” e esta ou aquela variante do “se não estão bem, emigrem!”, depois veio a geringonça e o amestramento da contestação sindical tradicional ao serviço de um “bem maior”, enquanto se prometia uma reversão que o ronaldo, desculpem, centeno de harvard y eurogrupo (mais recentemente elevado a barão do banco de portugal) reverteu em sede fiscal sem dó, nem piedade. Levámos ainda com muita conversa sobre perfis e competências, inclusões e flexibilidades, para o século XXI, a que a pandemia tirou o chinó à la trump, demonstrando que temos uma escola do século XIX porque o nosso modelo de desenvolvimento económico e coesão social é do século XIX e não desencalha, nem à bazucada. O #EstudoEmCasa foi um sucesso inútil e o E@D deu origem a uma sigla modernaça, mas sem gtande significado.

Depois de muita conversa sobre os males da defesa de “interesses corporativos” passámos a ter o Parlamento polvilhado de representantes de interesses de identidades mais ou menos incertas, do lulu da senhorita solitária ao dois tons da joacine e andré, não esquecendo o senhor distinto das impecáveis camisas, com os botões à distância certa para um ficar por fechar e mesmo assim não parecer um canto pimba a caminho da segunda canção num programa dominical da tarde. O presidente foi funcionando como um daqueles bonecos de mola, que saltam da caixa, conforme a vontade do cliente, neste caso do actual PM, que o soube ensarilhar ainda melhor do que ao Jerónimo, que a Catarina escapou-se um dia sem querer pagar a conta de mais um orçamento. Num dia o presidente apelou ao confinamento, no outro tirou selfies à beira-mar. Num apelou à confiança em que tudo iria acabar bem, no outro lamentou-se de que as coisas não estavam nada bem. Num dia vacinou-se em topless, no outro mandou mensagem solene à Ucrânia, porque lhe limpámos um cidadão e só o admitimos ao fim dos meses suficientes para nascer um bebé robusto.

Claro que há mais, muito mais, até coisas boas que as houve, sim senhor@s, mas foi quase essas foram quase todas em casa, por encomenda online ou em streaming. As vacinas chegaram, mas parece que muita gente decidiu regredir mentalmente até ao período anti-penicilina. O Trump parece que se foi, mas ainda não foi. A Europa existe, sem os bretões d’além-Mancha, mas com húngaros e polacos tão saudosos de uma boa ditadurazinha ou, como agora se diz em nova teoria política, uma “democracia iliberal”.

O 2020 vai-se embora deixando escassas saudades, assim como a década inteira. Há quem se tenha safado bem, mas foram quase só gestores de empresas falidas, em falência técnica ou em regime de oligopólio abusivo. Mas isso sempre foi assim e assim será, não adianta esperarmos outra coisa. É como o processo do Sócrates, algo que veio para ficar.

Podia escrever outra coisa, com outro tom, com uma mensagem de esperança, mas não seria a mesma coisa. E nem seria verdade, por muito que agora ela ande relativa e conforme as perspectivas.

(espero que fique registado em acta que apenas em apostilha se vai referir que o Sporting conseguiu passar o Natal e vai para o Ano Novo em primeiro lugar, mas isso é apenas um engodo a ver se me deixam bem disposto…)

Uma Fantochada Só Possível Porque Temos Na Educação Umas Criaturas Que Só Navegam Com Vento Pela Popa

Contra todo o bom senso, continua a fingir-se que existe um modelo de avaliação do desempenho com um mínimo de sentido ou “rigor”. Continuam colegas a andar entre escolas e agrupamentos e a aceitar “observar”, enquanto a outr@s se exige que sejam “observad@s”. Tudo com recurso, pelo que vou sabendo, em “ferramentas de observação de aulas” que são, no mínimo, risíveis e intelectualmente deprimentes. De sul a norte, com naturais excepções.

Se tivéssemos na 5 de Outubro gente com as solanáceas no sítio e já teria sido pensado um modelo transitório para este período de pandemia. E poderia aproveitar-se a oportunidade para fazer alguma coisa de jeito na matéria mas, infelizmente, o pessoal político que anda por lá não prima pela coragem, preferindo refugiar-se em conversas de chacha saídas de sebentas mais do que encardidas. O que se passa é uma tristeza, criada para estrangular a progressão na carreira e mais nada. Que exista quem acha que assim é melhor do que nada e, portanto, colabora, desperta-me pensamentos que não gostaria de verbalizar agora por extenso, pois sei que gente amiga se sentiria ofendida.

Criam-se novas regras para tudo, há por aí uma emergência, mas há docentes a passear de um lado para o outro a cumprir procedimentos de uma estupidez assinalável. E repito… não me digam que não poderia ser de outro modo, porque poderia. Nem é a falta de coragem que me choca, porque não tenho esperança nas criaturas, é mesmo a aparente falta de entendimento que me demonstra o nível a que tudo isto desceu. E ainda há quem fale em “respeito” ou da falta dele.

(já agora… a excelentíssima senhora qualquer coisa da bolsa de avaliadores externos da minha zona comunicou ao meu agrupamento, semanas depois de lhe ter transmitido que aderia à greve ao sobre-trabalho e não cumpriria qualquer tarefa como avaliador externo, que “prescindia dos [meus] serviços”… tivesse a senhora dótôra enviado o mail directamente para mim e teria direito a uma resposta à altura do seu medíocre desplante… e quem entender que vá “bufar-lhe” o que aqui escrevi, a ver se me chateio…)

(segunda diatribe do entardecer… é penoso ver gente que nem uma acta consegue escrever sem erros ou fazer um relatório dos mais primários sem tropeçar nos parágrafos, a avaliar colegas e a atribuir-lhes classificações; já sei… são sublimes pedagogos do “saber fazer”…)

Se Um Professor, Só Por Ter Ausência Da Componente Lectiva Serve Para Fazer Rasteios Epidemiológicos…

… então gostava que arranjassem um qualquer advogado, fiscal das finanças, engenheiro de minas, contabilista, assessor de ministro ou de secretário de estado para darem aulas às turmas que continuam sem professor de Português, Inglês, TIC ou Geografia. Não interessa qual a disciplina porque em “estado de emergência” já vale tudo.

Pensando bem… acho que devem fazer primeiro uma “formação” em 3 módulos… um com a doutora ariana (flexibilidades e inanidades várias), outra com o professor rodrigues (inclusão e belo pensamento) e mais uma com o secretário costa (cidadanias, autonomias e outras pias).

Terreno Escorregadio – 2

Gostava de acrescentar um ou dois detalhes ao post do fim de semana acerca da ideia de “premiar” ou “valorizar” as qualificações dos docentes. Porque não sei se serão as qualificações académicas, se aquelas que nos enfiam pelas goelas abaixo, em moldes quase obrigatórios, sob o manto de “formação contínua” certificada lá por Braga. Ou se, se forem académicas, teremos, como já se passa, aquelas que são aceites como virtuosas – com chancelas das doutoras arianas, do secretário costa ou do inclusivo professor rodrigues, só para exemplificar – e as que não são reconhecidas para nada? Eu exemplifico… um mestrado/doutoramento em Desenvolvimento Curricular ou Gestão Escolar no instituto ou faculdade certa dá direito a progressão e “bónus”, mas se for numa área disciplinar específica, de natureza mais científica, ficará a chuchar no dedo?

Porque me parece que o plano será recompensar os séquitos, a partir de uma definição muito estreita do que serão consideradas qualificações com “mérito” para a docência. Até porque já há por aí antecedentes… que devem muito às conveniências de passagem e muito pouco a qualquer critério de objectividade.

Se não é assim, serei o primeiro a reconhecer. Mas… se há gente em que não acredito na boa-fé em termos de definição de carreiras na administração pública é em quem se especializou na análise do modo como se alteram as circunstâncias de contratos estabelecidos pelo Estado.

Outra Vantagem

Pelo menos nos agrupamentos/escolas com bom senso é não haver aquelas rgp’s de início de ano com muita conversa fiada, muita esperança e crença no futuro, muita promessa de afectos e escasso sumo, por muito que se esprema. A práxis mais comum agora é o chamado mail de boas vindas a que se pode fazer vista tão fina que até passa entre os raios do sol a caminho da reciclagem.

 

O Global Teacher Prize 2020 Fechou Há Uma Hora E É Uma Pena

O prazo inicial foi prolongado até hoje, mas deveria ser alongado pelo menos até final desta semana. A escassez inicial de candidatos daria certamente numa plétora, tamanha a excelência que vejo espraiar-se neste tempo de emergência educativa. Não admira que a ideia dos neo-titulares não desagrade a uma quantidade apreciável de pessoas.

Para quando o Costita d’Oiro? Antero, andas por aí? Preciso de um “munheco” alusivo.

Lurditas

Adenda: isto não pode transformar-se numa espécie de campeonato entre quem quer trabalhar e quem não sabe ou não quer fazer nada. Não é sequer uma crítica ao trabalho feito do lado de “cá”, mas sim a constatação da desigualdade de acesso à net do lado dos alunos, seja em zonas mais remotas onde ela não chega, seja em casos onde não há dezenas de euros para pagar a conta. Repito, há que criar condições para o ensino à distância, mas com cuidado na forma como isso se venha a reflectir na avaliação, pois poderemos estar a agravar desigualdades. Eu entendo o cuidado em mostrar que não se está de férias (cruzes, credo), mas… será que todos vivemos nas mesmas realidades sociais e económicas em termos de comunidades educativas?

Devemos procurar soluções? Certo! Certíssimo!!! Mas esta experiência está a ser feita em condições excepcionais, por causa da questão “sanitária”. Por isso, em vez de estarmos tão centrados no que nós vamos fazer, que tal inquirirmos o que el@s estão em condições de fazer?

Já agora… há anos que crio blogues de suporte às minhas aulas de Português e quando leccionei turmas de PCA e Vocacional, construímos blogues temáticos com os trabalhos dos alunos. Quase em exclusivo no espaço da escola. Porque…