E Há Quem Aproveite O Primeiro Pretexto Para Voltar A Dormir A Sesta

A FNE consegue considerar válida a possibilidade de ter antecipado visionariamente a decisão dos “serviços mínimos! que nem sequer refere a “sua” greve a que, de qualquer modo, quase ninguém estava a levar a sério. As viagens ao exterior parecem ter arejado em demasia o pensamento do seu lider.

A decisão da FNE de avançar com uma greve nacional para o dia 8 de fevereiro impunha que se respeitasse um prazo de 10 dias de antecedência, pelo facto de as escolas terem sido consideradas serviços sociais impreteríveis.

Ora, na data em que se tomou essa decisão já não se dispunha da necessária antecedência.  Assim, a FNE mantém a convergência com as greves já marcadas por outras organizações, bem como a participação na Manifestação Nacional do próximo dia 11 de fevereiro, em Lisboa.

Incompreensível

Critica-se a eventual pressa e precipitação do STOP, por marcar uma greve em cima do final do período, com uma espécie de “menu” de alternativas e sem que se perceba se a greve é mesmo a todo o serviço (incluindo preparação das reuniões de avaliação e sua realização) e se o tempo indeterminado é com prazo fixo.

Espera-se por uma alternativa por parte do “sindicalismo institucional”, que se acha mais “respnsável” e sabedor destas coisas e, no dia 5 de Dezembro, depois de uns dias a preparar a “luta”, faz-se uma conferência de imprensa a anunciar uma manifestação para daqui a três meses, mais uns papelórios para assinar e umas vigílias ao anoitecer? Mas o que é que no dia 4 de Março se vai conseguir? Anunciar a Primavera?

Daqui até lá o que se vai passar? A romaria costumeira de abaixo-assinados (há um que na minha sala de professores tem apenas a assinatura de quem lá o pôs há uns dias) e mais aqueles convívios dos 20-30 do costume (pronto, 50) à porta do ministério e com grandes planos das televisões para parecerem quase 100? Voltamos atrás 15 anos, sem nada ter aprendido, entretanto?

Vamos lá relembrar as coisas… há mais de seis meses que as coisas estão anunciadas:

As cinco CCDR — Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve — vão ficar com as competências e funcionários das cinco direções regionais de Cultura, Educação, de Conservação da Natureza e Florestas e de Formação Profissional, para além das Administrações Regionais de Saúde e Entidades Regionais de Turismo.

Nada disto é novo. Foi dito no Parlamento com as letras todas, honra seja feita por uma vez, neste caso a Ana Abrunhosa, que explicitou com clareza:

Ana Abrunhosa admitiu, durante uma audição parlamentar, que será um processo “doloroso“, justificando que vão “desaparecer estruturas” e “muitas agências nacionais também vão perder competências e poder”. “É isso que significa descentralização e regionalização”, sublinhou.

A nota explicativa da audição parlamentar, citada pelo JN, antecipa que este é um processo “muito ambicioso” e que o Governo pretende levar a cabo “até ao fim do ano 2023”, sendo que será feito de forma gradual e que “até 2024 todas as competências dos serviços e órgãos mencionados se considerem transferidas”.

Toda esta transferência ficou decidida em Conselho de Ministros do passado dia 17 de Novembro.

Ao nível da Educação, as Direções de Serviços da Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares passam para as CCDR, por exemplo, a participação “no planeamento da rede escolar da circunscrição regional, promovendo, sem prejuízo das competências dos restantes serviços do Ministério da Educação, ações de planeamento e execução do ordenamento das redes da educação pré-escolar, dos ensinos básico e secundário, incluindo as suas modalidades especiais, bem como as de educação e formação de jovens e adultos”.

Para as pessoas mais distraídas, o planeamento da rede escolar tem impacto directo nas necessidades de pessoal docente de cada agrupamento/escola, sendo por essa via possível, de modo até bastante simples, forçar a mobilidade de docentes entre estabelecimento de ensino, incluindo o pessoal dos quadros. Há quem ainda não tenha percebido mesmo como as coisas podem ser feitas.

Garantir que há um concurso nacional para vincular, mesmo que seja com base na graduação profissional (que tanto é criticada), não é garantia de qualquer estabilidade. O que está em causa é ir muito além do que se fez durante os tempos da troika. Sim, os qzp ficaram enormes, mas não se entregava o planeamento da rede escolar a estruturas exteriores ao Ministério da Educação.

Lembram-se do Crato dizer que ia “implodir” o ME? Isto é a terraplanagem das ruínas do que já foi uma estrutura que, com todos os seus defeitos, outrora dava apoio às escolas e com ela mantinha alguma relação de proximidade e familiaridade nas questões tratadas. E que até já teve, em tempo que já lá vão, alguma independência técnica dos humores políticos. Mas isso foi sendo destruído há cerca de 15 anos, e agora tudo vai ficar depende de uma regionalização encoberta, servida por uma estrutura (fica aqui a do Norte e aqui a do Algarve, para dar os dois extremos do país)

O ministro Costa, ampliado pelo seu séquito de cortesã(o)s, bem pode vir dizer que está “agastado” com alegadas mentiras. O problema é que se há alguém a mentir ou a dizer verdade por menos de metade é exactamente ele. A Educação vai tornar-se uma área de governação local ou regional, uma manta de retalhos, num pequeno país como o nosso, capturado por uma classe política, para quem a “ética” é uma palavra esvaziada de substância, como se percebe num estudo da FFMS divulgado exactamente hoje.

Voltando ao início… isto é, talvez até mais do que incompreensível, verdadeiramente ridículo. Se foi para isto que andaram em reuniões, podem ir limpar as mãos às paredes de uma casa de banho pública, daquelas bem castiças.

Estando as negociações suspensas pelo ME, Mário Nogueira, Secretário-geral da FENPROF, explica que este é o tempo de os professores demonstrarem ao Ministério da Educação que estão contra as medidas que este apresentou aos sindicatos nas reuniões de negociação. Assim, vão realizar-se vigílias de professores em todo o país na semana de 12 a 15 de dezembro, onde serão aprovadas moções a enviar ao ME, ao mesmo tempo que vai começar a circular nas escolas um abaixo-assinado para ser entregue na próxima reunião de negociação, prevista para 2023.

Mas qual negociação? Já está explicado tudo o que vai mudar!

Filosofia(s)

Um artigo da Bárbara Reis sobre os exames de Filosofia despertou do coma algumas pessoas para o debate em torno da Filosofia, disciplina que quase tod@s deixaram trucidar e menorizar nas últimas duas décadas sem especial protesto, desde que a sua facção ficasse com a condução do respectivo programa e, já agora, da “formação” sobre o dito. cujo. Agora, discutem a importância que, em tempo útil, não quiseram ou souberam defender de modo eficaz, por vezes em troca da promoção de uma clique académica que, por exemplo, deixou praticamente desaparecer do programa uma História da Filosofia com pés e cabeça. Mais vale tarde do que nunca? Talvez, mas agora é mesmo muito tarde para andarem a discutir uma ausência, que é de um papel central no currículo da disciplina mais transversal de todas. Quem enfiar o barrete é porque o merece. Eu sou um mero retrógrado professor de História e hoje nem sei se vou ver a bola.

O Silêncio Da Confap (Mais Um) E Ainda Umas Palavras Cruzadas

O site parece um derivado de uma agência de comunicação do ME. Sobre as propostas que apareceram sobre a contratação e vinculação dos professores que irão ensinar os seus educandos, nada a dizer. Por não terem conhecimento oficial, aposto. Entretanto, nas palavras cruzadas do Público de domingo já se assume a coisa como facto consumado.

(imagem recebida através da Joana Leite, que a colheu no mural de Conceição Liquito; entretanto busco o pdf da edição, porque já não acho a edição em papel)

Vou Esperar Deitado…

… por uma posição oficial decente da ANDAEP, da ANDE ou mesmo do Conselho de Escolas em relação às propostas que andam por aí. Já sei que vão dizer que não têm conhecimento oficial da proposta criação de Conselhos (Inter)Municipais de Directores e que por isso não podem tomar a dita posição. O que é muito “institucional”, mas também pode passar por falta de tintins em assumir com clareza o que querem. Basta passar pelos sites das duas primeiras organizações para se ficar com a sensação que feneceram já há uns tempos (ou mesmo anos no caso da ANDE). Fazem lembrar o modo como a ANVPC ignora por completo as recentes questões relativas à contratação, depois de ter cumprido a missão de promover alguma figuras e conseguir absorver umas verbas jeitosas para formações e eventos alinhados com o patrão. Mais valia passar a chamar-se Direcção-Geral dos Contratados e integrar a estrutura orgânica do ME.

Poder Ajudar Alguém…

… com um esforço relativamente modesto e recusar, apesar de ser numa causa que sempre se disse defender, não me faz desacreditar na natureza humana, mas apenas confirmar as minhas piores expectativas em relação a quem acha que fazer umas passeatas e ficar em casa de vez em quando chega para marcar uma posição.

A Culpa Será Da Troika?

É um pouco deprimente ler algumas pessoas a justificar uma série de coisas com os tempos malfadados da troika, como se essas malfeitorias justificassem todas as anteriores e posteriores. E depois ainda acusam quem discorda dessa narrativa, que coloca a origem de todos os males em 2011, de “relativizar”. “Relativizar” é branquear que isto apaga qualquer reversão inacabada. “Relativizar” é negar que isto corresponde a um terceiro congelamento salarial.

A clubite partidária está de volta de um modo absolutamente canhestro.

Estimativa do Governo para a inflação em 2022 é de 7,4%. A confirmar-se, a perda de poder de compra dos trabalhadores do Estado em 2022 será a maior dos últimos 12 anos. Em algumas carreiras as perdas poderão chegar a 15,9%

É que nem a narrativa que estão a tirar aos pseudo-privilegiados para dar aos mais desfavorecidos bate certo.

Portugal é o 8.º pior na lista de países com maior risco de pobreza ou exclusão social

Entranhou-se?

O modelo de administração e gestão escolar parece já agradar ao palato de um número crescente de “agentes educativos” que o discute de forma pacífica e não conflituante, parecendo apagar tudo o que de ele trouxe de distorção à vida das escolas. Já nem vou sequer falar da parte da “democracia nas escolas” que já deixou de entusiasmar praticamente toda a gente que não vive o seu quotidiano ou o experimenta do ponto de vista de quem manda ou faz parte das cortes locais. Já vou falar só do completo disparate que são os mega-agrupamentos, com serviços administrativos centralizados, que em nada contribuem para qualquer “proximidade”. Reduziu-se o pessoal administrativo, que agora se queixa de excesso de trabalho, quando parte dele até já passou para o pessoal docente que faz coisas que, quando comecei, em 1987, seria impensável. Vai dar-se na ESE de Setúbal um encontro que, pelos contributos, só muito dificilmente poderá “contribuir para incrementar a mudança de algumas dimensões das políticas educativas e dos modos de organização e gestão das escolas e da educação de forma que a ação formativa e organizacional seja mais informada e sustentada”. É pena que quando se vai – em teoria – discutir o arco-íris, o pessoal só se concentre no espectro rosa-lilás. E não é por ter gente amiga por lá que deixo de assinalar a conversão ao discurso emaranhado do eduquês vintage.

Resumindo… a coisa veio para ficar e cristalizar-se, porque a “mudança” de que se fala é apenas no sentido de melhorar a eficácia do nó.

6ª Feira

Já tive colegas de grupo com a, para mim, triste licenciatura em Educação Básica que agora pode servir, mesmo sem mestrado profissionalizante, para leccionar várias disciplinas do 2º ciclo, nomeadamente as dos grupos 200 e 230. Foram essas colegas que me confirmaram as piores impressões que eu tinha desta licenciatura “generalista”, em que há um pouco de tudo e nada com um grau sequer médio de profundidade. Repare-se no caso do plano de estudos da dita licenciatura na ESE de Lisboa. Ao longo dos 3 anos, as disciplinas relacionadas com o ensino do Português perfazem 17 créditos no 1º ano (se incluirmos os 6 de “Escrita Académica em Português”, que não é bem o que aqui nos interessa), 5,5 nº 2º e 3,5º no 3º, num total de 26 créditos. Mas a situação de História e Geografia de Portugal é pior, porque apenas existem 2 disciplinas num total de 12 créditos. No caso da Matemática, teremos de incluir “Análise de Dados” (2º ano, por certo mais ligada a metodologia) e “Matemática e Cultura” (3º) para se ultrapassarem os 30 créditos. No caso das Ciências há 3 disciplinas com um total de 15 créditos. Há depois muito mais coisas, úteis por certo, mas não há absolutamente nada sobre o funcionamento organizacional e administrativo das escolas, nem sequer sobre algo tão básico como as funções dos órgãos de gestão ou a função de director de turma.

No ISPA há variantes, algumas interessantes, mas sobre os conteúdos disciplinares específicos, muito pouco. Na Universidade Aberta, passa-se algo semelhante, não deixando eu de achar curioso que a História da Educação seja remetida para o 2º semestre do 2º ano. Na ESE do Porto salta à vista o menu de disciplinas opcionais, ou seja, quem não quiser as de uma área mais específica do currículo, acaba a licenciatura com 15-20 créditos ligados a cada uma das disciplinas que se considera estar habilitado para leccionar. Em Coimbra, segue-se o cânone de 2 disciplinas de HGP, cada uma a 6 créditos, e uma de Didática e estamos falados. Há muito mais exemplos, alguns deles mais deprimentes. Mas, siga-se para a sala de aula, com menos horas de História ou Geografia do que um aluno do Secundário.

Ahhhh… mas os conteúdos mais específicos estão guardados para os “mestrados”, argumentam. Nem por isso, pois os “cadeirões” são os “Prática Educativa” (24 créditos em cada ano), enquanto o resto anda entre os 3 e os 6 créditos. Em Lisboa, para dar aulas ao 1º e 2º ciclo no meu grupo, entre os conteúdos de formação curricular e os de didáctica, pouco mais de 60 créditos. Muita teoria, pouca substância. Muito “saber ensinar”, pouquíssmo “ai o que vou eu ensinar”. Pelo que não se estranha a dependência enorme dos manuais e plataformas das editoras, porque o saber “científico” é reduzido, não por responsabilidade dest@s licenciad@s, mas porque o “paradigma” é este, o da menorização dos saberes “enciclopédicos”. e a petizada pode alegrar-se com muitas “expressões”, mas fica a saber praticamente nada, a não ser ler o manual, quando o entende, pois o ensino do Português também vai ficando pela rama até ao 6º ano, com as novas aprendizagens “essenciais”. Muita “dramatização”, pouca compreensão ou capacidade de interpretação.

É isto que o ME considera a “solução” para a falta de professores nas escolas em alguns grupos disciplinares. Uma formação hiper-generalista, superficial e leccionada, nas áreas que conheço, por gente desconhecida nas áreas académicas em causa. Pelo que não espanta que os primeiros anos de prática efectiva dependam mais do acolhimento nas escolas do que da formação inicial. Que tem imensa parra, imensa coisa “criativa” e “lúdica”, mas quase nada de “conduto”. Pura fancaria, para as doutoras cosmes e afins se sintam “superiores”.