A Culpa Será Da Troika?

É um pouco deprimente ler algumas pessoas a justificar uma série de coisas com os tempos malfadados da troika, como se essas malfeitorias justificassem todas as anteriores e posteriores. E depois ainda acusam quem discorda dessa narrativa, que coloca a origem de todos os males em 2011, de “relativizar”. “Relativizar” é branquear que isto apaga qualquer reversão inacabada. “Relativizar” é negar que isto corresponde a um terceiro congelamento salarial.

A clubite partidária está de volta de um modo absolutamente canhestro.

Estimativa do Governo para a inflação em 2022 é de 7,4%. A confirmar-se, a perda de poder de compra dos trabalhadores do Estado em 2022 será a maior dos últimos 12 anos. Em algumas carreiras as perdas poderão chegar a 15,9%

É que nem a narrativa que estão a tirar aos pseudo-privilegiados para dar aos mais desfavorecidos bate certo.

Portugal é o 8.º pior na lista de países com maior risco de pobreza ou exclusão social

Entranhou-se?

O modelo de administração e gestão escolar parece já agradar ao palato de um número crescente de “agentes educativos” que o discute de forma pacífica e não conflituante, parecendo apagar tudo o que de ele trouxe de distorção à vida das escolas. Já nem vou sequer falar da parte da “democracia nas escolas” que já deixou de entusiasmar praticamente toda a gente que não vive o seu quotidiano ou o experimenta do ponto de vista de quem manda ou faz parte das cortes locais. Já vou falar só do completo disparate que são os mega-agrupamentos, com serviços administrativos centralizados, que em nada contribuem para qualquer “proximidade”. Reduziu-se o pessoal administrativo, que agora se queixa de excesso de trabalho, quando parte dele até já passou para o pessoal docente que faz coisas que, quando comecei, em 1987, seria impensável. Vai dar-se na ESE de Setúbal um encontro que, pelos contributos, só muito dificilmente poderá “contribuir para incrementar a mudança de algumas dimensões das políticas educativas e dos modos de organização e gestão das escolas e da educação de forma que a ação formativa e organizacional seja mais informada e sustentada”. É pena que quando se vai – em teoria – discutir o arco-íris, o pessoal só se concentre no espectro rosa-lilás. E não é por ter gente amiga por lá que deixo de assinalar a conversão ao discurso emaranhado do eduquês vintage.

Resumindo… a coisa veio para ficar e cristalizar-se, porque a “mudança” de que se fala é apenas no sentido de melhorar a eficácia do nó.

6ª Feira

Já tive colegas de grupo com a, para mim, triste licenciatura em Educação Básica que agora pode servir, mesmo sem mestrado profissionalizante, para leccionar várias disciplinas do 2º ciclo, nomeadamente as dos grupos 200 e 230. Foram essas colegas que me confirmaram as piores impressões que eu tinha desta licenciatura “generalista”, em que há um pouco de tudo e nada com um grau sequer médio de profundidade. Repare-se no caso do plano de estudos da dita licenciatura na ESE de Lisboa. Ao longo dos 3 anos, as disciplinas relacionadas com o ensino do Português perfazem 17 créditos no 1º ano (se incluirmos os 6 de “Escrita Académica em Português”, que não é bem o que aqui nos interessa), 5,5 nº 2º e 3,5º no 3º, num total de 26 créditos. Mas a situação de História e Geografia de Portugal é pior, porque apenas existem 2 disciplinas num total de 12 créditos. No caso da Matemática, teremos de incluir “Análise de Dados” (2º ano, por certo mais ligada a metodologia) e “Matemática e Cultura” (3º) para se ultrapassarem os 30 créditos. No caso das Ciências há 3 disciplinas com um total de 15 créditos. Há depois muito mais coisas, úteis por certo, mas não há absolutamente nada sobre o funcionamento organizacional e administrativo das escolas, nem sequer sobre algo tão básico como as funções dos órgãos de gestão ou a função de director de turma.

No ISPA há variantes, algumas interessantes, mas sobre os conteúdos disciplinares específicos, muito pouco. Na Universidade Aberta, passa-se algo semelhante, não deixando eu de achar curioso que a História da Educação seja remetida para o 2º semestre do 2º ano. Na ESE do Porto salta à vista o menu de disciplinas opcionais, ou seja, quem não quiser as de uma área mais específica do currículo, acaba a licenciatura com 15-20 créditos ligados a cada uma das disciplinas que se considera estar habilitado para leccionar. Em Coimbra, segue-se o cânone de 2 disciplinas de HGP, cada uma a 6 créditos, e uma de Didática e estamos falados. Há muito mais exemplos, alguns deles mais deprimentes. Mas, siga-se para a sala de aula, com menos horas de História ou Geografia do que um aluno do Secundário.

Ahhhh… mas os conteúdos mais específicos estão guardados para os “mestrados”, argumentam. Nem por isso, pois os “cadeirões” são os “Prática Educativa” (24 créditos em cada ano), enquanto o resto anda entre os 3 e os 6 créditos. Em Lisboa, para dar aulas ao 1º e 2º ciclo no meu grupo, entre os conteúdos de formação curricular e os de didáctica, pouco mais de 60 créditos. Muita teoria, pouca substância. Muito “saber ensinar”, pouquíssmo “ai o que vou eu ensinar”. Pelo que não se estranha a dependência enorme dos manuais e plataformas das editoras, porque o saber “científico” é reduzido, não por responsabilidade dest@s licenciad@s, mas porque o “paradigma” é este, o da menorização dos saberes “enciclopédicos”. e a petizada pode alegrar-se com muitas “expressões”, mas fica a saber praticamente nada, a não ser ler o manual, quando o entende, pois o ensino do Português também vai ficando pela rama até ao 6º ano, com as novas aprendizagens “essenciais”. Muita “dramatização”, pouca compreensão ou capacidade de interpretação.

É isto que o ME considera a “solução” para a falta de professores nas escolas em alguns grupos disciplinares. Uma formação hiper-generalista, superficial e leccionada, nas áreas que conheço, por gente desconhecida nas áreas académicas em causa. Pelo que não espanta que os primeiros anos de prática efectiva dependam mais do acolhimento nas escolas do que da formação inicial. Que tem imensa parra, imensa coisa “criativa” e “lúdica”, mas quase nada de “conduto”. Pura fancaria, para as doutoras cosmes e afins se sintam “superiores”.

2ª Feira

O recente ex-director Fernando Elias faz hoje no Público uma espécie de “testamento” sobre o que acha que deve ser a “escola do século XXI, afirmando que “o futuro começa hoje”. A modos que é assim… o nosso contacto pessoal foi escasso ou praticamente nulo, mas eu até acho que o ex-director Fernando Elias é uma pessoa cheia de boas intenções. O problema é a aterradora capacidade para despejar chavões sem sigificado substantivo a um ritmo quase alucinante. Este do futuro começar hoje poderia ser dito desde o início dos tempos, seja ele resultado de uma singularidade cósmica ou de um qualquer bafo divino. É que nem como metáfora já se aguenta tal coisa, bem como (citando, nem sei bem a que propósito, o Matias Alves, que também anda numa deriva algo sebastiânica) a afirmação de que se deve colocar as “aprendizagens no centro da vida escolar”, como se isso fosse um pensamento inovador, acrescentando que isso deve assentar “em quatro pilares fundamentais: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser, aprender a conviver”. Eu juro que tento levar isto a sério, juro que sim, garanto que tento nem me rir, nem me desesperar com este tipo de platitudes que transpiram prozac por todos os caracteres e me deixam sempre a amarga sensação de estar perante pessoas em busca de um rumo (claro que não faltam as referências à “Felicidade” ao “Sentir & Saber”, etc). E claro que se segue a enumeração de medidas que não passam de um decalque das políticas do ex-secretário, agora ministro Costa. O ponto de não retorno é atingido quando deparo com o “compromisso estratégico” nº 7:

Promover uma educação competencial, onde o desenvolvimento das aprendizagens se processe através da reorientação dos processos pedagógicos para o saber fazer e o saber ser. Para o efeito, devem ser criados mais projetos, clubes, oficinas e academias (como, por exemplo, a Academia de Líderes Ubuntu), no seio das escolas.

Pronto. Não dá para ler mais. Só posso pedir, por todas as alminhas que coloquem o recente ex-director Fernando Elias à frente de um grupo de trabalho, de uma estrutura de missão, de um plano/projecto/programa qualquer que lhe permita preencher eventual vazio existencial e dar cor aos dias que agora parecem ter ficado cinzentos. A sério, isto pode parecer sarcástico, mas é escrito com a melhor das intenções. Porque já é tempo de sermos, conhecermos, fazermos, convivermos qualquer coisa. Se a aprendizagem deve ser contínua e progressiva, é também importante desencalhar de uma vez deste tipo de atitude um bocadinho choninhas. E já agora, num tempo em que tantos professores estão profundamente infelizes, a conversa fofa sobre a “Felicidade” (que se tornou um belo negócio em matéria de “formação”) fica sem se perceber se é mesmo um completo descolamento da realidade. Com o devido respeito, claro.

Como Seria De Esperar, Pariram Um Rato

As medidas limitam-se a prolongar as deste ano e a revogar, na prática, o que a antiga secretária Leitão tanto se esforçou por dizer que era a “boa governança” das finanças públicas. Giro seria agora ir ouvir as instituições que validaram essa posição, perante as queixas repetidas dos professores.

Por outro lado… esta medida “regionalizada” parece-me de constitucionalidade muito, muito duvidosa. Mas como agora já vale tudo, o seu contrário, outra vez o mesmo e depois outra vez o seu contrário…

Os professores com horários incompletos vão poder ver os contratos renovados no próximo ano letivo e as escolas nas regiões mais afetadas pela falta de docentes podem completar os horários a concurso nas disciplinas com maior carência.

Nas zonas do país particularmente afetadas, como Lisboa e Algarve, os horários a concurso para as disciplinas em que habitualmente faltam mais professores vão ser completados logo no arranque do ano letivo.

(…)

O mesmo diploma prevê ainda uma alteração ao nível dos mecanismos de contratação, alterando o número de reservas de recrutamento necessárias até que os estabelecimentos de ensino possam recorrer à contratação de escola.

Domingo

Podemos considerar que alguém deu um contributo sério para o debate educativo em Portugal mas, em simultâneo, considerar que esse contributo se cristalizou e foi incapaz de se renovar, confundindo o fracasso concreto das suas propostas com uma espécie de conspiração do “sistema” do qual se faz parte há 40 anos em lugares de destaque. Ao ler certas declarações do ex-secretário de Estado, investigador e figura destacada na área da Educação da Católica do Porto e vitalício conselheiro da Educação na  V Jornada Pedagógica da Escola Católica fico com a sensação que há quem não perceba que por vezes somos nós que necessitamos de mudar o nosso “paradigma” mental para conseguirmos entender que o tempo mudou de forma diferente do que um dia projectámos. No fundo, como Domingos Fernandes, Joaquim Azevedo quer que regressemos ao que se discutiu ao longo dos anos 90 e esbarrou com a realidade nos anos 2000. Claro que a culpa, para eles, será sempre da realidade, da imperfeição humana na implementação das suas utopias perfeitas, que as suas “visões” é que não foram compreendidas.

A muitos, isto cansa, porque andamos em círculos, sempre em busca de satisfazer egos e não tanto resolver problemas, através da identificação correcta dos problemas e suas causas, como se a Educação não fosse apenas um dos aspectos de um sistema global complexo e com variáveis que a condicionam e não conseguem ser combatidas apenas dos portões para dentro das escolas, mesmo com manuais oferecidos e muitas alíneas inclusivas. O maior problema da Educação está fora dela e resulta de uma organização socio-económica que continua a agravar desigualdades que não se superam com “planos de recuperação de aprendizagens”, alegadamente perdidas ou não realizadas durante a pandemia. As perdas, reais, que não se encontram em estatísticas de sucesso produzidas a preceito ou diagnosticadas em estudos com as conclusões inscritas no caderno de encargos, são cumulativas e não são recentes. È pena que não seja esse “paradigma” que seja colocado em causa, preferindo-se andar pela cosmética da coisa, acreditando que é (apenas) reorganizando o espaço escolar, aplicando teses que têm tantos ou mais anos do que a escola de massas e podando o currículo a preceito, que se consegue que os alunos encontrem na escola um verdadeiro “sentido” para o futuro. Antes de mais, é preciso “mudar o paradigma” desse futuro. Mas quem vive sem com os olhos no (seu) passado, imagina um futuro que já não é, nem nunca talvez tenha sido.

4ª Feira

A inércia e alguma morbidez – admito! – fez-me ficar a ver parte da sessão da Comissão de Educação a que foram a “reitora” e o ex-ministro João Melão, desculpem, João Leão justificar o que já se percebeu à milha ter sido um subsídio à medida do isczé. E nem sequer foram muito criativos nas justificações, o que demonstra como se sentem impunes: o ex-ministro alegou que não foi ele que assinou a coisa, como aquele patrão da empresa que diz que não foi ele que assinou a admissão do primogénito para vice-qualquer coisa, mas sim as pessoas em que ele delegou essa função. A excelsa “reitora” levou um gráfico que exibiu assim para o ar, segundo o qual ela demonstra que o isczé é a instituição do Ensino Superior que menos recebe do Estado por aluno; como se sabe, exibir um gráfico, sem termos acesso aos dados originais, não prova nada e muito menos nas mãos e quem já sabemos, de longa experiência, ter uma relação complicada com o rigor estatístico e com a verdade dos factos. Portanto, aquilo poderia ser um gráfico do preço dos legumes na Mercadona ou no Lidl, que poderia ter o mesmo efeito e/ou credibilidade aos meus cansados e míopes olhos..

Mas há um outro aspecto a destacar naquela “audição” e que é a imensa falta de qualidade de uma Comissão que parece formada, em boa parte, por gente que ali está em início ou fim de carreira, a preencher o lugar com escassa vontade ou competência para ir além do guião que lhe foi dado para debitar e pouco mais. Há os que estão a chegar e mal percebem seja do que for, limitando-se à chamada “crítica política” (o que significa, a crítica da conversa fiada, sem usar argumentos fundamentados em mais do que achismos e clichés); e há umas senhoras – não sei se peça desculpa, mas vou ser incorrecto para quem anda muito no espírito destes tempos alérgicos a tudo e mais alguma coisa e que ficam com obstipação só com o cheiro do glúten – com todo o ar de professoras de Liceu em processo de reforma ou já reformadas, tipos figuras de cera, mantidas em pé com ajuda de fixador ou da boa e velha laca Elnett Satin (fixação forte), que estão ali com o mesmo ar de fastio com que eu já as encontrei (ou umas parecidas) quando por lá passei há uma dúzia de anos. Incapazes de dizer uma coisa sua, original, com receio que lhe caia algum anátema em cima. A massa crítica daquela Comissão consegue ser mais baixa do que a de certas SADD de que conheci a produção “teórica”. Mas não deveria ser assim. Embora se perceba, porque a Educação mais do que deixar de ser prioridade, parece ter-se tornado mero empecilho, quando a caravana não avança à velocidade desejada pelos cortesãos.

3ª Feira (Versão Desgralhada…)

Vigilância matinal da prova de aferição de Matemática para o 9º ano. Apareceram 12 em 13 da lista de inscrição. Nada mau. Como calculava, é uma coorte que não fez provas finais, nem provas de aferição ou nem sequer se lembra dos procedimentos. Por isso, duas alminhas traziam foto do cc no telemóvel, mesmo depois de lhes ser dito que não podiam usar o telemóvel. Num dos casos, foi porque o pai lhe fica com o cc e foi trabalhar e esqueceu-se de lho dar. E é a primeira vez que apetece usar vernáculo. E repete-se que os telemóveis são para desligar e deixar lá atrás, dentro das malas, mochilas, bolsas, etc, DESLIGADOS. A seguir, são os habituais erros no preenchimento do cabeçalho (vá lá, não foram muitos os que nem sabem onde está o nº do cc), mas já nem é novidade.

(ia-me esquecendo… na folha que devem assinar a declarar que não têm nenhum equipamento electrónico consigo, todos, mas mesmo todos, escreveram inicialmente apenas o primeiro nome na “assinatura”…)

Durante a realização do Caderno 1, tocam 3 (TRÊS) telemóveis atrás. Como não estão junto aos alunos, não dão direito a anulação de prova. Mas é a segunda vez que o vernáculo ocorre, pois tinha sido bem sublinhado que era para DESLIGAR aquelas tretas. Limito-me a fazer uns trejeitos com ar de quem já nem sabe o que dizer. Ao fim de 20 minutos, já a maioria desistiu de fazer seja o que for e ficamos a olhar uns para os outros.

Às 10.30 é a vez do Caderno 2 e ao fim de 5-10 minutos, 7 em 12 dos presentes já colocou tudo de lado e desistiu de continuar a fazer a prova. Ao fim de 30 minutos, restam 2 alunos a fazer alguma coisa. É a altura em que um matulão maior do que eu declara que tem mesmo de ir à casa de banho porque, afinal, 2 horas sem xixi é uma provação do caraças. É que nem sequer é uma diarreiazita, é mesmo a bexiga cheia porque bebeu não sei o quê antes da prova. Lá vai, acompanhado de um elemento do secretariado. Volta e deita-se sobre a mesa e desenha na folha de rascunho a minha cara. Tem mais jeito para desenho do que para a Matemática. Os últimos 20 minutos são um puro suplício para 11 alunos e 2 professores, pois uma aluna (a única que disse querer ir para a área das Ciências e Tecnologias) usa o tempo quase todo da prova. Às 11.20, todos estamos desejosos de vermos esta inutilidade pelas costas… desejo-lhes boas férias e boa sorte no 10º ano. Sei que, se a classificação fosse quantitativa, uns 8 teriam o equivalente a nível um e com muita sorte apenas uns 2 teriam nível três ou mais. Mas o relatório do Santo Iavé chegará lá perto do Outono a explicar-nos qualquer coisa sobre as competências e aprendizagens não realizadas. Quando não servir para nada.

Amén!

(já agora… não adianta indicar que podem fazer-se a lápis os exercícios assim assinalados na prova, se nenhum está assinalado…)

Então, Dia 21, Lá Irei Vigiar…

… a inútil prova de Matemática para alunos do 9º ano. Eu e mais outro colega na mesma sala, mais umas dezenas pela escola, acrescendo o pessoal suplente, o secretariado e mais a polícia que traz e leva as provas e depois os classificadores (codificadores?), tudo multiplicado pelo país para fingir que se está a fazer alguma coisa a sério. Porque até os alunos já perceberam que é um total fingimento. Ao não terem consequências na progressão dos alunos e os “resultados” só chegarem às escolas no início do próximo ano lectivo, desaparece qualquer efeito com interesse para os alunos que fazem estas provas, pois no caso das Básicas até ao 9º nem sequer lá estarão, na sua esmagadora maioria (só algum distraído que fique retido, mas esses quase nunca aparecem sequer). E mesmo no caso de Secundárias, para quem for para áreas de estudos sem Matemática, é a mesma coisa em termos de utilidade zero. Ahhh… deixam ensinamentos para os alunos dos anos que ainda aí estão por vir… sim, pois, mas para isso não chegará “maiar” no sentido do sucesso?

Estas pseudo “provas finais”, que só servem para “aferição”, são a preparação para a eliminação de qualquer avaliação externa das aprendizagens no Ensino Básico, de modo a regredirmos até ao início dos anos 90 do século XX, quando esta clique ideológica já estava quase a passar do primor da idade (e agora, tirando o seu ministro Costa, já estão bem para lá do prazo de validade dos danoninhos em termos de “inovação” intelectual). E depois teremos psicólogos como os de ontem a recuperar as teses da Educação finlandesa de então, associando-a a níveis de felicidade míticos e de desenvolvimento humano que esquecem todo o contexto envolvente e um espírito ético que (mesmo que Weber não estivesse plenamente certo) por cá escasseia mais do que professores abaixo da trintena.

Mas lá irei eu (mais o colega contratado, acima da quarentena) “vigiar” algo que é de uma inutilidade atroz e que só servirá para que este envelhecido professor perca duas horas da sua vida, enquanto reprime a vontade de perguntar a quem aparecer, porque raio se deram ao trabalho de o fazer. Acaso serão éticos finlandeses disfarçados de descontraídos latinos? Lá irei vigiar uma prova que espero consiga ter sido feita sem necessidade de erratas de última hora, prova essa que, com todas as outras feitas este ano no Básico, servem mais para justificar parte da existência do Santo Iavé do que outra coisa. Não sei se, como em ocasiões anteriores, com o calor que está, os alunos só poderão levar garrafas de água descaracterizadas, para não fazerem as cábulas que o próprio enunciado fornece em forma de formulário.

Isto é tudo muito parvo, mas, como escrevi, é uma necessária fase preparatória para o decretar do fim definitivo de qualquer prova externa no Ensino Básico que não seja “de aferição”. A pandemia, a este respeito, foi mesmo uma “oportunidade”. Pena é que me façam perder duas horas da minha vida que podia levar a ler um bom livro ou a observar o movimento das nuvens ou poeiras no céu azul. Como dizia uma pessoa da minha família, gente do antigamente, “mais valia estar a ***** em pé do que a fazer isso”, se é que me é permitido o plebeísmo arcaizante.

Sentes-te Mal ? A Culpa É Tua!

Mesmo que exista alguma “evidência” subjacente ao que é afirmado, gostava de saber quando, como e com que métricas fizeram o estudo dos “níveis de literacia emocional”.

A evidência tem demonstrado que os professores com níveis mais baixos de literacia
emocional e saúde psicológica têm alunos mais indisciplinados e com menores níveis de
bem-estar, competências socioemocionais e aproveitamento escolar.

Afinal, parte da solução passa por tomar mais chá, atravessados numa chaise longue. Não se percebe bem se é apenas para professores ou se poderão ser criadas “salas de chá do futuro” inter-grupais,

Recomenda-se a definição urgente de uma estratégia integrada de promoção de
competências socioemocionais e da saúde psicológica a partir das escolas, assente na
evidência científica, e que inclua:

1. A aprendizagem explícita de competências socioemocionais, a par da sua infusão
curricular, num modelo transversal e longitudinal
;

O conjunto das recomendações parece uma manta de retalhos de platitudes e clichés. Claro que há uma “monitorização” de “indicadores”, embora não se perceba bem de quais (ponto 9).