Isso Resolve-se Por Decreto

Nuno Crato está triste pelo facto de uma das suas criações mais infelizes – os cursos vocacionais no Básico – irem desaparecer. É daquelas coisas com que eu concordo, pois eram cursos completamente desajustados à idade dos alunos, promoviam a guetizações educacional e só funcionavam como medida de combate ao insucesso e abandono, porque as regras ou eram uma treta (avaliação) ou letra morta (assiduidade). Não é que CEF sejam muito melhores, mas os vocacionais desde os 13 anos eram um disparate e o abandono combate-se a sério criando condições exteriores às escolas para que os ambientes familiares tenham forma de acompanhar a vida escolar dos alunos e de a valorizar, por forma a que eles entrem pelos portões com crença em algo mais do que disparatar.

Diz Nuno Crato que assim o abandono escolar vai aumentar.

Depende.

A brincar, para as estatísticas, o abandono combate-se com habilidades burocráticas, como tem sido regra nos últimos 10-15 anos (pelo menos) e quer-me parecer que uma boa fatia dos ganhos nesse aspecto se deve à forma como a falta de assiduidade se disfarça, seja aceitando todo o tipo de justificação, seja pelo facto dos alunos estarem obrigados a estar na escola até aos 18 anos e valer de pouco sinalizar quando só lá vão para almoçar, conviver com os amigos, chatear quem passa e pouco mais. Para além disso, a imposição de procedimentos burocráticos sem sentido e de metas pela tutela para a diminuição do abandono, ligando isso à avaliação das escolas e mesmo dos recursos colocados à sua disposição (como se fez nos tempos de NCrato, mas não só), tem sido um convite para o desenvolvimento de imensas estratégias para cosmetizar o abandono, fingindo ser outras coisas. Por exemplo, quando há quem se espante com um grupo de alunos que, de forma consistente, tem classificação abaixo de 3 em todas (ou quase) disciplinas, a mim dá-me para um sorriso triste, pois esse espanto só revela uma imensa ignorância sobre esse tipo de “insucesso”. Esses são os alunos que nem se dignam ir às aulas e a coisa seria muito fácil de detectar pela DGEEC casos nos seus “relatórios” cruzasse esses resultados com os da assiduidade. Mas isto digo eu, que só vejo nos limites deste quintal.

Mas voltando aos vocacionais… desejo uma longa vida para o seu desaparecimento.

RIP

 

Santa Paciência!

O Público fez ontem uma capa e uma espécie de especial sobre o racismo nas escolas, nos manuais, nas Universidades, etc, etc. É um destaque muito meritório, não apenas por algum sensacionalismo que sempre acompanha este tema. Só que esbarra em algumas contradições relativamente aos discursos que por aí se produzem sobre alguns “percursos” educativos “alternativos”.

Vamos lá tentar abordar a coisa de forma breve, mas não ligeira: há razão nas queixas acerca do encaminhamento de muitos afro-descendentes para vias “vocacionais” ou “profissionalizantes”. Mas essa “razão” assiste principalmente a quem desde sempre tem dito que muitas vezes essas são vias de segunda ou terceira ordem que os governos andam sucessivamente a querer impor a metade dos alunos. Já é mais complicado que quem defende que os cursos vocacionais ou profissionais são injustamente vítimas de uma má imagem depois possa surgir associado a posições de crítica quanto ao encaminhamento de alunos de minorias étnicas e culturais para essas vias.

Porque, das duas uma: ou essas vias são tão dignas quanto as outras e não há razão para “queixas”, ou realmente não são e vão muito mal aqueles que as querer inculcar à força a 50% dos alunos. Quando Crato quis espalhar os “vocacionais” a alunos desde a pré-adolescência, muita gente apoiou (e mesmo no actual mandato ainda apoiavam assim de forma meio disfarçada), houve quem o criticasse por ser esse um caminho errado e de escola a várias velocidades. E não tivesse mudado de opinião e continuado a defender o seu fim.

Alguns dos investigadores que tratam estes assuntos já há mais de um ano que tinham feito uma investida semelhante. Mas a mim complica um pouco os nervos ver ex-governantes ou pessoas ligadas directamente a equipas do ministério da Educação – um dos críticos residentes do “sistema” foi colaborador do ME nos tempos de MLR (que em 2009 já se orgulhava do encaminhamento de 50% dos alunos para estas vias no Secundário) e é agora técnico especialista na equipa do ME – fazerem este tipo de acusações e terem colaborado de forma alegre e, pelos vistos, adequadamente ingénua em campanhas de defesa do ensino vocacional e/ou profissional (veja-se o caso do actual titular da pasta).

Será que isto tira razão às denúncias? De modo algum… retira é credibilidade a quem, na pele de “investigador@” apresenta um cardápio de acusações às escolas (claro… as críticas são sempre ao nível dos mexilhões…), mas na pele de (ex-)governante ou colaborador do ME se cala ou nada faz que se tenha visto ou veja para ultrapassar estas situações e, pelo contrário, se destaque pela disciplina política. Veja-se como Ana Benavente combate o “estigma” associado ao Ensino Profissional aqui, mas depois nas páginas do Público defende que ele dá origem a desigualdades que, claro, são sempre culpa alheia “há domínios em que essa desigualdade tem muito que ver com os estereótipos que estão na mentalidade dos próprios professores, autarcas, de todos os adultos que com eles convivem.

Se encaminhar os alunos afro-descendentes para vias “alternativas” é sinal de “racismo” no sistema, então, provavelmente, quiçá, porventura e tal, que as critica como menores é que tem razão há muito tempo e sem necessidade de “estudos” para o demonstrar, bastando a observação directa da realidade. Se calhar (com certeza?), quem ajuda a perpetuar os preconceitos são os políticos e governantes muito inteligentes que acusam os outros de serem preconceituosos. Mesmo ao mais alto nível. Se o ensino profissional (mas, se calhar, só o “bom”) até é para se projectar para o século XXI pela pena dos grandes promotores das competências para o novo milénio! 

Mas claro que isso não é possível… alguma vez os iluminados poderiam errar?

Erra é quem é “preconceituoso” e afirma o que é real e acontece no seu dia a a dia. E é “racista” quem, nas escolas, acaba por fazer cumprir as imposições estatísticas da tutela.

Os “inocentes” (governantes, investigadores-especialistas-assessores) e os culpados (escolas, professores) são sempre os mesmos, em trincheiras bem claras. Uns sempre pensaram e praticaram o Bem e defendem o Progresso, os outros são uma emanação do Mal e exemplos do atavismo retrógrado. E o ensino profissional é bom ou mau, dependendo dos dias e das ocasiões.

Cambada de hipócritas…

Shame

Barranco de Surdos?

Parece que há preocupação com o facto de um elevado número de alunos dos cursos profissionais do Ensino Secundário desistirem sem os completar. Fala-se mesmo em “antecâmara” do abandono escolar. E um tipo não sabe se deve rir-se ou chorar. Rir-se do ridículo que é o aparente desconhecimento que esta malta tem do funcionamento dos cursos profissionais e do perfil dos alunos que lá vão metendo, mais ou menos à força dos 12 anos de escolaridade? Ou chorar perante a permanência de tamanha ignorância, apesar de repetidamente se tentar explicar a muita pessoas que a maior parte dos “cursos profissionais” são apenas uma forma de mascarar o abandono escolar e, mesmo quando isso se consegue, de fingir um sucesso completamente fabricado? A meta de aumentar até aos 50% o número de alunos nestes cursos, partilhada pelos últimos governos TODOS, é daqueles disparates que só fazem sentido nas cabecinhas pensadoras que sabem muito mais do que todos aqueles que só conseguem ver o seu quintal e os quintais ao redor. Pior… no Ensino Básico, os cursos pseudo-“vocacionais” foram uma total mistificação e só não foram uma “antecâmara” para o abandono porque todos os envolvidos nas escolas, das direcções aos professores e formadores, passando pelos DT, se viram condicionados para fingir que as faltas não eram bem faltas ou que eram justificáveis e que tudo poderia parecer o que não foi. O mesmo com o aproveitamento, em particular quando se percebeu que os vocacionais se iam finar e só os alunos com 100% dos módulos poderiam transitar para os “profissionais”. E foi um fartote de recuperações de módulos em atraso, quantas vezes com muitos meses ou anos de prazo. Pactuámos quase todos com este enorme fingimento que é a pretensão de ser possível termos um ensino vagamente pré-profissional no Ensino Básico e ele estender-se a 50% dos alunos no Secundário? Sim, porque estes eram alunos que se limpavam das pautas das provas finais e exames e isso favorecia a avaliação das escolas. E internamente produzia-se sucesso e maquilhava-se o insucesso e mesmo formas mais constantes intermitentes de insucesso para evitar inspecções muito rigorosas com a preservação do artifício. Sim, temos sido quase todos cúmplices, mas ainda há quem tenha dito desde o início que o modelo era errado e só funcionaria na base da ficção.

Antecâmara? A sério? Descobriram isso agora porque um terço dos alunos não completou os cursos? Se fossem ver com mais atenção descobririam que completá-los mesmo a sério nem um terço. Mas há uma autêntica câmara escura onde escondem os retratos incómodos, a menos que seja depois da asneira feita e para apontar o dedo a outrém.

Mas, provavelmente, sou eu que sou demasiado crítico e só vejo o copo meio vazio quando ele está quase todo vazio, em vez de dizer que há muito potencial para o seu preenchimento. Os nossos decisores políticos e muitos especialistas em Educação são excelentes no estudo da evidência e na conclusão do óbvio quando não é possível demonstrar que a água é vinho e que o coelho que nem a luz do dia viu em vida é lebre selvagem e fugidia.

Mas podemos continuar todos a fingir, agora com um colaboracionismo mais alargado do alargado arco da governação e a acusar quem vê e fiz o que vê de não conseguir ver o grande cenário da macro-coisa e da eficácia financeira do sistema que pode produzir estatísticas a baixo preço.

Porque o insucesso é caro e verdascam-nos às esquerda com os milhões por ano ajustados à direita, dizem que 600 ou ainda mais, bastando para isso adulterar uns factores da multiplicação dos 150.000 por 4.000.

PG Verde

Eu Bem Tento

A sério. Eu tento gostar deste ME – a coisa do investigador independente, do jovem do interior que venceu no mundo da investigação – e tento encontrar coisas boas para dizer dele, mas o homem parece disposto a, mal eu estou a lançar-me para a banheira, dar-me um banho de água gélida. Andava eu tão satisfeito com o fim do malfadado vocacional que quando li que se iria substituir esta ideia de asno por tutorias para os alunos com problemas de insucesso estava mesmo para ir comprar foguetes, um tapete vermelho e velinhas para acender em honra de São Tiago. O problema foi quando ultrapassei o título e os destaques noticiosos e percebi que a ideia é requalificar os professores com insuficiência lectiva em tutores de grupos de 10 alunos, acrescendo o papel de uma relação mais próxima com as famílias.

Eu vou-me ficar pela versão curtinha do que penso, em cinco pontinhos apenas, porque a temperatura já chegou aos 30º (praticamente o limite para se aguentar qualquer prosa acima das 150 palavras) e há  6 milhões de portugueses (e alguns maritimistas) à espera de ver a Taça das Ligas.

1 – Grupos de 10 alunos por tutor só lembra a quem não percebe nada destas coisas.

2 – E quando só existirem 5 ou 6 alunos nestas circunstâncias?

3 – Um professor com horário incompleto ou sem carga lectiva não se transforma miraculosamente num tutor.

4 – Este tipo de função não vai lá com formações apressadas, dadas por quem tem lugar fixo na ementa formativa do ME (ou dos CFAE) mas que se tivesse de ser tutor de 2 ou 3 casos sérios até se lhe ia a prosápia toda ao ar e mais os pauerpóintes.

5 – A estratégia tio patinhas, nestes casos como em outros, consegue dar cabo das melhores das intenções originais.

METiago

Como Estragar uma Boa Ideia?

Tutorias para grupos de 10 alunos? Acabar com o vocacional aos 13 anos é uma óptima medida e as tutorias também. Só que… acham que 4 horas por semana dão para apoiar “grupos de 10 alunos no estudo, mas também na sua relação com a turma e a família”? A sério? E será que a melhor ideia é mesmo aproveitar apenas quem está com horário reduzido e não quem tenha mesmo apetência para a função? Porque eu conheço boa gente que não é por ter horas livres que ganha créditos em bom senso e sensibilidade. Nestas situações, a obsessão pelas poupanças raramente é boa conselheira.

sinal

Pró-Vocacional

Fiquei com a sensação depois do debate de hoje que existe um grupo assinalável de pessoas que estão de acordo com a permanência do vocacional, mais ou menos acertos, como medida essencialmente de combate ao abandono e insucesso escolar e não propriamente como preocupação prioritária com qualquer ensino verdadeiramente profissionalizante. O estudo de base (Vocacional policy paper 3 final), apesar dos cambiantes introduzidos pela autora na discussão, demonstra que a opção pela via “vocacional” acaba ao fim de alguns anos por não compensar, enquanto foi referido por Ricardo Paes Mamede outro estudo do ISCTE que revela a existência de um corte enorme nas probabilidades destes alunos enveredarem pelo Ensino Superior

No meu caso, manifestei-me claramente contra a existência deste tipo de ensino até ao 6º ano de escolaridade e os 15 anos de idade, aceitando-o como via alternativa não monopolizante a partir do Secundário. Isso e mais umas críticas ao desfasamento entre o que está legislado e o que é a prática no terreno em grande número de casos. Para além de que, em meu escasso entendimento, o vocacional é uma via que acentuará cada vez mais o imobilismo social.

Agenda

Porque gosto de debater fora do meu quintal 🙂 … mas cada vez mais, apenas fora do período lectivo… :-).

ISEG

No próximo dia 21 de dezembro, entre as 17 e as 19 horas, realizar-se-á o debate “A aposta no ensino profissional: educação, emprego e competitividade” no Anfiteatro 1 do ISEG (Rua do Quelhas, 6, Lisboa).

O papel do ensino profissional regressou ao centro do debate sobre políticas de educação. Será que este melhora ou condiciona as perspetivas de futuro dos jovens? Que impactos na economia e no emprego? Uma análise económica do impacto do ensino profissional pode ser encontrada no IPP Policy Paper 4: “O rendimento do ensino vocacional”.

Neste evento, Alexandre Homem Cristo, Paulo Guinote, Pedro Martins, e Sofia Oliveira debatem o tema do ensino profissional e, a partir daí, as relações entre educação, economia e emprego, bem como o papel das políticas públicas de educação. A moderação estará a cargo de Pedro Pita Barros.

Alexandre Homem Cristo é conselheiro nacional de educação, doutorando no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, e autor do estudo Escolas para o século XXI.
Paulo Guinote é professor do ensino básico, doutorado em História da Educação, e autor do ensaio Educação e Liberdade de Escolha.
Pedro Martins é professor na Queen Mary, University of London, e ex-secretário de Estado do Emprego.
Pedro Pita Barros é vice-presidente do IPP e vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa.
Sofia Oliveira é economista e autora do IPP Policy Paper 4: Returns to vocational education.

Os lugares são limitados. Garanta desde já o seu lugar, inscrevendo-se.

Vocações Precoces

Texto (longo) de comentário à sondagem desta semana do ComRegras.

Vocacional_sondagem (2)

Estou em claro desacordo com aqueles colegas que acham que o vocacional, sim senhor, até pode continuar, desde que lhe sejam feitas algumas alterações, alguns remendos, que o tornem melhor. O meu problema é que não sei bem que alterações podem ser feitas de modo a tornar certo algo que está, em meu entendimento, errado na sua própria lógica, muito em especial no que se relaciona com o Ensino Básico.

Se me disserem que o vocacional, neste sistema pretensamente dual, pode ser aplicado no Ensino Secundário, a alunos com mais de 15 anos, em situação de pré-entrada no mercado de trabalho após os 18 anos, ainda posso aceitar. Mas como solução a partir dos 12-13 anos, no Ensino Básico acho-o uma mistificação, uma fraude completa, um engano servido aos alunos e respectivas famílias como saída para o insucesso escolar e às escolas e professores como solução para “limpar” esse insucesso das pautas de provas finais e circunscrever a maioria dos alunos problemáticos a turmas específicas, deixando em paz as restantes. Algo cuja aceitação pode ser compreensível em quem está muito desgastado com todo o peso do quotidiano, mas que está longe de ser uma solução razoável a médio prazo em todos os restantes aspectos. Não me parece que a fórmula “então, onde é que os metemos e o que fazemos com eles?” seja o método mais adequado para lidar com o risco de abandono e insucesso a partir do 2º ciclo de escolaridade, enquanto se finge que as “vocações” precoces são exactamente aquelas que se encaixam no perfil de qualificações ou “vocação” dos professores disponíveis para levar estes projectos adiante. Mas podemos fingir. E auto-avaliar como bom, ou mesmo a raiar a excelência, aquilo que mais não é do que um truque e que, na prática concreta de muitas realidades, é apenas uma fast lane para despachar alunos com um mínimo de competências gerais e um certificação vocacional que nenhum empregador leva mesmo a sério. Há excepções, claro que há excepções. Se não existissem, nem dávamos pelas regularidades.

Vou procurar explicar de forma breve porque acho que no plano macro e micro os alegados cursos vocacionais até podem ser “úteis” na base de uma forma errada – e barata – de lidar com as estatísticas do insucesso e abandono escolar, ao mesmo tempo que se pisca o olho aos professores que querem expurgar as suas turmas de indesejáveis, pelo que apoiam a sua arrumação algures.

No plano da macro-escala, o encaminhamento de alunos com historial de insucesso para turmas de “ensino vocacional” é um modo de lhes dar um caminho que, evitando os exames ou provas finais, traz vantagens no curto prazo a todos. Os alunos porque ficam com o sucesso quase garantido (são muitas as exigências formais de rigor que na prática de quem aparece a inspeccionar não passam de garantias de responsabilização dos professores pelo insucesso dos alunos) e o Ministério da Educação porque pode apresentar estatísticas maravilhosas de certificação de tipo profissionalizante, sem que seja feito investimento sério numa verdadeira formação profissional a partir das escolas. Para os mais distraídos, esses dinheiros passaram a seguir para outros alfobres, os das formações dadas nas próprias empresas que nunca dariam um posto de trabalho sem verificação prévia de competências que estágios de um mês, arrancados a ferros, não podem garantir. Salvo as tais excepções. A via vocacional que nasceu da crítica aos CEF e PCA, negando-lhes as adaptações que agora querem para ela, tem problemas maiores para resolver do que aquelas vias tinha, Para além de quem amputa de forma bem mais precoce a formação básica dos alunos em áreas gerais do conhecimento em troca de um afunilamento para formações “específicas” que fazem pouco sentido ou terão dificuldade em progredir sem noções fundamentais das tais disciplinas gerais. Não é a partir do 5º, 6º ou 7º ano que se trunca alegremente um currículo generalista – retirando-lhes a História, a Físico-Química ou reduzindo os conteúdos da Matemática e do Português a caricaturas – sem consequências a médio e longo prazo. A concepção de ensino subjacente ao vocacional é do mais oitocentista possível.

À micro-escala, a criação de cursos vocacionais resulta da combinação da pressão da tutela sobre os órgãos de gestão no sentido de assegurarem essa “oferta” e assim coreografarem um combate ao “insucesso” em troca de uma avaliação de excelência nas lideranças, com a sensação de alívio que traz uma “alternativa” que arruma os alunos mais problemáticos em turmas “especiais”, para que seguem tanto professores que até tentam fazer o seu melhor nestas condições quanto outros que, na ausência de pessoal voluntário disponível, se vêem a braços com grupos de alunos heterogéneos, com perfis de aprendizagem muito diversos, sem uma verdadeira coerência “vocacional” para as áreas específicas disponíveis. Sendo que as exigências formais de rigor na assiduidade e avaliação, com alunos que têm um percurso contrário a esse tipo de práticas, desaguam quase sempre num malabarismo por parte dos DT e dos professores para simularem que a falta de assiduidade foi justificada e que a avaliação é mesmo uma avaliação e não mais uma simulação porque, afinal, aqueles alunos não estão ali para terem insucesso outra vez. E eles rapidamente percebem isso e todos os vícios de um sistema destes. O que, depois, lhes falta perceber é que ou a formação específica e pretensamente profissionalizante de nada lhes vale aos 14-15 anos e aos 17-18 só serve para terem um certificado na gaveta, pois a generalidade dos empregadores não a leva a sério e dificilmente a considera um factor decisivo na contratação do seu pessoal. Salvo, excepções, claro, que são sempre excepcionais.

Mas podemos fingir. Ou levar as coisas a sério, cheios de boas intenções, e ficarmos a pensar que aquilo que vemos não é a a realidade, que a realidade são os papéis a dizer o contrário.