2ª Feira

O problema é que são demasiados os exemplos em que esse “espírito dos tempos” se veio a revelar algo duvidoso ou, no mínimo, com muitos aspectos altamente contestáveis. O que num dado momento parece evidente, natural, dominante, quase inquestionável sem fortes riscos, não o será daí a uns tempos, após algumas décadas de perspectiva.

Este Mês, No JL/Educação

Há pouco mais de vinte anos, em Março de 2001, os talibã destruíam a cabeça da maior estátua de Buda, na sequência da destruição de outras estátuas na zona de Bamiyan, no Afeganistão. E grande parte do mundo, em especial nas sociedades liberais em torno do Atlântico, chocou-se com a manifestação de intolerância religiosa e a insensibilidade cultural de um grupo radical e fundamentalista que se revelava incapaz de conviver com a diversidade e com exemplos do património histórico comum da Humanidade. Os talibã consideravam que as homenagens a Buda eram contrárias à verdadeira religião e eram símbolos perigosos de um passado (e presente) que era necessário destruir. Na passada semana, no local da destruição, foi feita uma cerimónia na qual se usou a tecnologia da projecção em 3D para recriar o que ainda não foi possível reconstruir.

Entre 2014 e 2016, o auto-proclamado Estado Islâmico destruiu mais de uma dezena de sítios com vestígios arqueológicos, com destaque para a demolição da maior parte das ruínas da cidade romana de Palmira em Julho de 2015. Os ataques a outros exemplos de património histórico, de relevância local ou global, como as cidades históricas de Dura Europos, Hatra, Nimrud ou Nínive, foram duramente condenados no  mundo ocidental, mesmo se surgiram vozes a tentar explicar a intolerância como uma “manifestação da rejeição do Estado-Nação” ou de combate ao uso dos sítios históricos como recurso para a propaganda em estados como o Iraque ou a Síria (Christopher W. Jones, “Understanding ISIS’s Destruction of Antiquities as a Rejection of Nationalism”, Journal of Eastern Mediterranean Archaeology and Heritage Studies, Vol. 6, n. 1-2, 2018, pp. 31-58).

Se do património construído passarmos para as Letras, há muitos exemplos recentes de intolerância em relação a autores e obras que este ou aquele grupo considerou ofensivo ou mesmo blasfemo, de Salman Rushdie a Kamel Daoud. E todos nos lembramos do ataque à redacção do jornal satírico Charlie Hebdo, assim como de outros episódios similares. E apontou-se o dedo à intolerância de quem não consegue lidar de forma pacífica com a diferença e a a alteridade. Entre nós, ficou conhecida a revolta geral quando se soube que um secretário de Estado eliminara José Saramago de um prémio literário, por achar que o livro (O Evangelho segundo Jesus Cristo) ofendia as crenças dos católicos, ou o incómodo quando um cartoon de António com o Papa João Paulo II mereceu reprovação de representantes da comunidade católica.

É verdade que em alguns destes casos, a agravar a atitude de intolerância estiveram acções de destruição de vestígios patrimoniais ou a tentativa (por vezes conseguida) de eliminação física daqueles que foram considerados inimigos da verdadeira Fé ou da Verdade única. Mas a raíz de tudo encontra-se na atitude de fundamentalismo perante valores de outros tempos, formas de pensar ou crenças que se consideram erradas. E quem assim agiu achou que o estava a fazer em nome do Bem.

Claro que a escala é diferente, mas atravessamos um período em que não é difícil detectar o recrudescer e multiplicar de atitudes do mesmo tipo em sociedades que se afirmam defensoras das liberdades individuais, da tolerância e do pluralismo de opiniões e manifestações artísticas. Não é um fenómeno novo, mas parece ter ganho novo fôlego uma atitude de revisão do passado à luz dos valores do presente, lançando anátemas sobre vestígios do que até podemos concordar serem períodos com acontecimentos perturbadores, mas que nem por isso deixam de ter o seu contexto e até servirem como útil ilustração da evolução dos valores das sociedades e da Humanidade, em geral.

Há cerca de um mês, um político português considerou que deveria destruir-se o Padrão dos Descobrimentos por estar ligado à propaganda do Estado Novo. Considerando-o um “mamarracho”, acrescentou que é “um dos grandes monumentos do regime ditatorial”. Outra política, por uma vez com alguma subtileza, retratou o Padrão a descolar para o céu da sua actual localização. Ambos entraram numa “onda” que considerou por bem destruir estátuas de Cristóvão Colombo por ter estado na origem do genocídio de povos como os Astecas e os Incas. Algum tempo antes, foi a vez de se assistir a críticas ao conteúdo das obras de autores como o Padre António Vieira por transmitirem conteúdos de natureza racista, seguindo-se a vandalização de uma estátua sua.

Sei que a contextualização das figuras históricas no seu tempo, assim como a de obras literárias e artísticas, não pode justificar tudo, mas existem evidentes diferenças entre Colombo e Cortez, assim como entre o Padre António Vieira e Torquemada. E lembremo-nos que entre nós há figuras que estão longe de ser consensuais, apesar do impacto da sua acção (ou talvez mesmo por isso) como o Marquês de Pombal, Afonso Costa ou personalidades da nossa História mais recente, que uns consideram ídolos e outros acham demónios.

Se olharmos para as letras nacionais, desde os seus primórdios, com as lentes do presente e dos valores do chamado “politicamente correcto” e das melhores intenções, acabaremos num cenário entre o Farenheit 451 e o 1984, a destruir o que incomoda e a esvaziar as palavras de sentido. Seremos obrigados a reconhecer que as cantigas de amigo e amor são sexistas, misóginas, presas de um pensamento binário nas relações afectivas, assim como a esmagadora maioria da nossa poesia lírica, da renascentista à contemporânea. Teremos de admitir que os cronistas da Expansão Portuguesa (Barros, Castanheda, Correia, Couto, por exemplo) são casos perdidos de apologia do nacionalismo imperialista, do militarismo, da violência racista e xenófoba e do colonialismo. Que Camões também o é, assim como todos aqueles que, vivendo do século XV ao XVII, consideraram que Portugal estava numa missão justa na conquista e evangelização dos povos tidos como ímpios do Brasil ao Japão.

Há alturas em que penso que há gente que estaria na primeira fila para enviar o Bocage de volta para o Limoeiro por libertinagem e obscenidade ou o Almeida Garrett de regresso à barra dos tribunais por causa do seu, quiçá marialva, Retrato de Vénus. Embora me pareça evidente que a maioria dos autores oitocentistas retrata uma sociedade dominada pela incipiente e provinciana burguesia nacional, nem sempre se libertando de uma visão estereotipada das classes populares, isso não significa que devemos amputar as suas obras de passagens que hoje podemos considerar socialmente preconceituosas ou insensíveis à diversidade de géneros ou à natureza feminina, como aquela em que Ramalho Ortigão declara que “a mulher feia — e quando digo feia não somente me refiro à mulher de nariz torpe e de boca vilã, mas igualmente à mulher mal vestida e mal penteada —, a mulher plenamente feia é uma calamidade social” (As Farpas, Junho de 1876).

Estaremos prontos para reconhecer que o Manifesto Anti-Dantas, em vez de ser uma pérola do inconformismo com as tradições é um texto que evidencia um claro preconceito contra a etnia cigana e que Fernando Pessoa tem escritos explicitamente anti-democráticos e que, apesar da escassa simpatia por Salazar, foi um activo defensor de uma solução política autoritária, desde o apoio à de Pimenta de Castro à justificação teórica de uma Ditadura Militar como a melhor solução governativa para Portugal?  Foi ainda Pessoa que em 1928 escreveu que, para as suas propostas políticas, não pretendia “a atenção dos sub-Portugueses quye constituem a maioria activa da popilação”, mas sim “dos outros, dos que têm ainda um cérebro que pode vir ainda a pertencer-lhes.” (O Interregno – Dsfesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal, p. 11 da edição de 2007)

Será que o claro anti-republicanismo dos seus escritos dos anos 10 do século XX, mesmo alguns inéditos em que ele considera (para deixarmos de fora Afonso Costa, o seu ódio de estimação) António José de Almeida ”um histérico evidente” com “feitio destrutivo”, Alexandre Braga “um aborto de um imaginativo conservado em álcool” ou Bernardino Machado “tão labrego no insinuar, tão indecentemente saracoteador da sua candidatura (…) tão desmandada besta” (Páginas de Pensamento Político: 1910-1919, I, pp. 78 e 82), deve implicar que se considere a sua obra merecedora de umas tesouradas censórias em nome das boas maneiras?

E o que faremos ao Sei os teus Seios de Alexandre O’Neill, enquanto nos escondemos quando, em dia de futebol, cantarem A Portuguesa, esse hino de inspiração colonialista e pleno de nacionalismo imperialista ?

Fadiga Da Pandemia?

Há conceitos que estranho e não entrando A “fadiga da pandemia” é um deles. Porque tem escasso sentido. É como dizermos que estamos cansados que o sol nasça, que existam nuvens no céu, que o fogo arda. A pandemia existe, porque existe um vírus a quem parece estranho qualquer tipo de angst. Uma manifestação contra a pandemia é algo que me deixa assim como que coiso. Sim, vivemos um tempo chato, mas principalmente perigoso. E um tempo que revela até que ponto a geração Y lida muito mal com a adversidade e fica muito incomodada com as mudanças no seu lifestyle. São os mesmos que disparatam em todas as direcções se as as aulas presenciais são suspensas e acham que se morrem os velhos, isso é mal menor, desde que possam ir andar de bicicleta à vontade ao fim de semana e beber umas bicas e uns abatanados à esquina, depois de largarem os fedelhos à porta da escola. Cresceram depois do período crítico do HIV/SIDA e não tiveram de repensar nunca as suas rotinas, hábitos ou de controlar o seu comportamento perante uma ameaça que não se senta à mesa para discutir se está a ser incómoda.

Estou a ser injusto? É de propósito, porque estou farto de queixinhas de quem andou a queixar-se das queixas dos outros (basta lembrar o que muita gente escreveu e disse sobre o facto dos professores reclamarem pela falta de apoios para as aulas à distância), quando não lhes tocava a el@s nada de mau. Agora não se calam com a choraminguice.

A Minha Proposta De Index Politicamente Correcto Das Letras Portuguesas – Parte V

As primeiras décadas do século XX prolongam um período lastimável das Letras portuguesas em termos de respeito pela diversidade. Algo ´que como a série Patologia Social de Abel Botelho já fazia anunciar em 1891 com o volume O Barão de Lavos no qual, a coberto de uma crítica de natureza social, se demoniza a homossexualidade, o que se repete no volumo O Livro de Alda (1898), a par da reprovação moral da prostituição. Passagens que se pretendem naturalistas são de uma mera pornografia preconceituosa como a seguinte “A plenitude da vida, a arrogância genital, a evolução orgânica ao máximo, própria dos 32 anos, mantinham no barão ainda fortes e dominantes as tendências naturais da virilidade. Ele tinha por enquanto junto do efebo os mesmos apetites de penetração e de posse que o homem sente de ordinário para com a mulher.” E a homofobia atingia os eu máximo na evidente associação à pedofilia “Devia de ser rapaz quem ele procurava; porque os olhos deste homem alto e seco poisavam de preferência nas faces imberbes, levemente penujosas, dos adolescentes. Fitava-os um instante, com uma fixidez gulosa e sombria.” (citações das páginas iniciais d’O Barão que, como quase sempre acontece com este tipo de literatura miserável e sensacionalista, teve grande êxito comercial. No início do século XX, este autor virar-se-ia para a abordagem de temas mais ligados ás classes populares, mas sempre com a marca da intolerância social e moralismo sexista, como acontece na forma como representa Isabel de Penalva, mulher adúltera e exemplo de corrupção sexual para o autor, na obra Fatal Dilema de 1907.

Mas se este autor é hoje um quase desconhecido entre nós, outros há que foram elevados a grandes vultos da nossa Cultura, sobre os quais é importante lançar alguma luz, indo para além das mitologias literárias criadas em seu redor e destinadas a ofuscar a sua verdadeira natureza. Vejamos três dos principais exemplos do alegado “modernismo” português e da chamada Geração do Orpheu.

Mário de Sá-Carneiro – é notória a dificuldade em lidar em termos intelectuais com a sua sexualidade, mesmo se a sua vida de boémia em Paris revela até que ponto a prática era levada aos extremos. Essa incapacidade de lidar com clareza com a sua identidade sexual, quiçá de género, é especialmente patente na obra a confissão de Lúcio, na qual o protagonista apresenta a evolução dos seus afectos e aventuras sexuais de uma forma que explora o corpo masculino como objecto de desejo e lascívia, mas faltando-lhe o consequente enquadramento legitimador de um estilo de vida, que parece continuar a ser sentido como reprovável. Atente-se na forma como Lúcio representa o seu primeiro relacionamento; Gervásio Vila-Nova: “Perturbava o seu aspeto físico, macerado e esguio, e o seu corpo de unhas quebradas tinha estilizações inquietantes de feminilismo histérico e opiado, umas vezes — outras, contrariamente, de ascetismo amarelo. Os cabelos compridos, se lhe descobriam a testa ampla e dura, terrível, evocavam cilícios, abstenções roxas; se lhes escondiam a fronte, ondeadamente, eram só ternura, perturbadora ternura de espasmos dourados e beijos subtis.” vindo depois uma passagem que entra pelo tema da transgeneridade (“E lembra-me então um desejo perdido de ser mulher — ao menos, para isto: para que, num encantamento, pudesse olhar as minhas pernas nuas, muito brancas, a escoarem-se, frias, sob um lençol de linho…”). Mais adiante, é a vez de ser o corpo feminino o objecto de uma caracterização, por Ricardo Loureiro (alter ego do autor e do próprio Lúcio, se não mesmo da sua esposa Marta, num tratamento absurdo da perturbação mental) destinada a despertar os sentidos de forma gratuita e pouco mais “— Ah! meu querido Lúcio — tornou ainda o poeta —, como eu sinto a vitória de uma mulher admirável, estiraçada sobre um leito de rendas, olhando a sua carne toda nua… esplêndida… loura de álcool! A carne feminina — que apoteose! Se eu fosse mulher, nunca me deixaria possuir pela carne dos homens — tristonha, seca, amarela: sem brilho e sem luz… Sim! num entusiasmo espasmódico, sou todo admiração, todo ternura, pelas grandes debochadas que só emaranham os corpos de mármore com outros iguais aos seus — femininos também; arruivados, sumptuosos…“. E passagens como esta são muitas, assim como pela sua obra em prosa ou poesia abundam os exemplos de uma decadência irremediável, como é o caso do conto Loucura, em que volta também o tema do suicídio e da dissociação mental. Pelo que seria justo que, como ele mesmo pediu, quando do seu enterro batessem latas e o levassem sobre um burro. Caso de homossexual homofóbico com dificuldade em assumir a sua identidade de género, não se conseguindo libertar das convenções sociais que, enquanto contexto, o levam ao suicídio como recusa do Eu.

Almada Negreiros – caso claro de xenofobia e racismo, para além de colaboracionismo com o regime fascistas. A sua arte é de um tradicionalismo nacionalista, estando imbuída ainda de uma concepção profundamente convencional da família. Mas em matéria de Letras, basta o seu Manifesto Anti-Dantas, erradamente tido como pérola do inconformismo com a tradição, para que fique demonstrada a sua intolerância social para com a etnia cigana, não se distinguindo neste particular de um qualquer apoiante do Chega, quando utiliza de forma pejorativa e repetida todo um grupo étnico e cultural para simbolizar a aldrabice, o mau gosto e a falta de qualidade: “O DANTAS É UM CIGANO!/O DANTAS É MEIO CIGANO! (…) O DANTAS É UM CIGANÃO!”. Isto é motivo mais do que suficiente para o dito Manifesto seja objecto da maior reprovação moral e estética e o autor excluído de qualquer antologia da literatura portuguesa.

Fernando Pessoa – personalidade por demais problemática, que usou a heteronímia para disfarçar em identidades ficcionadas um conjunto imenso de inclinações altamente reprováveis. A leitura da sua obra mereceria todo um tratado pedagógico para servir de alerta para o modo como recupera um nacionalismo serôdio e a mitologia tradicionalista e imperialista no seu poema O Quinto Império. Fica ainda por demonstrar se este reconhecido alcoólico não seria um homossexual não assumido (como o foram António Botto e Mário de Sá-Carneiro, seus amigos) e se Ofélia não seria apenas uma projecção fantasiosa dos seus desejos ocultos, como no poema Dorme sobre o meu seio (“Dorme sobre o meu seio,/sonhando de sonhar…/No teu olhar eu leio/Um lúbrico vagar./Dorme no sonho de existir/E na ilusão de amar”). Mas o que é mais decisivo é que Pessoa foi um proto-fascista que tem escritos explicitamente anti-democráticos e que, apesar da escassa simpatia por Salazar, foi um activo defensor de uma solução política autoritária, desde o apoio à de Pimenta de Castro à justificação teórica de uma Ditadura Militar como a melhor solução governativa para Portugal, revelando um desprezo notório pelo que achava ser uma maioria da população ignorante e acéfala..  Foi Pessoa que em 1928 escreveu que, para as suas propostas políticas, não pretendia “a atenção dos sub-Portugueses que constituem a maioria activa da população”, mas sim “dos outros, dos que têm ainda um cérebro que pode vir ainda a pertencer-lhes.” (O Interregno – Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal, p. 11 da edição de 2007). Será que o claro anti-republicanismo dos seus escritos dos anos 10 do século XX, mesmo alguns inéditos em que ele considera (para deixarmos de fora Afonso Costa, o seu ódio de estimação) António José de Almeida ”um histérico evidente” com “feitio destrutivo”, Alexandre Braga “um aborto de um imaginativo conservado em álcool” ou Bernardino Machado “tão labrego no insinuar, tão indecentemente saracoteador da sua candidatura (…) tão desmandada besta” (Páginas de Pensamento Político: 1910-1919, I, pp. 78 e 82), não deve implicar que se considere a sua obra merecedora de umas tesouradas censórias em nome das boas maneiras? Qualquer pessoa de verdadeiro bem, achará que sim.

A Minha Proposta De Index Politicamente Correcto Das Letras Portuguesas – Parte IV

A segunda metade do século XIX é marcada por diversas tendências, qual delas a mais lastimável, nas Letras nacionais. As de cariz mais literário foram o naturalismo e realismo que, em boa verdade, pouco se distinguem na forma como representam uma sociedade dominada por uma burguesia proto-capitalista, típica de um país de desenvolvimento industrial tardio, e em que a maioria da população vive em condições de miséria ou extrema pobreza, com um proletariado urbano ainda em processo de formação e que é associado de forma sistemática aos piores vícios tipificados por uma ideologia hipocritamente puritana. Outras tendências são de natureza mais política e social, sejam as associadas ao nascente republicanismo, sejam as que procuram denunciar a decadência da nação portuguesa, embora todas sejam marcadas por um exacerbado nacionalismo e sinais evidentes de um profundo colonialismo racista, algo que se manifesta de forma muito clara no episódio da reacção ao Ultimato britânico. Mesmo os movimentos alegadamente “democratizantes” são marcados por um sexismo chocante, como se demonstraria ao chegarem ao poder.

Mas avancemos por partes, começando pelo triunvirato fatal do realismo/naturalismo.

Eça de Queirós – as suas principais obras são sintomas claros de uma corrupção moral avançada, pois os temas abordados são de um sensacionalismo reprovável, como seja o caso do incesto, dos amores proibidos, das relações extra-conjugais, do adultério. Lado a lado com estes sensacionalismo de cordel, apresenta-se uma concepção tradicional e binária das relações entre os sexos, de que são exemplos casais de matriz burguesa como O Jorge e a Luísa de O Primo Basílio, obra em que as figuras femininas são representadas de modo unidimensional e caricatural, das criadas Joana e Juliana a D. Felicidade de Noronha, senhora de uns cinquenta anos, solteira, que é apresentada de modo muito pejorativo como “muito nutrida, e, como sofria de dispepsia e de gases, àquela hora não se podia espartilhar e as suas formas transbordavam. Já se viam alguns fios brancos nos seus cabelos levemente anelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, de uma alvura baça e mole de freira; nos olhos papudos, com a pele já engelhada em redor, luzia uma pupila negra e úmida, muito móbil; e aos cantos da boca uns pêlos de buço pareciam traços leves e circunflexos de uma pena muito fina”. Já n’O Crime do Padre Amaro, primeira obra do autor, em que se aborda o tema da religião e da Fé de forma apenas destinada a chocar, salta à vista a homofobia dedicada à personagem Libaninho, assim como o desprezo dedicado a pessoas com défices físicos, dedicando o nome de Totó à jovem paralítica que surge na história. Quanto a’Os Maias, nem me vou alongar no rol de taras e manias expostas nas suas páginas, apenas realçando que, para além do latente racismo recentemente denunciado, representa o pináculo de uma representação burguesa e privilegiada da sociedade, sendo erradamente tida como crítica social o que não passa de uma apologia da depravação e de uma sexualidade que explora a ingenuidade feminina, apresentando a mulher como a tentação que desencaminha os homens da virtude. E a estátua sexista que lhe foi dedicada em Lisboa só ajuda a confirmar esta tese:

Ramalho Ortigão – amigo e cúmplice de Eça, é um outro exemplo de elitismo burguês e de uma visão do mundo distorcida n os valores essenciais. A Mulher é vista como figura decorativa e passiva perante a lascívia masculina (cf. o texto d’As Farpas de Junho de 1876 sobre as estatísticas de casamentos e divórcios, em que o sexismo e a misoginia atingem um verdadeiro paroxismo a propósito do tema do namoro, que se diz obcecar qualquer jovem rapariga: “Ella illude a vigilancia carinhosa de sua mãe; evade-se aos reparos severos de seu pae; escreve ás escondidas; levanta-se de noite para apparecer a uma janella; confia o seu segredo a um cocheiro, a um lacaio, a um moço de recados; torna seus cumplices a sua creada de quarto e os seus pequenos irmãos; inventa subterfúgios, expedientes, suppostos convites, fingidas doenças; enreda, atraiçoa, mente; vive na hypocrisia, no fingimento, na indignidade; torna-se triste, nostalgica, cretinisa-se no espasmo cerebral da idéa fixa.” Em outro texto, a objectificação da Mulher e do corpo feminino é evidente, nele se podendo ler que “a mulher feia — e quando digo feia não somente me refiro à mulher de nariz torpe e de boca vilã, mas igualmente à mulher mal vestida e mal penteada —, a mulher plenamente feia é uma calamidade social. Ela é a desonra da sua raça, o eterno ridículo do seu marido, a tristeza dos seus irmãos, a humilhação dos seus pais”.

Fialho de Almeida – figura paradoxal que critica de forma ácida o que considera serem os vícios do presente, mas em nome de uma nostalgia passadista que vê no passado qualidades que dificilmente assim o poderemos considerar, como quando (texto de 24 de Setembro de Os Gatos) renega algumas práticas de prostituição juvenil, para elogiar os tempos em que “o homem, mesmo vicioso, mantinha a virilidade altiva da raça, contendo os seus desmandos num ciclo de orgias, que raro faziam violências à natureza”. Embora seja de elogiar a atitude de amor livre que se pressente nesta passagem, não se pode negar que tudo está imbuído de uma mentalidade machista, misógina e explicitamente racista. Que regressa mais adiante quando se afirma que “filhas de banqueiros ou filhas d’operarios, não se imagina o que elas são d’inquietadoras, aos doze, treze, quatorze annos, e com que felina arte, encantadora e abominável, muitas dessas pequenas sabem fazer a corte aos homens, a occultas das aias e das mamãs. Desconhecidas larvas, rastejando-lhes no sangue mórbido que herdaram, vem produzir naquela crise da idade, as mais singulares e inconfessáves pixerias.”

Júlio César Machado – embora menos conhecido do que os anteriores, a sua obra Da Loucura e das Manias em Portugal é um reportório de péssimo gosto, no qual se tratam de forma abusiva situações muito sérias, como sejam a natureza feminina ou a incapacidade física. Sobre alguns infelizes, escreve que “o mais trivial é não se poder ver um corcunda sem ficar enguiçado. Parece que, sobretudo em jejum é desastroso”. Não satisfeito, acrescenta que “há quem afirme que os vesgos ainda são piores que os corcundas” Também aqui, a Mulher é representada de forma negativa e histriónica, como se demonstra neste excerto: “Elas falam e berram, dias, noites inteiras, e tornam-se mais notáveis nos insultos, no descomposto do fato, e até nas tendências malfazejas – atirando sempre que podem uma tigela contra as grades, e os cacos contra quem vai.”

Quanto aos republicanos, que o tempo revelaria em toda a sua hipocrisia misógina, haverá algo mais deplorável do que o seu hino xenófobo, nacionalista, militarista, colonialista e imperialista que vergonhosamente ainda usamos como hino? Seja na versão original (“contra os bretões”) ou na retocada (“contra os canhões”)? Que país do século XXI, de desejada colaboração internacionalista multilateral, pode aceitar estas estrofes como símbolo nacional?

Heróis do mar, nobre povo
Nação valente, imortal
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória
Oh, Pátria, sente-se a voz
Dos teus egrégios avós
Que há de guiar-te à vitória!

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar

Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões
Marchar, marchar
!

Adenda: no fascículo anterior, esqueci-me lamentavelmente de incluir Bocage, esse um vergonhoso pornógrafo, cultor da obscenidade gratuita e de uma sátira cínica que lhe valeu justos dissabores e uma passagem pelo Limoeiro.

História Escreve-se Com H…

… e não é bem a mesma coisa que o storytelling dos filmes ou documentário meio ficcionados. Mesmo que seja uma “narrativa” e tenha muitos episódios rocambolescos, são registos um “pouco” diferentes, não devendo a História depender (embora por vezes aconteça, admito) dos humores de financiadores. E muito menos deve “torcer” pelos “personagens principais”, sejam quais forem os seus “estados de alma”.

A história conta-se a partir das emoções e estados de alma das personagens principais, por quem naturalmente passamos a torcer. Fazer diferente é um desafio de storytelling que deveria mobilizar historiadores, professores e governantes.

A Minha Proposta De Index Politicamente Correcto Das Letras Portuguesas – Parte III

O século XIX é um período de enorme decadência das Letras portuguesas, parecendo que as mesmas foram tomadas por uma febre imensa de preconceitos de todo o tipo, de um elitismo social e cultural insuportável e de um conjunto de taras socio-literárias que nunca deveriam ter ganho o destaque que ganharam num cânone que parece rendido aos piores instintos de uma elite cultural estrangeirada e complacente, desde um romantismo exacerbado a um pseudo-realismo naturalista que entrou, sem pudor, pela pornografia moral.

Hoje, vou ficar-me pelos alegados “românticos”.

Almeida Garrett – apresenta um excessivo sentimentalismo, encarando as relações afectivas de forma estereotipada e dominada por um pensamento binário, como se pode verificar nas suas tardias Folhas Caídas, mas que é evidente desde os seus primeiros escritos, como é o caso do Retrato de Vénus que, já na época, mereceu acusações de obra ímpia e escandalosa, levando-o a ter de se defender em Tribunal. O que não é de espantar perante passagens como esta. “Vénus, Vénus gentil! – Mais doce, e meigo/Soa este nome, Ó Natureza augusta./Amores, graças, revoai-lhe em torno,/Cingi-lhe a zona, que enfeitiça os olhos;/Que inflama os corações, que as almas rende./Vem, ó Cipria formosa, oh! Vem do Olimpo,/Vem com mago sorriso, com terno beijo,/Fazer-me vate, endeusar-me a lira.” Penso que não é muito difícil vislumbrar a que “zona” o autor se refere, assim como o que pretende com o endeusamento da sua “lira”. Pornografia que as más metáforas disfarçam de forma muito imperfeita. O mesmo se diga de outras obras líricas como o volume Adozinda em que logo no seu primeiro canto afirma que ela “Nasceu ao pé do rio/Tam ingenua, tam formosa/Como a flor, das flores brio/Que em serena madrugada/Abre o seio descuidada. Lascívia desnecessária, objetificação do corpo da Mulher e um evidente sexismo misógino. Grande parte da sua obra, em especial a de fundo histórico, é ainda marcada por um tradicionalismo nacionalista e um saudosismo que é incompatível com uma mundivisão multicultural e cosmopolita que se pretende a matriz para o século XXI.

Alexandre Herculano – considerado o fundador da historiografia portuguesa, as suas obras estão eivadas de um nacionalismo xenófobo e intolerante, para além de revelarem um pensamento positivista que encara o saber histórico como algo científico e que aspira a uma objectividade descritiva do passado que é claramente incompatível com uma concepção plural dos saberes e conhecimentos. Foi um confesso conservador e anti-democrata, intolerante em matérias religiosas e cujos escritos apresentam o Outro como algo caricato. Veja-se como é retratado o vingativo Bobo a quem é dado o nome de Bibas, claramente uma referência homofóbica à sua fixação ficcionada no Conde de Trava, alegado amante de D. Teresa. Racismo latente em títulos como O Bispo Negro, em que o qualificativo é apresentado num sentido pejorativo injustificável,

Camilo Castelo Branco – sentimentalismo, apologia do adultério, incitamento ao suicídio e tantas outras taras que uma lista seria quase interminável, tendo sido escasso castigo em vida a cegueira causada pela sífilis. A sua incessante produção literária para garantir a sobrevivência fez com que se rendesse ao apelo das emoções mais básicas e primitivas do ser humano, devendo os seus escritos ser excluídos de qualquer antologia das letras oitocentistas. O seu tão aclamado Amor de Perdição, pálida cópia do seu já de si muito sobrevalorizado Romeu e Julieta de Shakespeare, não passa de um folhetim sensacionalista para consumo de massas. Títulos como A Enjeitada, A Mulher Fatal, A Filha do Regicida, A Filha do Doutor Negro, A Filha do Arcediago, A Neta do Arcediago, A Bruxa de Monte Cordova, A Doida do Candal, A Viúva do Enforcado, O Retrato de Ricardina, Carlota Ângela, Fanny e O que Fazem Mulheres, revelam uma monomania obsessiva com as mulheres que de modo muito claro indicia uma personalidade patológica e perigosa.

Júlio Dinis – tradicionalista e prisioneiro de ultrapassadas convenções afectivas, sociais e familiares. O enredo d’Os Fidalgos da Casa Mourisca padece de um paternalismo só aceitável numa sociedade patriarcal, que reserva às mulheres um papel tipificado e reduzido a uma submissa dimensão sentimental. Algo semelhante acontece com As Pupilas do Senhor Reitor e A Morgadinha dos Canaviais, obras em que as figuras femininas são apresentadas de uma forma unidimensional, presas das suas paixões e enamoramentos e cujo projecto de vida se limita ao casamento. Em todos os escritos deste autor cruza-se uma visão moralista das relações humanas com uma concepção arcaica da virtude e honra, cega ao imperativo de uma pan-sexualidade feminina que não se deixe aprisionar pelos desejos masculinos. Leituras que são péssimos exemplos e devem ser afastadas do olhar de qualquer jovem mulher emancipada e empoderada.

A Minha Proposta De Index Politicamente Correcto Das Letras Portuguesas – Parte II

Como já tinha antevisto em anterior oportunidade, há autores que têm merecido uma abusiva reverência e, por isso, têm beneficiado de um lugar cativo no cânone nacional de um modo que só pode ofender qualquer verdadeira sensibilidade. E não há que temer denunciá-los, pois é necessário expurgarmos todos estes péssimos exemplos de preconceito e intolerância em relação à alteridade nas suas mais variadas manifestações.

Vamos a isso, a bem de uma Cultura Nova, sem laivos de uma nostalgia tradicionalista, com o seu travo amargo e salazarento.

  • Luís de Camões – exemplo clamoroso de um autor que concentra os dois pólos maiores do preconceito. A sua Lírica é uma demonstração extensa de estereótipos de género, objetificação da Mulher, misoginia e machismo, mesmo que com a cobertura muito superficial de um romantismo cínico. Já a sua épica, simbolizada pel’Os Lusíadas, é um monumento no pior dos sentidos, concentrando o que de pior temos de nacionalismo, imperialismo, supremacismo, racismo, xenofobia, intolerância religiosa, eurocentrismo e militarismo, não esquecendo a lascívia voyeurista e a pornografia explícita e, de novo, o machismo e a objetificação da Mulher no triste e decadente episódio da Ilha dos Amores, a que o autor, sem pudor, dedica parte significativa dos Cantos IX e X.
  • Fernão Mendes Pinto – um mentiroso e fantasista assumido. O tom rocambolesco da sua narrativa não esconde o seu eurocentrismo, xenofobia e racismo latente, assim como o seu oportunismo religioso.
  • Francisco Manuel de Melo – criminoso condenado, aventureiro sem fidelidades constantes, marialva nos amores é um exemplo acabado do aristocrata privilegiado que vive de estratagemas que ultrapassam com frequências as fronteiras da legalidade. A sua Carta de Guia de Casados reproduz estereótipos de género numa lógica binária e as suas Epanáforas são um exemplo de nacionalismo, militarismo e apologia do colonialismo.
  • Diogo Paiva de Andrada – outro ideólogo da binaridade e estereotipia de género, misoginia e machismo. Basta abrir, ao acaso, o seu Casamento Perfeito para se encontrarem passagens mais do que explícitas da sua atitude tradicionalista; vejam-se os capítulos XII (“Que não seja a mulher mais rica que seu marido”), XIV (“O parecer do rosto, que os homens devem escolher nas mulheres com que se casam”) ou do XXI ao XXV, nos quais se faz a apologia das mulheres devotas, virtuosas, caladas e sofridas e dedicadas às tarefas domésticas.
  • Padre António Vieira – a sua hipocrisia já começou a ser desmascarada e não era sem tempo. É um caso maior de proselitismo religioso, de intolerância, apologia do colonialismo e esclavagismo, racismo e moralismo decadentista. Nem merece maior perda de tempo, pois há quem já tenha feita a denúncia deste colonialista e racista com toda a propriedade. A teoria de que seria mestiço não passa de uma narrativa mistificadora, na tentativa de o desculpabilizar por todo o mal que espalhou em torno do Atlântico.
  • Francisco Xavier de Oliveira (Cavaleiro de Oliveira) – figura menor das Letras, mas nem por isso menos insidiosa no seu machismo, misoginia e objetificação da mulher, até porque a sua prática esteve de acordo com as teses expostas na sua vergonhosas Cartas, indevidamente apresentadas como “familiares”. Leia-se a seguinte passagem da sua carta ao Conde Claravino Basso: “Respeitem-se as mulheres como quinta-essência das obras da natureza; reputem-se mais brilhantes que os astros; creia-se que à vista dos seus olhos perdem os raios de sol o esplendor; levantem-se altares aos seus merecimentos, perante os quais se prostrem e se sacrifiquem todos os dias tropas de amantes e bandos de adoradores que esperam do menor dos seus agrados a sentença dos destinos. Tudo isto não é capaz de desfazer a ideia da imperfeição do sexo. Execrável e inadmissível.
  • Ribeiro Sanches – o título da sua obra mais conhecida deixa-nos logo de sobreaviso pela desnecessária referência à “mocidade”. Não é, portanto, mera coincidência que se encontre adiante nestas Cartas o elogio a Sócrates, conhecido pelas suas preferências afectivas (deixemo-las assim) problemáticas, bem como múltiplas referências a “mocidade” e “meninos”, mesmo que a coberto de denúncias aparentes de injustiças e desigualdades. A mensagem subliminar e libidinosa é absolutamente inegável. Pedofilia latente.
  • Luís António Verney – intolerância cultural, moralismo histórico e tradicionalismo pedagógico-didático, que se expressam desde a proclamação de ser seu o Verdadeiro Método de Estudar. Como tem sido demonstrado, a Educação deve ser diferenciada, individualizada, multi, inter, trans e pan-cultural, baseada numa inter-personalidade relacional, a partir do qual se construam em liberdade os contextos educativos, numa perspectiva que deve ser inclusiva e crítica dos saberes tradicionais e e uma concepção estanque dos saberes. Por isso, capítulos sobre a importância do ensino da Matemática ou da História não fazem sentido e podem mesmo ter uma influência trágica na Educação Afirmações como “o facciosismo nasce do não-saber” são por demais perigosas, pois está já firmemente estabelecido que é o culto do Saber que nos limita um olhar plural sobre a realidade, que devemos absorver de forma integrada, holística, numa simbiose Pessoa-Natureza que recuse o estereótipo discursivo da “Humanidade” que remete o Humano para “homem”, quando este não é mais do que um segmento passageiro do espectro maior de um fluxo de identidades pletóricas.

Em breve, parte III dedicada a alguns dos vultos mais lastimáveis das Letras portuguesas de Oitocentos, um século muito marcado por figuras indevidamente exaltadas como canónicas, desde o intolerante Herculano ao cínico Ortigão, não esquecendo o depravado Eça e o perverso Camilo.