Depois Do Precariado

O “desnecessariado” (termo ainda não usado em português), ou seja, o conjunto daqueles que a sociedade ou o sistema capitalista (numa leitura mais à esquerda) considera dispensáveis. No contexto actual da pandemia, houve cronistas que, na prática, acharam que os idosos com co-morbilidades seriam algo dispensáveis. Não por acaso, o termo surgiu há poucos anos para descrever a atitude de alguns sectores da sociedade perante as mortes por doenças como a SIDA ou aquelas pessoas que são consideradas supérfluas para os grandes interesses económicos. A fase seguinte, natural, depois do precariado. Infelizmente, um conceito bastante interessante, ainda carece do devido desenvolvimento teórico, pois a realidade já existe e não é de agora.

Domingo – Dia 10

Não me consigo espantar com os “escândalos” das vacinações a pedido, de pasteleiros do Porto a religiosos de Trancoso, passando por uma burocrata da nomenklatura partidária de Setúbal. Uma das vantagens (?) de se ser “menos novo” é o conhecimento da natureza do país em que vivemos e das pessoas com que convivemos. Somos um país pobre a vários níveis e em avançada decomposição ética e moral. E não me venham dizer que isto é o discurso do Ventura, porque ele é apenas mais um dos sinais de uma podridão que se entranhou na sociedade e da qual nunca conseguimos ficar livres. No presente, no passado e parece que no futuro próximo. Não conheci nas últimas décadas nenhum discurso refundador que não tivesse culminado numa nova situação em que apenas as moscas mudaram e mesmo assim nem todas, que há umas varejeiras que já fazem parte do cenário a tal ponto que nem estranhamos estarem sempre presentes.

A velocidade de cruzeiro das mortes ganhou um carácter abstracto e mesmo num domingo cinzento, nada convidativo a saídas, ouve-se o burburinho na estrada, aqui não muito longe. O pessoal habituou-se, mesmo se ainda há quem se indigne, mas quem se indigna é criticado por não ser “este o momento ideal”, para, por exemplo, se apurarem “responsabilidades”. Agora é “tempo de nos unirmos”. O raio é que é. Não há qualquer “colectivo nacional” que resista à soma da inconsciência e estupidez de muitos indivíduos, seja os que afirmam subitamente libertários, seja os que amocham perante tudo e ainda acham que todos devem ser assim.

Valha-nos quem ainda insiste em pensar sobre tudo isto.

A pandemia pôs a descoberto, maciçamente, os disfuncionamentos de muitos serviços, e as graves falhas do nosso sistema social e político. As insuficiências do Serviço Nacional de Saúde, a falta de recursos e de incentivos, a injustiça do tratamento reservado aos velhos nos lares, a escassa protecção sanitária dos trabalhadores não confinados, a deficiente organização do sistema educativo, o desprezo pela mulher considerada como inferior (violência doméstica), todas estas chagas da nossa vida social ganharam uma relevância, como nunca, durante a pandemia. Não só porque aumentaram em número e porque foram amplamente mediatizadas, mas porque a sua importância tomou um outro sentido: foi e é, sob fundo de morte — ou de fragilização extrema da vida —, que estes males foram e são percepcionados e tacitamente avaliados.

Uma sensibilização intensa às injustiças e desigualdades apoderou-se das pessoas. A morte de idosos num lar mal protegido, o espancamento de uma mulher confinada, o ministro que impõe férias para esconder a impreparação das escolas para o ensino à distância, são acontecimentos imediatamente considerados inadmissíveis e escandalosos: como foi possível que ocorressem, quando morrem todos os dias centenas de homens e mulheres? Como é possível brincar com a justiça, enquanto a doença e a morte condenam brutalmente tantos inocentes? Brincar com a vida humana tornou-se intolerável.

Neste momento extremo de ruptura dos serviços hospitalares, de desnorte das populações, de distância que se alarga entre a classe política e a comunidade, a democracia esboroa-se e claudica. A representatividade dos responsáveis é cada vez menos evidente, as decisões políticas são cada vez mais controversas, o mal-entendido entre os governantes e os cidadãos é cada vez maior. Os portugueses sentem todos os dias a perda da coesão social. Revêem-se pouco no estilo e no conteúdo das mensagens dos governantes. Confinam-se mais por medo e hábitos de obediência do que por solidariedade activa. A sociedade dos vivos, já de si atomizada e irritada pela pandemia, separou-se dos seus mortos, tornados anónimos, distantes, empilhados em morgues ou contentores frigoríficos — como aconteceu em Itália e Nova Iorque e acontece ainda em Manaus, no Brasil.

José Gil

Crise? Depende…

2020 has been the most remarkable year for the global financial markets. After the Covid-19 pandemic triggered the worst crash in a generation, unprecedented stimulus measures and vaccine breakthroughs have sent stocks roaring back to record highs.

In a year in which at least 1.7 million people died from coronavirus and unemployment soared in a global recession, world stock markets are ending 2020 up 13% – despite the latest surge in cases forcing further lockdowns this winter.

Tele-Servidão

(…) hoje, encontramo-nos livres das máquinas da era industrial, que nos escravizavam e exploravam, mas os aparelhos digitais trazem com eles uma nova coação, uma nova escravatura. Exploram-nos em termos mais eficazes porque, dada a sua mobilidade, transformam qualquer lugar num ponto de trabalho e fazem de todo o tempo um tempo de trabalho. A liberdade da mobilidade paga-se por meio da coação fatal de termos de trabalhar em toda a parte. Na era das máquinas, o trabalho distinguia-se do não-trabalho pela imobilidade das máquinas. O local de trabalho, até ao qual tínhamos de nos deslocar, podia separar-se com facilidade dos espaços de não-trabalho. Na atualidade, em grande número de profissões, essa delimitação foi suprimida. O aparelho digital torna móvel o próprio trabalho. Cada um de nós leva consigo de um lado para o outro o posto de trabalho numa espécie de regime de campanha. Já não é possível escaparmos ao trabalho.

Os smartphones, que prometem mais liberdade, exercem sobre nós uma coação fatal – isto é, a coação de comunicar. Entretanto, a nossa relação com o aparelho digital torna-se quase obsessiva. compulsiva.

Byug-Chul Han, No Enxame – Reflexões sobre o Digital. Lisboa: 2016, p. 46.

Pós-Realismo

Os tempos são outros. A ditadura hoje é muito mais maquiavélica porque não se apresenta como tal. Vivemos todos convencidos de que somos livres, e todos os dias nos impõem mais uma coisa contra nós, que não sabemos como rejeitar. Não é contra ti nem contra o teu vizinho: é contra todos, e todos são objecto de um roubo que vem de fora, mas que é executado como se fosse uma coisa natural, explicada com argumentos que até parecem lógicos, e que deixam um sabor amargo na vida que não sabes de onde vem.

E pensei: estas mudanças deixam-me melancólico. Dantes, a revolução fazia-se com metralhadoras, com bombas, hoje de nada serviria. Os exércitos que nos ocupam são invisíveis, não têm quartéis.

(…) A diferença é que a morte já não é imediata nem violenta, mas as assinaturas que eles põem nos seus decretos continuam a ter o mesmo efeito, pode ser ainda a mais longo termo, pode não ter o efeito doloroso que o outro método tinha, mas é da extinção dos povos que se trata, reduzi-los à miséria, à mendicidade. E é mais difícil reagir contra funcionários, contra burocratas, sobretudo quando se ficou sem nada, quando tudo o que conta é a salvação individual, e a vida perdeu todo o sentido. É isso que torna a revolução impossível, quando os pobres não têm a capacidade das antigas massas para derrubarem os governos.

Nuno Júdice, Implosão, 2013, pp. 33, 35.

Em Reavaliação

Parecia quase inquestionável até há um ano. Não perdeu validade (os excessos nocivos da “positividade” não desapareceram), mas o carácter algo absoluto atribuído ao fim da época viral.

Cada época tem as suas doenças paradigmáticas. Podemos, assim, dizer que existe uma época bacteriana que só durou, porém, quando muito, até à descoberta dos antibióticos. Apesar do medo descomunal de uma pandemia gripal, não vivemos presentemente na época viral. Graças ao desenvolvimento da técnica imunológica, já a conseguimos ultrapassar. De um ponto de vista patológico, não é o princípio bacteriano nem o viral que caracterizam a entrada no século xxi, mas, sim, o princípio neuronal.

Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço, p. 9.

Humilde (E Quiçá Estúpido) Contributo Para Uma Sexta-Feira Branca

Não é de agora que tenho reservas em relação ao que por cá se tornou a prática das Black Fridays, uma espécie de saldos de monos mal disfarçados. Apresento alguns pontos em defesa da minha causa para que terminem ou então passem a outra designação.

  • Antes de mais, parece-me de elementar evidência, que a expressão é nos tempos que temos, abusiva e claramente racista ao associar o termo “black” a algo que se vende a metade ou menos do preço. Nem sei como a deputada Joacine ainda não se alevantou em fúria contra isto e não acorreu a colar cartazes nas portas dos espaços comerciais que praticam este tipo de iniciativa neo-colonialista.
  • Em seguida, tomara eu que, a ser Black Friday, o fosse mesmo, porque lá por fora os descontos andam pelos 90% e não são apenas sobre o que já não se vende ou tem fractura exposta (na comiXology, por exemplo, as reduções andam nos 90% em toda a variedade de produtos digitais, na Verso são todos os livros em promoção, o chato é que já exigem autenticação suplementar nos pagamentos por cartão de crédito). Por cá os descontos são ATÉ uma dada percentagem que, quando é 50% se aplica ao que já quase todos esquecemos, já vendeu o que tinha a vender ou não vendeu porque não valia a pena. Ou então é 50% na segunda unidade. Ou é de 20% como em qualquer saldos fraquinhos.
  • Por fim, era bom que a “sexta-feira” se limitasse a sê-lo ou, para facilitar, que se estendesse pelo fim de semana contíguo, e não por todas as sextas até ao Natal ou a meses inteiros. Porque já estou farto de berros nos anúncios da rádio/tv, de me aparecerem publicidades ao navegar na net como se fossem artigos de interesse informativo mesmo com o adblocker ligado e de que o anúncio seja, como acima descrito, profundamente enganador e uma traição ao espírito original.

Muit’agradecido e muita saudinha é o que eu desejo.

Algofobia

Hoje reina por toda a parte uma algofobia, um medo generalizado da dor. A tolerância à dor também diminui rapidamente. A algofobia tem por consequência uma anestesia permanente. Evita‑se qualquer estado doloroso. O sofrimento amoroso também se tornou suspeito. A algofobia estende‑se ao social. Cada vez se atribui menos espaço a conflitos e controvérsias suscetíveis de conduzir a confrontos dolorosos. A algofobia também abrange a política. A coação da conformidade e a pressão do consenso estão a aumentar. A política instala‑se numa zona paliativa e perde toda a vitalidade. A «falta de alternativas» é um analgésico político. O «centro» difuso tem um efeito paliativo. Em vez de se discutir e lutar por melhores argumentos, cede‑se à coação do sistema. Alastra uma pós‑democracia, uma democracia paliativa. Daí Chantal Mouffe reclamar uma «política agonística», que não evite confrontos dolorosos. A política paliativa é incapaz de visões ou reformas drásticas que podem provocar dor. Prefere recorrer a analgésicos de curta duração que apenas mascaram disfunções e distorções sistémicas. A política paliativa não tem coragem para a dor. E assim o mesmo [das Gleich] permanece.

A atual algofobia está na base de uma mudança de paradigma. Vivemos numa sociedade de positividade que procura libertar‑se de qualquer forma de negatividade. A dor é a negatividade por excelência. Também a psicologia segue essa mudança de paradigma e transita da psicologia negativa, como «psicologia do sofrimento», para a «psicologia positiva», que se ocupa do bem‑estar, da felicidade e do otimismo. Os pensamentos negativos são de evitar, devendo ser imediatamente substituídos por pensamentos positivos. A psicologia positiva submete a própria dor a uma lógica de desempenho. A ideologia neoliberal da resiliência transforma experiências traumáticas em catalisadores para o aumento do desempenho. Fala‑se até de crescimento pós‑traumático. O treino da resiliência como exercício de força mental tem de fazer de um indivíduo um sujeito de desempenho o mais possível insensível à dor e permanentemente feliz

Byung-Chul Han, A Sociedade Paliativa. Lisboa: 2020, pp. 11-12.

Basta Lembrar Que Ninguém Previu O Presente

A conferência internacional online organizada pela Virtual Educa acontece nesta segunda e terça-feira. Ministro da Educação será um dos oradores. Especialistas prevêem modelos de ensino “híbridos” e personalizáveis, apontando ainda que o acesso à Internet deve ser gratuito na educação.

Eu sei que é indispensável “prospectivar”, “cenarizar”, “perseguir a utopia” e demais verbalejos e expressionismos assim a atirar para o espingardoso, mas a realidade é que se oscila muito entre a recuperação de fórmulas do passado que nunca se comprovaram e um tecno-entusiasmo que só será acessível a elites ou parcelas reduzidas da população (até as salas com pufes devem ter chegado a zero vírgula quantos por cento de alunos).

A iniciativa tem grande aparato (a Virtual Educa parece ter ambições globais pelo menos para o mundo latino-americano), mas basta chegar à intervenção do ministro Tiago (‘Educação pública: o motor da mudança em Portugal’, aqui perto da hora de “directo”) e ficamos logo a perceber que é apenas outra oportunidade para mais do mesmo, agit-prop com cheirinho a patchouly, muitos clichés digitais e esbracejamento a gosto. Espremendo, é de uma pobreza confrangedora.