2ª Feira

Isto terá salvação ou esta malta conseguiu dar cabo disto de vez? Os serviços do ME são meras extensões que pressionam para operacionalizar as políticas, mesmo com evidente desrespeito das leis que colocaram prática. Os mais recentes remendos em termos de add demonstram a incapacidade para reformular o modelo, insistindo num que, para além de iníquo, é inexequível com um mínimo de rigor. Quanto à menina dos olhos do secretário Costa – passa por ser a parte pedagógica e curricular – tornou-se um albergue para tudo aquilo que um grupo de amigos tenha para explorar. Algumas das mais recentes tendências seriam de assustar qualquer opinião pública informada, porque tornam a Escola Pública uma espécie de pout-pourri de toda a parlapatice disponível por aí, desde que alguém por lá tenha as ligações certas. Aquilo que um governante apresenta como tendo eficácia comprovada é apenas mais uma nova treta pós-new age acrescentada a outras tretas que se fazem passar por serem “século XXI. Acho que só algum decoro residual – ou falta da pessoa certa que tenha passado pelos escuteiros ou pelos meandros do partido que governa e periferias – é que impediu que até agora se tenha introduzido no currículo a leitura de booras do chá, o lançamento de búzios, a análise dos cristais ou o yoga do riso. Pensando bem, a risioterapia (embora numa versão a sério, com bons comediantes e não charlatanices certificadas) talvez nos ajudasse a aguentar estas porcarias todas sem uma sensação de enorme impotência perante a idiotice.

Concordo

Embora mesmo em cursos de licenciatura em História, pelo que vejo dos programas, Grécia e Roma já sejam dadas em modo “generalista” e liofilizado. Dizem que é por causa dos semestres bolonheses. Uma rematada porcaria.

Grécia e Roma não eram cidades perfeitas, tinham escravatura e todo o tipo de discriminação, diferenças sociais e modelos conflituais, mas temos de entendê-las nesse contexto. Não podemos é proclamar que, hoje, não podemos ler Tucídides. Antes de ler a Antígona, de Sófocles, o professor precisa de avisar que há um suicídio, porque o estudante pode não querer ser violentado pelo texto? Esta hipervitimização leva à formação de indivíduos não responsáveis. O mundo tem dimensões luminosas e obscuras com as quais é necessário ter contacto, como é o caso da realidade brutal do genocídio, do Holocausto, do genocídio arménio…

Faz parte da formação?
Sim, quem obscurece, quem não conhece aquilo que são as contradições do passado pode cometer muito mais atos deste tipo no futuro. Se nunca forem confrontadas com essas realidades, as pessoas não conseguirão encontrar mecanismos para lidar com isso. Estamos a criar uma sociedade em que todos são vítimas e acusam os outros de criminosos e de predadores, e isso é altamente destrutivo.

Sábado

Uma das palavras agora em voga é “transição”. Transição digital, transição energética, transição seja o que for. O que significa que estamos em trânsito de um ponto para outro. Mas isso estamos sempre, queiramos ou não, porque faz parte da ordem natural das coisas. De forma mais rápida ou mais lenta. O problema é que ouvimos e lemos muito sobre transição, mas raramente a que sentimos é a anunciada. Eu senti, por exemplo, uma transição fiscal bem forte e nem por isso gostei. Muito menos que sinto que essa transição é regressiva, no sentido da perda de direitos ou capacidades. “Transição digital” é um dos chavões que agora se aplica a tudo e nada. Nas escolas até se fazem planos, mesmo que não existam meios para a assegurar. Fora delas, não se explica que muitos dos avanços na circulação da informação se baseiam em tecnologias pouco amigáveis com a Natureza. Já no caso da energética, receio muito que a deriva para a “descarbonização”, se for feita na base da destruição da cobertura vegetal para colocar painéis solares em todo o lado e mais algum, não acabe muito bem. Como aconteceu a desflorestação no Brasil para produzir etanol. Usa-se o termo como se significasse progresso, para cativar apoios e adesões. Mas em alguns casos, talvez fosse bom esclarecer que talvez signifique um regresso. Ou as suas verdadeiras implicações a médio e longo prazo, para além da propaganda e de novas áreas de negócio.

O Gajo Nunca Me Enganou

(adenda, afinal é “novo”, porque é filho do velho… mas mantenho o post porque me divertem estas parvoíces)

Nada de avanços concretamente visíveis com a Lois Lane, visão extra especial e parava na roupa interior das garinas, aquela lycra muito coladinha aos glúteos e genitalia e sempre a despir-se em cabines públicas. Estava mais que visto. Depois daquela relação meio dúbia do Batman e Robin, eis que o Super Homem se revela não binário e ao mesmo tempo bi. Confuso, nada disso. Esperemos por revelações acerca da Mulher Maravilha, Homem de Ferro e Demolidor (esse pode sempre dizer que é cego…).

Em outros tempos… um super-beijo nem se via.

Só Para Gente Com Boa Memória

Não foi uma única vez que escrevi sobre a forma absurda como são replicadas publicações “científicas” (reconheço, mais na áreas das “Ciências Sociais e Humanas”), em diferentes suportes ou línguas, para efeitos de indexação internacional, citações cruzadas e, assim, aumento artificial do aumento da “produção” de que se alimenta a avaliação de docentes e investigadores do Ensino Superior e acesso a bolsas. Tudo o que vou lendo por aí não é, pois, nenhuma novidade e muito menos me causa espanto. Pena é que a coisa esteja a ser analisada na base do epifenómeno folclórico e não de um modo sistemático, porque seria o bom e o bonito.

Claro que há quem ache “normal” e mesmo “legal”. Normal até é capaz de , infelizmente, ser. Legal, idem. Ético? DU-VI-DÊ-Ó-DÓ.

O Combate Ao Conflito

Acho que poucas pessoas que passam por aqui se surpreenderão ao saber que sou frequentemente tratado como “conflituoso”. Algo a que estou habituado e que considero uma qualificação adequada e que até agradeço mas que, por qualquer razão estranha, há quem considere pejorativa e a use como se fosse ofensa.

Ora bem… eu sei que o “conflito”, a menos que seja encenação (do tipo Jerónimo na Festa do Avante a criticar o PM Costa a quem aprova todos os orçamentos há meia dúzia de anos ou aqueloutras coisas autárquicas entre os M&M que estão basicamente em acordo em tudo ao centro), está em maré baixa e que o que está em alta é a “positividade” de quem “conversa” e não confronta ou debate como outrora se entendia o termo.

Vivemos uma era chóninhas, em que a “voz grossa” já se sabe que é artifício meramente decorativo e teatral, nada trazendo de verdadeiramente substantivo. Em que “debater” é colocar gente a despejar cartilhas e guiões, sem qualquer preocupação em tentar entender o que os outros dizem e, a partir daí, repensar alguma coisa. Não é nada de novo e a decadência da conversa a sério e do debate já foram matéria para livros escritos por gente bem qualificada para o fazer.

Mas já começa a ser excessiva esta forma de desencorajar todo e qualquer tipo de verdadeiro confronto de ideias ou práticas e de crítica a quem se desvia das linhas traçadas para cada feudo que luta pelas cápsulas perdidas desta ou de qualquer outra bazuca. Agora, “fica mal”, revela “falta de espírito construtivo”, é uma falha evidente para um “trabalho colaborativo em busca de soluções”.

E a maioria acomoda-se, mesmo que incomodada.

E uma minoria gargareja tuítes como se fosse a sério o que não passa de picadas de melga.

E outra minoria grita os maiores disparates e pensa que isso é o mesmo que discutir ideias.

E até tipo da coelhinha acácia passa por ser um proto-ditador.

Phosga-se, pá!

O Texto No JL/Educação Deste Mês

Em versão pré-formatação ortográfica.

Ensinei a minha petiza a andar de bicicleta, pelo menos daquelas com rodinhas, teria ela um punhado de anos, talvez menos. O meu pai ensinara-me quando eu já andaria na Primária, após comprar-me uma bicicleta com a inesquecível marca Romeo, que muito gozo deu aos meus colegas. Por acaso a marca ainda existe e com uma linha vintage na qual encontrei um modelo parecido ao meu de inícios dos anos 70. O meu pai deve ter aprendido a andar numa pasteleira, com o irmão mais velho, porque não estou a ver o meu avô a preocupar-se com essas coisas, que ele era mais anarquismos e peças de teatro por encenar.

Agora, num tempo em que as ciclovias nascem que nem cogumelos, lado a lado com estradas, caminhos, passeios ou arruamentos, o ministério da Educação decidiu que os alunos do 2.º ciclo devem aprender a andar de bicicleta nas escolas. De acordo com a notícia do jornal escolhido para divulgar a novidade “Ciclismo vai ser aposta do Desporto Escolar”, acrescentando-se que “ensinar a andar de bicicleta, de forma competitiva ou como um meio de transporte sustentável é uma das apostas do programa Desporto Escolar (DE) até 2025” (Jornal de Notícias, 13 de Agosto de 2021). Quase me espantei por não passar a fazer parte do currículo nuclear deste ciclo de escolaridade, pois as escolas tornaram-se uma espécie de família primeira para os alunos, onde parece ser necessário ensinar-lhes de tudo um pouco, poupando as famílias a essas tarefas que em tempos serviam para aprofundar as ligações pais-filhos e faziam parte do que agora se designa, mas se pratica pouco, como quality time.

Uma ou duas horas antes de começar a escrever este texto, em trajecto feito para cumprir uns deveres familiares, onde não existem transportes públicos, cruzei-me com uma dezena de ciclistas com equipamento completo, quase a parecer que estava perante um grupo de fuga numa qualquer volta à Parvalheira, tão boa a qualidade aparente das roupagens coleantes e velocípedes rebrilhantes ao sol da manhã. O caminho em causa é um dos principais para uma unidade industrial com milhares de trabalhadores, mas raramente vejo alguém a fazê-lo no sentido do local de trabalho. Um pouco mais adiante, um par de quilómetros quiçá, passei por uma ciclovia cuidadosamente desenhada e implementada pela autarquia. Passeavam nela alguns caminhantes matinais entre o footing e o jogging, mas zero crianças em bicicleta, acompanhadas por um adulto a ensinar-lhes esta competência essencial, outrora como meio de deslocação, mas agora quase exclusivamente como forma de diversão e convívio. Aliás, ao fim de semana, o ratio entre ciclistas em amena cavaqueira pela estrada nacional fora e pais a acompanhar crianças nas ciclovias é desolador.

A escola que trate disso, é o que parece ser-nos dito sem grande margem para dúvidas. A escola que aprofunde a sua missão de difundir o lifestyle apresentado como saudável, tolerante, inclusivo e moderno aos jovens. Que aprendam o empreendedorismo na disciplina de Cidadania (nem me arrisco a entrar pelas questões de género), que não comam pãezinhos com chouriço ou bebam leites com muito chocolate nos bufetes da escola e que aprendam a andar de bicicleta no recinto escolar para serem cidadãos com um corpo são e poucas despesas para o Serviço Nacional de Saúde. É um desígnio como qualquer outro, mas deixa-me dúvidas quanto a esta “nova” concepção da Escola Pública, a este “novo paradigma” de uma Educação que é transbordante em tudo, menos na parte académica, que se reduziu a “aprendizagens essenciais” para que a mente sã seja uma mente com pouca coisa lá dentro que possa provocar a fermentação de ideias desagradáveis ou problemáticas para o zeitgeist holístico que está na moda em certas tertúlias muito ideologizadas no supérfluo e com escassa coragem para se envolver (a menos que seja em voluntariado caritativo) na resolução dos problemas mais graves que afectam as famílias dos alunos mais carenciados.

Dizem os “modernos” que esta Escola que temos é “velha”, que está “desactualizada”, que não corresponde às “expectativas”, que é “enciclopédica”, que é “aborrecida” e “não cativa os alunos”. Que segue um modelo igual ao de séculos. Quase como alguns dos meus escritos que passeiam entediados sobre estas opiniões, contra as quais argumento de forma recorrente que há instituições que cumprem uma função social com traços de permanência que dificilmente faz sentido mudar. Um hospital, um tribunal, tal como uma escola, mantêm traços comuns desde o início da época Contemporânea por alguma razão. Pode mudar a arquitectura e a gestão de alguns espaços, podem mudar as ferramentas ao dispor de quem lá trabalha, podem mudar as formas de desempenhar certos actos, mas a essência permanece muito semelhante.

No caso da Escola, muito mudou, apesar do que é dito em contrário, desde que fui aluno. E, para além das aparências, muito se transformou na forma de estar nas escolas, nas aulas, de ensinar e de aprender, mesmo se a Escola ainda mantém aquela função primordial de transmitir conhecimentos e competências às novas gerações. E assim se deve manter, a menos que se transforme em definitivo em outra coisa, de espaço recreativo a mera instituição de gestão do tempo das crianças e jovens quando as famílias estão fora de casa, a trabalhar (ou a andar de bicicleta).

Parece-me um erro enorme querer transformar o “velho paradigma” num “novo” em que a Escola se torna o espaço para a transmissão do Efémero, da moda transitória, dos elementos dos estilos de vida mais em voga. As aulas de Sócrates e Platão eram muito diferentes das nossas, bem como as dos mestres medievais nos seus mosteiros, nos degraus de uma catedral ou numa nascente “universidade” (e seria tão interessante perceberem que a etimologia do termo se relaciona com os conceitos de universo e unidade). Mas existiu desde a origem essa função de transmitir o “saber”, entendido como aquilo que era mais importante transmitir entre gerações, aquilo que deveria permanecer como um corpo comum de conhecimentos. E não a transmissão de facetas transitórias da vida quotidiana. Mesmo quando relacionada com aspectos mais técnico-profissionais (como no caso da formação no contexto de uma corporação ou guilda), procurava-se que as aprendizagens recaíssem sobre um corpo de conhecimentos estabelecidos como canónicos.

Claro que esses conhecimentos evoluíram e já não aprendemos que a terra é plana e está no centro do Universo (bem… há quem continue a acreditar nisso) ou que as doenças são o resultado de castigos divinos e que se curam com oferendas (pois… eu sei, ainda há quem acredite pelo menos em parte disso). Nem o ensino se baseia apenas na exposição da autoridade inquestionável do mestre (por muito que existam pessoas que ainda confundem o seu passado com o presente), perante a apatia geral dos alunos. Mas o papel da Escola como instituição que assegura a transmissão do que é considerado o Conhecimento comum da Humanidade, nas suas várias áreas de desenvolvimento, das Artes às Ciências, das Humanidades às Tecnologias, passou a estar sob forte ataque. Parece que uma mente sã é aquela que só precisa estar informada acerca do “essencial”.

Os últimos anos trouxeram-nos uma forma de pensar a Educação (e a Escola) que parece seduzida pelo efémero, pelo epifenómeno, pelo borbulhar superficial, pelo verniz. Os conteúdos das disciplinas apresentadas como “tradicionais” são substituídos por um elenco de “aprendizagens essenciais”, quase a um esqueleto que, em alguns casos, se torna uma espécie de uma má caricatura, desconexa, do que deveria ser um corpo coerente de conhecimentos. O caso da História é, como agora se diz, “paradigmático” da redução ao absurdo das aprendizagens, resultado da combinação da diminuição do tempo semanal disponível para leccionar (de 3 tempos de 50 minutos para apenas 2 de 45 ou 50) o que deveria ser uma evolução panorâmica das sociedades humanas, com a hábil promoção da queixa populista da extensão dos programas. E assim se reduz tudo a uma espécie de “quadros históricos” à moda de um espectáculo de salão do século XVIII, em que a democracia ateniense aparece já perfeita no século V a. C., sem contexto, enquanto o Império Romano nos surge já todo formado, como se não fosse o resultado de um longo processo. Parece que saber mais do que o “essencial” é algo aborrecido, antiquado e, cito sempre o preclaro governante que o afirmou, um saber “enciclopédico” e inútil. Esparta derrotou Atenas.

Uma Educação Mínima para o sucesso, uma Escola cada vez mais centrada no Efémero, prescindindo da sua função original e “essencial”.

A Coragem Do Dia Seguinte

Não me sensibiliza muito quem “assume” qualquer coisa quando não há mais nada a fazer, porque se ficou a conhecer sem ser por acção da própria pessoa. E há ainda quem dê todo o apoio a causas que afirma já conhecer, mas acerca das quais nada fez. Ou como o meu pai me contava, ainda era eu petiz, foi muito simples ser-se democrata no dia 26.