“Atendendo Ao Número De Chamadas Em Espera, Esperamos Atendê-lo Em Cerca De Dois Minutos”

Cerca de 35 depois, desliguei, porque as músicas que colocam nestes casos são quase sempre irritantes para estarem em alta voz, enquanto esperamos. Mais de dois minutos foi apenas para me explicarem todas as opções que tenho para os contactar e que teclas usar. A mim, bastava clicar no 1 desde o início. E é isto o mundo da “economia digital” de – claro – uma grande empresa de comunicações à distância, net, fibra com olhos e tudo o mais.

O século XXI começou há 20 anos, mas não consta dos registos.

KeepCalor

A Questão Da Fiabilidade

How to Prevent Contract Cheating in Remote Learning

(…)

Remote learning is a powerful platform for learning under many circumstances, affording increased flexibility for students with challenging schedules, access anywhere and anytime, and yes, access during a pandemic.

However, when undertaken under emergency circumstances such as the COVID-19 pandemic, the transition to remote learning can be stressful. And when students are stressed, lack connection to learning and to their teachers, and are struggling, they are more tempted to take short cut solutions like cheating (Park et al, 2013).

Paranoia about cheating is making online education terrible for everyone

A sudden switch to online learning reveals a slew of challenges for educators.

Batota

Nem Sempre Gostamos Do Que Os Espelhos Reflectem

Há um discurso anti-redes sociais com uma fortíssima componente demagógica e uma muito pouco menor de hipocrisia. E não falo apenas de ser gente que lá passa muito mais tempo do que eu a dizer mal do que lá se passa. É mais daquele género de postura “ética” a dizer que as redes sociais são uma espécie de antro do pior que existe na natureza humana e nisto incluo pessoas que até estimo bastante à distância, mas que me parecem desligadas da vida do país e que confundem o seu casulo particular com a Humanidade em geral. Ou então também não frequentam, por pouco que seja, cafés ou outros espaços públicos de convívio, o que inclui filas nos postos de correios, serviços públicos ou supermercados. A única diferença é, no essencial, a impossibilidade de se verem memes a partir do que as pessoas dizem, embora eu consiga vê-los nas suas caras.

Sim, há muita estupidez nas redes sociais, porque também há muita estupidez à solta por aí, mas, curiosamente, não foi nelas que nasceu a falsa notícia da primeira morte por covid-19 em Portugal. Foi num canal alegadamente noticioso e nem sequer a tão criticada CMTV. Assim como foram canais noticiosos tidos por fidedignos que multiplicaram a notícia de um inexistente estado de coma do escritor Luís Sepúlveda.

Claro… há as palermices em torno do mau uso de lixívias ou vinagre para matar o vírus ou tantas outras coisas da ordem das velhas mézinhas de outros tempos (poderia contar-vos uma de uma avó minha para resolver a obstipação que envolvia um talo de couve e… bem, fiquemos por aqui, restando dizer que só a ideia da concretização me faria ficar curado de qualquer pandemia). Mas não me parece que sejam coisas específicas das redes sociais, as quais são feitas do que as pessoas lá colocam.

As redes sociais são um espelho dos seus utilizadores, gente com banda larga, smartphone e nem sempre com apenas o 4º ou 6º ano de habilitações. Por observação directa, garanto que há gente bem certificada e mesmo com posições relevantes na sociedade que propaga mentiras de forma consciente em plataformas de que depois diz mal em conversas “inteligentes”. Nos últimos dias, foi um rodopio de candidatos a spin doctors ou a spinners, já não sei. E as ânsias censórias partem de muitas direcções, baseando-se tanto na ignorância como na sapiência mais sapiente. Num caso, ainda podemos explicar as coisas pela falta de (in)formação; mas no outro, apenas pela falta de carácter ou, hipótese muito válida, por ser muito incómodo o retrato/reflexo que as redes sociais fazem do que a sociedade é, pós-moderna no verniz, mas tacanha ali logo uns milímetros abaixo.

espelho

Fechar Todas As Escolas?

Não teria sido mais importante fazer rapidamente um inquérito aos locais de férias? Porque a solução de manter toda a gente em casa me parece algo inviável. Recolher obrigatório? Já atingimos esse estado de alarmismo? Porque então o que fazemos com as grandes superfícies e centros comerciais? Fechados também? Para onde vai toda a gente? Eu bem que disse aos meus alunos que o regresso à medievalidade (e já citei o Stephen King e a forma como ele retratou um regresso a uma quase barbárie na sequência de uma pandemia) vai a par da mais avançada modernidade tecnológica. De que nos servem tantas teorizações sobre o século XXI se acabamos encerrados na mesma mentalidade de outrora, provando que a evolução é bem mais superficial do que aparentam os aparatos digitais. Basta um vírus micronésimo e todo o verniz se desaparece.

É uma questão de segurança?

É uma questão de higiene?

Não estaremos a entrar em parafuso demasiado depressa?

Agora imaginemos o cenário da gripe pneumónica que terá provocado em Portugal, de forma directa ou indirecta, quase 100.000 óbitos só em 1918 (outro bom artigo aqui). Em termos globais terá atingido 500 milhões de indivíduos e a taxa de mortalidade terá andado pelos 6-8%.

As desgraças do passado não justificam que relativizemos o presente? Claro que não… mas quer-me parecer que estamos a reagir de uma forma que alia uma desnecessária descontracção inicial com um hiper-dramatismo quando ainda nem se sabe qual a evolução do vírus.

Sim, é possível que a Humanidade como a conhecemos venha a ser devastada por vírus ou bactérias, numa espécie de vingança da Natureza que pouco terá a ver com os medos globais que nos têm tentado inculcar. Mas não me parece que seja desta vez.

Hiperbole

 

6ª Feira

Ontem estava a explicar como aquilo que conhecemos como Ciência Moderna tem as suas raízes no século XVII, no desenvolvimento do método experimental e na aplicação das novas tecnologias de então, como o microscópio (para alcançar o muito pequeno e ir descobrindo o funcionamento do corpo e da vida) e o telescópio (para ver mais longe e descobrir o funcionamento dos céus e do universo) e veio mesmo a propósito a questão do coronavírus e do paralelismo que se pode estabelecer sobre o modo como está a ser feita a sua prevenção/contenção e esforços para o combater e o que na Idade Média se fez em relação à peste bubónica ou Peste Negra, que se desconhecia ser transmitida por uma bactéria, então invisível com os “aparatos” à disposição da sociedade ocidental e inconcebível à luz das teses em vigor sobre a origem das doenças e sua propagação.

E é fácil encontrar o que se faz de melhor com origem nos métodos científicos (a relativa rapidez com que agora é possível iniciar testes e experiências para “conhecer o vírus e desenvolver potenciais vacinas) e o que ainda resta das práticas medievais (encerramento de espaços públicos, restrições à deslocação de pessoas, isolamento dos doentes).

E nem sequer houve tempo para explicar como, em matéria de opinião pública, se mistura o melhor com o pior, a tentativa de adoptar práticas de segurança não alarmistas e o disparate de associar uma eventual pandemia à orientação política deste ou aquele governo, no Extremo Oriente ou na própria Europa. Se há algo que a cartografia do COVID-19 demonstra é que ele se tem propagado, em regra com óbvias excepções (Noruega, por exemplo), mais devagar aos países pobres de África e da América do Sul (e da antiga Europa de Leste). Até nisto, o mapa das desigualdades tem regularidades curiosas.

coronavirus

(a ligação passado-presente em História é mais fácil e frequentemente praticada do que a vossa fraca filosofia pode imaginar, caros inovadores do século XXI)