Uma Questão De Liberdade?

Sim, podemos prescindir de regras básicas destinadas a travar contágios e a maioria sobreviverá. Morrerão os mais velhos e mais frágeis, mas isso até apurará a raça, desculpem, a Humanidade, certo? A sobrevivência dos mais fortes. A destruição criativa.

Sim, podemos prescindir de fechar escolas ou de mandar a miudagem para casa, para que os pais possam trabalhar em paz. Ou ficar em paz, em certos casos, porque há entre quem protesta muito, gente desocupada, que não se deve confundir com desempregada. Ou que até pode trabalhar em casa, mas estar com os miúdos o dia todo é uma chatice. Até podemos, contra o “pânico injustificado”, reservar informação e dar espaço aos boatos, podendo tudo acabar nisto.

Mas, depois, se as coisas correrem pelo pior a quem defende isso, acham que ficarão calados e não quererão apurar “responsabilidades”? Sim, porque muitos dos primeiros a clamar por “liberdade” contra a conspiração global das máscaras e do confinamento, serão dos primeiros a apontar o dedo. Aos outros.

Tempos Estranhos

Os defensores da Verdade absoluta a tornarem-se relativistas e os arautos da tolerância a revelarem a maior das intolerâncias.

Quando os tempos ficam difíceis, o verniz estala e percebe-se que há muito poucas verdadeiras diferenças entre as cliques em disputa. Apenas interesses e estratégias divergentes para manter os poderes.

Ter Ou Não Ter Medo, É Essa A Questão?

Não me parece que o “medo” do vírus seja o medo que mais tolhe a sociedade neste momento, a sério que não. Por estranho que pareça, acho que o maior medo é o dos governantes (e alguns outros políticos) de ficarem expostos às consequências dos seus erros de avaliação, entre o cálculo político e aquilo que deve ser feito, independentemente de ganhos/perdas nas eleições. Há quem chute para o lado (Rui Rio a querer “deslocalizar” o Tribunal Constitucional é daquelas questões típicas de quem está para além de Plutão) e há quem venda o “medo” da paragem da economia.

E se querem que vos diga . em especial aos teorizadores do “medo do vírus” – que o discurso do “medo da economia parar” tem sido uma narrativa bem mais poderosa e espalhada de forma deliberada. Aliás, o grande problema é o efeito dessa narrativa nas pessoas (e até o notei nos alunos, no fim do ano lectivo passado) que passam a ter mais medo (bem real) de perderem o emprego, rendimentos, a sua estabilidade profissional e financeira do que medo de serem contagiados, em especial quando se sentem num grupo de baixo risco. E passam a esquecer que não é só o “eu” que está em causa.

Não me sinto particularmente receoso de contrair o vírus. Mas receio ser agente da sua transmissão, mesmo se não frequento lares de idosos, onde os seus efeitos da covid-19 são mais devastadores. Mas percebo que há quem não pense assim.

“É pá, em seis meses morreram menos de 2000 pessoas, quase tudo velhos, é assim tão grave?” é o subtexto inicial que desagua no discurso do “medo da economia parar”. O “risco” de morrerem mais umas centenas de velhotes é considerado aceitável perante as imposições da economia que não pode parar.

Claro, os “especialistas” dirão que sem a economia funcionar todos ficaremos sem emprego e tudo irá à falência e esse é um fortíssimo “discurso de medo”, mas o curioso é que há tanto nas ciências ocultas da economia que não passa de uma representação estatística da realidade. Mas é com esse discurso que se diz que 1) todos temos de ir trabalhar; 2) as escolas não podem fechar para todos irem trabalhar; 3) o risco de transmissão entre crianças e jovens é muito baixo; 4) o “risco” de morbilidade é baixo para a maioria da população, mesmo contagiada.

E eu acho que é verdade… que há efectivamente um “discurso do medo” em torno do SARS-CoV-2, mas é o “medo da economia parar” apoiado em algumas falácias e muita “ciência” económica. O meu carro quando pára, pára, não pára 10% ou mesmo 15%. Nesse caso, desacelera e nem sempre é por más razões. Pode ser para evitar um acidente.

A analogia pode não ser a melhor, mas penso que dá para perceber que o discurso do medo mais actuante há longas semanas é o do medo económico, o do medo do desemprego, da perda de direitos laborais. Um medo que se afirma só ser possível combater indo trabalhar, deixando os filhos na escola e cruzando os dedos com os avós nos lares. Indo trabalhar, nem sempre com as condições adequadas de segurança e a informação completa sobre o que pode acontecer depois, especialmente em ambientes onde passou a dominar a crença do “tudo vai acabar bem”, eu vou escapar.

Sim, existe um fortíssimo “discurso do medo”. Que não tolhe os movimentos, mas qualquer contestação, que é apresentada como “irrealista”. E não é em primeiro lugar contra os críticos do uso da máscara, porque esses também apostam no medo desse mesmo uso, das suas consequências sanitárias, sociais e políticas.  

A estes discursos do medo juntam outros “medos” mais ou menos artificiais em torno do “estado mental” das crianças ou adultos que usem a máscara durante muito tempo. Esquecendo-se que em muitas partes do mundo o seu uso já é obrigatório por causa da poluição atmosférica.

Do outro lado, apontam-se os “traumas” de quem não possam sair de dia todos os dias e socializar. E eu lembro-me do que era crescer em tempos durante os quais havia um ou dois canais de televisão, net nem imaginá-la e sair de casa para passear era evento semanal ou mensal para a maioria das famílias. Será por isso, que agora temos por aí tanta gente traumatizada por ficar uns meses com “socialização limitada”? Que raio de “resiliência” tem quem não aguenta uns meses de mobilidade e sociabilidade presencial reduzida?

Repito-me… o “discurso do medo” está aí e em força, Mas não é o “medo do vírus” e, curiosamente, acho que muitos “negacionistas” estão a ler a situação toda pelo lado errado. A máscara e o distanciamento não são estratégias de “medo”, mas, ao contrário, de transmissão de uma sensação de segurança. Para que todos possam manter a economia a funcionar.

A questão sanitária tornou-se subsidiária da económica e política. O medo dos políticos serem descobertos na sua pequenez calculista, motiva o discurso do medo económico que se sobrepõe ao medo de qualquer contágio pelo vírus. E esse discurso vai-se entranhando e cada vez se nota mais nas reacções quotidianas das pessoas.

O número de óbitos por covid-19 passou a ser relativizado tanto pelos que acham que não é verdadeiro, como pelos que acham que é um sacrifício aceitável perante as “consequências devastadoras da paragem da economia”. Para mais, até parece que quase só morrem os velhos, não é?

 

A Fazer De Coro Grego No JL/Educação

Depois de 7 páginas de ensaboadelas positivas do SE Costa, do Filinto Lima, do Adelino Calado, do homem da Confap, do pessoal das Inquietações Pedagógicas, etc, etc, tudo a querer dar a entender que podemos confiar e que tudo vai correr bem, vem o desmancha-prazeres do costume a escrever que pensa exactamente ao contrário e que conversa fiada não transmite confiança a ninguém. E assim a publicação fica integral, com as notitas de rodapé que parecem irritar os paginadores.

A erosão da confiança

Um novo ano lectivo está a arrancar e, quase por certo mais do que o anterior, será um ano atípico, com muitas variáveis que é praticamente impossível prever em toda a sua diversidade. Por isso, ainda mais do que em situações tida como “normais”, é muito importante que os decisores políticos e todos os envolvidos no apoio à tomada de decisões na área da política educativa (ou em outras) e na sua comunicação ao público tenham um mínimo de sentido ético e de responsabilidade perante todos os cidadãos. Porque um dos créditos mais importantes que qualquer personalidade pública, em especial na área da política, é o da confiança. E não o do reconhecimento da chamada “habilidade política”, porque essa é matéria daquele tipo de “jogo político” que apenas tem contribuído para que grande parte da população se afaste da vida política activa e desenvolva uma atitude de crescente cinismo perante o papel dos políticos e respectiva credibilidade.

O “populismo” anti-sistema, nem sempre definido do modo mais rigoroso, nasce tantas vezes dessa perda de credibilidade de quem deveria ter a preocupação primeira de manter a credibilidade e a confiança no funcionamento do sistema político e não apenas de calcular a oportunidade política de determinada declaração ou decisão. Sei que não é fenómeno novo o uso e abuso do poder em proveito de uma clique de maior ou menor extensão, quantas vezes alegando o “interesse colectivo” ou o “bem comum”, mas não é a repetição que torna aceitável tal prática ou que sejamos obrigados a considerá-la como a norma estabelecida.

Mas voltemos ao arranque do ano lectivo de 2020-21 e à necessidade de existir um discurso transparente, de verdade e do rigor possível, perante as circunstâncias em que se está a dar o regresso ao trabalho escolar, inicialmente apenas pelo pessoal docente e não docente, mas em seguida por mais de um milhão de alunos, com reflexos directos ou indirectos no quotidiano diário da maior parte da população.

Sobre o que se vai passar nos próximos meses, ou mesmo semanas, escasseiam as certezas e multiplicam-se dúvidas à medida que se vão conhecendo novos dados científicos sobre a propagação dos contágios ou sobre a evolução da situação em outras zonas do mundo ou mesmo no nosso país. O equilíbrio entre a exigência de informar de forma rigorosa e a necessidade de não gerar pânico e manter uma sensação de segurança é difícil, mas não pode ser substituído por uma lógica de instrumentalização política, recorrendo a argumentos falacciosos, truncados ou mistificadores. Mas a tentação por privilegiar a transmissão de uma impossível sensação de segurança sobre o arranque das aulas tem levado a declarações públicas a oscilar entre a irresponsabilidade e uma espécie de pensamento mágico sobre a realidade. Como se, se todos “pensarmos positivo”, os riscos de contágios se dissolvessem num horizonte de coloridos arco-íris. Um pouco como as bandeirinhas nacionais nas janelas em tempos de Scolari e da nossa senhora do Caravaggio.

Li e ouvi declarações que roçam o absurdo nessa demanda de mostrarem que “tudo está a ser feito” para que os riscos associados ao recomeço das aulas presenciais seja o menor possível. Declarações de pessoas com responsabilidades acrescidas pelas posições que têm a nível nacional ou nas suas comunidades educativas. Declarações que truncam os factos, deturpam de forma consciente as condições reais no terreno e alinham numa variante de unanimismo demagógico que funciona como uma cortina de fumo, até surgir alguma ventania que a leve, altura em que dirão, sem grande pudor, que nada podia ter sido feito de forma diferente. E não tenho grandes dúvidas que Setembro arranca com a renovação das mensagens tendentes a transmitir “confiança”, com um discurso cheio de “positividade” porque, afinal, “não podemos parar”. Só que quem conhece como as coisas funcionam, dificilmente se consegue reconhecer nestes quadros cheios de gente sorridente de adjectivos fáceis, mas verbos ambíguos.

Em relação ao quotidiano escolar, a verdade é que, com a excepção de algumas arestas limadas nos horários dos alunos, eles são no mesmo número que eram, no mesmo espaço que existia. E que se aposta, com alto risco associado, que os comportamentos nos espaços escolares (e em seu redor) se mantenham dentro das normas de segurança, quando se sabe que isso é algo que só se pode explicar com recurso a uma qualquer Fé.

Na data em que escrevo (31 de Agosto), já se vão conhecendo alguns dados sobre o modo como o reinício das aulas está a ser preparado ou já a decorrer em outros países, num momento em que se verifica uma ressurgência dos casos de contágio em várias zonas da Europa e a sua multiplicação em outras partes do mundo. Perante isso, a Organização Mundial de Saúde tenta conciliar o interesse do regresso dos alunos ao ensino presencial e a um quotidiano escolar vagamente “normal” com as exigências de segurança que uns levam mais a sério do que outros, de acordo com avaliações dos riscos envolvidos que oscilam de acordo com as prioridades e meios disponíveis.

No Dubai, por exemplo, nas salas de aula, muitos lugares ficam vazios para assegurar a distância entre os alunos e os professores estão equipados com máscaras com microfones[i]. Um cenário difícil de assegurar em muitos outros locais. O que não impede que possam ser tomadas medidas destinadas a minimizar as possibilidades de contágio. Na Grécia, o número de alunos por turma foi reduzido para 17 e na Sérvia e Bósnia para 15. Em Espanha para 20, mesmo se existem dúvidas quanto à forma como isso irá acontecer, pois chega a prever-se a organização de aulas em espaços exteriores às salas tradicionais. E exige-se o uso de máscaras a partir dos 6 anos (1º ciclo), tanto em Espanha, como na Grécia, enquanto na Itália isso é exigido sempre que a distância de segurança não puder ser mantida. Também neste país, foram encomendadas quase 2,5 milhões de mesas individuais para os alunos[ii].

Em Portugal, nada disso se vai passar: as turmas continuam com a mesma dimensão, nos mesmos espaços e com a mesma distribuição, o que levanta muitas dúvidas sobre a eficácia de qualquer “distanciamento”. Alega-se que as escolas são dos espaços mais seguros em termos de contágio, mas não se diz que isso decorre de conclusões preliminares com base em amostras parcelares, colhidas quando se reabriram as escolas apenas para a frequência dos alunos do Secundário com exames. Garante-se que os riscos para os mais novos são muito reduzidos, mas não se explica que está em causa todo o movimento dos alunos entre os seus agregados familiares e as escolas. Não se destaca que mesmo que as crianças e jovens em idade escolar não desenvolvam sintomas graves quando infectados, isso não significa que não sejam agentes transmissores para familiares com situações de risco.

Chega a insinuar-se, com escassa subtileza, que o maior (único?) problema na reabertura das escolas é o “envelhecimento do pessoal docente” e o eventual receio dos professores em regressar às aulas por motivos apresentados como egoístas. Um governante esclareceu os directores escolares que os docentes em situação de risco terão de colocar “baixa médica”, sem atender a todo o enquadramento legal da questão. Ou em explicar o que se faz com turmas que fiquem sem um professor (ou mais) durante vários dias.

Como encarregado de educação não sinto confiança nesta forma de governar a Educação em termos de pandemia, pois quando os horários já estão feitos, ainda não se conhecem orientações claras para disciplinas que têm aulas práticas, de que a Educação Física é a que tem presença maior no currículo em todos os níveis de ensino.

Sim, é essencial retomar as aulas presenciais, para benefício maior dos alunos. Mas a reabertura das escolas não deve ser feita como se tudo estivesse previsto por estar escrito em “planos de contingência” ou protocolos que grande parte dos destinatários não lê ou aos quais, mesmo quando lhes são explicados, pouca ou nenhuma atenção dão.

A confiança ganha-se ou mantém-se com respeito pela verdade, não com truques semânticos ou argumentações relativistas, em que se nega o que antes se afirmou ser verdade insofismável, mas sem nunca se reconhecer o erro e muito menos que alguém chamou a atenção para essa possibilidade.

[i] https://www.khaleejtimes.com/coronavirus-pandemic/empty-seats-teachers-wearing-headset-mics-inside-a-dubai-classroom-on-first-day-of-school-2

[ii] https://medicalxpress.com/news/2020-08-european-schools-reopen-smaller-classes.html

 

A Questão Ao Lado

Perdi uma horita a passar por canais noticiosos lá de fora, para perceber como andam as coisas a ser encaradas e a regra é a da desvalorização, pelos políticos, dos riscos de contágio nas escolas para os alunos. Porque, apesar da tese já ter levado com uns estudos em cima a contrariá-la, se afirma que nas crianças e jovens o risco é baixo de contrair a covid-19 e ainda menor de ser com sintomas graves. Como se fosse apenas isso que está em causa.

Eu percebo que a escola digital do século XXI levou com um choque de realidade entre Março e Junho e que, afinal, o ensino presencial é ainda essencial e até mesmo algum de tudo mais tradicional do que se de desejaria.

E também percebo que a Economia parece sofrer mais com o encerramento das escolas do que de outros serviços públicos ou mesmo de sectores de actividade económica.

Mas seria bom que ao menos não se escondesse que os problemas não se resumem a haver contágio (ou não) entre os alunos, no interior das escolas. Há muitos mais do que isso, desde tudo o que envolve a deslocação dos alunos fora da escola, a situação dos familiares e, claro, em último lugar para quem gosta de falar sobre isto, os riscos do pessoal docente e não docente.

“Atendendo Ao Número De Chamadas Em Espera, Esperamos Atendê-lo Em Cerca De Dois Minutos”

Cerca de 35 depois, desliguei, porque as músicas que colocam nestes casos são quase sempre irritantes para estarem em alta voz, enquanto esperamos. Mais de dois minutos foi apenas para me explicarem todas as opções que tenho para os contactar e que teclas usar. A mim, bastava clicar no 1 desde o início. E é isto o mundo da “economia digital” de – claro – uma grande empresa de comunicações à distância, net, fibra com olhos e tudo o mais.

O século XXI começou há 20 anos, mas não consta dos registos.

KeepCalor

A Questão Da Fiabilidade

How to Prevent Contract Cheating in Remote Learning

(…)

Remote learning is a powerful platform for learning under many circumstances, affording increased flexibility for students with challenging schedules, access anywhere and anytime, and yes, access during a pandemic.

However, when undertaken under emergency circumstances such as the COVID-19 pandemic, the transition to remote learning can be stressful. And when students are stressed, lack connection to learning and to their teachers, and are struggling, they are more tempted to take short cut solutions like cheating (Park et al, 2013).

Paranoia about cheating is making online education terrible for everyone

A sudden switch to online learning reveals a slew of challenges for educators.

Batota