4ª Feira

Se pensarmos a fundo, ainda bem que se vão reformar tantos professores velhos, incompetentes, carentes de formação, carregados de preconceitos e privilégios. Nem sei porque há agora tamanha aflição. Não fizeram tudo para que se fossem embora, no maior número possível os que ainda têm memória de uma carreira? Assim, não ficam livres para contratar esposas, filhos, amigos, compadres, amig@s colorid@s (estou apenas a pensar em casos concretos que conheço em primeiro testemunho de quem está nesses “territórios” muito “inovadores”) ou recorrer a “agências de recrutamento” como num dos exemplos da peça do Público, em que quem passou por esse “modelo” apresenta aquela mesma atitude de amochanço que tanto a tutela deseja que se generalize por cá?

4ª Feira

Já se está a perceber, com expectável rapidez, o que pretendiam cert@s director@s que reclamaram por maior autonomia na contratação dos seus “colaboradores”. Até falaram em “novos olhares”. Ao que parece, num determinado teip com ligação directa ao shôr ministro, começou-se pela família nuclear. Episódio deprimente, contado por quem assistiu em directo ao desempenho do inclusivo líder local. Nada como começar por incluir os seus, portantossss. Se não for quem sabe, por contacto próximo e íntimo, a fazê-lo, quem o fará?

Sábado

Todas as épocas ou períodos históricos tiveram as suas peculiaridades e paradoxos, não é coisa nova. Mas ao vivermos num dado contexto, é natural que se sintam mais os que nos rodeiam, aqueles que sentimos instalar-se de forma insidiosa num quotidiano em vale tudo e o seu contrário, como criticar a discriminação das designações identitárias que se acham ofensivas, mas depois arranjar categorias em crescendo para as identificar e marcar as suas diferenças. Assim como vale uma enorme de encenação de oposições e alternativas políticas, em que tudo depois se mistura e equivale, como escreve hoje António Barreto. Temos pessoas hiper-rigorosas na definição de conceitos mas que depois tudo relativizam e equivalem quando isso lhes interessa, sendo evidente o caso da guerra na Ucrânia, em que se chega a debater se é uma “guerra” ou não, se existiu “invasão” ou uma “operação especial”, mas depois se mistura tudo, como se não existisse invasor e invadido, agressor e invadido, como se um ataque militar concreto com ocupação de território fosse equivalente a um receio imaginado de uma proximidade. Com a pandemia e as vacinas já tínhamos experimentado esta relativização do que será o “conhecimento”, do que devemos admitir como “ciência”, recuperando teses que se pensavam quase enterradas no ridículo da História da Ideias.

O problema é que a erosão dos valores em grande parte das sociedade democráticas liberais, com o acompanhamento do discurso sobre a irrelevância da busca da “culpa” (ainda há dias vi um psicólogo na televisão a explicar de forma beatífica que a busca da culpa não facilita a cura), conduziu a uma situação que em vez de se identificarem com clareza consequências em tempo útil os culpados dos erros da governação e dos negócios, se passou para a crítica do próprio sistema democrático como responsável pelas suas más práticas. Agora, fruto de leituras apressadas e superficiais de um livro da moda em alguns ambientes intelectuais, critica-se a meritocracia como responsável pelos problemas de auto-estima e depressão de quem não tem “sucesso”, não fornecendo alternativas credíveis e ignorando por completo que as situações individuais (ou de grupo) que potenciam os estados depressivos, de ansiedade ou mesmo pânico, atingem de forma por vezes mais intensa pessoas com evidente sucesso (o caso de Andrew Solomon é dos mais significativos, quer na sua singularidade, como na pesquisa que desenvolveu sobre o tema). E determina-se uma inclusão por decreto que todos sabemos ser meramente retórica. E fala-se muito em equidade e justiça social, quando à vista de todos, no dia a a dia, se sabe que isso é cada vez mais uma mera mistificação política.

Sim, há momentos na História em que se nota uma maior desorientação nas sociedades e o mundo ocidental atravessa um deles, sem margem para dúvida. A incerteza e insegurança nasce, não exclusivamente mas em grande parte, de um discurso político sobre o “século XXI” que sublinha os traços mais voláteis dos tempos, para justificar medidas que precarizam e desregulam o mercado de trabalho e o funcionamento dos serviços públicos. Se a chamada “direita liberal” foi desenvolvendo esse discurso de forma consistente desde o início dos anos 80, a pseudo “esquerda da 3ª via” aderiu a ele de braços abertos desde meados dos anos 90. quanto aos “radicais esquerdistas” já vimos, em diferentes momentos, que em termos organizacionais preferem adaptar-se às circunstâncias para ganharem umas migalhas do que serem coerentes. O que deixou um largo campo aberta à uma “extrema direita” que vive da confusão entre os desmandos e negociatas dos governantes e políticos do centrão e a natureza do regime democrático. Assim como os demagogos pretensamente em busca de uma “utopia” – na área da Educação sempre existiram, mas ao menos há umas décadas pareciam sinceros – aproveitam as crescentes desigualdades para justificarem uma ideologia da indiferenciação para os 99%, como se o sacrifício da classe média permitisse reconstituir uma mítico proletariado perdido, só que agora mais domesticado e anestesiado por gadgets low cost.

A frustração, a depressão, a apatia, nascem da sensação de se ter perdido o controlo sobre a definição do futuro e da própria vida (há muito material a esse respeito, ficando por aqui e aqui apenas breves introduções ao tema). O que acontece quando a governança se fecha sobre si mesma em práticas endogâmicas. De meados do século XVIII para cá isso deu força a ideologias revolucionárias, crentes na possibilidade do progresso graças à capacidade humana para melhorar a sua vida, através do controlo do meio envolvente (natural, social, político). No presente está a conduzir à apatia ou a aproveitamentos demagógicos de quem apenas quer o seu lugar à mesa do poder estabelecido. A apatia é tão fomentada pelos tecno-políticos cinzentões, como pelos homens providenciais que apenas querem o “povo” atrás de si, sem contestar o “chefe”. De Sócrates a Ventura passou-se pouco mais de uma década. Um agravou de forma quase irremediável a crença no “modelo”; o outro limita-se a aproveitar a incapacidade de regeneração e auto-responsabilização dos que vieram depois do “engenheiro”. Pelo meio, andam os vendedores de felicidade, versão cosmopolita new age ou multicultural, tipo ubuntu.

ÓMaiGóde!

The pop star’s decision to replace two words in her song “Heated” follows Lizzo’s removal of the same term, which has been used as a slur against disabled people, from her track “Grrrls.”

O raio da palavra, mesmo no chamado calão urbano, pode ter múltiplos sentidos e usos.

Parecendo que não, para mim isto entra na mesma categoria do episódio do manual de Filosofia, que a Porto Editora que retocar numa passagem.

Interessante

Por cá muito disto foi chegando com atraso. Por vezes de décadas, mas acabou por chegar.

I think the story of America after World War II is the story of a country that suddenly found itself more affluent and realized that knowledge and technology and learning were the key to getting ahead. Because of that understanding, you saw this massive investment during the ’40s, ’50s and ’60s in higher education—in building new dorms and hiring professors; enrollment increased exponentially during those years. Since then, you’ve seen a backlash, driven by the right, in terms of what liberal education does to the minds of our young people. That’s really influenced the way we fund higher education. And that resentment, ultimately, became baked into what’s become the modern conservative movement in this country.

(…) One of the most dramatic statistics I found was from UCLA, which for decades has done a big national opinion survey of incoming freshmen. One of the things they ask is, basically, what’s the purpose of college? In 1969, 82 percent of freshmen said the main purpose was to develop a meaningful philosophy of life. And by 1985, or 16 years later, that number plunged in half, to like 43 percent. And the top answer that replaced it was to be “very well-off financially.”

You saw this play out in practical ways. Majors in the humanities and social sciences plummeted in the ’70s and ’80s. And business, and other more career-oriented majors, took precedence. There were a couple of things going on there. One is the American economy changed. In the ’60s, when there were jobs available for anybody, it was easy to think that I’m going to college to develop a philosophy of life. By the ’80s, people felt this pressure to learn skills in college that would help them get a good enough career to stay in the middle class.

Já Percebi!

Há pelo menos uma vantagem evidente, na perspectiva do ministro Costa. Eu acho que sem uma “formação” deste tipo, não deveriam renovar contratos a ninguém ou permitir quaisquer baixas médicas.

Social media age: Where is the spirit of Ubuntu in the educational system?

(…) Notwithstanding the benefits attached to African philosophy, Ubuntu, and social media, teachers’ presence in schools keeps dropping physically and virtually. This study used secondary data in seeking to understand how African philosophy, Ubuntu, and social media can be applied in closing or eliminating the growing teacher absenteeism in schools in this social media age.

Sugestão De Leitura

Muito no espírito dos tempos. A ler, por exemplo, o capítulo “A Presunção e o Eu Frágil” para melhor se compreenderem certas posturas do género “eu é que sei-eu é que mando-porque eu é que trabalho muito”. E depois, raspa-se o verniz e – há um cartoon muito giro do Quino a este respeito – temos lá dentro da armadura uma pessoazinha cheia de medo que se descubra que se lhe descubram os inconseguimentos.

Calma, que eu também li e tenho consciência das minhas “arrogâncias” 😀

A Seca

Muita conversa, escassa ou nula acção e ainda menos com alguma consequência. Eu bem posso fechar as torneiras, que ali ao lado criam uma urbanização cheia de tanques a que chamam piscinas e relvados de rega intensiva. Depois de terem “limpado” a zona da desagradável (e perigosa!) vegetação natural, essencial para a retenção da humidade e para reduzir a erosão dos solos. Basta ver como para construir qualquer barracão “empresarial” se dão autorizações vergonhosas para o abate de árvores, enquanto a poucas centenas de metros desfalecem barracões, outrora novos, que faliram quando os subsídios adequados deixaram de correr. Como levar a sério as preocupações com questões ambientais de quem se vende à primeira investida que dê “receita” (formal ou informal) e não me venham dizer que o problema é do Estado central, que os mini-estados de proximidade dão bem mais nas vistas na forma como hipotecma o futuro em troca de uns cobres. A começar pelo modo como agora pululam as ciclovias e afins, criadas a trouxe-mouxe, enquanto os gajos da lycra continuam à mesma nas estradas, ali mesmo ao lado, que as ditas ciclovias são pás meninas.

Sábado

Vou repetir por aqui dois assuntos da semana. Um porque simboliza a forma como a mentira sem remédio ou “os factos alternativos” se tornaram a regra na comunicação mediática (não restrita às redes sociais, onde é feita mais a traço grosso e já se sabe que sem controlo editorial. É “admirável” o modo como alguém diz uma clara falsidade num programa que nem é gravado ao vivo, perante o ar compungido do entrevistador, que aceita como boa qualquer declaração com tom dramático e ninguém vai depois verificar se aquilo poderia ter acontecido. Sim, falo do Alta Definição com o filho d’algo, que não sei se merecerá a atenção do Polígrafo, mas duvido, porque anda mais entretido em desmentir coisas do fbook. A mentira passou a ser mais do que tolerada porque, quantas vezes, é quem a denuncia que é apontado como intolerante, irritadiço ou picuínhas com os detalhes. A segunda relaciona-se com aquelas senhoras que escrevem crónicas sobre serem mães e avós que adoram crianças, excepto se tiverem de as aturar mais de um par de horas por dia e de modo algum mais do que os dois dias do fim de semana. Por um lado, ainda bem que escreveram que se sentem “claustrofóbicas” por terem a descendência por perto, pois assim se percebe que encaram as escolas como creches até aos 18 anos e os professores como babás dos seus rebentos até à idade de (não) irem à tropa. Sim, falo das Stilwell que o Público nos serve quase todos os dias como maná para as Avenidas Novas. O curioso é que nos dois casos, estamos a falar de uma espécie de “elite” que se arroga de qualquer coisa de artístico, cultural ou intelectual. Só que a pobreza de espírito, a menos que vá a par de outras, nem é sinalizável para qualquer cpcj.