Os Tempos Andam Assim

Quando deambulo, atento nos folhetos que aparecem nos balcões de cafés e estabelecimentos assim, Guardo alguns, numa espécie de falhado vitrinário pitoresco. Neste caso, um desdobrável de divulgação dos serviços de um casal de “hipnoterapeutas clínicos”. Nada contra, desde que acuda a necessidades existentes. Não sei porquê, mas acredito que parte d@s clientes sejam eleitor@s do PAN (como notarão, em poucas palavras, já estarei a chatear uns largos milhares de cidadãos). Em parte por causa da “saúde holística”, sobre a qual teria prazer em produzir diversos parágrafos jocosos. Assim como a “obesidade” como “adição” equivalente ao tabagismo e ao alcoolismo (eu que, como obeso praticante, pensava que a “adição” seria a causa e não o seu efeito) e a asma como “doença psicossomática” é simplificar demasiado as coisas e truncar as causas médicas da doença em si com um factor de agravamento dos seus sintomas.

Lifestyles Do Zeitgeist (Avec Açai da Amazónia E Moringa Dos Himalaias)

O sal faz mal, o açúcar mata, o leite é um veneno, comer carne é crueldade. Andar de bicicleta é um must, o que é preciso é combater o sedentarismo e a obesidade, criar zonas e espaços para a mobilidade e imersão na Natureza. Devemos ser saudáveis à força. Não há planeta B.

Até à exaustão.

Mas depois há aqueles paradoxos que me deixam abismado com a estupidez humana. Nos últimos meses acompanhei o evoluir de uma espécie de “via” paralela a uma estrada que percorro diariamente, numa zona urbanizada mas até razoavelmente arborizada. Ao lado da estrada, havia um passeio empedrado. Há uns valentes meses, começaram a esburacar-se mais uns 2-3 metros ao lado para o que se suporia uma ciclovia. Para início das hostilidades, encontrou-se a maquinaria e o material a um pequeno conjunto de sobreiros. Dois deles estão, agora, praticamente defuntos. A seguir desmatou-se e desarborizou-se quase por completo uma parte significativa das zona envolvente ao tal “caminho”; umas quantas oliveiras ficaram semanas com raízes expostas, enquanto não era concluída a “pavimentação” que, claro, foi com alcatrão daquele bem impermeável, porque parece que magoa andar e rolar em outros pisos. Todo o trajecto ficou bem betumado. Ontem, até com carro já alguém andava por lá, a cortar caminho para alguma garagem. Ou então era o empreiteiro a testar a resistência do material. Sem escoamento, a água irá para a estrada, a qual terá as sarjetas entulhadas em altura de chuvada com “valores acima da média para a estação”

Uns basbaques ficam a olhar, quase todos obreiros da obra que ergueram com muita pausa pró mata-bicho, abnegadas cuspidelas e não poucas beatas ao vento (assunto a retomar mais adiante). Outros, passam e olham em modo de “já não sei o que me vai aparvalhar mais”, como este aqui vosso escriba de má-língua e hábitos arcaicos.

A obra virá como grande progresso, por certo, em publicação municipal. Grande conquista para o lifestyle saudável da freguesia. Umas centenas de metros mais adiante, já há mais uns sobreiros marcados para cortar e dar lugar, quiçá, a uma zona verde daquelas com rega intensiva ou então, porventura, um ginásio na falta de uma qualquer superfície comercial.

Os tempos parecem-me de uma idiotice assinalável, em que se substitui a natureza para se estar numa espécie de natureza, em que se defende o exercício, mas sem fazer doer os pézinhos. Em que se vai de carro à mesma para o trabalho, mas se passeia a lycra de bicicleta ao fim de semana, antes da churrascada.

É como aquela das multas para quem deitar beatas para o chão que se espera com fiscalização a cargo de corpo próprio de vigilância, tipo Polícia para Inspecção e Multa das Beatas e Afins (PIMBA).

Os tempos estão parvos. Ou foi do homem ir à Lua ou é das hormonas de crescimento nos frangos (carne branca) ou dos pesticidas na rúcula ou da fibra na quinoa causar flatulência que sobe ao cérebro.

Saudavel

(o que me diverte, quando passo nas redondezas do centro de saúde, ver aqueles mocetões todos turbinados de canadianas porque se escafederam todos a malhar pró body metrossexual e depois ai, ai, ai que fez dói-dói no tendão ou entalou o escroto no selim, porque se esqueceu do calção acolchoado)

E Vão Aprender A Não Passar Nos Semáforos Vermelhos Ou Nas Passadeiras Para Peões Como Fazem Muitos Papás e Algumas Mamãs?

E quem fornece o “material”?

Aprender a pedalar será, nos próximos anos, obrigatório para as crianças a partir do ensino básico. A estratégia do Governo vai ao encontro de uma ideia quase consensual: a de fazer das crianças força de mudança de comportamentos. José Mendes, Secretário de Estado Adjunto e da Mobilidade, recorda o que se passou com a reciclagem para explicar a mais recente aposta, agora no que a mobilidade diz respeito. A contaminação, esperam, será grande.

“As crianças têm uma capacidade de sensibilização enorme”, disse ao PÚBLICO. A “pedagogia” à boleia dos mais novos, que no caso da mobilidade e ambiente abarca uma quase “alteração de paradigma”, pode ser uma forma de fazer quem está à volta “copiar” comportamentos. “Todos os alunos terão a oportunidade de aprender a pedalar, num processo de formação faseado ao longo dos vários níveis de escolaridade”, lê-se na Estratégia Nacional para a Mobilidade Activa apresentada nesta quinta-feira. No 1º ciclo as aulas serão em contexto protegido, nos 2º, 3º ciclos e secundário haverá uma passagem para o espaço público.

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(eu aprendi ali pelos 5 anos em ambiente não protegido com o meu pai a ajudar, dando uns tombos quando olhava para trás e ele estava a rir-se depois de me ter largado… sou mesmo velho… mas compreendo, é tempo de ultrapassar o mesozóico das funções familiares)

A Conversa De Chacha Sobre O Populismo

Agora está por todo o lado. Qualquer bicho careta com assento, microfone e eventualmente câmara, perora sobre os malefícios do que chama “populismo”. E pelo mesmo caminho, toda uma catrefada de políticos de ocasião, embora alguns com idade e formação que os deveria obrigar a saber do que falam. E misturam tudo com “demagogia” e fake news numa salada que só serve para baralhar tudo.

Há duas escolas: os que dizem que todo o populismo é mau e depois há os que dizem que há populismo “mau” e populismo “bom” (criado para albergar especificamente o nosso PR). Qualquer das tendências fundamenta-se de forma muito deficiente e amiúde falacciosa os seus “conceitos” e pior ainda qualquer sustentação histórica.

Mas sobre isso hei-de escrever com mais tempo, talvez para reclamar o regresso da Introdução à Política ao currículo do Ensino Básico, que tanta falta parece fazer, em vez de Cidadanias transversais.

Por agora, apenas afirmar que se por “populismo” entendermos uma posição que visa obter um apoio popular entusiasmado em torno de uma causa, contra um dado “inimigo” ou desenvolver uma política que se deseja popular junto da opinião pública, podemos usar como exemplo maior aquela conhecida frase “perdi os professores mas ganhei a opinião pública” que vai continuando actual.

Mas concretizemos de outra forma… não será populista a retórica que repete até à náusea o seu pretenso “anti-corporativismo” e “a defesa do interesse nacional” sempre que se pretende negar os direitos de um dado grupo social ou profissional? Não será “populismo” ir fazer cataplanas para programas de manhã de grande audiência? Ou dançar de forma ridícula em cima de uma camioneta num qualquer Carnaval?

Porque o “populismo”, em si mesmo, não é mau. Depende do contexto, pois o que é “populista” entre os defensores do porte de armas no Texas pode não ser entre as comunidades atingidas por massacres escolares, em que “populista” será defender a limitação do uso de armas. O que é “populista” entre os fundamentalistas islâmicos pode ser muito diferente do que é populista entre as populações urbanas do México. E depende dos objectivos de quem lança mão do discurso populista. Se o faz para atacar minorias, grupos específicos, promover a exclusão e a xenofobia ou iludir a opinião pública com falsas afirmações ou se o faz, de forma transparente e honesta, apresentando obra efectivamente feita em prol da maioria da população.

Combater a pobreza não é “populista”?

Para mim é “populismo”, e nem sequer do bom, o “encavalitanço” de uma série de gente na “greve” de alunos de hoje, quando até ontem ninguém tinha praticamente falado dela entre nós ou dos seus objectivos.

E depois há os paradoxos irremediáveis em que pessoas que se entusiasmam muito com as manifestações de hoje, com jovens a protestar contra as alterações climáticas, mas depois criticam de forma ácida manifestações ou iniciativas de outros grupos de cidadãos.

Porque, na sua versão simplista e simplória actual, o “populismo” está para a política como o bicho-papão para as criancinhas ou o Ronaldo para o Atlético de Madrid.

Populismo