Pensando bem… quem quer muita “flexibilidade” nos concursos para o ensino básico mais não quer do que espalhar a bandalheira em cascata.
Em nome de uma suposta “autonomia” das instituições de ensino superior, o Estado criou um regime que, na prática, promove a selva, a mediocridade, o compadrio e, em casos mais graves, a corrupção. O contraste com os ensinos básico e secundário é gritante: aí, os concursos assentam em critérios objetivos, quantitativos e iguais para todos. No ensino universitário e politécnico, pelo contrário, cada vaga tem um concurso próprio, um júri próprio e critérios feitos à medida, sem qualquer obrigação de objetividade ou quantificação. Esta é a raiz do problema.
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A consequência direta deste sistema é a proliferação dos chamados concursos “com fotografia”. Chega-se ao ridículo de editais que exigem, por exemplo, a autoria de dois livros sobre um tema altamente específico — sendo obrigatório ser primeiro autor num deles. Coincidência? Não. É o concurso feito sob medida para um candidato previamente escolhido.
O resultado final é devastador para a credibilidade do sistema. Temos docentes a chegar a Professor Catedrático ou a Coordenador Principal com currículos científicos miseráveis. Na área da Informática, por exemplo, era possível encontrar recentemente um catedrático com um índice H de 3. Isto é um absurdo completo. Um docente com estes indicadores não reúne sequer condições para ser Professor Auxiliar.
A arbitrariedade atinge níveis grotescos. (…)
Perante este cenário, o Governo tem de agir — e com urgência. São necessárias medidas drásticas, seja através de nova legislação, seja pelo aperfeiçoamento sério da existente. Não é aceitável que a bandalheira, a mediocridade, o compadrio e a corrupção continuem a reinar nos concursos do ensino superior.
Caminhar para um modelo mais próximo do que existe nos ensinos básico e secundário seria um avanço civilizacional. É preferível isso a manter a farsa atual, que nada tem de verdadeira autonomia universitária. Pelo contrário: o sistema vigente sufoca a liberdade intelectual, força os candidatos a submissões indignas e transforma carreiras académicas em percursos de servilismo, onde quem quer progredir tem de ser pau-mandado, escravo ou lambe-botas do “regime” instalado.
Verdade se diga que a realidade descrita tem pouco de novo… com este ou aquele detalhe, foi assim que conheci o sistema desde meados dos anos 80. E a única vez que concorri para uma Universidade (pública, Açores, segunda metade dos anos 90 do século passado) foi em parte por motivações familiares, tudo acabou impugnado e anulado, tamanhos os atropelos cometidos (não fui eu que impugnei, mesmo ficando em 2.º lugar, porque não gosto de ir para onde querem outrém), como comunicar os critérios de ordenação dos candidatos só depois de tomada a decisão. Um desses critérios era muito parecido à descrição feita acima, só faltando identificar em que jornal se deveria ter publicado um ou mais artigos de “interesse regional”.
A entrevista feita aos candidatos continentais serviu, fundamentalmente, para um futuro secretário regional da Educação vir passear a Lisboa, pois no dia e hora marcada nem se dignou aparecer no local combinado e foi preciso quase o andar a caçar pela capital para se fingir que a coisa era a sério.