Boa Noite

Opiniões – Carla Feteira

Em 2026 vamos ter empatia e ser flexíveis ?

“Empatia” e “flexível” duas palavras que cada vez mais se ouvem na “ESCOLA”. Duas palavras lindas, cheias de luz e amor… até percebermos o que realmente querem dizer.

“Empatia” é aquela “coisa” maravilhosa que te pedem quando precisam que compreendas tudo, aceites tudo e, de preferência, não reclames nada. É, portanto uma palavra sublime, quase mágica. Hoje em dia basta dizê-la e imediatamente ganhas um certificado de ser humano superior: “Temos de ter empatia.”

Já “flexível” é o elogio chique para quem pode ser puxado, dobrado e esticado até ao limite — com sorriso incluído, claro. Flexível é quem muda tudo, reorganiza horários, sacrifica descanso, faz malabarismo com responsabilidades e, de preferência, sem fazer drama, porque dramatizar já não é “profissional”. Flexível é quase sinónimo de “não te queixas e ainda dizes obrigado pela oportunidade”.

No fundo, empatia e flexível são palavras glamorosas, cheias de brilho moral e perfume ético, mas com uma funcionalidade muito prática: pedem-te mais, exigem-te mais, cobram-te mais… mas num tom fofinho, educado e “humano”. No fim, são palavras fofinhas, cheias de valores e humanidade… usadas, muitas vezes, para pedir bem mais do que deviam. Mas pronto, é bonito falar delas. Mas sim, são palavras lindas, principalmente quando ficam só no discurso — aí, então, são perfeitas.

Sábado

O actual ministro da Educação ufanou-sese há coisa de uma semana, na sequência daquelas declarações desastradas, de estar a fazer uma verdadeira revolução na Educação e que para isso é preciso coragem.

Concordo com parte da afirmação, ou seja, com a parte de ser preciso coragem para fazer uma revolução profunda na Educação.

Discordo na parte em que o governante acha que o que está a fazer é uma revolução e que é algo corajoso.

Resumindo: concordo com a teoria, discordo que a concretização seja coerente.

Coragem seria proceder a mudanças que tivessem reflexos no trabalho diário nas escolas, com os alunos, no sentido de melhorar as condições de trabalho e os procedimentos que entravam a autonomia profissional dos professores e formatam uma mirífica autonmia das escolas.

Não me parece que seja grande coragem reformular a super-estrutura orgância do ministério, mudando o nome às coisas e eventualmente substituindo algum pessoal instalado, remetendo algumas centenas de professores dos serviços centrais do MECI para as escolas, por gente pouco experiente nesta área da governação.

Coragem seria concretizar medidas que permitissem cumprir promessas concretas feitas acerca da desburocratização dos procedimentos internos das escolas, desautorizando os delírios burrocráticos entranhados, limitando as excrescências de actividades irrelevantes e reforçando os mecanismos de rigor e disciplina no quotidiano escolar.

Não me parece que seja coragem ou vagamente útil para a vida diária das escolas a criação de 11 departamentos e 27 “unidades” no âmbito da nova AGSE, I.P., mesmo se isso parece muito importante para alguns teóricos da “reforma do Estado”.

Coragem seria não ter pactuado durante mais de um ano com lideranças regionais com um histórico pouco recomendável e nada ter feito para limitar os abusos de poder de muitas lideranças escolares, tornando os serviços centrais do MECI meras almofadas de apoio aos desmandos locais.

Não me parece coragem a permanente desresponsabilização por tudo o que corre menos bem e as sucessivas queixas de incompreensão e descontextualização, numa táctica de vitimização que tem barbas brancas.

Coragem teria sido, por exemplo, não ter fugido a apurar o número de alunos sem professores de forma ocasional ou prolongadas ao longo do ano lectivo.

Falta de coragem foi dizer que isso não era possível, depois dizer que iria ser feita uma auditoria para apurar os números até, por fim, os auditores virem dizer que isso não lhes tinha sido sequer pedido, apesar das sucessivas garantias ministeriais de que os números iriam aparecer em Março, Abril, Maio… nunca até ver.

Nada disto é uma “revolução” e muito menos é algo que exija “coragem”. Quanto muito é uma acomodação a pressões exógenas e a cedência a diversos interesses privados em busca de espaço no “mercado da Educação”.

(via João Francisco Silva)