Boa Noite

Opiniões – Paula Dias

Pedi à Paula se me permitia transcrever por completo o texto que já estava online no blogue do Arlindo. Porque ela optou por responder àquela criatura quue, assinando-se “consultor de comunicação”, decidiu escrever umas cenas na Sábado e eles aceitaram, em nome do direito ao dislate..

Professores, renunciai à vossa aposentação!

Parece que circulam por aí algumas ladainhas, que vão sendo veiculadas pela Comunicação Social, pretensamente muito preocupadas com a Escola Pública, em particular com a falta de Professores…

Uma dessas prédicas, em forma de artigo de opinião, foi dada a conhecer pela Revista Sábado, em 2 de Janeiro de 2026…

Transcrevo aqui algumas afirmações constantes nesse artigo de opinião:

– “… não podemos condescender com a falta de compromisso com as futuras gerações dos professores que, reformando-se com o ano lectivo em andamento, condenam os alunos à lotaria das substituições centralizadas e, por maioria de razão, os entregam à sua própria sorte (ou à da carteira dos encarregados de educação).” (Octávio Lousada Oliveira).

– “Em 2024, o Governo implementou um mecanismo, um suplemento salarial de 750€, destinado aos professores que, reunindo as condições para se aposentarem, continuassem a dar aulas. Ainda assim, continuam a chegar-nos relatos mais ou menos próximos e notícias, como a desta semana no Diário de Notícias, de que as centenas de reformas com o ano em curso agudizam um problema em que as soluções eficazes estarão longe de ser populares. Não sendo a bala de prata, deixo uma: que os professores só possam reformar-se no final de cada ano lectivo. Que me desculpem a franqueza, sobretudo os realmente empenhados nos respectivos projectos pedagógicos e os verdadeiramente comprometidos com o futuro dos mais novos: desta vez não é – nem pode ser, como em tantas outras ocasiões -, sobre eles próprios e sobre as reivindicações da sua poderosa classe. As reformas dos professores não dizem respeito apenas aos professores. Haja coragem.” (Octávio Lousada Oliveira).

A principal medida, pretensamente muito “corajosa”, preconizada e defendida pelo autor do referido artigo será, então, esta:

“… que os professores só possam reformar-se no final de cada ano lectivo.”

Com toda a franqueza, vou abster-me de escalpelizar o citado argumentário, sobretudo para não incorrer no risco da rudeza… Além disso, detesto “balas”, mesmo que sejam “de prata”…

Limito-me a concluir e a inferir apenas isto, a partir das afirmações anteriormente reproduzidas:

– Os Professores, na sua maioria, cansados e esgotados, que ousem aposentar-se quando, finalmente(!), chega a sua idade de reforma são uns egoístas, insensíveis e pouco escrupulosos porque “condenam os alunos à lotaria das substituições centralizadas e, por maioria de razão, os entregam à sua própria sorte (ou à da carteira dos encarregados de educação).”

– Para evitar a alegada “condenação” dos alunos, os Professores deviam ser proibidos de requerer a respectiva aposentação na data em que atingem a idade de reforma, sempre que isso não seja coincidente com o final de cada ano lectivo…

Será isto?

Desconfio que algumas “castas ideológicas” desejariam ir ainda um pouco mais longe do que o defendido no artigo citado e que, no fundo, no fundo, muito gostariam de ver concretizado um apelo aos Professores, imaginando-se que poderia ser algo parecido com o seguinte:

– Professores, renunciai à vossa aposentação!

– Em nome do patriotismo, Professores, renunciai à vossa aposentação!

– A Escola Pública precisa de vós, do vosso sacrifício, do vosso martírio e do vosso espírito de missão!

– Em nome do patriotismo, renunciai, também, ao vosso salário, pelo menos durante um ano, doando-o a certas “obras mui caridosas”, promotoras de Projectos muitíssimo inspiradores e extraordinariamente empreendedores, liderados por inquestionáveis sumidades intelectuais, com carreiras académicas ímpares e brilhantes, a nível nacional e internacional!

– Entregai o vosso salário, pelo menos durante um ano, a Projectos muitíssimo criativos, plenos de inovação tecnológica, e verão que essa doação será magnanimamente gerida por quem verdadeiramente sabe administrar e aplicar o vosso dinheiro: excelsos líderes, imensamente cativantes!

Na essência, serão líderes que, no mais íntimo se si, alimentam a esperança de ver privatizados todos os serviços públicos… Acabe-se com os serviços públicos, com os funcionários públicos, enfim, com tudo o que não seja iniciativa privada…

E mais importante: transferiram-se todas as verbas alocadas aos serviços públicos para o sector privado, incentivando o respectivo empreendedorismo e estimulando a sua iluminada meritocracia…

O dinheiro público só é mau quando serve para manter serviços públicos… Quando se transfere dinheiro público para a iniciativa privada, alimentando, até, muitas vezes, certos “vícios privados”, subitamente esse dinheiro costuma tornar-se muito desejável e muito bem empregue…

Da forma anterior, também se acabaria de vez com a história das Greves, o que seria muito aplaudido por certas lideranças, até porque na iniciativa privada todos os funcionários idolatram quem lhes paga o salário e ninguém tem quaisquer motivos para contestações…

Os líderes são sempre fantásticos e maravilhosos, pelo menos até se descobrir o contrário…

E parece que alguns desses líderes, se pudessem, chegariam mesmo a abolir a aposentação dos Professores…

“Algaliados em rede” e com andarilho? São todos para ficar na escola… Escusam de ter ilusões, só de lá saem transportados por um esquife…

Perante tantos absurdos e tanta “chico-espertice” que saltitam por aí, a única safa possível é incorrer no sarcasmo e na ironia, tentando esboçar algum sorriso, ainda que “amarelo”, perante temas particularmente sérios…

Paula Dias 

Quem Relativizou O Valor das Palavras, Dos Seus Significados E Da Sua Relação Com As Acções?

O Trump deve mais a muitos que detesta do que gostaria de admitir. A pós-verdade, assim como a mentira descarada e a recriação da realidade a gosto, é a evolução natural (mesmo que indesejável para quem, como eu, ainda acha que um cachimbo é um cachimbo, mesmo se estiver num quadro a representar um cachimbo) do relativismo linguístico que se desenvolveu quase como um divertimento intelectual dos pós-modernos (sim, antes tivemos os surrealistas, tivemos Orwell), mas que outras criaturas, menos dadas à paródia, levaram a sério. Agora, aguentem-nos…

Digam Lá Que O Prémio Da FIFA Não Foi Bem Entregue?

Agora, Todos Querem Brincar…

UK and France bomb underground IS arms bunker in Syria

Domingo

Há assuntos que são tabu quando se discute Educação, pois há uns grupos de pressão, bem instalados no sistema, que sobrevivem a todas as intempéries, em especial porque raramente os ouvimos em causas comuns (isso foi chão que deu uvas, mas só a alguns), embora reajam de modo muito rápido em forma de cardume ou enxame quando se lhes toca no “território”.

Por outro lado, a cada ano, mês ou dia que passa, entranho a minha estupidez pessoal por me preocupar com causas “tranversais” ao exercício da docência e assuir publicamente as minhas posições, em vez de ficar no escurinho dos corredores e das influências longe dos holofotes, só emergindo quando alguém ousa tocar no tal “território” específico. O que está a dar são as micro-causas e não há nada mais giro do que ler quem me acusa ou acusou de ser “corporativo” (em especial pessoal até com algum lastro de alinhamento sindical, por certo “não-corporativo”) a vir à superfície apenas quando estão em causa os interesses do seu grupo particular. São os profissionais da luta assimétrica, intermitente ou mesmo bissexta, sendo que neste último caso se movem mais ou menos com os ciclos políticos. Quando estão lá os amiguinhos ouve-se um tremendo silêncio sobre tudo e é o momento de ganhar posições no “aparelho” que nenhuma reforma conseguirá erradicar. Quando estão outros menos amistosos, então lá metem as garras de fora, para manter as ameaças além dos muros.

Ocorrem-me quatro situações de malta deste tipo que no fundo se está nas tintas para o resto da maralha (num comentário, houve mesmo quem usasse o mimo de “mentes retardadas”, o que revela o nível em presença), desde que os seus lobbys continuem em modo influenciador. Há muito preferiram ganhar posições na gestão escolar e nas estruturas da add do que combater o modelo, com o velho argumento do “antes nós do que outros”. Raramente se queixam de problemas disciplinares ou de avaliação porque não é raro que muito do seu tempo seja passado em “actividades” e “projectos” sempre de sucesso. E há ainda aqueles que só se queixam das malfeitorias da carreira quando algum azar lhes bate à porta.

Sim, ando já demasiado farto destas palermices para um dia não começar mesmo a chamar a bovinidade pelos nomes próprios. Não é por causa de qualquer dualidade bons/maus, puros/impuros, nós/eles ou sequer de trindades ou quadriláteros, mas exactamente pelo inverso, porque em ambientes pastosos é difícil perceberem-se linhas separadoras nítidas, o que é agravado pelo relativismo pretensamente pós-moderno na linguagem. E nós estamos num desses momentos, viscosos, onde o pior que se pode fazer é tentar dar uma mangueirada para o limpar e se distinguirem as cores e formatos da bicharada.

Por isso, escrevi que 2026 nasceu velho em matéria de Educação.

Enfia o barrete quem quiser.